Audeline
7 Capítulo 5
Notas iniciais

Bella fez tudo direito desta vez. Sem rastros. Sem pontas soltas. Sem danos colaterais. A experiência era mesmo uma benção. Não precisaria de outro projeto tão cedo; este último revelara-se particularmente lucrativo, apesar do gosto amargo que James Witherdale deixara em sua boca. A volta para sua casa em Phoenix e o jantar pomposo com Angela foram a inauguração silenciosa de suas tão aguardadas férias.
A mensagem de H. surgiu na tela do Iphone:
acabou?
Bella deitou-se de costas na cama espaçosa, o celular entre as mãos enquanto digitava.
Sim. Não aguentava mais aquele filho da mãe covarde.
o backdoor tá no computador dele
Ótimo.
outra coisa
não sei se vc viu, mas o dinheiro já tá na sua conta
irrastreável
Deus abençoe as suas habilidades, pensou. Era graças a H. que conseguia infiltrar-se nas contas bancárias de suas vítimas.
ainda quer que eu fique de olho na Angela?
Não precisa. Já resolvi o problema dela.
beleza
te aviso se achar alguma coisa
Bella deixou o celular ao lado da mesa de cabeceira. Espalmando as mãos sobre o estômago, encarou o teto, o lustre com as luzes douradas cintilando para ela. Era mesmo irônico: a única pessoa que a conhecia de verdade era alguém que ela nem sequer sabia o primeiro nome.
H. surgiu em sua vida na época da faculdade, quando a primeira vez acontecera. Bella lembrava-se de todos os detalhes, embora tivesse passado os anos subsequentes esforçando-se para esquecê-los. Quando achava que tinha feito algum progresso, eles vinham de repente e se alastravam, perturbando seu sono, queimando atrás dos olhos. Lesões permanentes em sua retina.
Dezenove anos. Morava num apartamentinho com três meninas, os dias resumiam-se a correr da faculdade para o estágio miserável. A única preocupação na cabecinha de vento era passar no curso. As horas perdidas no trajeto diário contribuíam para os atrasos e faltas regulares. A maioria dos professores não dava a mínima para quem frequentava ou deixava de frequentar suas aulas.
Mas ele se importava. Suas mãos pressionaram o estômago, a escuridão substituindo as luzes resplandecentes assim que Bella fechou os olhos. Os detalhes queimando queimando queimando —
Bella está sem fôlego depois de correr pelo campus e entrar afobada no prédio, os corredores vazios. Aproxima-se da sala 120 e fecha a porta atrás de si com cuidado para não produzir nenhum barulho, e mesmo assim ele para a aula e olha para ela. Olhos pequenos e escuros, dois botões pretos. Jeff Wallace, seu professor de História da Comunicação, fios grisalhos e um brinco de ouro na orelha esquerda, pele ressecada e bronzeada de quem vai à praia todo fim de semana. Ela anda até as últimas carteiras, não gosta dele, não gosta de seus olhares, de como interrompe a aula para destacar seu atraso com caneta marca texto.
Quando a nota da primeira avaliação vem baixa, tem certeza de que a culpa é sua. Vou estudar mais, vou sim, enfiar a cara nos livros até absorver o conteúdo na alma. Nos meses seguintes, as notas despencam, atirando-se desgostosas no precipício, e Bella não sabe ainda, mas não há nada que possa fazer.
Começa aos poucos, pequenas doses desconfortáveis, mas insuspeitas. Isso é coisa da sua cabeça, Bella, pare de imaginar besteiras. Primeira dose. Jeff Wallace desenvolve o hábito de andar por entre os alunos, demorando-se na última fileira. Segunda. Começa a se apoiar na carteira dela, os dedos amassando as folhas de seu caderno. Terceira. Repousa a mão nos seus ombros enquanto explica a matéria. O polegar alisa sua pele.
A última dose. "Isabella, quero falar com você depois da aula."
A sala está vazia. A noite cai, os alunos de Publicidade estão indo embora, o campus está desértico exceto pelas conversas dos estudantes de Direção Teatral no andar de baixo. Ela quer ir para casa, mas Jeff insiste que precisam discutir sobre suas notas, sobre seu fracasso iminente na matéria se ela não fizer algo quanto a isso.
"O que vai fazer quanto a isso?" Ela não responde, ela não sabe, ela só quer ir para casa, por favor me deixe ir, o silêncio no cômodo preenchido apenas pelo estertor do ar-condicionado moribundo.
"O período está acabando, Isabella." Jeff Wallace circunda Isabella Swan como um lobo.
Ele pega uma mecha de cabelo castanho e a coloca por trás de sua orelha. Lambe os lábios. "O que vai fazer quanto a isso?" Ela não olha para ele, evita seus olhos pequenos e escuros como o fundo de um cano de revólver. Neste segundo atém-se aos ponteiros afiados do relógio da sala de aula, contando as horas, os minutos, os segundos para o fim. Jeff está prestes a acabar com o resto de espaço entre eles quando Angela Weber abre a porta e a salva do que poderia ter acontecido.
O que vou fazer quanto a isso? Vou denunciar você, seu filho da puta.
No dia seguinte, encaminhou-se até a direção do curso. Narrou o acontecido com voz morta. Descobriu que a sua não era a primeira denúncia contra ele, e ela recebeu a mesma resposta que as outras. De qualquer forma, não havia nada a se fazer — Jeff continuaria dando aulas normalmente enquanto não surgissem provas concretas. Bella pensou em trancar História da Comunicação para fazê-la depois com outro professor. Porém, a matéria era obrigatória. E Jeff era o único docente disponível.
Naquele dia, depois que a noite chegara e suas colegas de apartamento tinham ido dormir, Bella apagou as luzes do quarto, trancou-se no único banheiro da casa e afundou o rosto no travesseiro velho que pegou da cama para não fazer nenhum barulho. As lágrimas escorreram silenciosas e molharam a fronha. Não havia saída.
Então H. entrou em cena como um raio de sol após uma tempestade. Bella encontrara na mochila um bilhete digitado com o plano. Também recebera um e-mail com orientações precisas de como deveria agir. H. prometera ajudá-la e guiá-la quando necessário, mas sob duas condições: que Bella nunca procurasse saber quem era; e que, se tudo desse errado, ela teria de lidar com as consequências sozinha.
Considerando as palavras de H. e ciente de toda a merda que aquilo poderia dar, respirou fundo e deu o primeiro passo — começou a ter aulas particulares com Jeff Wallace todo sábado.
A princípio, estava em clara desvantagem. Os braços e pulsos finos indicavam a ausência de força física, e seus 1,60 de altura não eram páreos para os 1,80 dele. No entanto, quando notou os olhos predatórios de Jeff embebedando-se de cada movimento de seu corpo e cada palavra saída de sua boca, percebeu que carregava dentro de si as ferramentas certas para construir uma arma letal.
Estudou-o a fundo, como se ele fosse seu trabalho de conclusão de curso. Avaliava os mínimos gestos, analisava as mudanças microscópicas de expressão, ponderava sobre o que dizia, buscava significados e motivos ocultos em suas preferências. Descobriu a fórmula da mulher dos sonhos de seu professor.
E transformou-se nela.
Suas notas em História da Comunicação tornaram-se as mais altas da turma. Jeff estava a seus pés, cego de desejo. Passou a comprar presentes para Bella todo mês — como tinha nojo de cada um deles, vendeu todos e ganhou a maior soma de dinheiro que tinha visto na vida.
O final do ano anunciou também o fim de seu projeto pessoal. Voltou à sala da direção com um sorriso de triunfo glacial e um grosso envelope com imagens, textos e gravações. Jeff saiu da universidade. Ela desapareceu de sua vida para evitar qualquer retaliação. Mudou-se para Phoenix. E executou a etapa final do plano: pediu a H. que invadisse a conta bancária de Jeff e transferisse todo o dinheiro para uma conta falsa e irrastreável a qual só Bella tivesse acesso. Aqueles oitenta mil dólares não chegavam nem ao mínimo que deveria receber depois do que tinha enfrentado.
Terminara aquele ano dos infernos sentindo-se suja e desconectada de si mesma. Os meses seguintes voaram diante de seus olhos entorpecidos. O dinheiro que roubara de Jeff dissipava-se aos poucos até desaparecer por completo. No início, Bella achava que as coisas tinham voltado aos eixos. Que ela tinha voltado ao normal.
Mas quando se viu considerando um próximo projeto em vez de um emprego, recusou-se a admitir, mas soube, lá no fundo, a sete palmos do abismo escuro e inabitável de sua mente, que tinha enterrado uma parte de si mesma.
—
Parecia que estrelavam um episódio de uma daquelas séries policiais de TV a cabo que Bree maratonava nos fins de semana (isso mesmo, Rosalie confirmou suas suspeitas no domingo passado). As três encontravam-se sentadas no tapete da sala, os ombros tensos e as testas com pequenas gotas de suor. Leah foi a primeira a quebrar o silêncio:
— Onde estão os arquivos?
Bree abriu o envelope marrom e espalhou sobre o tapete bilhetes rasgados, anotações em folhas A4, cópias de documentos, recortes de jornal e fotos impressas em preto e branco.
— Vamos lá, meninas. — Leah suspirou. — Perfil.
Rosalie começou a ler uma das notícias destacadas de um jornal no ano anterior.
— A primeira vítima foi Lauren Mallory, 22 anos, estudante de Música na Universidade de Phoenix, dada como desaparecida no início do ano passado. Acharam o corpo naquela estrada em Seattle que estava em obras.
— A segunda ainda não sabemos quem é. Deve ter uns vinte e poucos também. Encontramos em janeiro, na cachoeira daquela trilha proibida no Olympic National Park. — Bree pausou. — Como vamos descobrir a identidade dela?
— Nós não vamos fazer nada. A polícia vai se encarregar disso. Dei a dica para os donos do hotel antes de irmos embora. A essa altura já devem estar naquela trilha, procurando algum suposto turista perdido.
— Duvido que a morte dela vá aparecer na televisão. No máximo uma notinha numa revista local falando sobre o perigo de ataque de cobras ou algo assim.
— Depende, Rosalie.
— Depende do quê, hein?
— De quem ela era. — Leah olhou para as duas. — Vamos lá, meninas, semelhanças.
— Obviamente, as duas eram mulheres, na casa dos vinte, abandonadas em lugares com pouca circulação de pessoas, com perda total de sangue e…
— E as semelhanças param por aí — Bree interrompeu Rosalie, triunfante.
Leah apoiou a cabeça nas mãos. "Lá vamos nós de novo", Rosalie ouviu-a sussurrar para si mesma.
— Sei muito bem o que está insinuando, novata, e, sem ofensas, mas você tá errada.
— Eu não entendo por que você ainda se recusa a admitir que o modus operandi do segundo foi diferente do primeiro.
Modus operandi… Até as expressões dos personagens a novata adotou, vai vendo…
— Ah, é? Diferente como? Explica pra mim! Duas meninas de vinte foram jogadas fora como lixo, os corpos mais secos que maracujá de gaveta!
As bochechas e orelhas de Rosalie estavam quentes.
— A primeira teve o rosto arruinado, o corpo aberto em carne viva e as roupas destruídas. Posso não ter estado lá como você, mas vi as fotos, Rosalie. Aquilo estava carregado de violência, de… de ódio. Enquanto isso, a segunda estava praticamente intocada, como se estivesse dormindo e…
— Ah, sim, claro, tendo o melhor sono da sua vida com aquele pescoço ensanguentado! Por favor, Bree, essa merda toda é obra de um único monstro!
— Dois.
— Um.
— Dois!
— Um!
— D…
Leah bateu a mão na coxa, o som do estalo chamando a atenção das outras.
— Nós não vamos discutir esse ponto de novo! Não percebem que esses detalhes não importam? Precisamos focar em fazer o que estiver ao nosso alcance para impedir um próximo ataque! Compreendem isso?
Rosalie olhou mais uma vez para os papéis espalhados na sala.
— Então vamos precisar de mais informações. Enquanto a identidade da segunda garota não aparece, a gente devia trabalhar com o que tem…
— E o que temos exatamente?
— Isso. — Rosalie apontou as unhas recém-pintadas de preto para a cópia da carteirinha de estudante de Lauren Mallory.
—
Enquanto esperava naquela saleta com cheiro de mofo e cigarro, James Witherdale reconheceu que estava mesmo no inferno. Mas a estadia seria temporária, dizia a si mesmo. Passou o mês anterior ocupado demais tentando recuperar (em vão) o dinheiro de seus investimentos para sequer ter tempo de caçar Giulia.
No início de março, ainda recusava-se a pedir ajuda. As olheiras fundas no rosto eram provas indeléveis — tinha adquirido o hábito de passar as madrugadas revirando a memória em busca de uma pista, qualquer uma, ao menos uma, que o levasse até Giulia. O hematoma da traição latejava em seu peito, e embora uma parte vacilante dele ainda a desejasse como antes, agora não havia nada que quisesse mais do que arrancar o pelo macio e escaldar a pele de sua tigresinha desobediente.
Depois de semanas insones e frustrantes, admitiu a contragosto que não iria a lugar nenhum sozinho. Ligou para seus contatos em busca de uma recomendação discreta e assim foi parar na sala fétida e sem janelas de Billy Black. Enrugou o nariz. Era melhor que aquele cara fosse bom e trouxesse respostas. Rápido.
A porta de madeira fez um rangido irritante ao se abrir, e de lá saiu coxeando um senhor de terno fora de moda, os fios brancos misturando-se a uma cabeleira escura. Isso era Billy Black? James considerou desistir daquilo e ir embora.
— James Witherdale, correto? — O velho cumprimentou-o, o aperto de sua mão mais firme do que esperava. — Entre, por favor. Fique à vontade.
Sentaram-se um em frente ao outro e permaneceram em silêncio. Billy Black pegou debaixo da escrivaninha um caderninho preto. Os dedos gordos tiraram a tampa da caneta, escrevendo na capa "James Witherdale", a caligrafia elegante e austera. Olhou para James com aqueles olhos pequenos e enrugados. Pediu que explicasse tudo que acontecera antes do golpe. Escutou cada palavra, interrompendo-o apenas para fazer anotações curtas nas folhas. Quando James terminou sua história, Black largou a caneta na mesa e perguntou:
— E qual é seu objetivo com esta investigação, meu caro?
Esfolar. Escaldar. Torturar até que implore perdão.
James deu de ombros.
— Quero apenas o que é meu por direito.
E Giulia Zafuri pertence a mim.
—
A abertura do filme de comédia romântica refletia na janela da sala. No chão frio, ao lado da taça com as últimas gotas do vinho barato, encontrava-se uma Angela de olhos grudados na televisão, anestesiada com a derrota iminente. Não queria soar dramática, mas a noite lá fora anunciava o início do seu fim. Aquele era o último domingo antes do prazo final da entrega de sua matéria. E ela já sabia o que entregaria para sua chefe: um monte de páginas em branco. Não que ela estivesse de mãos vazias. Ao contrário. Angela tinha uma verdadeira mina de ouro — o vômito e as marcas no pescoço de Tanya Denali poderiam render uma ótima matéria, perfeitamente capaz de bater a pauta ridícula de Jessica Stanley.
Suspirou, lembrando-se daquela noite estranha. Sua primeira reação quando voltara para casa foi querer escrever tudo que acontecera naquele banheiro, revisar o texto e entregá-lo numa bandeja de ouro para as mãos impacientes de Joana. Mas aquilo não seria certo. Tanya Denali precisava de ajuda profissional, e não de uma revista de fofocas disseminando para todo o país seu provável abuso de drogas injetáveis. A namorada de Cullen não precisou explicar nada para Angela chegar àquela conclusão. Os sinais estavam todos ali: o vômito, o suor excessivo, o desequilíbrio, as cicatrizes na pele, os olhos inexpressivos…
Só espero que ela fique bem.
Sim, Angela tinha mesmo uma mina de ouro, mas logo descobriu que ela era intocável. E voltamos à estaca zero. Deu de ombros. O que poderia fazer de mais sensato já fizera: inscreveu-se em diversos sites de busca de emprego no sábado.
O entorpecimento em seu corpo era tamanho que ela demorou uns bons minutos para tirar os olhos do filme e detectar a notificação que brilhava no canto da tela do celular.
Quando abaixou a cabeça para dar mais um gole na bebida, viu o anúncio de uma nova mensagem. Suspirou. Queria afogar-se no que restava do vinho. Com certeza era mais um e-mail passivo-agressivo de Joana relembrando o prazo.
Franziu a testa; não reconhecia o remetente. No espaço do assunto, apenas a palavra "Leia". Um vírus para estragar de vez seu celular idoso? Não, obrigada.
Quase abriu a mensagem ao tentar excluí-la, e numa fração de segundo viu o nome. James Witherdale.
Parou.
Abriu o e-mail ainda receosa, mas a desconfiança transformou-se em choque conforme seus olhos passeavam por cada frase e cada imagem anexada.
Ordens de restrição.
Contratos de confidencialidade.
Acordos milionários.
Olhos roxos.
Bocas arrebentadas.
Pescoços marcados.
James Witherdale tinha a vida pessoal mais maculada que conseguiu imaginar.
Não queria soar presunçosa, mas sua coluna da próxima edição seria a melhor de todas.
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