Aurora Goldwin and The Rise of Night
4 Meu Padrasto Se Revela
Notas iniciais
Notei que os campistas se retiravam do pavilhão conforme terminavam de jantar. Will Solace ainda estava ao meu lado, mas alguns outros campistas de nossa mesa já haviam se levantado e saído.
– Para onde eles estão indo? — perguntei para Will, que se virou para mim.
– Estão indo para o anfiteatro. — ele sorriu e passou a mão em meus cabelos em um gesto carinhoso — Cantamos canções em torno da fogueira, é um costume.
Já gostava de Will...
Me inclinei de modo que pudesse ver novamente a mesa em que Nico di Angelo havia se sentado sozinho, e pude vê-lo se levantar e se misturar com as sombras da noite do lado de fora.
Me levantei e comecei a andar na direção que ele havia ido.
– Aurora, aonde você vai? — ouvi Will me perguntar; fiz um sinal para ele dizendo que já ia voltar, mas não me virei.
Quando alcancei Nico, estávamos já quase perto da área dos Chalés.
– Ei. — toquei seu ombro; ele se virou para mim, quase parecendo surpreso — Por que você não vai para o anfiteatro com os outros?
– Não gosto. Por que você não vai? — ele lançou a pergunta para mim.
– Não conheço ninguém. — fui sincera — Vou me sentir estranha.
– E você me conhece para não se sentir estranha perto de mim? — ele ergueu uma sobrancelha.
– Você salvou minha vida. — respondi — Evitou que eu fosse morta. Acho que isso é o suficiente para ganhar minha confiança e amizade.
Ele não respondeu, mas caminhamos juntos em direção ao Chalé 13. Nico parou e apontou para a constelação que eu olhava, de uma menina com um arco e flechas pronto para atirar. Ele me contou sobre Zoe Doce-Amarga. Ela era uma caçadora de Ártemis que foi morta pelo próprio pai. Me encostei em um dos pilares da frente do Chalé de Hades e Nico se encostou no outro, ficando de frente para mim. Perguntei à ele o que eram as Caçadoras de Ártemis, e sua expressão ficou sombria.
– Elas são caçadoras imortais que acompanham Ártemis em suas caçadas. — ele respondeu, mas eu poderia dizer que havia algo escondido naqueles atordoadores olhos escuros como a noite. Eles eram tão escuros que refletiam as estrelas quando ele olhava para o céu; a expressão dele era tão madura... parecia que ele mesmo era imortal.
– Parece ser legal. — falei, cogitando a hipótese de estar eternamente caçando monstros... seria uma vida de eternas aventuras.
Mas de repente, os olhos de Nico brilharam com um intenso ódio, e ele me lançou um olhar fulminante.
– Não, não é legal deixar seus amigos e sua família e todas as pessoas que você ama e que amam você, por pessoas que você nem conhece!
Eu realmente não esperava que Nico fosse o tipo de pessoa que gritasse, portanto fui paga de surpresa e realmente me assustei. Ele parecia se irritar facilmente à certos tópicos. Gentilmente, pus minha mão em seu ombro e apertei levemente.
– Eu nunca faria isso. — falei.
Ele me olhou nos olhos, seus olhos estavam tristes e ele se sentou no chão. Me sentei no chão ao seu lado também. Ele me olhou mais uma vez.
– Minha irmã me deixou para se tornar uma Caçadora, e enquanto estava em uma missão, ela morreu. — Nico não estava chorando, mas sua voz falhou.
Não hesitei ao por meu braço ao redor dele. Nunca havia perdido alguém e não poderia imaginar a dor de perder um irmão ou irmã.
– Me desculpe por gritar com você daquele jeito. — ele falou.
– Eu estendo. — falei, e deitei minha cabeça em seu ombro — Não precisa se desculpar.
E assim ficamos sentados lado a lado, envolvidos pelas sombras do Chalé 13. Achei tê-lo ouvido murmurar algo como "tantas poucas lembranças de paz". Não entendi muito bem o que ele quis dizer, mas algo me dizia que iria compreender mais cedo do que imaginava.
****
Meu pesadelo foi basicamente o mesmo; a mulher de capas negras com pontos luminosos rindo triunfantemente e o céu anoitecido desabando e me sufocando, sem que eu tivesse chance de lutar.
Acordei sobressaltada, mas dessa vez era Nico di Angelo que estava ao meu lado, seus olhos demonstrando preocupação.
– Aurora? Você teve um pesadelo? — ele perguntou.
Não o respondi, apenas olhei ao redor. Já havia amanhecido, embora ainda fosse cedo, deveria ser umas sete ou oito horas da manhã. Mas nós dois estávamos envoltos com as sombras do Chalé de Hades. Espere... nós dois dormimos na entrada do Chalé 13? Juntos?
– Nós dormimos juntos? — perguntei do nada. O rosto de Nico ficou comicamente rosado e só então fui notar a pergunta que havia feito — Não foi isso que eu quis dizer... — foi minha vez de ficar constrangida — O que eu quis dizer foi que ficamos aqui fora... na frente de um chalé, embora muito provavelmente ninguém tenha nos visto por causa das sombras... — comecei a tagarelar — E você não me parece ser o tipo de pessoa que confia fácil e deixa garotas dormirem em seu ombro!
– Olha, você é a única pessoa que está nesse Acampamento que eu confio. — ele pareceu sem pensar. Seu rosto ficou novamente rosado.
O que ele disse me pegou tão de surpresa que me fez dar uma resposta não-intencional.
– Você me conheceu ontem. — falei, mas me lembrei que eu mesma já conseguia confiar nele.
– Eu não sei, deixa pra lá, foi idiota. Esqueça isso. — ele se levantou do chão.
– Mas algo entre nós é certo. — falei, me levantando.
Ele se virou para me olhar. Seus olhos escuros brilhavam e ele sorriu levemente para mim. Agora ele parecia com o adolescente que era. Mas eu me senti desconfortável com o que havia dito, e desviei o olhar.
– Então, — mudei de assunto — o que fazemos agora? — perguntei, olhando para o sol.
– O que você quiser. — ele foi educado — Mas precisamos ir para o pavilhão, o café da manhã já vai ser servido.
***
Recebi poucos olhares dessa vez, quando entrei no pavilhão. Fui para a mesa de Apolo. Os meus... irmãos me cumprimentaram, sorridentes.
– Aonde você estava? — Will foi o único que me questionou, mas em sussurro.
– Estava com Nico di Angelo. — respondi sinceramente.
Will me lançou um olhar surpreso, mas me deixou comer em paz depois disso.
Mas meu café da manhã foi cortado por uma garota alta e muito bonita. Ela tinha os cabelos dourados e a pele bronzeada de alguém da Califórnia, mas seus olhos eram cinzas e tempestuosos.
Ela parou em minha frente, me senti levemente intimidada, mas ela sorria de forma amigável.
– Aurora Goldwin, Quíron precisa que venha até a Casa Grande. — ela disse, e fez sinal para que eu a seguisse.
Sentia os olhos das pessoas enquanto a seguia, mas Nico se juntou a nós duas. A garota não fez objeção, então acho que ele também havia sido chamado.
– Quíron, trouxe a Aurora. — a garota disse, quando entramos em uma sala grande, parecia mais um escritório.
– Obrigada, Annabeth. — falou Quíron, que estava lá.
Junto com o centauro estava duas pessoas, um homem meio gorducho, de cabelos negros azulados e rosto vermelho que bebia um refrigerante diet. Mas o terceiro homem foi o que prendeu minha atenção. Ele era alto, com cabelos pretos e olhos claros.
– Richard! — exclamei, e sem hesitar corri até ele e o abracei. Ele me abraçou também apertado — Como você entrou aqui no acampamento? — perguntei, me lembrando que apenas Meios-sangues podiam passar pela barreira.
Uma luz se acendeu para mim, mas deixei ele falar.
– Rory. — ele me afastou, segurando meu rosto delicadamente — Eu sou como você. Sou um meio-sangue.
– E é um prazer vê-lo outra vez, Richard Coulson, — Quíron sorriu — filho de Morfeu.
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