Até o final deste ano. (EM REVISÃO)
2 Bolos de Sonho
Notas iniciais

Você tem um momento?
Me prometa isto: que você ficará ao meu lado para sempre. Mas se — Deus me livre-, o destino tiver que interferir e forçar a nossa despedida, se você tiver filhos algum dia, quando eles apontarem para as fotos,
por favor, diga a eles o meu nome.
Conte pra eles sobre como a multidão ia à loucura. Conte para eles que eu espero que eles brilhem.
Vida longa às barreiras que atravessamos.
Eu vivi o melhor momento da minha vida com você.
...
Uma gota de suor percorre minha espinha, do topo da nuca descendo ao quadril, sinto meus lábios se entreabrirem e Naruto encostar um dos dedos neles.
—Shiuu! Seu pai vai acordar...
Ele ri, e o sorriso dele ilumina meu quarto e, de forma automática, rio baixinho com ele. A luz dos olhos azuis dança junto com a luz prata que a lua emite, e posso sentir seu calor. Quente. Me sinto quente ao notar sua mão direita passando, hesitando, na barra da minha blusa moletom. Ergo os braços e desenho a linha do seu rosto, acaricio as três linhas de cada lado de sua bochecha, e as turmalinas se focam em mim. Coloco uma de suas mão na barra da blusa e aperto seus ombros, criando coragem para falar.
—E-eu...-engulo em seco. O barulho da minha garganta, da nossa respiração descompassada e do farfalhar de tecidos e suspiros, ecoam pela madrugada. Respiro fundo. Naruto e seus olhos cor de céu ainda voltados para mim- Eu quero que seja com você. Con-continue, por favor.
Meu quadril se levanta e roça em sua barriga, um grunhido baixo se solta da garganta de Naruto e ele franze as sobrancelhas.
—Tem certeza?
—Te-tenho!
Nossas testas se colam, e o quarto começa a escurecer de forma devagar, Naruto não brilha mais com seu sorriso e a luz da lua vira roxa.
—Naruto? -chamo, mas ninguém me responde- Naruto? Para aonde você foi?
O ambiente muda e já não estou mais em meu quarto, estou na festa de Shion, com o jogo de lâmpadas rosas e roxas, com bebidas e adolescentes. No centro da pista está Naruto e ela, dançando colados bem devagar, mesmo que a música fosse agitada. Ele estava com o nariz enterrado nos cabelos loiros dela, e Shion apoiava o rosto no peito forte dele. As pessoas passam por mim como se eu fosse uma fantasma, uma assombração, e diferente dos dois no meio, esses que me ultrapassam pulam como se não houvesse um depois. E isso me faz achar que Shion e Naruto parecem cada vez mais apaixonados, porque quando ele olha para ela sinto uma pontada de ciúme e inveja, querendo que ele me visse, me observasse dessa forma.
Naruto se afasta dando um beijo na sua testa e a gira, e ela me vê, e posso jurar que meus ossos se quebram, meu peito se parte e, talvez, meus pés fiquem alagados com a quantidade de lágrimas que escorre dos meus olhos. Mesmo que os outros não saibam da minha existência nessa festa, mesmo que ninguém me enxergue, Shion o faz.
Então Shion Fujimira sorri como o diabo. Como uma hiena olha rindo para sua presa, ela termina de balançar os quadris devagar durante o percurso que os dedos de Naruto percorrem na linha da sua cintura, se vira e ele fica de costas para mim.
Eles se beijam. E vejo tudo girando até estar do lado dos dois, e como no vídeo de Karin, o zoom acontece e posso ouvir a frase que custei em não pensar.
—Quer ir naquele motel novo? Aquele que abriu aqui na cidade, sabe? A gente podia ir lá...
"mais uma vez."
...
|| ♡ ||
Acordo assustada. Com um tranco na cama me ponho sentada e observo cada milimetro do meu quarto.
Foi um sonho.
É só um sonho.
Mas doí, arde, queima, esfria como se fosse real. Um milhão de sentimentos me invadem no peito, acertam em cheio meu coração, e tenho vontade gritar. Agarro os lençóis e me afundo no travesseiro, coloco na boca um punhado de cobertor para abafar o choro e grito. Grito em pleno ar de meus pulmões e desabo. Me questiono internamente, se alguma garota nunca chorou por um amor não correspondido. Sei que estou fazendo mais barulho do que silêncio, e sei que se continuar desse jeito vou acordar alguém, e sei, também, que já se passou três semanas e amanhã terá aula, e que preciso dormir para acordar cedo, mas não consigo me importar.
Eu preciso chorar.
Não sei em qual momento Hanabi entrou, e nem em qual ela se sentou ao meu lado e começou a passar a mão nos meus cabelos. Mas aprecio o momento e deito nas suas pernas.
—Eu sei, Hina, eu vi o vídeo.-sussurra com a voz baixa, e agarro com mais força o travesseiro- Sabe o que eu acho? -não respondo e ela prossegue- Acho que está mais que na hora de superar ele. Já se passaram três semanas e você não merece um cara que nunca te notou. Você é linda, maninha, e se ele não reparou até hoje, e se não reparar nunca que você é incrível, significa que é um idiota. Sabe o que você precisa?
Nego com os olhos marejados: -N-não.
Hanabi sorri pela minha voz embargada.
—Você precisa de um copo de leite, de bolo de chocolate, e novas regras. -colocou o indicador em riste para o teto, como se estivesse discursando sobre algo valioso.
Lembrei da lista e dos objetivos bobos que escrevi, sinto meu rosto corar, e trato de olhar para a coberta, me ajeito e fico sentada ao lado da minha irmã com a têmpora apoiada no ombro dela. Hanabi quase é da mesma altura que eu e é quatro anos mais nova, imagino quando tiver a minha idade.
-C-com morango e leite ninho...?
Nabi sorri, e em vez de luzes roxas, olhos cor de céu, são as luzes das íris peroladas dela que iluminam a escuridão do meu quarto.
—Vamos assaltar a geladeira, maninha.
|| ♡ ||
—Alguma empregada vai aparecer. — alerto, mas Nabi não me ouve. Ela pula de dois em dois degraus e nos últimos três salta e aterrissa no chão. -Não faça tanto barulho, pela mor de Deus!
—Pela mor de Deus, digo eu. Para de ser chata e vem logo.
Reviro os olhos com um suspiro cansado e desço os últimos degraus da escada.
A cozinha ficava depois da sala de estar, passando plea de jantar, pela biblioteca e pelo escritório. A cozinha era grande em tons de branco, areia e preto, os ladrilhos eram num tom de cinza escuro com espirais pérolas — mesmo que eu achasse de outra cor. As paredes eram num tom branco e o balcão que dividia a enorme mesa e a pia, tinha a coloração negra. Os banquinhos também eram escuros e a mesa, de vidro, combinava com as cadeiras claras. Tudo trabalhado para parecer elegante.
—Sobrou o bolo da janta? — pergunto indo em direção a pia para tirar dois copos do guarda-louças.
—Eu vim antes de dormir e tinha ainda.- murmura com a cabeça enfiada dentro da geladeira- Vai querer leite?
—Peguei os copos para nós. -ela ergue o rosto e me olha.
—Não vai esquentar, né?
—Leite quente é sempre bom de madrugada.
—Affe.-grunhe e eu sorrio- Não sei a graça, frio é melhor. -volta a procurar o bolo no meio dos tupperwares.
—Mas o bolo está frio...
—Melhor ainda! Leite gelado com bolo gelado não tem pra' ninguém. É uma combinação divina!!
Balanço a cabeça negativamente, ainda prefiro esquentar o leite.
Ela finalmente sai da geladeira com um pote de tampa amarela e uma caixa de leite. Me estende a caixa e despejo no copo para ela, e em uma caneca para esquentar no microondas. Hanabi se senta em um dos banquinhos do balcão enquanto eu aperto o "3" e o "0" para o cronômetro apitar em 30 segundos.
—Quer conversar? -a ouço com a borra empanturrada de bolo.
—É do quê mesmo? -aponto para a comida.
—De ninho, chocolate branco e morango. -responde com uma sobrancelha arqueada- Você desviou da pergunta...
—E o com chocolate amargo? Acabou? -10 segundos...
—Fiquei sem paciência e peguei o primeiro que achei.
—Não pegou esse por minha causa? -faço um biquinho. 7 segundos...
Hanabi me lança um olhar de "é sério que está me perguntando isso?". Solto uma risada.
O microondas apita. Pego uma vasilha para mim e a caneca, junto com uma colher, e me sento em cima da pia com um impulso, ficando meio que de lado para minha irmã.
—Hina... -começa e eu a fito- Por que você ama o Naruto?
Eu tusso, engasgando. — Eu n-não amo o Naruto!
—Eu não nasci ontem, maninha. E todo mundo já percebeu.
—To-todo mundo?- Deus do céu! O Neji...!!
—Todo mundo menos o nosso "priminho" -faz aspas com o dedo. Ela adivinhou meus pensamentos? — E não, eu não adivinhei seus pensamentos, você que é tão expressiva que dá' pra' perceber olhando na sua cara.
Engulo em seco o pedaço de morango. Não falamos mais nada.
Neji comentou comigo que Hanabi não se sentia a vontade comigo por causa que conheci mamãe, mas nos damos tão bem que não consigo ver esse lado dela. O lado obscuro que queria trocar de lugar comigo. São duas e dez da manhã segundo o relógio da parede, não vou conseguir dormir até desabafar e preciso acordar cedo amanhã para ir na escola. Solto um suspiro pelo nariz, brincando com a colher no chantili. Tomo um gole de leite quente e falo:
—No dia do funeral da mamãe, eu fugi. -digo um pouco melancólica- Naruto me encontrou e me ajudou a voltar para casa. -respiro fundo- Eu não sei se você já se apaixonou, mas sabe que o sorriso da pessoa nunca sai da sua cabeça quando ama ela. Desde o dia da morte da mamãe, nunca esqueci o dele. Alguns anos depois, Naruto tentou me proteger quando uns garotos faziam bullying comigo, mas ele não conseguiu. -ri fraco com a lembrança. Meu pedaço de bolo está quase acabando, e me questiono internamente se pegar mais um pouco de chantili me atrapalharia em dormir- Os meninos ficaram tão preocupados com Naruto, que se esqueceram de mim. Ele sorriu de novo e disse que não tinha problema em estar machucado, que seria forte e corajoso, e que ia me defender sempre.
—Você tinha quantos anos? -Nabi me interrompe, absorvendo as palavras com atenção.
—Sete. -sorrio triste, colocando a vasilha do lado e mastigando a última colher de bolo.
—E você nunca mais esqueceu ele?
—Não. -sussurro- Depois nós entramos na escola e sempre fiquei o olhando de longe, mas nunca falei nada. É idiotice gostar da mesma pessoa por tanto tempo, mas eu...
—Você não pode dizer isso. Foi algo inocente e sincero, você não tem culpa de ficar assim por tanto tempo.
—Sim, mas é que no final do ano vou assumir a empresa do papai, e...
—E você quer ficar arrependida de nunca ter tentado nada, acertei? -ela cruza os braços, ficando relaxada no banquinho. Eu em remexo na pia.
—É...mais ou menos.
—Então o que é, Hina? -perguntou impaciente, e pelo canto dos olhos consegui ver ela assoprar uma mecha castanha do nariz.
Encolho os ombros.
—Vou fazer dezoito em dezembro desse ano, Nabi, e até agora não fui feliz de verdade. Vou comandar a empresa para Shion não estragar nada de lá, e nem complicar nosso lado na mídia, e eu sei que não é tão ruim assim quanto parece, mas não posso deixar de imaginar que quando for adulta, vou ser infeliz por causa do trabalho.
Ela assente. -E...?
Respiro fundo.
—E é por isso que acho que gostar de Naruto é idiotice. Porque ele não me correspondeu nesses anos todos e nunca notou nada, e por que neste ano seria diferente? -dou de ombros com a voz embargada- E-eu só cansei de ser a menina que sofre por alguém, eu só quero aproveitar esse ano antes que nunca mais tenha a oportunidade de ser feliz.
Ouço seus passos leves vindo até mim. Nabi para na minha frente e deposita suas mãos nos meus joelhos quentes, cobertos pelo pijama.
—Você não precisa parar de amar o Naruto só porque vai ter um cargo chique na empresa, mas precisa entender que se nunca tentar fazer algo, se nunca se declarar e falar o que sente, nunca vai saber no que ia dar. -ela acaricia minhas mãos por cima das delas e sorri, gentil- Você tem até o final deste ano para fazer algo, Hina. Até o final deste ano para fazer tudo o que tem vontade, e se gosta de verdade do Naruto, não deveria desistir dele só porque tem medo dele nunca te amar de volta, mas deve desistir se ele te atrapalha em fazer você se amar. -suspira fundo- Eu aproveitaria que nunca mais ia ver esse bando de falsos da sua escola, e tacaria' o terror lá. -nós duas rimos porque sabemos que é verdade. Ela aperta meus dedos e eu olho no fundo de seus olhos- Eu acho que chegou a hora de você parar de ligar para o que os outros pensam, e começar a se importar com o que te faz feliz.
"Até as obrigações chegarem.", Hanabi não completa, mas eu concordo com uma fungada.
—T-tem certeza que só tem treze anos? -sorrio passando a manga da camiseta nos olhos.
—Eu me faço essa pergunta todos os dias. -e ela gargalha.
Olho para minha irmã, para os cabelos castanhos e longos -levemente frisados-, para a pele mais bronzeada que a minha, e toco em sua clavícula. Nabi para de rir e retribui o abraço, sentindo o cheiro de suor impregnado no meu corpo por causa do sonho.
—Obrigada, Nabi. -resmungo a apertando.
—De nada, maninha. -nós nos separamos. Coloco a louça suja na pia enquanto ela guarda o restante do bolo na geladeira. Já no corredor do quarto, se vira para mim me impedindo de continuar a andar- Hina, eu achei uma carta da mamãe.
Enrugo a testa. -Carta?
Hanabi balança a cabeça e as mechas marrons caem na frente de seu busto. -Sim , uma carta.
—E o que tem demais nisso? É algo importante?
Ela morde o lábio inferior, envergonhada.
—Faz um tempinho já que encontrei...antes do seu aniversário, na verdade. Eu fui no sótão colocar uns ursos de pelúcia que estavam juntando poeira, e achei a carta debaixo de uma tábua. Nunca que alguém ia achar lá.
—E como você achou? -pergunto desconfiada.
—Minha meia enroscou no prego...
—E? -ela está escondendo alguma coisa. Hanabi não é tímida, nem, receosa e nem envergonhada, todos esses são adjetivos só meus. Ou ela esta com medo da minha reação, ou se sente culpada por algo que ela fez.
Aposto na segunda opção.
—A carta que a mamãe escreveu, está endereçada á você, Hina. E pela data, foi escrita dois dias antes do acidente de carro.
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