Aurora: a Mestiça
19 CAPÍTULO 17: Otimista
A fala de Kaila deixou um climão na sala como se tivesse falado um palavrão terrível. Mirela cerrou os dentes, e acredito que se a loira não fosse embora por vontade própria, seria chutada. Kaila caminhou em direção à porta, ao colocar a mão na maçaneta virou-se.
— Ali, você não vem?
— Eu não tenho nenhum problema em atuar numa peça escrita por um humano e, muito menos ser dirigida por uma Semitochi. Eu quero atuar e não são suas birras que vão me impedir.
Ele estava sério e de braços cruzados, parecia furioso com ela. Nunca o vi dar aquele olhar antes, sempre tinha um sorriso malicioso no rosto e fazia brincadeiras com os meninos.
Kaila deu de ombros, empinou seu nariz e foi embora da sala. Ouvi as meninas cochicharem atrás de mim.
— Que DR!
— Mas não se emocione achando que eles vão se separar, eles já brigaram mais feio do que isso e continuam juntos.
— Eles não têm lá muita escolha, né? É aceitar ou aceitar.
Não entendi bem o contexto da conversa, então preferi ignorá-los. Dava para ver no rosto de Ali que ele ficou chateado, Mirela também parecia aborrecida. Kaila a chamou de olhos-loucos? Por quê? Por conta da cor? Mas haviam alunos com olhos vermelhos!
— Vamos continuar. — Mirela se recompôs como se nada tivesse acontecido. — Para o protagonista, ele é frio e reluta em demonstrar seus sentimentos, mas seu coração vai amolecendo após a convivência com a mocinha. Ele precisa ser muito bem atuado para soar convincente, então acredito que Ali conseguirá fazer um bom papel.
Os alunos aplaudiram, as meninas murmuraram sobre quererem ser a mocinha. Ali sentiu-se lisonjeado por acreditarem que ele seria um excelente protagonista. Mirela observou o grupo de meninas ansiosas, analisava cada uma em busca da sua protagonista perfeita. Em um momento seus olhos recaíram em mim, me analisou minunciosamente com a mão no queixo, eu era a única que não estava desesperada pelo papel principal.
— A donzela é reservada. Não cai de amores pelo Vampiro, de primeira, e tem uma personalidade forte, acho que combina bem com Aurora — anunciou Mirela, para a tristeza das garotas e para minha surpresa.
— Você nem me queria aqui e vai me colocar como protagonista? — perguntei.
— Posso mudar de ideia, não posso? — Ela chegou perto de mim e sussurrou. — Se uma dessas meninas atuar com o Ali vão acabar estragando o papel, você é a única que não é caidinha por ele.
Ah! Então esse é o motivo, afinal? Por que eu não faço parte do fã clube que ama o quarteto popular. Mirela continuou dividindo os papéis. Méilie ficou com o papel da irmã do Vampiro. Um garoto Jad, pegou o papel de ex-namorado ciumento da protagonista, Chang era um criado vampiro da mansão. E os outros pegaram papéis menores e secundários.
Os roteiros foram distribuídos e a minha ficha ainda não caiu sobre eu ser a protagonista, nem tinha achado que fiz uma boa atuação. As meninas me olhavam com inveja, mas acreditei que se eu fizesse um bom papel, poderia impressionar um pouco a todos e eles me deixariam em paz, pelo menos por um tempo. Notei os olhos de Ali sobre mim, ele sorriu, fazendo parecer que a intriga com Kaila tinha ficado no passado, ele me lançou um joinha como se estivesse animado para atuarmos juntos.
— Estou com tanta inveja de você! — Disse Méilie, animada. Ao contrário das outras meninas, Méilie parecia feliz por eu ter conseguido o papel principal.
Após alguns minutos, Mirela bateu palmas para chamar nossa atenção. Ela sacou o seu celular e pediu nossos números para criar um grupo com os membros do clube, assim, poderíamos nos comunicar além dos horários das atividades. Mirela anotou os números de cada aluno por quem passava até chegar na minha vez, tive que anunciar, com vergonha e de cabeça baixa, que eu não tinha um celular. Ouvi alguns alunos rirem baixinho.
— Estou falando sério, não tenho celular.
— Ela foi criada por humanos nômades, nem tem dinheiro. — Méilie disse.
Apesar de ser grata por Méilie sempre estar ao meu lado, ficar falando na frente de todos que eu fui abandonada e criada por humanos que viviam em acampamentos, me fazia parecer digna de pena.
— Eu posso te comprar um celular. — Ali se ofereceu, aproximando-se de mim e Mirela. — Você não pode ficar sem um smartphone na escola, algumas coisas são online e você não pode depender do celular da sua amiga para sempre. Podemos ir agora na loja comprar um, o que acha?
O quê? Ele falava sério? Fiquei vermelha como uma maçã e nem sabia como reagir.
— Apenas aceite e agradeça — sussurrou Méilie no meu ouvido.
— Nós vamos comprar um celular agora. — Ali nem esperou pela minha resposta e já se virou para Mirela. — Assim que estiver tudo pronto mandarei uma mensagem.
Quando ele se aproximou ainda mais de mim, a imagem do sonho veio na minha mente novamente e apertei o braço de Méilie.
— Só vou se a Méilei for comigo.
— Thik. Chang, você vem com a gente? — Ali perguntou ao amigo.
— Eu prometi ficar com a Elis hoje à noite…
— Será que ela não pode ficar com a Kaila hoje? Ela tá puta comigo e não vai ser nada bom ela ficar estressada sozinha, diz pra Elis animá-la.
Chang bufou, mas acabou concordando e ligou para Elis explicando a situação que ocorreu no clube. Méilie estava bem mais animada agora que nós duas iríamos sair com os meninos populares. Chang juntou-se a nós e fomos para fora da escola comprar um celular.
O pequeno shopping da região estava cheio de gente fazendo compras. Méilie olhava para Chang admirada. Os meninos caminharam na nossa frente, os dois conversavam entre si, e eu não tinha interesse algum no que diziam.
Chegamos na loja de eletrônicos. Chang disse que iria procurar por uns fones de ouvido, e Méilie, que não era boba, disse que iria acompanhá-lo, pois também queria um fone novo, sua verdadeira intenção era ficar sozinha com o garoto. O problema é que isso me deixou sozinha com Ali e meu objetivo inicial era não ficarmos sozinhos. Mas a loja era movimentada, nada iria acontecer, eu esperava.
Ali me mostrou os celulares mais modernos que tinha e me explicava sobre os aplicativos, como se eu fosse alguma analfabeta de eletrônicos, bom, essa foi a ideia que passei quando disse que não tinha celular, não é?
Ele parecia o mesmo rapaz gentil que me ajudou naquela noite da semana passada. Os seus olhos negros brilhavam tanto quanto seus brincos de ouro, mantinha o seu típico sorriso ao falar, de alguma forma, o meu medo sobre ele diminuiu e eu pude relaxar meu corpo.
— Então, você gostou desse? — Ele me perguntou, apontando para um celular.
— É rosa…
— Não gosta da cor?
— Detesto!
Ele riu e eu ergui uma sobrancelha.
— É a primeira garota que vejo que odeia rosa.
— Pelo visto, você não anda com muitas garotas. — Provoquei e ele achou graça.
Ali me mostrou outros celulares e eu vi um de capa preta que era muito bonito.
— Gostou desse? — Ele perguntou.
— Sim, é bem bon…
Antes que eu terminasse minha frase, olhei para o preço, ter aqueles milhares de zero no número só poderia significar que era muito caro, não era? Menti que não gostei e ele duvidou da minha fala.
— Eu não vou ter dinheiro pra te pagar de volta. — Falei, desesperada.
— Você não tem que pagar de volta, estou dando pra você.
— Não posso aceitar isso!
— Quando é seu aniversário?
Me surpreendi com a pergunta aleatória e ele insistiu.
— Pra quê saber disso?
— Considere como um presente meu, assim não terei que lhe dar nada quando for seu aniversário.
— Meu aniversário já passou. — Sentia-me bem mais relaxada em sua presença e sorri. — Foi no dia vinte e nove de janeiro.
— Accha, foi há pouco tempo então, considere um presente atrasado.
Ali logo falou com a vendedora para fechar a compra. Chang e Méilie nos encontraram no caixa, o garoto carregava uma caixa de um headset com orelhas de gatinhos, Méilie comprou fones de ouvido brancos e pequenos. Aposto que ela nem precisava disso, mas fazia tudo pra ficar perto daquele menino.
Nós fomos até a praça de alimentação para que Ali me ensinasse a usar o smartphone. Chang perguntou se gostaríamos de um milk-shake, Méilie e eu recusamos, preferíamos economizar.
— Deixa disso, eu pago. — Ali tirou a carteira do bolso e entregou seu cartão black à Chang. — Quero um de baunilha.
Méilie se ofereceu para ajudar Chang a trazer os pedidos e foi embora com ele sem antes perguntar qual sabor eu queria, a empolgação tomava conta dela que a tornava avoada para as coisas ao seu redor.
Sozinhos à mesa, Ali me mostrou como ligar o telefone e para que serviam os aplicativos. Era tão paciente, ao contrário de mim, que já cansei de fingir que era uma burra em tecnologia. Méilie e Chang voltaram e me trouxeram um shake de chocolate, até que era gostoso e me ajudou a ter mais calma.
Fale com o autor