Até o limite
1 Capítulo 1
Digitar enquanto o carro se movimenta sempre a deixou com náuseas, por isso deixou um pouco de lado o aparelho e olhou pela janela. Chegava a ser poético. A cada quilômetro vencido era notável a diferença de paisagem,as árvores eram trocadas por concreto e tijolos. As periferias se formavam nas encostas da Serra e já era possível ver a grande selva de concreto da metrópole.
Helena estava um pouco apreensiva, seria a primeira vez em sete anos que voltava definitivamente para sua cidade natal, havia deixado para trás amigos, amores e uma vida mais tranquila no interior. Não podia negar que havia pensado em ficar por lá mesmo.Depois de ter terminado a faculdade, havia até trabalhado em uma empresa acolhedora, e estava feliz morando com as amigas da faculdade. Mas mesmo assim, não era exatamente o que queria.
Seu pai sorria distraidamente enquanto dirigia o carro,tentava abrir um botão da camisa azul que usava por que já estava suando demais com o calor, a bermuda cáqui ajudava a amenizar, mas mesmo assim sentiu -se aliviado quando finalmente a brisa da janela aberta bateu melhor em seu peito, outro motivo para voltar. Ele sempre teve planos para que Helena morasse na cidade novamente, havia até mesmo preparado um quarto para ela.
Obviamente Helena não se sentia confortável em voltar para a casa do pai, mas seria temporário e ele era a única pessoa a qual ela queria agradar de qualquer forma.
— Você manteve contato com alguém daqui enquanto esteve fora?- o pai perguntou, ouvindo a quantidade de mensagens que ela recebia.
— Apenas um amigo. A gente está marcando de se encontrar.- Helena disse distraída.
— Hum... amigo?- o pai a olhou rapidamente com um olhar duvidoso e um sorriso malicioso. Helena odiava quando faziam isso.
— Sim pai, amigo.Amizades femininas e masculinas são possíveis sem que hajam segundas intenções.- Ela revirou o olho.
— Eu sei... O problema é que TODAS as suas amizades masculinas são sem segundas intenções.
— E...
— Bom... você já terminou a faculdade,acabou de passar em um concurso, e se tudo der certo vai deslanchar profissionalmente. Você não acha que está na hora de pensar um pouco na vida pessoal?
— Pai, eu sei que é difícil de entender que eu estou bem sozinha, eu não quero procurar ninguém, não faz muito meu estilo sair por aí caçando homem... Se for para conhecer alguém, vai acontecer.
— É realmente bonito você falar assim, mas conto de fadas não existem, e o príncipe não vai bater na sua porta em um passe de mágica...
— Exatamente, o príncipe não vai bater em minha porta,até por que você mesmo falou que eles não existem. Cuidando de mim e alcançado minhas metas pessoais eu já vou me realizar. E além do mais, eu não vou conseguir lidar com outra pessoa sendo que o foco é em mim agora.
E então ele ficou calado. Sabia muito bem que ele não compreendia o raciocínio moderno demais para seu gosto . Nunca foi fácil explicar para as pessoas que Helena não considerava o casamento como algo obrigatório, e sim uma consequência se por um acaso encontrasse a pessoa certa.
Quando chegaram na garagem de casa,Hele se sentiu nostálgica ao lembrar das noites sentada na varanda toda fechada com vidros, tocando violão,comendo pizza, e rindo com seus irmãos, seu pai e sua madrasta. Isso a fez nutrir um sentimento de saudade que a muito tempo estava guardado em seu peito.
Então saiu do Jeep cinza chumbo que era o xodó do seu pai e abriu o porta-malas, ele pegou a mala maior enquanto ela pegava a mochila de rodinhas preta e rosa que a acompanhava desde sempre. Depois, subiu as escadas de madeira rústica e esperou seu pai encontrar chave certa no molho enorme que tinha em mãos. Tinha a impressão de que a casa estava quieta demais. Até que finalmente ele abriu a porta e a casa estava toda escura, Hele não sabia o porquê,mas se sentiu um pouco triste por não ser recebida depois de tanto tempo.
Assim ela entrou na casa, seu pai colocou a mochila no chão e acendeu as luzes...
—SURPRESA!- seus irmãos levantaram da mesa da sala, e seu sobrinho veio ao seu encontro.
—Tia! Quanto tempo! Eu estava com saudade.- ele sorriu e abraçou suas pernas.
Helena sorriu mais do que nunca, e realmente nunca esteve tão feliz por estar de volta. Havia balões dourados de boas vindas pendurados na parede da sala, a mesa de jantar onde todos estavam em volta estava repleta de comidas que ela amava.
— Eu também senti sua falta pequeno!- Ela beijou sua bochecha, o pegou no colo e depois cumprimentou a todos.
A família se sentou à mesa para em fim comer o jantar, e a conversa e as risadas não sessaram em momento algum.
—Então mana, quer dizer que agora você é perigosa né- Fábio dizia em tom irônico .
—Pois é, agora acabou a farra viu- Hele disse brincando.
—Agora eu vou ter quem me livre dos B.Os- Diego disse rindo e tocando no ombro de Hele.
—Bom,por um bom preço eu posso ver o que dá para fazer por você- Ela pegou mais um pedaço de torta de frango- tipo ingressos para seu show que tal?
—Já está reservado!- ele abriu os braços e a abraçou.
Diego era integrante de uma banda que começou a fazer sucesso quando ela ainda estava no interior, mas agora já podia ver que seu irmão começava a ser reconhecido
Depois de algumas horas de muita cerveja e pizza, seus irmãos foram embora. Lembrava-se muito de quando era menor e Diego de 1,90 de altura permitia que ficasse em seu pescoço para ver melhor o show do Capital Inicial. E de quando seu irmão Fábio descobriu que seria pai, foi um baque para toda a família,mas depois do nascimento do Heitor a vida ficou bem mais colorida. E depois de arrumar suas coisas no quarto ela deitou em sua cama, pensativa, estava com frio na barriga de pensar que amanhã se prepararia para começar uma nova vida, em uma novo emprego.
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