Auroras em tempo de guerra
4 Capítulo 3
O casal correu de volta para a trilha estreita na floresta, as mãos dadas e os olhos arregalados. Gritavam algo em finlandês, palavras atropeladas e urgentes que pareciam mais um aviso do que um pedido de ajuda. Mas Sofia, Isabela e Camila não entenderam uma só sílaba. Ainda estavam paralisadas, os olhos presos no céu em fúria.
A cidade, que minutos antes parecia uma pintura tranquila de luzes douradas sobre o branco da neve, agora ardia em tons de laranja e cinza. Explosões em sequência iluminaram o horizonte como flashes de tempestade. Um prédio desabou como um castelo de cartas em câmera lenta, e o clarão que seguiu foi acompanhado por uma onda surda de calor e poeira, mesmo dali de cima.
Isabela finalmente reagiu. Ajoelhou-se ao lado de Camila, que estava caída na neve, os olhos vidrados, os lábios entreabertos em choque.
— Camila, levanta. Agora. — A voz dela tremia, mas seu tom era firme. — A gente precisa sair daqui.
Camila piscou, como se voltasse à consciência. Mas seus músculos não obedeciam.
— Camila, por favor... — Isabela puxou seu braço com mais força.
Foi quando elas ouviram os primeiros passos na floresta.
Galhos quebrando.
Folhas sendo arrastadas pela neve.
E vozes. Muitas vozes. Apressadas. Armadas. A língua era estranha, gutural, nada parecida com o finlandês calmo dos atendentes do hotel. Era algo mais seco. Mais agressivo.
Sofia se virou com o coração disparado. As árvores atrás delas pareciam mais escuras agora, como se a própria floresta quisesse esconder o que se aproximava.
— Vem! — gritou, correndo até Isabela e ajudando a levantar Camila pelas axilas. — A gente precisa sair daqui. Agora.
O chão tremeu, leve, mas real. Uma vibração profunda, como se algo tivesse explodido no subterrâneo. Ou talvez fosse o impacto de mais um míssil, mais um prédio destruído.
Acima delas, o céu rugiu.
Drones começaram a cruzar a escuridão, piscando luzes vermelhas e verdes como olhos de predadores noturnos. O som mecânico de seus rotores cortava o silêncio da floresta como navalhas girando no ar. E junto deles, bem mais altos, jatos passaram em rasantes rápidos, deixando trilhas finas de fumaça entre as nuvens escuras e os resquícios da aurora boreal que ainda tremia no horizonte como se relutasse em desaparecer.
Por um instante, Sofia parou de novo. Sentiu o coração bater nas têmporas. O medo travava suas pernas. Era como estar dentro de um filme de guerra — mas sem trilha sonora, sem dublagem, sem pausa para respirar.
— Corram! — gritou Isabela, puxando as duas com força para dentro da mata.
As árvores se fechavam ao redor como uma muralha escura, galhos se agarrando às roupas, neve se acumulando nas botas, o ar cada vez mais cortante. As meninas corriam sem saber ao certo para onde, guiadas apenas pelo instinto de sobrevivência. A trilha havia sumido sob a neve fofa, e os sons de explosões à distância se confundiam com o som da própria respiração.
Camila tropeçou e caiu de joelhos, arfando. Sofia parou imediatamente e puxou-a de volta pelo braço.
— Aqui! — gritou Isabela, apontando para uma abertura no chão, entre duas pedras cobertas de neve.
Era uma espécie de rebaixo no terreno, talvez um antigo buraco de drenagem ou o início de uma caverna rasa. Não era grande, mas fundo o suficiente para escondê-las por ora. As três se jogaram lá dentro, se encolhendo juntas, os corpos tremendo mais de adrenalina do que de frio.
— Celular! — disse Sofia, já com o seu nas mãos. Os dedos trêmulos mal conseguiam destravar a tela. — Ver se alguém fala alguma coisa… se é ataque, se é acidente…
Camila fez o mesmo, tentando abrir o aplicativo de mensagens, mas a tela congelava. Isabela, ainda ofegante, se inclinou para fora do buraco e olhou em volta, atenta aos sons.
— Não tem sinal… — murmurou Sofia. — Meu Deus… só aparece um aviso estranho. Acho que é... alerta?
Ela virou o celular para as outras. A tela mostrava uma notificação em vermelho com um símbolo de exclamação. O texto em finlandês piscava sem parar. Havia números, siglas, e uma palavra que se repetia várias vezes: "hätätila".
— Isso deve ser tipo... estado de emergência? — sugeriu Camila, a voz engasgada.
— A gente precisa sair da floresta. Talvez o sinal volte — disse Isabela, tentando manter o foco. — Isso aqui tá bloqueando tudo. A gente tá isolada. Sem GPS, sem ajuda.
Um silêncio pesado caiu por alguns segundos. Lá fora, o barulho dos drones se afastava, mas não cessava. Estavam por toda parte, como mosquitos invisíveis zunindo sobre suas cabeças.
— Isso não faz sentido... — murmurou Camila, abraçando os joelhos. — Por que alguém atacaria a Finlândia? A gente tá longe de tudo. Nem perto de Helsinque, nem da fronteira com a Rússia...
— Exato. Não tem lógica — completou Sofia, passando a mão no rosto. — Isso aqui é Lapônia. É neve, renas, Papai Noel... não zona de guerra.
— Eu tô começando a achar que pode ser sei lá... ataque de outro país? Ou... — Camila hesitou, rindo nervosa — alienígenas?
Sofia olhou para ela, séria, e depois suspirou.
— Não sei o que seria mais assustador nesse momento.
— Não tem barulho de helicóptero de resgate, nem sirene, nem nada... — disse Isabela, encarando o topo da árvore. — Isso... isso tá errado em todos os níveis.
Elas apenas ficaram ali, escondidas na escuridão, ouvindo o mundo desabar à distância. Os celulares em mãos tremiam com pequenas vibrações, mas sempre com as mesmas mensagens incompreensíveis. O tempo parecia se esticar, elástico e cruel, como se cada minuto durasse uma hora.
Ali, no meio da floresta congelada, o sonho havia acabado.
Sons de motores pesados ecoaram pela floresta, abafados pela neve e pelas árvores — caminhões? Tanques? Aviões? Nenhuma delas conseguia identificar com clareza. E então, de algum lugar acima, ouviram um zumbido metálico — grave e rítmico.
Sofia ergueu os olhos, a pele arrepiando antes mesmo de ver:
— Vocês ouviram isso?
Um drone apareceu entre as árvores. O som cortava o ar como lâminas. A luz dele girava, varrendo a trilha. Por um instante, as três ficaram congeladas. O drone pairou acima, iluminando-as por meio segundo — e então seguiu, como se estivesse escaneando a floresta.
— Era... era de reconhecimento? — disse Camila:
— Não sei. Pode ser qualquer coisa. Pode ser ajuda... ou o contrário. -Isabela olhou para Sofia, depois para o céu.
Com medo observando o drone iluminar a floresta elas se encolheram mais ali dentro, esperando a hora certa para tentar correr.
— Temos que ir pro resort agora! — disse Isabela, com a voz firme, segurando as mãos das duas.
— Mas... e se eles estiverem lá? — retrucou Camila, os olhos arregalados. — Se o que quer que tenha atacado a cidade já tiver alcançado o resort?
— A gente não sabe se eles existem, Camila. A única coisa que a gente sabe é que o chalé é isolado e não tem comida suficiente pra gente ficar lá muito tempo. — respondeu Sofia, tentando manter o raciocínio lógico, mesmo com o coração disparado.
Isabela assentiu:
— O resort pode ter abrigo. Gente. Geradores. Talvez até militares. É nossa melhor chance.
— Ok... então a gente vai. — murmurou Camila, puxando o capuz e limpando as lágrimas com as costas da mão.
Elas saíram do esconderijo e voltaram correndo pela trilha. Os galhos riscavam os braços, e o som da neve sendo pisada era abafado pelos zumbidos ainda presentes, distantes no céu.
Poucos minutos depois, a neve engrossou de repente. Os flocos pesados caíam com força, e em poucos metros, tudo ao redor virou uma névoa branca e densa.
— Cuidado com o chão! — gritou Sofia, ao quase escorregar numa pedra coberta de gelo.
Foi então que pararam de súbito. No meio da trilha, uma árvore enorme havia caído, bloqueando completamente o caminho. Galhos ainda pendiam das bordas, e a base da árvore estava partida com uma força que parecia... artificial.
— Isso não caiu por vento — disse Isabela, ofegante. — Olha o corte... como se tivesse sido arrancada.
Sofia se aproximou, examinando a lateral do tronco:
— Ou foi um dos drones. Ou algum impacto de explosão lá da cidade.
Um novo som rasgou o silêncio — o mesmo zumbido de antes, agora mais perto. A luz voltou a cortar a floresta, passando entre os troncos como faróis em uma estrada invisível.
— Vai nos ver! — disse Camila, em pânico. — Não tem como passar rápido por essa árvore!
— Pra floresta, agora! — disse Sofia, puxando Camila pela manga.
Sem pensar duas vezes, as três se jogaram entre as árvores novamente. O terreno ali era mais irregular, coberto por raízes, pedras e neve fofa. Os passos afundavam, e os ramos arranhavam os braços, mas elas continuaram, o medo empurrando seus corpos além do cansaço.
Depois de alguns minutos correndo, já longe do zumbido, se agacharam atrás de um tronco caído, recuperando o fôlego.
— Não sei onde estamos — murmurou Isabela, olhando ao redor. — Não reconheço mais nada.
— Estamos... perdidas? — Camila sussurrou, assustada.
Sofia mordeu o lábio, o cérebro a mil:
— Não. Não. A trilha tá pra lá. A gente só precisa dar a volta naquela árvore. Talvez se subirmos um pouco a encosta, consigamos ter uma visão da estrada.
E então... ao longe, um som diferente. Não drone. Não bomba.
Motores... humanos. Barulhos de veículos pesados sobre a neve, amortecidos, mas reais. Talvez caminhões ou tanques. Talvez... reforço.
As três se olharam, o rosto suado mesmo com o frio cortante.
— Isso pode ser bom. Ou não. — disse Isabela, com a voz baixa. — Mas uma coisa é certa: se a gente ficar parada aqui, não vai descobrir.
Sofia olhou para cima, o céu encoberto. A aurora já havia desaparecido — só restavam nuvens pesadas e a incerteza.
— Vamos nos aproximar. Devagar. Mas com cuidado. E se parecer errado... a gente corre de novo.
E assim, com os corações acelerados e os pés afundando na neve, as três seguiram entre as sombras da floresta, rumo ao som desconhecido.
A floresta parecia mais densa conforme subiam. O som dos motores agora vinha de uma clareira mais adiante, entre as árvores. Camila tropeçou numa raiz, e Isabela a segurou antes que caísse.
— Shhh... escuta. — sussurrou Sofia, parando de repente.
Todas prenderam a respiração.
Além do motor, havia agora vozes. Baixas, rápidas. Em uma língua que elas não entendiam.
— É finlandês? — murmurou Camila.
— Acho que sim. — respondeu Isabela. — Mas... tem sotaque. Não sei.
Sofia avançou com cuidado, se abaixando atrás de uma pedra coberta de neve. Na clareira, dois soldados estavam ao lado de um caminhão militar. Um terceiro carregava caixas para dentro da carroceria. Os três estavam armados. As roupas camufladas se misturavam com o branco da paisagem. Um deles, o mais alto e ruivo, parecia estar de guarda. Foi o primeiro a notar algo.
Ele se virou devagar, como se tivesse sentido o movimento das meninas. Apontou a arma.
— Halt! Kuka siellä on? — gritou ele.
Camila se levantou primeiro, levantando as mãos devagar.
— Não! Por favor! Somos civis! Turistas! Não estamos armadas!
O segundo soldado virou-se rapidamente, mirando com precisão.
— Pysykää paikallanne! Älkää liikkuko! — ordenou.
— Eles não entendem português... — sussurrou Sofia, tremendo.
O soldado ruivo deu dois passos à frente, abaixando um pouco a arma, mas ainda cauteloso. Seus olhos azuis analisavam cada detalhe. Ele parecia jovem, talvez pouco mais velho que elas.
— Vocês falam inglês? — perguntou ele, ainda tenso. (inglês)
Sofia assentiu rapidamente.
— Sim. Estamos de férias. Brasileiras. Estávamos num chalé do Resort Northern Crown. Vimos o que aconteceu na cidade… e não sabíamos pra onde ir.
O outro soldado se aproximou. Era mais sério, com o olhar endurecido. Seu cabelo castanho estava preso sob o capacete. Ele olhou para o companheiro, depois para as meninas.
— Elas não deveriam estar aqui. É uma zona vermelha. (Finlandês)
— Eu sei — respondeu o ruivo, olhando rapidamente para as meninas. — Mas estão desorientadas. Olha pra elas. (Finlandês)
— Isso não muda nada. Nossa missão não inclui evacuação de civis. Equipes de resgate estão fazendo varredura. (Finlandês)
— E até encontrarem essas equipes, elas viram estatística. Tem drones caçando qualquer movimento humano. (Finlandês)
O soldado mais velho cerrou a mandíbula.
— Não quero carregar o corpo de um colega porque ele perdeu o foco por causa de turistas perdidas. (Finlandês)
Isabela deu um passo à frente, a voz carregada de medo e desespero.
— Por favor... nos ajudem. A gente só quer sair daqui viva.(inglês)
O soldado mais sério respirou fundo, olhando ao redor, atento a cada som na floresta.
— Estamos nos movimentando. Se vierem conosco, sigam nossas ordens. Sem barulho. Sem perguntas. Um erro, e vocês morrem (inglês)
— Tudo bem. — respondeu Sofia, firme.(inglês)
O ruivo finalmente abaixou a arma e se aproximou.
— Venham. Fiquem perto. Não se afastem por nada. (inglês)
Sem mais tempo para dúvidas, as três amigas seguiram os soldados pela neve. O frio parecia menos cruel agora — ou talvez fosse a adrenalina. Elas não sabiam quem eram aqueles homens. Não sabiam se podiam confiar. Mas era a primeira fagulha de direção desde que o mundo tinha desmoronado.
Camila ainda tremia quando cochichou:
— Se forem vilões, pelo menos são vilões bonitos...
— Cala a boca, Camila. — sussurrou Isabela, tentando não rir. — Só anda.
Sofia olhou para o céu mais uma vez. Nenhuma aurora. Nenhum meteoro. Só escuridão.
Mas agora, elas não estavam mais sozinhas.
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