Aurora
9 Dementadores na Rua dos Alfeneiros
Notas iniciais
A última tarde de Aurora na Rua dos Alfeneiros estava, como de praxe, quente e preguiçosa. Os Catburry tinham saído para ir numa feira de legumes gigantes ou algo assim, então a garota tinha arrastado Harry até o outro lado da rua para sentar nos degraus da porta dos fundos, embaixo da sombra refrescante e longe dos olhos de todos, apreciando a beleza da estufa cheia de cores e luz.
— Acho que deveríamos sair hoje. – ela sussurrou, mesmo que seus ombros e joelhos estivessem se encostando pela proximidade.
— Acho perigoso. – ele respondeu, desviando os olhos para bicicleta vermelha que estava encostada na cerca.
— Desta vez nós seremos mais cuidadosos. – Aurora se virou para encara-lo – É a ultima vez.
Ele se voltou para ela e a proximidade fez com que o clima parecesse mais caloroso do que realmente estava. Seus olhos automaticamente foram parar nos lábios cheios e rosados dela.
— Por favor. — ela pediu com insistência.
— Tudo bem. — cedeu ainda temendo se arrepender, causando uma onda de excitação instantânea nela — Mas não vamos longe.
— Certo! — ela sorriu com expectativa — Obrigada.
Com um movimento sutil ela se aproximou e colou os lábios na pele da bochecha direita dele, bem próximo da boca, e um arrepio percorreu seus braços de imediato. Se dando conta da reação do garoto, Aurora riu baixinho.
— Feche os olhos. — ela ordenou e ele acatou com insegurança.
Então sentiu o beijo dela no canto esquerdo da boca, e sucessivamente no seu queixo, nas maçãs do rosto, no nariz, na cicatriz, até finalmente encostar timidamente seus lábios nos dele e se afastar, deixando seu coração aos pulos.
— Vai ser divertido. — ela disse com entusiasmo quando ele abriu os olhos, suas bochechas estavam ruborizadas.
Eles não falaram muito mais depois disso, apenas continuaram sentados na sombra sentindo os lábios formigarem e pensando no passeio que fariam mais tarde.
Ao cair da noite da última aventura, o céu estava limpo e estrelado e eles estavam dispostos a tomar mais cuidado para não topar com a gangue de Duda no caminho nem com barreiras invisíveis. Aurora deixou que Harry guiasse a bike e foi na garupa, se inclinando para trás na intenção de encostar sua cabeça no ombro dele. Ela cantarolava uma musica trouxa que ele desconhecia, e que não parecia com o tipo de musica que já ouvira n’A Toca. Quando passaram por uma rua particularmente plana ela abriu os braços e levantou a cabeça.
Harry podia sentir a energia e felicidade irradiarem dela como a musica que ela cantava, e só queria poder contemplar aquele rosto por mais tempo e sentir aquela adrenalina correndo seu corpo como há dias não sentia, mas sabia que suas oportunidades estavam contadas.
— Não caía! – ele advertiu, e para provoca-lo, ela se jogou para trás e pousou a cabeça no ombro dele de novo, fazendo cócegas em seu pescoço com os cabelos.
Eles pararam algumas vezes durante o caminho para assoprar dentes de leão e roubar flores dos jardins imaculados até que a cabeça de Aurora estava repleta delas, e tinha até um cravinho enroscado atrás da orelha de Harry.
Estavam gargalhando quando viraram a esquina na próxima rua, sem notar que tinham pegado um caminho diferente e mais curto para aquele trecho das cercas vivas. Demorou trinta segundos, absolutamente felizes, antes de Harry começar a sentir um frio repentino penetrar sua pele, gelar seus pulmões e escurecer sua visão.
A cantoria de Aurora havia parado, e eles frearam bruscamente, não muito longe do lugar onde a barreira invisível surgiu da vez anterior. Daquela vez não houve campo do força ou alerta para o quê os estava esperando no final da rua: Dementadores (o garoto não precisava vê-los para saber que estavam ali).
— Harry? – ele escutou a voz dela chama-lo ao longe, como se estivesse a quilômetros de distância e não bem atrás dele.
Harry queria puxar a varinha, queria pensar com todas as suas forças nas ultimas semanas e criar um Patrono forte e brilhante, que os protegeria e afastaria a dor e as trevas que se apossavam do ambiente, mas não conseguia. Porém, como se emergisse de um mergulho profundo, foi tirado do transe por uma mão pequena que tocou suas costas e a uma voz, chamando-o de novo.
— Harry! – Aurora gritou, e ele viu claramente, uma neblina fria e sombras disformes vinham em direção a eles.
Juntando coragem de algum lugar desconhecido, ele deu meia volta fazendo um ruído ao arrastar a roda da bicicleta, e pedalou como nunca antes, mais rápido ainda do que para fugir de Duda. Antes de se distanciar o suficiente, ele ouviu um estalo forte e viu um clarão se projetar no chão a sua frente, mas estava muito aplicado em fugir e ainda estava gelado até a ponta dos dedos para se virar. Sentiu os braços de Aurora rodearem seu corpo, e viu pelo retrovisor que ela estava sentada de lado na garupa, e seus olhos estavam fechados com força, tinha a têmpora colada as costas de Harry. As flores do cabelo dela tinham murchado e caído com a chegada dos dementadores, assim como o cravo atrás da orelha dele.
Ao chegarem na frente da casa dos tios, Harry desmontou rapidamente e puxou a garota com ele, deixando a bike cair para o lado com um barulho metálico. Não quis saber se algum vizinho estaria acordado, ou se a turma de Duda apareceria, nem nada, apenas a tomou nos braços e apertou como se ela fosse desaparecer a qualquer instante, e Aurora correspondeu seu aperto.
— Eu fiquei com tanto medo! – ela disse com o rosto enfiado no pescoço dele – Tanto medo...
— Eu sei, me desculpe. – ele beijou o ombro dela vezes seguidas – Me desculpe.
Ele se sentia culpado por tê-la levado em outro passeio mesmo sabendo que alguma coisa estava errada, havia alguém lá fora pondo feitiços no caminho deles, e então, dementadores! A não ser que fosse um bicho-papão perdido, mas era uma ideia ridícula.
— O que era aquilo? – ela perguntou quando eles se afastaram um pouco, sem deixar de se abraçar – Parecia que eu tinha mergulhado em água gelada.
— Não faço ideia. – como se não tivesse o bastante para esconder dela, também precisaria mentir sobre aquilo – Senti isso, também.
Ela descansou as mãos nos ombros dele e tomou fôlego para falar:
— Eu não conseguia pensar em mais nada, estava lembrando de umas coisas estranhas, mas sabia que você estava ali, então estiquei a mão e consegui te chamar. – ela explicou, algumas lágrimas brotando de seu olhos, ela as secou e pigarreou para controlar a voz – Foi horrível!
— Foi, foi sim. – ele estava abismado com o fato de que ela havia conseguido se ancorar a ele para sair da provação mental que os dementadores causavam.
Por um longo segundo eles se fitaram, ofegantes e frios, um nos braços do outro, e então, respondendo a um impulso que ele já estava cansado de refrear, Harry a beijou. A sensação foi de uma energia morna e feliz enraizando nele, tomando seu peito por inteiro e se espalhando pelo resto do corpo, recuperando o calor que tinha sido roubado. As mãos de Aurora seguravam seu rosto, e as dele envolviam sua cintura. Ele pensou que aquela lembrança poderia criar um dos melhores Patronos de sua vida.
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