Até onde as almas se encontram
3 Insônia
Passei o resto da noite olhando pro teto do quarto lembrando tudo o que aconteceu.
— Sara, né?! – Suspirei.
Meu coração saltava do peito e a imagem dela não saia da minha cabeça. O sono não chegava de nenhum jeito e os primeiros raios de sol já atravessavam as brechas da cortina. Dei um salto da cama, não adiantava mais forçar pra dormir. Escancarei a porta para deixar a luz preencher todo o quarto, lavei o rosto, me troquei e esperei a hora certa para o café. Meus pais passaram a noite toda na festa, chegando perto das 4 da manhã. É provável que ainda estejam dormindo, mas, quando der a hora, pretendo chamá-los mesmo assim.
Chegando a hora, mandei uma mensagem no celular pro grupo do Whatsapp da gente.
‘’Pai, mãe, vocês vão tomar café?’’
Ninguém respondia. Resolvo ir ao quarto. A porta não estava trancada e, com cuidado, entro. Não era lá uma imagem tão agradável de se ver, meu pai jogado no chão ainda com as roupas da noite passada e minha mãe na cama toda coberta pelos lençóis. Chamá-los não adiantaria muita coisa, mas por via das dúvidas.
— Mãe, vou tomar café, tá bom?
— Hã, filho? – Ela tira o cobertor do rosto. A cara de sono junto com a maquiagem borrada deixava-a digna de um vilão num filme de terror.
— Deixa, mãe, volta a dormir.
Fechei a porta e me dirigi ao refeitório da pousada. Um salão grande com várias mesas e um self service. Uma vidraça tomava a parede inteira permitindo ver o jardim do lado de fora. Tinha pouca gente, talvez, por causa da festa, as pessoas ainda estivessem dormindo.
Terminando o café, vejo várias pessoas entrando ofegantes, elas estavam todas molhadas. Caía uma forte chuva.
— Acabou com os planos. Não é tão ruim assim.
A não ser que eu tenha esquecido a porta aberta no meu quarto!
Nem termino o café e volto correndo pra ver se ainda consigo salvar as coisas da chuva. Vou desviando das pessoas no corredor, mas, quando dobro uma esquina, dou de cara com alguém.
— Aiii! Olha por onde anda, The Flash!
— Perdão, esqueci uma coisa e estava voltand...
Era ela, caída no chão, mas era ela. Meu corpo congelou, não conseguia dizer nada, novamente.
— Leo?!
Ela lembra meu nome!!
— Essa é a sua vingança? Bem fraquinha, cê não acha? Pensei que fosse algo mais elaborado.
Vingança? Ela deve achar que guardo rancor.
— Ei, não vai falar nada não?! É que eu não posso perder muito tempo, sabe, também to apressada. A gente se vê por aí!
Ela foi embora tão rápido quanto apareceu. Dou dois tapas no rosto e sigo.
Chegando no quarto, encontro meus pais, agora acordados e com uma aparência melhor.
— Filho, se você veio pela porta, não precisa, fechamos antes que molhasse alguma coisa.
— Sério, pai?! Obrigado.
— Tudo bem, mas o que me chamou a atenção foi você não ter dito nada pra gente.
— Como assim? Não entendi, sobre a porta?
— Não, sobre a garota na frente da tua porta te chamando.
— Garota? Ah, é a Sara, a mesma que vocês disseram onde o meu quarto era.
— Então era ela, não sabia. – Ou não lembrava. — Atendi e disse que era teu pai, ela entregou o casaco e mandou agradecer pela noite passada.
— Só isso?
— É, mas agora, meu filho, me explique. Tu saiu ontem da festa soltando fumaça pelo nariz e de repente cê sai com uma garota?
— Não querendo ser grosso, pai, mas estou na flor da idade, o senhor acha mesmo que eu não ia aproveitar?
O que eu to dizendo? Só vai piorar as coisas.
— Não, não foi o que eu quis dizer...
— E mais, não aconteceu nada de muito sério, não precisa se preocupar. Agora, se não for de muito incômodo, por gentileza, me devolva o casaco!
— Ta bom, não está mais aqui quem perguntou.
— Agradeço.
Ufa! Pensei que ia me ferrar bonito agora.
Entro no quarto e jogo o casaco na cama. A chuva diminuía, o céu limpava e o relógio ainda ia marcar 10 horas.
— Acho que vou nadar. – Disse a mim mesmo.
Coloco o calção pra nadar e espero a chuva parar. Nesse tempo, vejo um envelope caído no chão. Era meio improvisado, feito com folhas de caderno e grampos.
— Talvez tenha caído do casaco ou pode ser do meu pai.
Acreditei na primeira opção, até por que meu pai não faria algo assim. Pego uma caneta pra tirar os grampos que lacravam o envelope. Dentro dele tinha um aparelho mp3 e um papel enumerado de 1 a 10. Pego meu fone de ouvido e ligo o aparelho que só tinha três músicas gravadas. A primeira música era Perfect, a segunda, Thinking out Loud e a terceira era Dive. Todas de Ed Sheeran. As duas primeiras eu até entendo, foram elas que me fizeram conhece-la, mas a terceira...
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