Até você voltar
22 Entre Olhares e Promessas
Alguns meses se passaram, e eu e Bernardo estamos tentando ajustar a nossa relação para dentro do trabalho. Estamos tentando viver um dia após o outro.
Algumas pessoas notaram nossa aproximação. Outras não notaram. E estamos vivendo um dia após o outro, nos adaptando à nossa rotina. Ele tem ido para a minha casa. E eu vou para a casa dele. Tenho deixado o sentimento chegar, algo que eu não fazia desde a saída de Derick da minha vida.
— Você já sabe qual roupa vai usar na festa de final de ano? — perguntou Ane.
— Ainda não. Acho que vou vestir qualquer roupa do meu guarda-roupa. — respondi.
— Esse ano a festa vai ser maravilhosa. Estão prometendo uma casa linda para o evento. — falou ela, animada.
— Você está tentando me convencer a vestir uma roupa melhor? — perguntei, brincando.
— Jamais, longe de mim. Mas a mulher do chefe precisa ir arrasando. — disse baixinho, rindo.
— Cala a boca. — respondi, dando uma risada sem graça.
Ela voltou para a mesa dela, e eu voltei para o trabalho.
Mas não consegui me concentrar por muito tempo.
As palavras dela ficaram ecoando na minha cabeça.
A mulher do chefe.
Aquilo ainda parecia estranho.
Bernardo nunca tinha me escondido. Também nunca tínhamos assumido nada para ninguém. Existíamos naquele meio-termo confortável, onde quem percebia, percebia. Quem não percebia, simplesmente seguia a vida.
Talvez fosse melhor assim.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Bernardo: Você está ocupada?
Sorri sem perceber.
Eu: Sempre. Sou uma funcionária exemplar.
Poucos segundos depois.
Bernardo: Mentira. Acabei de passar pela sua sala e você estava sorrindo para o celular.
Levantei os olhos imediatamente.
Pela parede de vidro do corredor, ele estava parado, segurando uma pasta, fingindo conversar com um gerente enquanto olhava discretamente para mim.
Revirei os olhos e balancei a cabeça.
Eu: Você é um perseguidor.
Bernardo: Sou seu chefe. É diferente.
Segurei a risada.
Eu: Abuso de poder.
Bernardo: Confirmo. Hoje você vai jantar comigo.
Eu: Isso foi um convite ou uma ordem?
Ele respondeu quase na mesma hora.
Bernardo: Um convite que eu espero muito que você aceite.
Meu coração ainda tinha o péssimo hábito de acelerar quando ele fazia essas pequenas coisas.
Não eram grandes declarações.
Eram detalhes.
Mensagens durante o expediente.
O jeito como ele sempre encontrava um motivo para passar perto da minha mesa.
A forma como me olhava nas reuniões, esperando meu posicionamento antes de dar a palavra final.
Pequenos gestos que faziam eu me sentir importante.
No fim do expediente, esperei alguns minutos para sair, como fazíamos desde que começamos a nos envolver. Evitávamos deixar a empresa juntos para não alimentar comentários.
Quando entrei no estacionamento, ele já estava encostado no carro.
As mangas da camisa estavam dobradas até os antebraços, a gravata já tinha desaparecido, e ele mexia distraidamente no celular.
Assim que me viu, sorriu.
Aquele sorriso continuava tendo o mesmo efeito sobre mim.
— Achei que você tinha desistido. — ele disse.
— Estava esperando o pessoal sair.
Ele assentiu.
— Obrigado por fazer isso.
Franzi a testa.
— Fazer o quê?
— Ter paciência.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
— Com o quê?
Ele respirou fundo antes de responder.
— Com tudo isso.
Fez um gesto em direção ao prédio da empresa.
— Com o fato de eu ser seu chefe. Com a gente precisar esconder algumas coisas. Com o tempo que tudo está levando.
Aproximei-me dele.
— Bernardo...
Ele segurou minha mão discretamente.
— Às vezes eu queria poder simplesmente pegar na sua mão dentro da empresa. Perguntar como foi sua manhã sem precisar fingir que é uma conversa profissional.
Sorri de lado.
— Você fala comigo o dia inteiro pelo Teams.
Ele riu.
— Não é a mesma coisa.
— Não mesmo.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
Era curioso.
Antes, o silêncio entre nós era desconfortável.
Agora, parecia um lugar seguro.
Ele acariciou minha mão com o polegar.
— A festa de final de ano é semana que vem.
Assenti.
— Você vai?
— Vou.
— Já escolheu o vestido?
Olhei para ele, surpresa.
— Você também vai começar?
Ele deu uma risada.
— Só queria saber.
Cruzei os braços.
— Ainda não escolhi.
Ele inclinou a cabeça.
— Então deixa eu fazer um pedido.
— Qual?
Ele sorriu daquele jeito tranquilo que sempre desmontava minhas defesas.
— Escolhe um vestido no qual você se sinta bonita.
Franzi a testa.
— Só isso?
— Só.
Fez uma pausa antes de completar:
— Porque, quando você se sente bonita, você sorri diferente.
Meu coração falhou uma batida.
Ele percebeu meu silêncio e continuou, agora olhando diretamente nos meus olhos.
— E eu gosto desse sorriso.
Baixei o olhar, sentindo minhas bochechas queimarem.
Era engraçado.
Durante muito tempo eu acreditei que amor era intensidade.
Discussões.
Idas e vindas.
Medo.
Insegurança.
Com Bernardo, eu estava descobrindo outra coisa.
O amor também podia morar na calma.
Na paz de um estacionamento vazio depois do expediente.
Em mensagens trocadas durante o dia.
Em mãos dadas por alguns segundos antes de cada um entrar no seu carro.
E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não me assustava.
Me fazia querer ficar.
Enquanto entrava no carro, uma pergunta atravessou meus pensamentos.
Talvez a festa de final de ano não fosse apenas mais um evento da empresa.
Talvez fosse a primeira vez que eu realmente me permitisse viver uma história sem esperar, o tempo todo, pelo momento em que ela terminaria.
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