Auribus teneo lupum
16 Petrushka
Notas iniciais
Apesar da agitação que a modernidade e o crescimento das últimas décadas vinham conferindo à cidade de Karakura, a vizinhança dos Kurosaki permanecia pacata e tradicional, com suas casas e comércios descansando pacificamente nas ruas apertadas, os pequenos jardins das residências trazendo encanto e leveza à atmosfera.
Após uma manhã de pouco movimento na clínica, Isshin relaxava no sofá da sala, mantendo os olhos fechados enquanto o corpo largado sobre o móvel tentava se recuperar do calor daquele sábado de verão.
Na cozinha, Yuzu cantarolava, entretida com a preparação do almoço conforme o cheiro da carne de porco frita junto às cebolas já começava a invadir os demais cômodos, misturando-se ao odor do molho à base de shoyu e denunciando qual seria o prato principal daquele dia.
Quando o pai já levantava de seu posto, pronto para auxiliar a menina na arrumação da mesa, a campainha tocou, chamando-lhe a atenção com seu zumbido estridente. Entretanto, antes que pudesse cogitar atender à porta, foi surpreendido por um Ichigo alvoroçado, descendo a escada dois degraus de cada vez e disparando até à entrada antes de qualquer um, gritando um “Eu atendo” extremamente suspeito.
Na noite anterior, o garoto voltara tarde de uma festa de aniversário, e apesar de ter fingido que não o vira chegar, Isshin notara o horário em que o filho entrou na casa, dessa vez, aparentemente sóbrio e desacompanhado. – Lembrava-se, ponderando sobre a questão – Bom, nada mais natural do que um universitário se divertir, e não era o tipo de pai que criaria qualquer empecilho a isso. Entretanto, essa urgência toda para receber quem quer que fosse era uma novidade da parte do rapaz... Seria alguma possível namorada dessa vez? Talvez algo houvesse acontecido na tal festinha...
Decidido à investigar a situação, o pai esgueirou-se sem remorso pelo corredor, parando pouco antes da porta de entrada, num ponto onde pudesse espiar sossegadamente enquanto o jovem abria o portão para ninguém menos do que Grimmjow. – Surpreendeu-se, observando o homem de cabelos azuis – Ah, sim... Fora ele quem trouxera Ichigo para casa após aquela festa pouco tempo antes – Recordava-se, fazendo algum esforço para escutar o diálogo entre os dois.
— Eu disse que não precisava ter esse trabalho de vir aqui deixar... – Ichigo Exclamava, vendo o seu interlocutor colocar a mão em um dos bolsos da calça e tirar dali um smartphone.
— E eu disse que não era problema trazer – Grimmy retrucou de imediato, devolvendo o objeto que o jovem esquecera em sua casa na noite anterior – A propósito, você devia pegar leve nessas fotos de putaria, garoto.
— Você olhou minhas fotos? – Questionou no impulso.
— Aham... Logo depois de adivinhar sua senha – Respondeu numa risada, observando o morango tentar corrigir-se.
— Você só jogou verde, né idiota? – Deu-se conta, bufando de modo constrangido – Mas eu não tenho nada disso, OK? Pode parar com essa risada – Reclamou, obtendo como resposta uma gargalhada sonora.
— Você cai em cada uma... – Brincou o mais velho, bagunçando os cabelos alaranjados do garoto em um movimento rápido, divertindo-se com a contrariedade de sua expressão. – Mas eu vou nessa, então.
— Hn. Valeu por devolver – O mais novo soltou, balançando o celular, as sobrancelhas ainda franzidas.
De seu canto, Isshin seguia ainda mais intrigado com o comportamento do filho, decidindo aproveitar a oportunidade para observar mais um pouco dessas interações dele com o ex-professor.
Finalmente surgindo na porta, chamou os dois como se houvesse acabado de chegar, usando o tom descontraído que lhe era característico.
— Ichigooo! Seja um garotinho educado e chame seu amigo para almoçar! – Convidou, sorrindo para o visitante.
— Obrigado, Kurosaki-san. Eu só vim trazer o celular que ele esqueceu ontem – Grimmjow explicou educadamente.
— Ah, a Yuzu-chan fez Katsudon hoje, você não vai querer perder – Comentou, já se virando para entrar – Eu vou arrumar a mesa, então não esqueçam de lavar as mãos, meninos – Acrescentou, desaparecendo dentro de casa antes que qualquer um dos dois pudesse se manifestar.
— Teu pai parece bem mais divertido que você – Grimmjow brincou, observando enquanto Ichigo revirava os olhos, já imaginando as situações vergonhosas pelas quais passaria durante aquele almoço em família.
O garoto correra para atender a porta justamente com a intenção de evitar o constrangimento de ter Grimmy ali, mas parece que não tinha jeito!
Não sentia vergonha de sua família nem qualquer bobagem dessas, mas convenhamos que o clima da casa dos Kurosaki não é para iniciantes... Tendo em vista seu amor platônico mal-resolvido pelo professor, então, surgiam todos os motivos para não querer esse constrangimento.
Para piorar, o que mais o assustava era não saber que tipo de brincadeira ou piadinha Grimmjow poderia fazer na frente do seu pai. Imagina se Isshin escutasse alguma piada como aquela de poucos segundos atrás? – Pensava, já nervoso com o desenrolar dos acontecimentos.
— Ele só não sabe quando parar de brincar – Respondeu, finalmente conformando-se e saindo do caminho para que o convidado entrasse – Você vem, né?
— Acho que não dá mesmo pra recusar esse Katsudon – Respondeu, sentindo o aroma da comida enquanto acompanhava seu anfitrião.
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Após um almoço mais do que animado, Isshin ocupara uma cadeira na sala, observando o convidado do dia sentado no sofá entre Karin e Yuzu concentrado em responder à entusiasmada sabatina das duas garotas, que em poucos minutos já haviam passado pelos mais diversos assuntos. Sentado no chão, próximo aos três, Ichigo permanecia tenso, como se aguardasse o momento em que Grimmjow diria alguma blasfêmia para as jovens.
— Da última vez o seu irmão levou uma surra tão grande que te deixaria com vergonha – O homem contava para Karin, sorrindo debochadamente ao referir-se ao último campeonato de vídeo-game que ocorrera. – Você tem que ensinar umas coisas pra ele.
— Eu até tento, mas o Ichigo não colabora...
— Mas da primeira vez fui eu quem ganhou, esqueceu, Grimmjow? – Tentou se defender, subindo o tom uma oitava ao argumentar.
— Tô vasculhando a memória aqui, mas não me lembro de nada disso – Mentiu, parando por um instante enquanto falava. – Você não devia mentir assim pras tuas irmãs... – Adicionou, fazendo-se de ofendido.
— Não admito ter meu filho apanhando por aí e manchando o nome da nossa família – Isshin intrometeu-se – Está de castigo hoje e vai passar a tarde jogando pra aprender, entendeu mocinho? – Completou em tom sério, tal qual um sermão.
— Claro. Vou deixar de estudar pra isso, né? – Replicou, revirando os olhos.
— O que são os estudos perto da diversão? – O pai exclamou, iniciando um discurso inflamado – Essas coisas de notas são pura bobagem pra dominar nossas mentes! Você tem que brincar e arranjar umas garotas com quem sair, isso sim! Não é, Grimmjow? – Pediu por uma confirmação, ao que o visitante assentiu.
— Eu já falei pra ele que se continuar assim nunca vai arrumar uma namorada. – Disse, virando-se para o garoto em seguida – Você dispensou aquela da outra vez também? – Provocou, rindo internamente com a reação que se seguiu.
— Que garota? – Karin cortou – Você está com alguém e não contou? – Acrescentou, indignada?
— Será a Orihime-chan? – Yuzu perguntou, incerta, ao mesmo tempo em que o pai levantava da cadeira e soltava uma chuva de perguntas em sequência, querendo saber “quem”, “onde”, “quando” e o que mais pudesse arguir.
— Grimmjow, seu filho da puta! – O jovem Kurosaki deixou escapar, ouvindo o riso do homem ecoar mais uma vez. – Olha, não têm ninguém nem nada – tentava explicar para a família – Esse idiota aí que se confundiu.
— Ah, era bom demais para ser verdade – O pai murchou, voltando ao seu lugar ao passo que Ichigo soltava para o amigo um olhar que dizia “você me paga”.
Durante uma boa parte da tarde de sábado, Grimmjow permaneceu entre os Kurosaki, rindo mais do que imaginaria ser possível graças aos comentários inusitados de Isshin e à atmosfera descontraída da casa. Além do mais, Ichigo fora uma atração à parte, tornando-se o alvo do dia, sobretudo, por ficar especialmente constrangido e irritadiço tendo o homem ali.
Como da primeira vez em que viera à casa, as duas meninas também lhe pareceram divertidas, cada uma à sua maneira. Não poderia dizer que tinha “jeito” com crianças, mas nem precisou esforçar-se para ser legal com aquelas, tanto que na hora da despedida chegou à surpreender-se com o pedido de Yuzu para passar a mão no seu cabelo azul porque “parecia legal”. Olhando para o cabelo do irmão ela não deveria se surpreender com nada, mas tudo bem.
— Eu já disse que você é um filho da puta? – Ichigo questionou o amigo, quando já estavam sozinhos diante do portão.
— Acho que já – Respondeu, rasgando um sorriso – Mas você definitivamente tem a casa mais movimentada desse bairro, né? – Mudou de tópico, olhando em direção à residência – Tem que me convidar mais vezes.
— Nem fodendo – Retrucou de imediato, embora também rindo – Jura que eu vou te chamar depois do tanto de merda que você disse hoje?
— Justamente por isso você vai. Sua família me adorou – Comentou com ar vitorioso – E você também gosta do meu senso de humor, nem vem.
— Mas só se eu for muito masoquista.
— Hn... Então você está nessa de BDSM, Ichigo.... Não esperava. – Respondeu, malicioso – Só tem a cara de santo, então?
— Desisto de você, Grimmjow – Anunciou, movendo os braços e revirando os olhos – Cê não tava indo embora? – Lembrou, os dois ainda no portão da casa.
— Estava – Aproximou-se mais do rapaz enquanto falava, puxando-lhe o rosto em uma espécie de chave de pescoço enquanto lhe fazia um cafuné com a outra mão. Ignorou os protestos do rapaz, soltando-o alguns segundos depois e terminando – A gente se fala, então.
Subitamente constrangido, o Kurosaki resumiu-se à um “Até depois”, voltando para dentro tão logo o avistou entrando no carro.
De seu lado, Isshin viu o filho suspirando longamente ao entrar, antes de subir as escadas com a mesma expressão estranha que fizera enquanto conversava com Grimmjow assim que o homem chegara.
Depois daquela visita, o pai tivera a certeza de haver algum clima estranho entre os dois... Era óbvio que Ichigo tratava aquele cara de uma forma diferente de qualquer outro amigo que conhecera, contudo, ainda não estava certo sobre o quê aquilo poderia significar.
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3h00min do dia 09 de agosto.
Nelliel conferia mais uma vez o relógio, já supondo que haveria algum atraso.
Sentada em um banco enferrujado, desgastado pelo tempo deixado à céu aberto, a mulher encarava o negrume do céu, ouvindo nada mais que o silencio do bairro periférico. Mantinha-se quieta, iluminada pela luz fraca instalada ao lado de seu banco, na parede dos fundos do balcão onde costumava trabalhar.
O lugar, de estrutura bastante grande, embora consideravelmente antiga, ainda era usado como depósito, entretanto, desde que a mulher o comprara com um nome falso, as salas mais ao fundo serviam para seu uso, deixando como faxada de legalidade a função de guardar materiais variados, destinados ao comercio da região.
Dois amigos de confiança, que Nell tratava como parceiros essenciais, gerenciavam o local, cuidando de tudo o que entrava, mas certificando-se de que nenhum funcionário de qualquer das empresas que utilizasse o local enquanto depósito bisbilhotasse nas salas da mulher.
Assim, todo mundo ganhava: Ela tinha um local apropriado para trabalhar, distante de sua casa, fora de suspeita e livre de relações com o seu nome, enquanto os comerciantes da região tinham ao seu dispor um grande depósito à preços invejáveis.
Finalmente, avistou, através das grades do portão metálico, um sedã preto que adentrara o beco estreito e sem saída nos fundos do depósito. De onde estava, apertou o botão do controle, deixando que o carro entrasse para então fechar novamente o portão, pouco antes de ver sair do veículo o homem de longos cabelos pretos o qual esperava, a expressão agressiva e ardilosa talhada no rosto como um totem ameaçador.
— Está atrasado – Informou, levantando-se de seu lugar.
— Não é tão simples trazer essas merdas, mulher. Você precisa de muita coisa – Retrucou, dirigindo-se ao porta-malas e abrindo-o para que Nelliel conferisse seu conteúdo.
— Não é qualquer um que consegue importar esses produtos. – Comentou, observando os compostos e materiais cuidadosamente guardados no carro – É bom que você não pretenda fazer nenhuma brincadeira com essa encomenda.... Para quem está trabalhando dessa vez, Noitora? – A pergunta veio em tom sério, acompanhada de um olhar grave em direção ao homem que sabia atuar como mercenário, prestando serviços à diferentes figurões do sub-mundo japonês.
— Isso não é da sua conta. – Retrucou de imediato – Você não é fiel à nenhum sindicato, não é? Receba sua grana e faça o trabalho calada. – Adicionou, ríspido.
— Certo. Mas lembre-se das regras. Não quero isso sendo usado em civis. – Continuou, lembrando-o da norma comum aos diversos sindicatos yakuza, de que as disputas devem permanecer entre os integrantes dos grupos, sem envolver a população em geral.
— Não preciso de você pra me dizer isso – Replicou, voltando-se para a frente do carro e tirando de lá a maleta com o pagamento da mulher. – Eu venho buscar na data combinada. – Anunciou, observando-a retirar os objetos do porta-malas, guardando-os nas caixas que já deixara preparadas do lado de fora.
— Entendido – Soltou, seca, levando as caixas para dentro após a saída de seu cliente.
Com um estranho incômodo, iniciou as preparações de seu projeto, incumbindo-se do encargo de manipular explosivos de última linha, modificando uma bomba de modo a torna-la de difícil detecção, concentrando seu poder destrutivo sem deixar que os vestígios do explosivo fossem descobertos por uma eventual perícia.
Não era um trabalho simples, mas Nelliel já tinha experiência com aquele nicho do mercado. Sabia bem o que estava fazendo.
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Conforme o oitavo mês do ano se encaminhava para o seu fim, Grimmjow Jaegerjaquez tomava consciência de sua inquietude e irritabilidade, passando para um estado de humor que beirava o insuportável.
Seu pavio letalmente curto era algo que conhecia bem, após 27 anos de convivência consigo mesmo, contudo, essa irritação crescente não se devia à qualquer característica intrínseca de sua personalidade. Era algo que vinha crescendo dentro de seu peito recentemente, atrapalhando-o e rompendo as amarras que em geral usava para manter contido o seu lado destrutivo.
O nome do filho da puta responsável por isso, a propósito, era Kurosaki Ichigo.
A última vez em que estivera em contato com o garoto fora no primeiro dia do mês, quando o visitara em sua casa para devolver um celular logo após seu aniversário. Acontece que além de não terem se visto novamente depois disso, o moleque simplesmente não estava mais falando direito com ele!
Ok, não era uma coisa proposital, o futuro médico estava atarefado com a faculdade e essas merdas, mas custa responder as porras das mensagens, pelo menos?
Soltando o ar com aspereza, o homem caminhava pelo apartamento, irritando-se até com o vento que porventura passasse onde não fora autorizado. A porta do banheiro foi descuidadamente escancarada, o som da maçaneta batendo na parede ecoando após a força do impacto.
Tomara banho há menos de uma hora, ainda assim, abriu inconformado a torneira da pia, jogando água fria no rosto e cabelo em uma tentativa de esfriar a cabeça, ou seja lá o que estivesse querendo. Os olhos azuis prenderam-se ao espelho longo fixado acima da pia, em uma reflexão odiosa, mas necessária. Precisava entender o que estava acontecendo em sua cabeça ou iria explodir!
Certo, para começar, se tornara mais próximo do Kurosaki há quase um ano, mas só deixara de ser professor do garoto há cerca de 5 meses, sabendo dos sentimentos que o rapaz possivelmente nutria por ele. – Pensava, tentando colocar tudo claramente. – Mas agora Ichigo estava na faculdade, vivendo outras coisas e com pessoas diferentes. Talvez já tivesse deixado para trás aquela paixonite de estudante, inclusive.
Entretanto, ali estava ele, quase 10 anos mais velho, se sentindo aborrecido porque os dois não estavam conseguindo se falar. Mas que grande merda – Concluía, desviando-se de seu reflexo e afastando-se do banheiro, rumando para a cozinha com a expressão totalmente fechada, em busca de algo para jantar, .
O pior é que mesmo durante a folga do o-bon o Kurosaki permanecera distante. Viajara com a família e tudo o que conseguiram foi conversar pelo line durante alguns minutos após o feriado.
Talvez tivesse de admitir que também estava com os próprios horários bastante preenchidos pelo trabalho naquele semestre, mas a maior parte da culpa era com certeza do Ichigo. – Dizia a si mesmo, vasculhando os armários da casa e abrindo a geladeira repetidas vezes, como se aguardasse algo novo surgir magicamente em alguma das prateleiras.
Desistindo de tudo o que tinha em casa, alcançou o celular para pedir algo que não fosse comida congelada ou outro prato do FamilyMart vizinho ao seu prédio. Já comera tantas vezes lá no último mês que poderia vomitar só de pensar em qualquer uma das opções do estabelecimento.
Entretanto, parou ao se dar conta da notificação de mensagem, com a primeira resposta de Ichigo em quase duas semanas, enviada poucos minutos antes.
Ichigo:
Hey
Tava cheio essa semana também, mas minhas provas terminaram hoje
Você vai pro aniversário do Renji domingo?
Os olhos dispararam pelo texto trivial, estreitando-se diante das palavras do rapaz. O filho da puta tinha a ousadia de não olhar a merda do Line por semanas, deixa-lo esperando esse tempo todo e depois responder como se nada tivesse acontecido? – Pensou de primeira, assaltado pela sensação de ter se transformado em um adolescente ressentido por alguns segundos.
Respirou fundo, tomando a não muito madura decisão de ignorar a mensagem e responde-la depois do jantar. Ia deixar o Kurosaki esperando pra aprender que Grimmjow Jaegerjaquez é quem sai por cima. Contudo, não conseguiu enrolar por muito tempo nesse processo de pedir algo e comer, descobrindo-se diante do celular pouco mais de uma hora depois, esforçando-se para dar uma resposta minimamente adulta.
Grimmjow:
Vou
Foi tudo o que conseguiu escrever, mas parecia o suficiente.
Antes que largasse novamente o smartphone, o aparelho vibrou com a chegada da resposta:
Ichigo:
Tá ocupado?
Grimmjow:
Não
Ichigo:
Sei
A gente se vê lá então
Grimmjow:
Flw
Em seu quarto, O Kurosaki franzia o cenho diante do diálogo mais estranho que já tivera com Grimmjow. O que estava acontecendo?
Claro, sabia que não tivera tempo de conversar adequadamente com o homem durante esse último mês, mas não o fizera intencionalmente. Pelo contrário, se pegara sentindo muito mais falta do contato diário que vinham tendo até então do que poderia ter imaginado sentir.
Não era nada como um livro romântico, em que o mocinho tenta desesperadamente esquecer seu primeiro amor, mas só consegue imaginar essa pessoa em todos os lugares, mas continuava, sim, balançado por Grimmjow.
Saíra com outras pessoas desde que começara a faculdade e até cogitara tentar um namoro com uma senpai de seu curso, mas no fim das contas achou que não estaria sendo sincero com a garota se o fizesse. Aí estava o ponto de seus sentimentos: tinha se conformado com a amizade por supor que um relacionamento com o ex-professor não seria possível, mas ainda não encontrara alguém que pudesse considerar mais especial do que ele.
Fora meio confuso e complicado no começo, mas no momento entendia que embora fosse capaz de esquecer seu amor platônico, como qualquer pessoa é, talvez só não o quisesse, lá no fundo, tanto por não ter outra pessoa de quem gostasse igualmente quanto por não ter perdido totalmente as esperanças com o homem. Sobretudo, ainda tinha Rukia em sua orelha, sempre o incentivando a não desistir.
Garota teimosa... – Pensava consigo mesmo, jogado sobre a cama com o celular caído ao seu lado em algum ponto do colchão – Rukia se achava mesmo a madrinha daquele relacionamento que nunca começou, mas até que não era ruim escutá-la tagarelar sobre suas teorias de psicóloga acerca do comportamento dos dois. – Concluiu, virando de lado e encarando a porta do quarto.
Também não estivera em contato com ela nesse mês, pelos mesmos motivos que o afastaram de Grimmjow e de basicamente todos os demais amigos fora do seu campus.... Talvez tivesse se isolado demais graças à preocupação com o fim do semestre, mas não era algo que pudesse ter evitado.
Enfim, era uma pena que Grimmy parecesse tão estranho agora que ele retornara... Não saberia dizer se o homem estava chateado com algo ou simplesmente de mau-humor, então acabou escolhendo esperar para ver o que aconteceria depois.
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Ao fim de mais um dia quente do verão japonês, a noite começava a se estender sobre Karakura, caindo acompanhada por uma chuva que aos poucos se tornava mais forte, obrigando Renji e seus últimos convidados a afastarem as mesas e o que sobrara da bagunça de sua festa de aniversário para a parte coberta do deck de seu prédio.
Por azar, o dia caíra em uma segunda-feira naquele ano, obrigando-o a comemorar no domingo anterior de modo a conseguir reunir os amigos para uma espécie de churrasco à moda brasileira, que começara no almoço, mas se estendera por todo o resto da tarde.
Do lado de fora do prédio, a porta do Jeep Renegade de Grimmjow foi fechada num baque silencioso enquanto Ichigo Kurosaki, tomava seu lugar à esquerda, no banco do passageiro, correndo uma das mãos pelo cabelo de modo a retirar dali as gotas d’água que se acumularam durante a caminhada até o carro.
O dono do veículo fez o mesmo, afivelando o cinto e girando a chave num silêncio estranho e constrangedor, tal qual o clima que se instalara entre os dois durante todo o dia. Não pareciam brigados, mas também não era como se estivesse tudo certo.
“Não vai pra estação nessa chuva, né Ichigo? O Grimmy está saindo agora também. Ele te leva, né?” Renji dissera poucos minutos antes, quando o Kurosaki se despedira, direcionando a pergunta à Grimmjow, o qual assentira com um “aham” desinteressado, rumando para fora sem aguardar uma réplica ou recusa da parte de um Ichigo que acabou sem escolha a não ser segui-lo.
Agora já haviam cruzado a primeira quadra sem que qualquer palavra fosse proferida, deixando o ruivo angustiadamente desconfortável. – Que merda ele queria com isso? – Perguntava-se, incerto se havia feito algo para causar aquela situação. Interagiram bem pouco durante todo o dia, mas enquanto estavam cercados pelos outros amigos isso não fora incômodo. Já ali...
Entretanto, para o bem dos dois, o Kurosaki não era passivo a ponto de lidar com algo assim sem se manifestar. Quando o carro parou num sinal, ele foi o primeiro a falar:
— Então, eu fiz alguma coisa pra você ficar assim? – Perguntou, tentando soar casual.
— Assim como? – O mais velho se fez de desentendido, dando de ombros.
— Na boa, você pareceu estranho quando me respondeu naquele dia e hoje também. Se foi alguma coisa que eu fiz é só falar.
— Qual é Ichigo? Você não fez nada. – Falou, torcendo os lábios num sorriso irritado, afastando uma das mãos do volante para gesticular – E eu também estou normal – Completou, arrancando novamente quando o farol abriu.
O garoto arqueou as sobrancelhas, fechando a expressão diante daquela teimosia toda. – Se tinha algum problema era só dizer. Que merda o desgraçado queria? – Perguntou-se, soltando o ar num suspiro pesado e afundando-se mais no banco do carro.
A expressão de Grimmjow ficou difícil de ler, num misto de contrariedade com alguma irritação infantil. Entretanto, diante do silêncio alheio, o homem acabou não conseguindo segurar a língua e traindo sua própria decisão de não dar um piti de adolescente com o outro.
— Você me deixou no vácuo o mês inteiro – Deixou escapar de uma só vez, a contragosto.
— Quê? – Foi a resposta do Kurosaki, mais surpreso do que confuso.
— Você ouviu, porra. – Replicou, irritado – Beleza que você está ocupado com a faculdade, mas além de não dar as caras ainda para de aparecer pelo celular? Ajeita essas porras desses teus horários.
— Espera, você ficou puto porque a gente não estava se falando direito? – Questionou, já supondo ter entendido algo errado.
— Eu não fiquei puto – A voz saiu meio alterada, tentando negar o óbvio – Eu só não gosto de gente me deixando na merda. – Generalizou, tentando evitar que o assunto se tornasse ainda mais vergonhoso.
— Eu estava fechando o semestre, não deu pra evitar – A resposta veio calma, conforme Ichigo se dava conta de que o desentendimento na verdade não era nada demais – Mas agora eu estou tranquilo, vou te dar atenção – Brincou, observando o constrangimento transparecer na forma de irritação pelo semblante do outro.
— Ah, vai se foder, garoto – Retrucou, virando uma esquina – Não é nem só por mim. Você é que não pode sumir da sociedade em todo final de semestre – Não vai perder a virgindade nunca se continuar nerd assim, eu já disse – buscou mudar o foco da conversa, sem querer dar margem a mais brincadeiras sobre si mesmo.
— Quando foi que eu fiquei importante assim na sua tabela de amigos mesmo, conselheiro amoroso? – Insistiu, tendo a inédita sensação de que talvez fosse mesmo alguém especial para ele, de alguma forma.
— Vai se achando – Soltou, um tom abaixo do habitual, tentando visualizar como desfazer todo aquele mal-entendido que criara. Devia simplesmente ter deixado a história toda pra lá e agido normalmente, mas não... Tinha que fazer cena e cair naquela sinuca de bico. – Eu só sou o melhor amigo que você poderia querer no universo – Continuou, aos poucos voltando aos seus modos habituais. – Não é qualquer um que tenta te salvar de você mesmo.
— Ah, claro. – Concordou numa gargalhada.
— É sério. Tem que ter vida social, porra – Prosseguiu, parando por um momento para xingar um motorista que quase o trancou, ainda que de dentro do carro, com os vidros fechados, o responsável não pudesse ouvir – Cê é o nerdão da sala, né? – Tripudiou, olhando rapidamente para o passageiro.
— Na verdade esse papel é do Ishida – Comentou numa risada. – Eu sou, sei lá, o cara normal.
— O ‘delinquente’ de cabelo laranja? – Arguiu, lembrando-o da fama que tinha no colégio. – Normalzaço, hein?
— E você tem moral pra caralho, né? – Retrucou – Acho que na faculdade essas coisas fazem menos diferença que no ensino médio – Comentava, agora tranquilo, já sentado de maneira relaxada no banco. – Mas espera, a gente não passou da estação? – Interrompeu-se, olhando através da janela para as ruas encharcadas à sua volta.
— E você só viu agora? Tá bom de localização... – Ironizou, sorrindo diante da confusão no olhar do garoto. – Sabe o nome dessa rua também?
— Tá, mas eu ia descer na estação, esqueceu? – Cortou, ignorando as piadinhas.
— Não. Tô te levando pra um puteiro, pra aprender umas coisas.
— Como? – A voz escapou alterada, junto às sobrancelhas arqueadas e a expressão surpresa.
A resposta do mais velho começou com uma gargalhada, preenchendo todo o carro até que ele conseguisse se acalmar o suficiente para formar as palavras de maneira correta.
— Porra, sua cara foi ótima – Começou, balançando o rosto com as últimas risadas. – Lógico que eu vou te deixar em casa, garoto.
— Filho da puta... – Exclamou num suspiro com a pegadinha – Mas na boa, não precisava. Sua casa é no caminho oposto.
— Tranquilo, Ichigo – Falou, já entrando na avenida que levaria à vizinhança dos Kurosaki – Sem falar que está na hora do jantar, então vou aproveitar pra aceitar quando seu pai me convidar e ficar pra comer com vocês. – Adicionou, numa espécie de previsão do futuro. – Esqueceu que agora eu sou o filho preferido?
— Você mal foi lá em casa duas vezes, Grimmjow! – Argumentou diante da lendária autoconfiança do outro.
— Pois é. E já consegui mais do que você em 18 anos – Disse em tom sério. – Não precisa se sentir mal. É só que eu sou legal demais pra que você possa competir.
— E humilde, né?
— Pra quê humildade sendo eu? – Comentou como se fosse óbvio – Vai, pode admitir que eu não preciso disso.
Ichigo ainda tentou contra-argumentar, mas suas palavras perderam força quando, após estacionar na garagem dos Kurosaki para que ele descesse, Grimmjow foi imediatamente convidado para jantar e passar um tempo por lá.
Bom, pelo menos o clima estranho de antes fora totalmente desfeito e agora ele sabia o motivo do ocorrido.
Talvez devesse até ficar feliz com a situação, já que o fizera descobrir que Grimmy se importava com ele a ponto de criar uma cena só porque não estavam se falando direito. – Concluía, já aproveitando o jantar com a família e o visitante da noite. – Não parecia do perfil dele se dar ao trabalho de ficar incomodado com algo trivial assim, então só podia supor que a amizade deles era especial de alguma forma.
Não podia imaginar até que ponto, mas acreditava que eram boas notícias.
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Para livrar os habitantes de Karakura das altas temperaturas do verão, o equinócio de outono finalmente chegara, marcando a mudança de estação e o início das alterações que a paisagem sofreria durante os meses seguintes. A noite de setembro caía lentamente sobre a cidade, engolindo casas, ruas e edifícios com seu manto escuro, as primeiras estrelas surgindo como sentinelas do céu noturno.
No último andar da sede da Kuchiki Co.LTD a ampla sala de conferências seguia lotada por acionistas, grandes empresários, investidores e membros da imprensa, todos com seus rostos voltados para o púlpito de onde o CEO da empresa discursava.
Acompanhado por diversos funcionários, sobretudo os envolvidos diretamente com o projeto Hougyoku, Byakuya dava explicações acerca das tecnologias utilizadas, impressionando os ouvintes com a descrição dos elementos que tornavam o trabalho tão inovador.
— O projeto Hougyoku reúne diferentes tecnologias desenvolvidas dentro dos laboratórios da Kuchiki Co. LTD, representando um conceito nacional e internacionalmente inédito, a ser aplicado à diversos tipos de construções. – A voz profunda de Byakuya ecoava solenemente pelo local, prendendo a atenção dos expectadores conforme prosseguia – Seus pilares básicos são Resistência, estética e sustentabilidade, tendo cada um deles suas respectivas inovações conceituais e estruturais. – Adicionava, deixando que a plateia observasse os telões ao fundo do ambiente, onde eram apresentadas imagens acerca do projeto e de seus conceitos. – Mais de um ano após o início da implementação do projeto, nos encaminhamos para o fim de sua fase inaugural, com a apresentação das já avançadas obras do primeiro edifício a utilizar as tecnologias patenteadas. Ademais, apresento-lhes a equipe responsável por todo o projeto, passando a palavra à Urahara Kisuke, Chief Technology Officer da Kuchiki co. LTD. – Encerrou, apontando os componentes da equipe e dando lugar ao CTO sob uma salva de palmas.
Bem mais ameno, Urahara começou seu discurso em tom informal, causando risadas ao comentar que “Era uma pena ser introduzido por um homem do porte de Byakuya, pois assim ele pareceria bem menos atraente na comparação”.
Em seguida, deu continuidade aos esclarecimentos, demonstrando porque o projeto era tão audacioso ao esmiuçar as tecnologias que ele representava, todas desenvolvidas dentro da empresa.
A estética dizia respeito à utilização de conceitos de design que tornavam as construções visualmente diferenciadas ao apropriar-se das formas presentes na natureza. Esse ideal livrava as obras de tenções comuns ás outras formas, o que as tornava, por conceito, indestrutíveis e capazes de suportar indefinidamente cargas diversas sem sofrer desgaste.
A resistência, por sua vez, se referia à técnica inédita de rearranjar as fibras têxteis no interior do concreto de modo à torna-las análogas às fibras do coco. Esse conceito novo dentro da engenharia de materiais seria capaz de evitar impactos e criar a perfeita tecnologia anti-terremotos.
Finalmente, a sustentabilidade significava a criação de obras ecologicamente corretas e capazes de gerar a própria energia limpa. Isso seria possível através da utilização de placas solares de titânio de bário, desenvolvidas pela empresa e com eficiência muito superior ao limite dos materiais comuns.
Após todas as descrições e esclarecimentos, era fácil notar que a conferência fora um sucesso.
Não simplesmente os presentes no salão da empresa, mas diversos outros grupos, indivíduos e instituições vinham manifestando seu interesse no projeto Hougyoku, e a repercussão quase instantânea do evento naquela noite foi só mais um dos bons presságios que a Kuchiki, Co. LTD seguia recebendo.
Agora, era tudo questão de manter o foco e prosseguir com as construções do edifício inaugural daquela linha de tecnologias.
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