Aubade

1 I guess I'll sleep when I'm dead


Notas iniciais
Hi :3
Não liguem pra loucura que está o capítulo, a personagem principal é meio como eu, uma chaleira apitando no fogo cujo fogo aumenta e diminui all the time :D

“Am I the only one I know
Waging my wars behind my face
And above my throat?

Era uma sexta-feira à noite, quase onze horas. A chuva começou a cair com força no momento que botei os pés em casa, depois de um longo dia de faculdade e estágio. Minhas botas foram as primeiras a, praticamente, serem jogadas contra a parede; logo depois, minhas roupas as seguiram, ficando somente a calcinha. Peguei o roupão que usava dentro de casa e decidi lidar com a bagunça que tinha acabado de fazer depois.

Estava pronta para fazer o jantar e ir dormir, já que não tinha programa melhor desde que meu amigo de infância, Thiago, havia se mudado para longe, há uns três anos. Nem tinha me interessado em arranjar outro companheiro, realmente. Estava cansada demais. Entretanto, o sino da campainha tocou e tive de arrastar os pés para alcançar a porta de entrada.

Espantei-me ao vê-la ali, na minha porta, com os dentes batendo e as roupas pingando. Hayley, minha antiga melhor amiga e irmã de Thiago, partira há quatro anos com um sorriso nos lábios, lágrimas nos olhos e uma única mala na mão. Na época, nossos pais tinham acabado de morrer em um acidente de carro ao voltar da nossa formatura de colegial. A única que sobreviveu ao acidente foi dona Amélia, mãe de Hayley. Todos choramos muito e nos apoiamos, mas Hayley resolveu ir embora depois de alguns dias, deixando a mim e o que sobrara da família dela para trás.

Eu, sinceramente, não esperava vê-la nunca mais.

— O que está fazendo aqui? — perguntei, raivosa. Puxei-a pelo braço para dentro de meu apartamento e bati a porta. — Por que não me avisou que vinha?

— Eu pr-pretendia aparecer por aqui amanhã. Estava indo para a casa dos meus pais, eu lembrava que o Thiago tinha ficado com ela, mas...

— Thiago vendeu a casa um ano depois de você ter ido embora. Ele não aguentava mais viver lá e não tinha uma razão para mantê-la, já que você não a queria. Pensei que estivesse atualizada sobre o que acontecia com sua família. — Revirei os olhos, fincando minhas unhas pintadas de preto no braço pálido dela. O veneno continuou ali, mas eu sabia que tinha sido dura demais. — Mas vamos tirar essas roupas primeiro, ok? Não quero que você pegue um resfriado.

— Ju-Julia... — ela sussurrou, os olhos negros brilhando com arrependimento, enquanto levantava os braços. — Me desculpe.

— Desculpo — sussurrei de volta, erguendo sua blusa ensopada e atirando-a no chão. Eu não queria fazê-la chorar.

Mas a raiva ainda percorria minhas veias como ácido, e minha vontade de gritar com ela ainda não tinha diminuído. Nem um pouco.

Estiquei meus dedos por sua caixa torácica até encontrar o fecho do sutiã bege e o abri. Era algo tão comum para mim; nós duas tomávamos banho juntas toda hora quando pequenas. Ela vinha correndo para a minha casa, com uma mochila cheia de coisas para passar a noite. Comíamos salgadinhos, assistíamos a filmes da Barbie, e tomávamos banhos de banheira absurdamente longos. Ela era extremamente atrapalhada e eu tinha de ajudá-la a tirar a camiseta e a saia. Eu ria dela, mas logo a situação se repetia comigo, e era a vez dela de rir.

Agora, as coisas eram diferentes. Eu conseguia sentir os calos de três anos de viagens quando tomei sua mão. Eu conseguia sentir os meus calos de abandono no coração.

Puxei a calça dela pra baixo junto da calcinha. Se fosse como antigamente, suas pernas seriam macias e maleáveis. Agora, estavam rígidas e musculosas, pernas de quem tinha percorrido o mundo e subido até o topo. Não nos envergonhamos; meu corpo nunca foi um mistério para ela assim como o dela nunca foi um mistério pra mim. Ainda mais depois da nossa adolescência, repleta de experimentos e tentativas. Meu corpo tinha sido completamente percorrido e testado, cada ínfima parte tocada. Assim como o dela.

— Vou pegar uma toalha no meu quarto, Hay, já volto.

Saí do banheiro rapidamente e subi as escadas batendo os pés, até chegar na porta do meu quarto. Minha frustração saía em pequenos gestos, como quando bati a porta do armário ao fechá-la. Assim que abri a porta do meu quarto novamente, boa parte do ódio já tinha se esvaído.

Parei para pensar como Hayley se sentiria ao perceber que eu tinha mudado de minha antiga personalidade explosiva para esta, que só expressava sua raiva por pequenos gestos. Se ela fosse a mesma de sempre, diria que eu tinha me tornado covarde. Mas eu não fazia a menor ideia do que a Hayley de hoje diria.

Desci as escadas com cuidado dessa vez, para não escorregar nas poças que tinha criado. Abri o banheiro e fui atacada com o cheiro do meu sabão sendo usado em outra pessoa. Deixei a toalha branca, grande e felpuda, do jeito que ela gostava, em cima da pia e fechei a porta sem olhar para o box.

Subi as escadas novamente, separei uma roupa para Hayley e me joguei na cama, cansada. Encarei meu celular, perguntando-me se devia ligar para o Thiago ou para a dona Amélia, avisá-los que Hayley tinha voltado.

Mas, quando já ia esticando meu braço pra pegar o celular na cômoda, percebi que Hayley, apesar de ter tentado encontrar o irmão primeiro, talvez tivesse medo da reação deles, assim como senti seu receio em relação a mim quando ela tocou timidamente a campainha, não alto e forte como antes. Resolvi deixar a volta de Hay como um segredo meu, nosso, até segunda ordem.

Voltei meus olhos para a janela. Os ventos uivantes da tempestade já se acalmavam, mas o som gostoso de chuva permanecia. O sono, a confusão e a vontade de chorar pesavam minhas pálpebras. Não tinha mais fome e passava da meia noite. Empurrei a roupa de Hay para um canto da cama, retirei o roupão e me cobri, sabendo que demoraria a dormir, mesmo com sono. Deixei a luz acesa.

Arrepiei-me quando senti o corpo quente de Hay se juntar ao meu. Virei para encará-la e ela apagou a luz. Fechei os olhos.

“Shadows will scream that I’m alone
But I know we’ve made it this far, kid.”

Notas finais
So~~
cê pode tá pensando, "mas que diabos a música tem de relação com o título e com a história? Aliás, o que tudo tem a ver com o que?". A resposta é bem simples: imagine que a enxaqueca que a pessoa sente na música seja que nem a raiva da Julia, algo que é nítido, mas contido na cabeça dela :D
E eu escolhi aubade para título porque eu acho que essa fic deixou um mistério no ar de como elas cumprimentarão a manhã e talz, se será realmente um elogio ou brigarão, e eu achei super a ver mas cê pode não achar e eu não te culpo q
Thx pela leitura :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!