Aurora - Correntes da Liberdade
2 Capítulo I - Menos Dor
Notas iniciais
O metal era gelado, mas para ela não fazia diferença, era a temperatura que mais lhe agradava; o chão estava frio, mas era sempre assim; as paredes eram brancas, mas não importava, era sua cor favorita; suas roupas eram sempre brancas, mas ainda assim, ela gostava da aparência. A pequena Aurora brincava no meio daquele quarto branco fechado por quatro paredes lisas e sem janela alguma, nunca havia visto uma realmente, apenas ouvira falar sobre em seus contos de ninar.
Sentada ali, no chão frio, brincava com algumas peças de metal, cujo para ela, eram apenas isto, peças de metal. Uma criança inocente, apenas. Em seu quarto havia apenas uma cama e uma caixa da mesma cor que o quarto, branca. Nesta caixa, guardavam-se estas peças de metal a qual Aurora brincava incansavelmente todos os dias; nomeava as peças, e dava-lhes vida. Imaginava-as de forma diferente; em sua cabeça não eram peças de metal com seu formato cilíndrico e pontiagudo, não, em sua cabeça eram lindas mulheres e crianças, exceto uma das peças, é claro; Aquela, a maior de todas era o “Tracer”, o único homem no meio de todas aquelas garotas; não que significasse algo realmente, ela apenas pensou que deveria introduzir um garoto na história. A pequena Aurora tinha uma imaginação bastante fértil para quem crescera naquele cubículo de puro branco.
As peças em suas mãos e chão faziam barulhos metálicos e agudos quando se colidiam por algum motivo, assim como quando eram colocados de forma abrupta no chão sem motivo algum. Ela ria, se divertia, eram suas bonecas, embora jamais houvesse visto uma. Aurora era uma criança privada do mundo, nascida em algum lugar e trazida ainda muito nova para dentro daquele quarto branco. Nova demais para dizer não, e nova demais para se lembrar de onde viera ou do mundo lá fora; agora aos oito anos sua única realidade era aquele lugar, não apenas o quarto, mas o corredor, também branco e algumas outras salas as quais era colocada e ordenada a fazer algo, ou faziam com ela; e claro, todos os quartos eram brancos.
Duas batidas na porta foram dadas e houvera tempo apenas para que Aurora se levantasse rapidamente e assumisse a postura que lhe foi ensinada, com os braços e pernas juntos e coluna ereta de frente para a porta, de frente para o seu mestre, o seu pai. Quando a porta se abriu e o homem entrara, Aurora vira um homem alto como um gigante, não que realmente fosse, aos oito anos, para qualquer criança, qualquer coisa é bem maior do que realmente é; O homem usava um jaleco branco que se estendia até seu calcanhar, óculos transparentes, cabelos loiros e maxilar forte. Ele sorria.
O homem vira a pequena Aurora tomar a posição ensinada e sorriu contente e satisfeito. Ela aprendia rápido. O homem via aquela pequena menina a sua frente, com seus cabelos longos que caiam até metade das costas, cujo tonalidade loira era quase branco, sua pele branca como a neve, quase tão branca quanto as paredes do quarto e seus lindos e pequenos olhos azuis acinzentados, cujo em raros momentos pareciam tornar-se azuis escuros como as profundezas do mar cujo ela nunca vira, e sabia que havia conseguido uma bela peça. Tudo estava indo conforme o planejado, e até melhor.
— Descanse, filha. – Disse ele de forma gentil enquanto se aproximava e bagunçava o cabelo da pequenina ao acaricia-lo.
— Obrigada, papai. – Ela sorria envergonhada.
— Já tomou o seu café da manhã? – Ele perguntara, embora soubesse a resposta.
— Sim, papai. – Respondera com simplicidade.
— Está pronta para o experimento de hoje? – No fim, não importava.
Aurora apenas acenara positivamente com a cabeça, mas a verdade é que nunca estava. Nunca se sentia bem com nada disso, mas não tinha escolha, era seu pai. Uma vez Aurora não respondera de forma tão simplória, fora verdadeira, e após dizer que não, com os olhos cheios de lágrimas, sem permitir que caíssem dissera:
— Dói tanto, papai. – Sua voz estava trêmula. Isto fora há um ano, mais ou menos.
— Sim, eu sei, minha filha, mas você tem de ser forte. Estamos buscando uma forma de doer menos, e você pode não entender isto agora, mas está prestes a salvar muitas vidas. – Embora ele pensasse que ela não entendia, ela entendera, algo dentro dela entendera. Nunca mais se negara.
O homem percebera, como de costume, as munições espalhadas no chão aonde antes estava Aurora, e sentira uma ponta de graça ao imaginar que a pequena Aurora brincava com algo tão perigoso sem nem imaginar o que era, sabendo que na verdade, para ela não fazia diferença o que realmente eram aquelas peças de metal. Era parte da experiência. Parte do plano.
— Hoje teremos de nos adiantar, filha. Papai está sem muito tempo. – Disse o homem que agora se sentava na cama branca e arrumada. Havia ensinado os bons modos para sua menininha.
— Sim, papai. – Disse Aurora sem questionar. Havia aprendido rápido a ter o máximo de respeito possível com seu pai. Jamais deveria questioná-lo, ele sabia o que fazia, e fazia para o bem dela. Ela acreditava.
— Certo, então. Vamos? – Disse ele levantando-se e esticando sua mão para ela.
— Sim, papai. – Aceitou novamente enquanto estendia a mão para pegar na mão daquele homem. Lembrou-se, deveria guardar os “brinquedos”. – Ah, espera, papai.
Aurora correra e agarra todas aquelas peças de metal, todas aquelas munições, e colocara na caixa branca aonde costumava a guarda-las. O homem sorrira de forma sutil. “Boa garota, pensou ele. Esperta”. Ele havia ensinado a ela que disciplina é a fonte da ordem, mas na realidade, não era por isto que Aurora sempre lembrava de guardar seus “brinquedos”, há muito tempo, Aurora tinha um pequeno coelho de pelúcia com seus pelos cinzas, ela o amava, mas o perdera quando deixara por duas vezes ele largado em meio ao quarto; naquele dia, seu pai dissera que se não há cuidado, e nega-se a disciplina, se perde prazeres, se perde o que descuida. Nunca esquecera.
— Pronto, papai. – Disse ela enquanto pegava na mão grande e forte do pai.
— Vamos. – Disse ele enquanto ajeitava o óculos na face.
Saindo pela porta e fechando-a em seguida, Aurora se encontrava novamente naquele enorme corredor aonde só existiam paredes e portas brancas. Portas sempre trancadas. Nunca vira nada sair ou entrar, era como se fossem mundos aonde não sabia se havia ou não vida, e até então, não importava. O cheiro naquele lugar era forte, como se houvessem acabado de limpar, era o cheiro de desinfetante que queimava suas narinas e fazia seus olhos lacrimejarem; mesmo após anos, não se acostumara com aquele cheiro, diferente de seu pai, que não parecia se incomodar.
Enfim chegaram a sala, tão maior quanto o quarto de Aurora e repleta de luzes brancas fortes. Já conhecia aquela sala, temia aquela sala. Aurora engolira em seco e sentira suas pernas travarem por um segundo. Seu olhar assustado passara despercebido por seu pai e os outros adultos no local, era indiferente para eles.
Aurora podia ver que a sala era dividida em dois cômodos separados por uma parede e uma tela de vidro transparente. Em um, ficavam os muitos adultos, haviam computadores, máquinas as quais não conhecia, e do outro haviam equipamentos diversos, máquinas que acompanhavam seus batimentos cardíacos, uma tela iluminada com imagens de Raio-X que sabia ser dela, de seu crânio, cérebro, costelas, braços e pernas, haviam também sacos pendurados, alguns com sangue e outros com alguns tipos de soros, próximo havia uma mesa prateada com equipamentos cirúrgicos que lhe causavam arrepios, outra mesa com um tipo de capacete coberto de fios e junto a ele um equipamento de eletrochoque cardíaco, um desfibrilador e no meio disto tudo, aquilo que ela mais temia, aquilo que aparecia em muitos de seus pesadelos, uma cadeira branca reclinável com cintos nos encostos dos braços, na área da cintura e no encosto dos pés e do pescoço. Aurora sentia seu coração acelerar aos poucos e sua face suar frio.
— Sabe o que fazer, querida. – Disse o seu pai enquanto dava-lhe um pequeno empurrão nas costas. Como uma forma inútil de encorajamento.
Afirmando com a cabeça, Aurora começara a dar passos em direção a cadeira reclinável. Ao lado da cadeira havia uma pequena mesinha com um tipo de camisola branca, Aurora se trocara ali mesmo, sem pudor, de forma inocente e obediente. Subindo com certa dificuldade e então deitando-se naquela cadeira que era maior do que ela, olhou para cima, para as luzes fortes e sentiu quase ficar cega. Escutava muitas vozes falarem quase ao mesmo tempo e de forma rápida na outra sala, sabia o que estava por vir.
Logo entraram na sala, dois homens e uma mulher. Os homens que vestiam uniformes brancos e de manga comprida adiantaram-se a frente da mulher que vinha logo atrás com seu vestido branco, e cabelos negros, presos em coque.
Com pressa e de forma nada gentil, os dois homens se aproximaram e rapidamente começaram a prender os cintos nos pulsos magros de Aurora. Era apertado, dolorido, mas não reclamara. Avançaram para o cinto na área da cintura e logo a prenderam ali também. Enquanto isto, a mulher que os acompanhava começava a checar o estado de todo equipamento e assim que os dois homens grosseiros acabaram de amarrar as pernas da pequena Aurora, assim como seu frágil pescoço; a mulher checou-lhe os cintos também. Tudo certo.
Os homens caminharam em direção a saída da sala, deixando apenas Aurora e a mulher de vestido branco no local, o coração da pequena começara a disparar. A enfermeira colocara o capacete metálico e cheio de fios na cabeça de Aurora e passando um gel transparente pelo peito da menina, colou nela com uma fita branca, alguns fios vermelhos e amarelos que estavam ligados ao monitor cardíaco ao seu lado que rapidamente começou a apitar apontando os batimentos acelerados de Aurora.
Ao término dos procedimentos, a mulher então se afastara de Aurora, e da outra parte da sala, aquela cujo é separada de onde Aurora estava, sai um homem de jaleco branco, como o de seu pai, porém este possui os cabelos curtos e castanhos, assim como um olhar frio e congelante. Aurora morria de medo deste homem, morria de medo de tudo aquilo, mas sabia que tinha de se comportar, aguentar tudo pelo papai.
O homem era alto, e conforme se aproximava parecia cada vez maior. Aquele medo crescente era constante e embora fosse sentido toda vez em que Aurora tinha de passar por aquele experimento, era como uma fobia, sempre a amedrontava a ponto de arrepiar a espinha.
Aproximando-se de um painel iluminado na parede, o homem de jaleco branco desprendeu deste painel alguns dos Raio-X de Aurora, observando-os por alguns segundos enquanto balançava a cabeça positivamente e deixava um dos cantos dos lábios se erguer, como um sorriso assimétrico. Após prendê-los novamente, caminhou com calma até a pequena mesa prateada aonde ficavam as ferramentas de cirurgia, como se toda a situação estivesse sob seu controle, como se não houvesse pressa, como se pudesse sentir o cheiro do medo emanado por Aurora, que apenas queria que tudo aquilo acabasse o mais rápido possível, e gostasse do odor.
Agarrando um par de luvas brancas que estavam na pequena mesa, o homem vestiu-as, virando-se de forma elegante para Aurora enquanto ainda ajeitava a segunda luva na mão esquerda; não virou seu corpo completamente, apenas parcialmente para olhar Aurora. Sua expressão séria e sem nenhuma empatia fez com que Aurora engolisse em seco e começasse a suar tão frio quanto já estava suando antes, sabia o que estava por vir.
Dois passos foram o suficiente para se aproximar da cadeira reclinável aonde Aurora estava amarrada. Agarrando um de seus braços de forma até mesmo grosseira, analisou-o por alguns segundos e pôde ver algumas cicatrizes bem fechadas, como se estivessem ali há anos, e então começou a falar em voz alta, como se passasse um diagnóstico, não para Aurora, mas para alguma forma de gravação. Sua voz era grossa, mas não muito, era uma voz até mesmo comum, e embora para algumas mulheres pudesse ser considerada uma bela voz, para Aurora era como um monstro, um demônio balbuciando coisas que ela não entendia.
— Embora haja marcas no tecido epitelial, a cicatrização dos ossos e músculos ocorrera de forma perfeita, concluindo-se que o soro “RC” aparenta estar funcionando com eficácia comprovada, sendo 100% compatível com o experimento 002. — O homem olhou por alguns segundos mais a cicatriz e então se corrigiu. – Correção: 85%. A pele deveria ser igualmente regenerada para o estado anterior. Não ocorre. A pele é fechada num intervalo de tempo mais rápido do que de um humano comum, talvez seja correto afirmar: dez vezes mais rápido. Ainda são necessários testes específicos para afirmar o período com precisão.
O homem então virou-se novamente para a pequena mesa metálica de instrumentos cirúrgicos e apanhou um pequeno martelo prateado. Retornando para a cadeira reclinável aonde Aurora estava, agarrou com força um dos dedos da mão de Aurora. As pupilas da pequena Aurora dilatam enquanto seu corpo contrai e sua respiração passa a ficar mais ofegante e acelerada.
Puxando o pequeno dedo pálido de Aurora, o homem levanta um pouco o martelo e bate com calma na ponta de um dos dedos. Aurora sentindo seus olhos lacrimejarem e uma sensação de alívio tomar sua mente, solta o ar que havia prendido ao ver aquele pequeno martelo se aproximar de seu dedo.
— Sente isso? – Pergunta o homem, olhando-a como que para uma máquina.
Aurora não responde em voz alta, apenas balança a cabeça positivamente. Seus lábios contraíam e os cantos dos mesmos desciam enquanto suas sobrancelhas se juntavam alto na testa, criando rugas profundas naquela bela pele cor de neve. Seus olhos tentavam não gritar, apenas tentavam.
— Não há ativação do soro “NP”, infelizmente. – Diz o homem em voz alta. – Tudo bem então, daremos início ao experimento “002 – Dia 1825 – Experimento SI”. – A formatação ditada era parte do protocolo de toda experiência, para sua gravação e acompanhamento, assim como sua revisão. Neste protocolo, dizia-se o número do experimento humano, no caso de Aurora: 002, seguido pelos dias contados em que paciente experimento fora introduzido no programa, e por fim, o experimento a qual o paciente experimento fora submetido, no caso “SI”.
O homem voltara àquela pequena mesa metálica, trocando o martelo metálico por um equipamento um tanto mais assustador, uma pequena cerra de lâmina circular e giro automatizado. Quando o homem ligou a cerra, Aurora fechou os olhos com força e sentiu suas entranhas encolherem, além de seu coração disparar como se fosse sair pela boca. O som metálico e elétrico do giro daquela lâmina e de seu motor eram aterrorizantes, a coisa mais temida por Aurora.
Olhando o monitor cardíaco, o homem via claramente o acelerar desesperado do coração de Aurora, porém, embora soubesse o perigo de realizar uma cirurgia em um paciente com um fluxo sanguíneo tão agitado, não poderia sedá-la, pois isto também era parte do experimento. “Temos de levar o soro RC ao limite” O homem reafirmava o motivo mentalmente. Ele sabia que a sobrevivência da menina a perda de sangue e a dor eram parte do teste daquele soro, assim como parte do experimento total.
A cerra que girava numa velocidade que fazia parecer que a lâmina estava parada se você não estivesse atento, se aproximava vagarosamente da parte externa do antebraço esquerdo de Aurora. Quando a lâmina começou a cortar a pele da menina e o sangue vazar, em um momento de desespero, em meio aos gritos, Aurora pôde ver com clareza algo que nunca esqueceria; embora utilizasse uma máscara médica antiviral, Aurora podia ver claramente o prazer estampado na face psicótica daquele homem. Ele sentia prazer no que fazia, era algo que Aurora nunca esqueceria.
A dor tornava-se mais intensa e ela podia sentir o sangue quente vazar de seu braço conforme a lâmina cortava e afundava cada vez mais, cortando e rompendo músculos até chegar nos ossos, os quais eram o objetivo do homem.
Aos gritos de dor, às lágrimas de desespero, Aurora não compreendia o porquê de ter de sentir tanta dor, era apenas uma criança, tinha apenas oito anos, e não queria sentir medo, não queria sentir dor. Sua única resposta era aquela que seu pai havia lhe dado, a resposta que acreditava ser verdade; seu pai havia lhe dito tempos atrás que a dor que ela sentia era a busca da cura de todos os males, e que pelo bem de muitos, para salvar outras vidas, ela deveria ser forte e aguentar a dor. Ela tentava, sempre tentava, mas a dor era muito grande e seu corpo muito pequeno, parecia que não iria aguentar, sua mente desesperada gritava por socorro, gritava para porem um fim a toda dor.
— Papai! Papai! Papai...! – Gritava Aurora tentando completar sua frase, mas não conseguia. A dor parecia bloquear tudo, mesmo a fala.
— Iremos testar duas coisas hoje, senhorita. – Disse o homem para Aurora que pouco lhe ouvia, mas olhava com um desespero animalesco. – A primeira coisa, é a respeito do quanto o soro “RC” é capaz de reconstituir o sangue do seu corpo, criando e multiplicando as células sanguíneas ao mesmo tempo em que as perde. A segunda coisa é se a célula “RC” é capaz de religar as células de ossos quebrados, como faz com o sangue, tecidos epiteliais e pequenos cortes nos ossos, e quanto tempo leva todo o processo.
Aurora sentia que tudo aquilo era um pesadelo. Sentia que deveria acordar logo. Clack! Todos ouviram o som, um som de estalo repentino, e que embora houvesse surgido do nada e rapidamente, também fora embora da mesma forma. Aquele som, assim como o som que viera logo a seguir, teria deixado qualquer humano normal, com o mínimo de capacidade empática, completamente louco, mas os funcionários daquele lugar não podiam ser classificados desta forma, talvez mal pudessem ser classificados como humanos, e se os direitos humanos descobrissem o que faziam ali, com certeza não seriam. Ao ver, ao sentir seu osso partindo, após o estalo e o choque que percorrera todo seu corpo, o grito que Aurora soltara de sua garganta era como o de um animal sendo abatido, um grito de pura agonia, uma crueldade indiscutível.
O homem não havia cortado o osso, não era esse o objetivo; “A segunda coisa é se a célula ‘RC’ é capaz de religar as células de ossos quebrados” disse o homem de olhos mortos e congelantes “Quebrados” de forma completamente literal. O homem havia segurado a Ulna e o Rádio de Aurora com as próprias mãos, e literalmente quebrado os ossos do antebraço daquela criança que agonizava, gritava e chorava de pura dor.
Após o feito, o homem de jaleco branco, apenas virou-se para a pequena mesa prateada, retirou suas luvas e ignorando completamente os gritos de desespero e agonia de Aurora, pôs-se em direção a porta e caminhou até a entrada da outra sala, abandonando a pequenina ensanguentada, sem nenhum remorso. Era o seu trabalho, e na verdade, mal via aquela menina como um ser humano, como uma criança, era mais como um rato, talvez menos. O mau da ciência, para um bem cientifico.
Na outra sala, cientistas das áreas da biologia, química, medicina e psiquiatria observavam o experimento enquanto faziam suas próprias anotações em seus tablets, notebooks e pranchetas; homens de terno e gravata (talvez os únicos que não estavam de branco no ambiente) observavam com sorrisos assimétricos e cheios de orgulho de seus investimentos que se mostravam progredir em perfeita continuidade com taxas altíssimas de sucesso; militares de altas patentes, altas suficientes para serem agraciados com o direito de conhecer, acompanhar e opinar segredos políticos, governamentais e experimentais que nenhuma outra patente possui permissão. O homem de jaleco e olhos frios junta-se a eles.
— Belo trabalho, Richmund. – Parabeniza uma colega de trabalho; Alla Winch, Ph.D. em bioquímica, cabelos loiros e bem cuidados, presos em coque, trinta e dois anos de idade e belos olhos verdes claros por trás de lentes grossas e retangulares.
Richmund, o homem de cabelos castanhos, olhos frios e jaleco branco (como todos os outros funcionários cientistas da base e laboratório), não agradecera ou se quer olhara para a face sorridente de Alla Winch, era um homem calado e que não costumava a responder por mera educação, se não era necessário ou não tinha interesse, não falava. Richmund caminhara até a tela de vidro enorme a qual todos estavam em frente e por ela observavam o sofrimento interminável de Aurora que parecia enlouquecer aos berros e lágrimas. Olhou seu relógio prateado de pulso por alguns segundos e então retornou a observar Aurora atentamente, o objetivo hoje era levar o soro “RC” ao limite, por mais que isto levasse algumas horas. “É um saco ter de ficar ouvindo essa gritaria irritante” ele pensou enquanto observava indiferente o sangue sair o corpo de Aurora que se debatia na cadeira reclinável. “Tudo pela ciência. Tudo pela Paz”.
Por horas, horas que Aurora não ousara contar, horas que os pervertidos homens e mulheres de jaleco branco ousaram esperar, o único som que cortava o silêncio era o terrível som do desespero de Aurora. Aquele era, definitivamente o pior dia da até então curta vida de Aurora; em todos os 1825 dias aos quais Aurora fora submetida a diversos experimentos, repetitivos ou não, por mais que outros dias ruins, outros experimentos ruins houvessem ocorrido, aquele dia, aquela dor, aquele medo, aquela sensação era sem dúvidas a pior de todas.
De repente, como que se não houvesse mais dor, uma sensação veloz que desaparecera tão rapidamente quanto surgira, como uma descarga elétrica que parecia entrar em seu corpo e então levar tudo embora, atingira Aurora, fazendo com que os seus sentidos começassem a desligar. “O que é isto? Estou morrendo?” Mesmo tão nova, Aurora sabia bem o que era a morte. Não havia mais dor, sua visão começara a escurecer, tudo parecia rodar, o som da máquina ao seu lado, os bips que vinham dela, pareciam cada vez mais distantes, seus gritos pareciam nunca terem existido e o calor que sentia em seu braço parecia gelo.
— O que está havendo? – Perguntou um dos investidores.
— Choque hipovolêmico. – Respondeu Richmund enquanto apertava os lábios uns contra os outros, frustrado por ter encontrado o limite do soro “RC” tão antes do esperado.
— O que? – O investidor que parecia desesperado, estava agora também confuso. Não estava desesperado pelo estado repentino de Aurora, mas pelo estado repentino de seu investimento, o que poderia pôr bilhões de dólares a perder.
— Significa que o experimento acabou. Por hoje. – Disse Richmund enquanto caminhava com tranquilidade para fora daquela sala separada.
Os batimentos cardíacos de Aurora haviam caído drasticamente e a pele de Aurora estava tão branca que parecia já estar morta; embora sua pele já fosse extremamente branca, o que tornava essa percepção difícil, seus lábios antes rosados, agora estavam um cinza claro, e seus olhos revirados indicavam claramente seu estado anormal e perigoso.
Quando os batimentos de Aurora chegaram a certo ponto, os fios presos em seu tórax, antes com objetivo meramente de medir os batimentos cardíacos, agora passavam a descarregar cargas elétricas de tempos em tempos, com o objetivo de manter o coração de Aurora batendo.
O homem com eternos olhos mortos aproximou-se enfim do pequeno corpo pálido e catatônico, e então observou o corte que ainda sangrava como um rio em meio a troncos brancos expostos. Tinha de fechar a abertura do corte e estancar o ferimento e tinha de fazê-lo rápido. “Corpo pequeno, pouco sangue” Pensou sozinho enquanto observava indiferente emocionalmente.
— Fechamento do Experimento “002 – Dia 1825 – Experimento SI” — O homem virou-se para a pequena mesa metálica novamente, pegou um novo par de luvas, vestiu-os e então apanhou alguns materiais cirúrgicos, tesoura, linha e um objeto metálico que parecia um mecanismo de pressão. – Encontramos o limite do Soro “RC”. Um melhoramento do mesmo é necessário. Se é que é possível.
Após pôr todos os materiais na cadeira aonde Aurora deitava, segurou com força os lados partidos do antebraço de Aurora, e com precisão, puxou para trás em lados opostos as duas partes, o que teria feito Aurora surtar de dor caso pudesse sentir algo, em seguida as encaixou perfeitamente, porém sem permitir que ambos os lados se tocassem.
Uma enfermeira adentrou a sala neste instante e a passos rápidos encontrou a cadeira reclinável aonde estava Aurora e o seu chefe. Sabia os procedimentos, se não soubesse, não estaria aonde estava. Apanhou o mecanismo de pressão que estava separado ao lado do corpo frágil de Aurora, e rapidamente se posicionou do outro lado da cama. Observou a ferida um instante, sem sentir enjoo ou repulsa, apenas um pouco de medo, não que nunca houvesse realizado o procedimento, já o fizera uma vez, mas tinha medo de errar, sempre tinha.
Inclinou um pouco o corpo enquanto colocava o mecanismo ao redor do braço fraturado de Aurora, com suas duas pontas se prendendo ao local aonde até então Richmund segurava com pressão e cuidado. Richmund era, sabia ela, o maior cirurgião dos Estados Unidos da América, embora não declarado publicamente, todos aqueles que trabalhavam para a inteligência americana, ou tinha patente suficiente no governo ou militar, e tiveram o prazer, ou desprazer de trabalhar com Richmund, sabiam.
A pressão fora feita no local correto, segurando as duas partes dos ossos fraturados de forma perfeitamente alinhados. Richmund agarrou o fio negro que havia separado antes e com a tesoura cortara uma parte; a enfermeira imediatamente retirara de um de seus bolsos um pacote transparente com uma agulha de costura cirúrgica e entregou ao homem que parecia Deus em sua frente.
Rapidamente e de forma tão precisa quanto sua fama lhe precede, Richmund costurara a abertura exposta de Aurora.
— Cintas de pressão. – Ordenou Richmund para a enfermeira, sem se quer olhá-la nos olhos.
— Aqui, senhor. – Respondera a mulher enquanto lhe entregava o que era pedido. Três cintas negras com um tipo de ponta conectiva fina que parecia servir para encaixar ambas as pontas da cinta.
Richmund envolveu os pontos corretos de pressão no antebraço para manter os ossos imóveis e então com calma retirou o mecanismo de pressão.
— Tábua metálica. – Ordenou novamente.
— Aqui, senhor. – Novamente, submissa a enfermeira rapidamente apanhara na pequena mesa metálica uma tábua lisa de metal fino e entregara para Richmund.
Pondo com cuidado a tábua metálica próxima as cintas, Richmund pôde sentir o elo magnético entre eles. Após encaixar a tábua nas cintas através de sua conexão magnética, Richmund desamarrara o braço esquerdo de Aurora e pela primeira vez olhou para a mulher a sua frente.
— Traga o gesso. – Disse de forma seca, como um veterano que têm de lembrar outro o que fazer.
— Sim, senhor. – Ela não havia esquecido, apenas não era o trabalho dela e sim de outro funcionário, mas aparentemente, ele havia esquecido. Ela correra para buscar o Gesso.
Menos de um minuto após sair pela porta de entrada, retornara com um balde morno e o gesso dentro, pela velocidade era provável que houvesse encontrado o responsável do lado de fora, próximo a porta. Alguns segundos atrasado, apenas. Segundos suficiente para encontrar Richmund realizando transfusão de sangue no experimento, sabia que os poucos segundos poderiam lhe custar seu emprego.
— Apoie o braço dela e comece a engessar. – Ordenou Richmund ainda seco, o que fez com que ela se perguntasse se ele era sempre assim. Já havia trabalhado com este homem antes, mas nunca o ouvira falar nada.
Richmund observava a agulha e o tubo transparente levar o sangue da bolsa até a veia de Aurora. Os batimentos da menina aos poucos retornavam ao normal, mas ela continuava inconsciente e talvez fosse melhor assim. Quase duas horas se passaram até que Aurora enfim abrisse os olhos, confusa sem entender aonde estava.
O ambiente estava escuro, havia apenas uma luz apontada para a cadeira reclinável de Aurora que ainda permanecia amarrada, com exceção de seu braço esquerdo. Aos poucos as memórias de Aurora retornavam como facadas rápidas e dolorosas, seus olhos arregalados de puro medo se arrastaram até o seu braço esquerdo, cujo até aonde lembrava, sangrava e doía. Ao ver o gesso, sentiu seu coração acalmar, e sua respiração que começava a ficar ofegante, retornar ao normal; embora não entendesse o que havia ocorrido desde sua última lembrança, sentia um forte alívio por ter acabado; havia um incomodo em seu braço que agora estava engessado, mas nenhuma dor.
Aurora notara logo que ainda estava amarrada e quando seus olhos buscaram alguém, qualquer um no local, e estava prestes a pedir para ser desamarrada, notou que não havia ninguém, somente o silêncio. “Estou sozinha? Cadê o papai? Eu fiz algo de errado?” Ela começara a se perguntar se havia sido abandonada e o questionamento de culpa viera logo a seguir.
Como uma pressão que vai embora e um rastro de esperança que surge, a porta de entrada se abrira, quebrando o silêncio do escuro. Uma luz forte invadira toda a treva que rodeava Aurora e a presença que mergulhou na escuridão até se aproximar da pequena Aurora, fora como um presente, como o sol em um dia escuro aonde tudo o que existia antes era o medo e agora a tranquilidade, a paz e a estranha alegria reconfortante. Era seu pai que vinha sorrindo ao chegar na luz.
— Que bom que acordou, estava preocupado. – Não era uma completa mentira. – Você fez um trabalho incrível hoje, Aurora. Aguentou como gente grande, estou orgulhoso.
Aurora sorria alegremente como uma criança inocente sendo elogiada pelo pai amado e idolatrado. Não demorara para notar algo peculiar numa das mãos do sorridente cientista que chamava de pai. “O que é isso?” Ela se perguntou, e como se houvesse lido sua mente, seu pai mostrou-lhe.
— Pudim. Trouxe como recompensa para você. Um presente pelo seu esforço, filha. – Era um pequeno pote lacrado, um pudim barato que podia ser encontrado em qualquer mercado. – Tenho certeza de que vai gostar.
Aurora agarrou o Pudim da mão de seu pai e tentou abrir a embalagem, mas com uma única mão ela não conseguia. Achando engraçado a incapacidade do experimento 002, o qual chamava de filha, uma forma simples de manipular a mente infantil e torna-la obediente, tomou o pudim de volta da mão de Aurora e antes de abrir, percebera a presença de uma mulher na porta de entrada, aguardando pacientemente a aprovação para entrar.
— Pode entrar, Guetta. – Disse o “papai” para a mulher na entrada.
— Com licença, Doutor. – Anunciou a mulher.
— Guetta! – Aurora a reconheceu alegremente.
— Olá pequenina! – Guetta sorria para a pequena Aurora com carinho. A enfermeira Guetta era diferente dos outros funcionários, era mais gentil, mais humana, mais carinhosa e mais sorridente também. Guetta fora colocada como responsável dos cuidados de Aurora, fosse alimentação, banho, educação ou contar histórias de ninar.
— Srta. Guetta, leve Aurora para o quarto, dê a ela este pudim e o que mais ela pedir para comer, conte uma história e a deixe descansar, hoje ela está livre de estudos, está bem? Já trabalhou bastante aqui. – Disse o homem sentado ao lado de Aurora.
Guetta era uma mulher de cinquenta e quatro anos de idade, hispânica, olhos de um castanho escuro, tão escuro que parecia negro, uma pinta sobressaída, quase como uma verruga no queixo e com o corpo grande horizontalmente, e pequeno verticalmente, ou seja, gorda, mas nem tanto, e bastante baixa. Esta mulher sentia muita pena de Aurora e tinha até mesmo certo apego pela menina, preocupava-se com o que era feito dela, embora soubesse de certa forma, não inteiramente, mais como uma suspeita do porquê de ela estar naquele lugar e qual o objetivo final, afinal, não havia outro motivo para se estar naquela base, naquela ilha. Tudo naquele lugar tinha apenas uma finalidade. Embora visse as cicatrizes em Aurora, acalmasse a menina nas vezes que retornava perturbada de algum canto dentro daquela base, ou mesmo limpasse as lágrimas perdidas após pesadelos horríveis, jamais ousara perguntar para ninguém, nem mesmo para a própria Aurora, sobre o que faziam com ela quando fora de seu pequeno quarto branco.
— Sim, Doutor. Pode deixar. – Olhara agora para a pequenina de braço engessado, e com um sorriso a chamou. – Vamos, pequena? Guetta vai contar uma história linda para ti.
— Legal! – Aurora gritou de forma animada, era como se não houvesse passado por tamanho trauma havia apenas algumas horas.
— Aurora, você pode brincar após comer e ouvir a história da senhorita Guetta, está bem? Não esqueça de beber bastante água, filha. – Sua preocupação com a saúde de Aurora era real, mas não havia sentimentalismo ao contrário do que demonstrava, e encenava tão bem que até mesmo Guetta acreditava.
— Está certo, papai! – Aurora sorria.
— Venha Aurora, vou te mostrar como esse Pudim fica gostoso com uns biscoitos. – Chamou Guetta, aumentando ainda mais o desejo de Aurora por aquele delicioso Pudim.
Aurora caminhou para fora da sala enquanto segurava forte a mão da gentil Guetta, e enquanto passavam pela porta, pôde ouvir seu pai falando aparentemente sozinho, e o que ouviu, naquele momento não significou nada para Aurora, afinal, tudo o que passava em sua mente era aquele Pudim, mas logo viria a significar.
— Tragam o experimento 001. Preparem a piscina. – Disse ele sozinho naquela sala escura.
Embora não questionasse o que havia sido aquela ordem solitária, ou o por quê seu pai parecia falar com o nada, a palavra “piscina” lhe pareceu curiosa, afinal, nunca havia ouvido antes.
Horas mais tarde, após ouvir a fascinante história – ao menos para uma criança de oito anos – sobre uma menina perdida em um mundo de fantasia, cujo em sua tentativa de voltar para casa, se desventura dentro deste mundo incomum com plantas enormes e uma bruxa verde que constantemente entra em conflito e persegue a pequena menina e seus novos amigos, um homem feito de alumínio que apenas quer entender o que é amar, um leão que fala e se cobre de orgulho, e um espantalho que embora nada inteligente, proporciona à história momentos hilariantes, Aurora relembra ao finalmente começar a comer o seu pudim, sobre a piscina que ouvira falar mais cedo.
— Guetta, o que é uma piscina? – Perguntou de forma direta enquanto Guetta lhe dava colheres de pudim e biscoito na boca.
A enfermeira responsável por Aurora se surpreendera com a pergunta. Embora entendesse a curiosidade e o como Aurora poderia não saber o que é uma piscina, achou estranha uma pergunta tão incomum e que em qualquer outra situação contextual, poderia até mesmo soar estúpida.
— Uma piscina? – Podia parecer algo simples, mas pela surpresa, Guetta achou extremamente complicado explicar de uma forma que Aurora, cujo nunca havia visto uma piscina, fosse capaz de visualizar e compreender. – Bom, vejamos, como vou explicar? Uma piscina é um tipo de recipiente, aonde colocamos água e então nadamos.
— Recipiente? Nadamos? – Aurora só ficava cada vez mais confusa e aquilo parecia expandir os horizontes que conhecia até agora. Era algo tão simples, mas que trazia tantas novas informações.
— Um recipiente é algo que serve para guardarmos... – Guetta pensou por um segundo. – Bem, guardarmos qualquer coisa. No caso da piscina, guardamos água. E nadar... – Mesmo sendo simples, parecia complexo. – Nadar é como flutuar sob a água, algo assim, porém, sem sair da água.
— Flutuar sem sair da água? A piscina é um copo? – A mente de Aurora fervilhava.
— Não, querida, a piscina não é um copo. É maior. Muito maior, realmente. – Guetta segurou uma pequena risada. A ingenuidade e desconhecimento de Aurora era adoravelmente divertida.
— Mas, se flutuamos sem sair da água dentro dessa piscina, não sujamos a água? Como bebemos ela depois? – Aurora não compreendia e até mesmo achava nojento ao pensar que beberíamos nossa própria sujeira. Havia estudado em livros de biologia, que humanos podem suar por seus poros, uma tentativa natural do corpo de amenizar e equilibrar o calor corporal.
— Oh, Aurora. – Guetta rira. – Não bebemos a água da piscina. Nadamos nela. É um tipo de exercício. É divertido e faz bem à nossa saúde. – Explicou enquanto olhava diretamente para dentro dos olhinhos azuis e infantis de Aurora, que brilhavam fascinados.
— Não bebemos a água? – Aurora estava estarrecida. – Exercício na água?
— Sim. – Era adorável.
— Eu quero nadar em uma piscina, Guetta! Eu ouvi meu pai falar alguma coisa sobre uma piscina. – Aurora tocou em um assunto que Guetta já havia prometido para si mesma que jamais ousaria entrar. Os experimentos do local.
— Sim, sim. Talvez um dia, pequenina. – Guetta se sentira um pouco aflita. – Coma seu pudim, certo, querida? – Cortou o assunto enquanto acariciava os cabelos loiros esbranquiçados de Aurora.
— Como é nadar numa piscina, Guetta? – Aurora insistia, o que aumentou um pouco a sensação de aflição de Guetta.
— É como tomar banho, querida. A diferença é que você está completamente imersa na água, e a água não é corrente, não cai em você, mas você está toda nela. É relaxante. Quando você nada, bate os braços e pernas, e é como voar dentro da água.
— Voar dentro da água... – Aurora estava extasiada com esse pensamento.
— Agora vá brincar, querida. Eu tenho de ir. – Embora Aurora houvesse feito apenas perguntas inocentes, o comentário sobre o que o Doutor havia dito, sobre o experimento na piscina, a ideia de saber algo que não gostaria de saber, lhe fez sentir que a conversa passara de algo inocente e educativo, para algo ameaçador e horrendo.
Guetta despediu-se de Aurora e após um pequeno beijo no topo de sua cabeça, abriu a branca e pesada porta e então sem olhar para trás foi embora enquanto a porta fechava-se em suas costas. Aurora novamente estava sozinha, apenas ela, o branco e suas peças de metais cilíndricos.
— Piscina... Pudim... – Aurora cantarolava baixinho para si enquanto pegava sua caixinha branca para brincar. – Um dia eu vou nadar em uma piscina. Vou voar na água. – Aurora parou um momento enquanto tirava as peças de metal da caixinha branca em suas mãos, e refletiu se havia alguma possibilidade de seu pai leva-la para nadar um dia. – Talvez. – Respondeu sorridente para si.
Horas mais tarde, enquanto dormia, sua ansiedade mostrou-se tamanha que penetrara as fantasias infantis de sua mente. Aurora sonhara que flutuava dentro de um enorme copo transparente, em meio a um ambiente completamente negro. Tudo parecia confortável e agradável, embora visse realmente muito pouco. Havia apenas uma luz acima do copo, que iluminava as profundezas dentro deste.
Mexia seus braços e pernas de forma desengonçada para se movimentar dentro do copo, e tudo parecia incrivelmente mágico. Em determinado momento, parou de se mexer e apenas sentiu seu corpo vagar, boiar sem rumo. Era um sentimento estranhamente familiar e natural.
Aurora podia respirar e enxergar dentro daquele copo, embora a pouca iluminação penetrante e a escuridão abundante ao redor não permitissem grande possibilidade de percepção. Tudo parecia tão real, embora a realidade estivesse tão distante. Em meio ao nada, ao vazio reconfortante e familiar, algo assustador e surpreendente surgiu frente aos olhos de Aurora.
Um rosto feminino, belíssimo, com seus cabelos loiros e longos, seus olhos azuis idênticos aos de Aurora e um sorriso reconfortante em seus lábios. Aurora sentiu imediatamente que conhecia aquele lindo rosto pálido e acalorado. Mas antes que sua mente pudesse compreender e reconhecer plenamente o que via, um som alto de explosão interrompeu sua visão, trazendo em seu sonho, algo que parecia uma grande quantidade de terra sendo jogada para cima em meio ao fogo. Uma visão rápida antes de seu sonho ser rapidamente cortado pelo susto, acelerando o seu coração, fazendo-a despertar completamente suada e com o coração disparado contra o peito.
Sentada na cama, Aurora permaneceu estática por alguns poucos segundos. Sentia seu braço esquerdo dolorido, o suor escorrer gelado por todo seu corpo que tremia bastante e o escuro era visível para seus olhos acostumados. Sua mente tentava encontrar uma resposta para o que havia sonhado. O que havia visto.
— Mamãe... – Disse Aurora de forma quase inaudível, como se sua garganta estivesse fechada e aquela palavra fosse proibida para ela.
Sozinha no escuro da noite, em seu quarto branco, Aurora havia lembrado em meio a dor, após tantos anos, de algo que imperdoavelmente havia esquecido, e embora ainda confusa, era como seu uma lacuna houvesse sido aberta em seu peito. Não compreendia, mas, podia sentir. Era sua mãe quem Aurora havia visto em seu sonho. Algo que talvez houvesse perdido há muito tempo.
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