Aurora Boreal

1 Luzes do Norte


Notas iniciais
Oi, gente!

Comecei a escrever essa história faz MUITO tempo e nada mais justo do que começar a postá-la no dia do aniversário do Isaak.
Embora, sim...ele mereça alguma história feliz e bonita, eu também gosto muito dessa aqui.

Ela não é propriamente inspirada em uma música, mas posso ouvir os versos de My Sweet Prince por entre as linhas, que se tornou a canção que escuto enquanto escrevo, vou deixar os links logo depois.
Obrigada à @Super-nova pelo incentivo de sempre nos momentos de dúvida e pela ajuda sinopística.

Letra/tradução: http://bit.ly/2STC8PX
Youtube: http://bit.ly/2P3sCst
Spotify: https://spoti.fi/38Cx8WK

Quando as partículas que viajam da coroa solar até a Terra chocam-se contra a atmosfera, são carregadas nas direções dos pólos pelas correntes magnéticas, proporcionando um show de luzes de beleza indescritível. Infelizmente, tal fenômeno só é observável nas mais altas latitudes, tanto no Norte, onde temos a Aurora Boreal, nomeada após a deusa romana do amanhecer, Aurora e o deus grego dos ventos, Boreas, quanto ao Sul, onde o fenômeno é chamado de Aurora Austral — de Auster, o Sul em Latim —, reduzindo drasticamente o número de observadores que podem atestar tal maravilha devido às condições extremas nestas partes do globo.

Por incontáveis noites o Oceano Ártico, em toda sua calma e imponência, contentou-se em observar as Luzes do Norte, as refletindo em suas águas e geleiras. Mas naquela noite atípica, os céus recebiam uma resposta à altura. O mar estava revolto como nunca antes visto, desequilibrando a paz dos milenares blocos de gelo, que recebiam a turbulência da água sobre si. Dessa vez, quem iluminava aquela porção tão erma do globo terrestre era ele, o próprio Oceano, ofuscando até mesmo o brilho das estrelas que observavam longinquamente tal perturbação. Era a atmosfera que agora refletia a luz do Mar.

A expressão zombeteira já havia esvaído-se há muito da face de Isaak. Com alguma dificuldade ainda mantinha a farsa, em busca de todas as informações que poderia extrair do Cavaleiro de Cisne. Teve real vontade de entregar-se quando reconheceu a maior técnica de seu mestre sendo executada por Hyoga e permitiu ser atingido. Cisne tentou ampará-lo em sua morte, o que era para o Kraken ainda mais inadmissível. Não depois de tudo que o homem, por quem arriscava sua vida naquele momento havia feito. Todavia, também queria acreditar em Hyoga. Ao perceber que começava a fraquejar, decidiu então contar o grande segredo que guardava: o irmão de Saga de Gêmeos era o responsável por aquelas batalhas. Kanon era o Dragão Marinho, o arquiteto dos planos para tomar a Terra e o humano que manipulava o Deus dos Mares.

Se antes procurava motivos para poupar Hyoga de Cisne, agora tinha a única razão que precisava para matá-lo. Não trairia a Kanon. Muito menos por conta de alguém a quem julgava de fato ter lhe dado as costas e o sentenciado à morte em benefício próprio. Pois sim, Isaak acreditava que o único motivo para Camus não procurar-lhe era a traição de Hyoga. Sabia quem era o dono de direito da Armadura de Cisne, sendo informado antes do trágico episódio, pelo Mestre Aquário, que seu companheiro não era apto a tornar-se um Cavaleiro de Bronze. Isaak fora o escolhido.

Suspirou profundamente, tinha seu único olho fechado. Hyoga teve a impressão que aquela seria a última vez que o querido amigo buscaria por oxigênio. Todavia, Isaak continuou a respirar. O ar, porém, tornava-se frio e pesado a uma velocidade impressionante, surpreendendo o Cisne. O cosmo de Isaak superava não só o do Cavaleiro de Bronze, pego na realização de que o jovem Marina havia ultrapassado até mesmo os limites do Mestre Camus. Era um cosmo confuso, perturbador. Isaak de Kraken finalmente desatava o nó que amarrava seus sentimentos todos juntos, de maneira desoladora: havia raiva, desgosto, medo, saudades e, sobretudo, rancor. Mas também havia amor. Não por Hyoga, muito menos por Camus de Aquário, mas pelo homem que o acolheu no Mundo Submarino.

Enquanto Cisne, em uma tentativa de salvar-se em meio àquela atmosfera de sensações mistas suplicava pelo fim da luta, Isaak o ignorava. Não perdia seu inimigo de vista. Hyoga tentava advertí-lo de que aquela não seria uma batalha honrosa. Milhões de pessoas sofreriam caso não conseguisse cumprir sua missão de destruir o Pilar do Ártico. Mas quem era ele para falar de sofrimento? Como tinha a pachorra de dizer aquelas palavras depois de tirar tudo do homem a quem chamava de amigo...de irmão?

Seria doloroso, essa era uma certeza. Pensava no desapontamento de Camus quando finalmente eliminasse Hyoga. Mas o desapontamento de Kanon lhe doeria mais no peito. Além disso, sabia que o Dragão Marinho estaria lá para ampará-lo, como por muitas outras noites já esteve. Era o homem que consertava seus medos, que caçava suas dores e as eliminava uma a uma. Era por ele que lutava. Somente por ele e ninguém mais.

A Aurora Boreal foi tão intensa que não levou somente o corpo de Hyoga para a viagem sem volta até o Mundo dos Mortos. O garoto que trazia a Armadura de Libra não era mais visto por ali e a perturbação no pequeno oceano foi tanta que geleiras e icebergs se deslocaram por distâncias impossíveis de serem percorridas por tamanhos blocos de gelo. O céu do Ártico iluminou-se, refletindo a Aurora do Kraken nos gases que compunham a atmosfera, dando ao Mar a sua desforra por tantos anos admirando as Luzes do Norte em solidão, silenciado pelas estrelas daquele céu puro.

Isaak reuniu suas últimas forças, andando até Urna de Libra, tombando a seu lado.