Aurora
3 A Tragédia das Nádias - Capítulo 03
Concebida na Rússia e nascida no Brasil, a menina, cujo nome recebido foi Gabriela, cresceu na Paraíba, em João Pessoa, sob os cuidados de seus pais e de sua irmã mais velha. Talentosa desde criança, sempre teve boas relações interpessoais e era adorada por todos os seus familiares, além de conseguir fazer amizades facilmente. Porém foi em sua adolescência que ela teve fortes lições de responsabilidade, que moldaram seu caráter.
Após perder sua avó materna, Gabriela começou a estudar o espiritismo, na esperança de que pudesse um dia voltar a ter contato com ela e com uma outra pessoa especial, com a qual precisava se desculpar. Lendo muitos livros de Allan Kardec, Chico Xavier e Monica de Castro, frequentando centros espíritas e conversando com amigos e familiares, ela foi construindo a base de conhecimento sobre sua crença, que se amplificou em uma noite chuvosa de inverno em 2007, quando tinha 14 anos.
João Pessoa, Paraíba — Rússia.
Fevereiro de 2007
Gabriela dividia o quarto com sua irmã, mas somente ela acordou à noite por conta do som estrondoso de um trovão em meio à tempestade que caía do lado de fora. Porém, susto maior que o do trovão foi o causado por uma luz no corredor, do lado de fora de seu quarto. Curiosa, acreditando que pudesse ser sua mãe caminhando à luz de velas durante a madrugada, Gabriela se levantou e abriu a porta.
Então ficou estática. Uma versão brilhante de sua avó caminhava pelo corredor, indo em direção à sala. Sua respiração ficou ofegante, mas ela não poderia perder essa oportunidade, então caminhou atrás do espírito vagante noturno, na esperança de conseguir fazer contato.
—-- Vó? --- perguntou Gabriela à figura branca, que agora estava parada, de costas para ela. O amor supera o pavor e a menina consegue caminhar até a frente de sua avó, para olhá-la nos olhos, o espírito retribui. --- É você?
Gabriela sabia que era sua avó, mas a pergunta era inevitável. Sentindo-se zonza e se perguntando se não estava sonhando, ela se sentou em frente ao espírito de sua avó.
—-- Por que você está aqui? --- perguntou a menina.
—-- Você chegou à idade para iniciar sua missão, Gabriela. --- respondeu sua avó, Miriam. — Você precisa restaurar o equilíbrio na Planície Siberiana Ocidental ou ele consumirá o mundo.
— Quem? Quem vai consumir o mundo? — perguntou Gabriela. Ela havia esperado muito tempo por aquele encontro e tinha tantas perguntas, mas precisava focar na mensagem que lhe estava sendo passada.
— Igor Lagunov, o senhor do caos. — Miriam explicou. — Sua missão na Terra, Gabriela, é parar sua onda de assassinatos, que está se espalhando por toda Rússia.
— Eu? Vó, eu só tenho 14 anos e moro no Brasil. Como eu vou fazer isso? E por que eu? — Gabriela
— Na hora certa, você vai saber. — ao dizer aquelas palavras, o espírito se esvaeceu, deixando a adolescente no escuro.
— Vó? Vó! — Gabriela gritou, sem receber respostas.
Foi frustrante, não foi como ela planejava, então se pôs a chorar, abraçando seus próprios joelhos, repetindo a palavra "vó". "Eu sequer tive a oportunidade de dizer que eu a amo", ela pensou, deixando seu choro ainda mais forte e mais alto. E ali ela permaneceu, encolhida, chorando, ouvindo os trovões e gotas de chuva caindo do lado de fora de casa. Foi surpreendida quando viu uma esfera brilhante amarela flutuar no corredor em sua direção. Curiosa, porém, com medo, foi se arrastando para trás lentamente até que a esfera ficou exatamente à sua frente, um fósforo foi aceso, então acendendo o pavio de uma vela, iluminando a sala. Era a mãe de Gabriela, Maria Cecília, que havia ouvido choros e veio conferir o que estava acontecendo.
— O que houve, minha filha? — Maria Cecília perguntou, ao ver sua filha chorando, sentada no chão. Gabriela teve dificuldade em se expressar, mas conseguiu dizer:
— Eu vi minha avó! — então voltou a chorar.
— Ô, minha filha! — Sua mãe pôs a vela sobre a mesa de centro e puxou Gabriela para que ela se levantasse e as duas se abraçassem. E assim ficaram por longos minutos, até que Gabriela chorasse todas as lágrimas que tinha para chorar naquela noite. — Foi só um sonho, está tudo bem.
— Não foi um sonho, mãe. — A menina explica, ainda com a voz chorosa. — Eu juro que eu a vi, de verdade. Ela estava aqui, eu não consegui dizer o quanto eu a amava, o quanto eu sinto falta dela. Eu não consegui...
— Shh... — A mãe a interrompe, apertando-a forte e acariciando os cabelos em sua nuca. Gabriela sente o calor do corpo da sua mãe a acalmar, porém algo estava estranho. Ela deveria estar tendo alucinações, pois uma aura de cor alaranjada cobria o corpo de sua mãe naquele momento, de uma forma que nunca havia visto antes. Talvez fosse a iluminação da vela, já que estavam sem energia por conta da chuva, talvez sua visão estivesse embaçada. Então era melhor que ela fosse dormir. Sua mãe a acompanhou até seu quarto, as duas se abraçaram novamente, trocaram beijos de boa noite e Gabriela foi se deitar em sua cama. Antes de fechar os olhos, ela pensou ter visto raios verdes cobrindo o corpo de sua irmã do outro lado do quarto. Deve ter sido impressão sua. Talvez. Então caiu no sono.
No dia seguinte, Gabriela acordou sozinha em seu quarto, demorou a se desligar dos sonhos que teve, e também dos acontecimentos da noite passada. Aquilo foi real, sua avó apareceu para ela e as duas conversaram. Não foi como ela esperava que fosse, mas sua avó lhe disse coisas. Coisas que ela não se lembrava muito bem no momento, algo sobre um homem russo que era um perigo para o mundo, e que ela precisava pará-lo. Mas não podia ser algo sério, afinal, ela era só uma adolescente. Além disso, havia algo mais de errado: as cores que viu na noite passada. Ao se levantar, correu para frente do espelho mais próxima e não pôde acreditar. Havia uma fonte de luz que formava uma aura amarela em torno de si. Além disso, havia um desenho em sua barriga, algo que lhe lembrava olhos. Ela não sabia o que eram, mas sentia fome naquele momento. Algo de muito estranho aconteceu na noite anterior e agora ela estava enxergando coisas que nunca havia visto antes. Então, decide sair de seu quarto.
Ao ver pessoas, ela conseguia enxergar cores ao redor de seus corpos, detalhes que pareciam dizer algo sobre elas, mas ela não conseguia decifrar-los. Era estranho, nunca ouviu falar de algo assim antes, será que estava doente? Era melhor não contar aos seus pais, ou eles iriam achar que ela estava louca e iriam querer levá-la ao hospital, talvez interná-la. Será que deveria contar à sua irmã? Provavelmente Fabiana acharia que ela está mentindo. O que fazer numa situação daquelas? Gabriela escolheu o silêncio, e assim permaneceu até a sua vida adulta.
Conforme os dias, meses e anos iam passando, ela começou a entender o que significavam as cores que via, ou pelo menos parte delas. Amarelo era a cor mais comum, não conseguiu dar um nome a esse sentimento, pois parecia algo muito genérico. É quando as pessoas estavam distraídas, desconcentradas, sérias ou indo a algum lugar. Raios verdes passeando pelo corpo significavam que a pessoa estava dormindo, e ela jurava tê-los visto ficar mais brilhantes ou se movendo de forma diferente algumas vezes, o que provavelmente significava que a pessoa estava sonhando. Ela sempre reparou nesses detalhes em sigilo, fazendo perguntas que não entregassem sua condição.
Ainda aos 14 anos, Gabriela precisou se mudar para a Rússia com sua família. Os motivos não ficaram claros para ela, ela era nova, porém durante as pesquisas sobre os melhores lugares para se morar, Gabriela sugeriu algo na Planície Siberiana Ocidental, pois foi onde sua avó sugeriu que ela era necessária, e havendo a oportunidade, ela poderia ir. Talvez, dessa forma, ela pudesse se encontrar com sua avó novamente. Optaram então por se viver em Ecaterimburgo, um lugar bem cinza, porém com belas paisagens no centro. Em uma das regiões mais frias da Rússia, tiveram bastante dificuldade em se adaptar, mas os anos foram se passando.
Quando começou a trabalhar como professora, Gabriela pegava ônibus todos os dias, as auras dos passageiros eram majoritariamente amarelas, por exceção de alguns raios verdes. Ela já entendia mais sobre seus poderes oculares, mas muita coisa ainda era um mistério, inclusive a origem desses poderes. Teriam eles a ver com a missão que sua avó citou? E mais, seriam esses seus únicos poderes?
Em 18 de fevereiro de 2017, na véspera de seu aniversário de 24 anos, Gabriela está prestes a receber respostas para muitas questões, ao mesmo tempo em que novas surgirão. Vivendo nos dias de hoje, que surpresas a esperam quando ela tiver seu primeiro contato com uma cor jamais vista por seus olhos especiais?
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