Pobre garota.

Ela estava sentada na carteira e alguns garotos riam dela. Ela havia perguntado o que era O Capital e os meninos a chamaram de estúpida. A verdade era que eles nunca conseguiriam namorar uma mina tão bonita, então faziam de tudo para vê-las pra baixo. Eu estava de saco cheio daquelas reuniões com os meus colegas de classe pedantes, porque olha, ninguém nesse mundo leu O Capital até o final e eles agiam como se tivessem lido, mas eram tão ignorantes quanto a garota bonita. Pelo menos a greve fazia com que não houvesse aulas e eu poderia matar tempo andando na cidade.

Observar pessoas, pessoas interessantes, gente que me excitasse e que, infelizmente, era o maldito marimo.

Fui embora antes do cigarro acabar, fazia frio e ajeitei o cachecol em volta do pescoço depois de comprar um jornal numa daquelas máquinas idiotas. Sempre que colocava as moedas, elas fechavam e eu era obrigado a puxar com muita força, senão teria que pôr mais moedas. A greve educacional estava na primeira página e dei uma lida rápida enquanto apertava o passo. Falavam que a juventude estava perdida e que tomaram as universidades para ser fortes com trocas de drogas ou um motel para relações libidinosas. Bem, seja lá quem havia escrito aquilo, não estava errado, mas era claro que não era imparcial e que puxava mais pro lado do governo.

Um carro quase me pegou enquanto atravessava a rua e resolvi fechar o jornal para jogá-lo numa lixeira mais próxima, até porque estava perto da tenda de lamen em que o marimo trabalhava.

O ponto ficava numa rua lotada de tendas onde a predominância era justamente do lamen, o pai de Zoro via todos como concorrentes, ainda mais num tempo tão difícil como esse. Era normal comer com o banco próximo a um bueiro que saía ar quente com cheiro de merda. Zoro não havia me notado; ele estava com sua pele dourada suada, passava a mão de um jeito nada delicado na testa e na nuca pra depois pegar na comida, tinha as axilas e as costas molhadas e uma corda forte era amarrada na sua cabeça — fazia parte do uniforme.

— Ei, marimo!

Zoro nem olhou pra mim. — Tô sem tempo agora.

Ele manuseava com pressa suas mãos para empacotar aqueles que pediam pra levar.

— Ok, tudo bem, posso esperar.

Resolvi pisar no meu cigarro para fazer um pedido, enquanto isso sentei-me num banco de plástico.

Minha comida acabou, mas continuei esperando porque a da tenda não. Quando acabou, o pai de Zoro o despejou para fora dali. Sorri e passamos a andar juntos até pararmos num beco cheio de lixo.

Eu acendi um cigarro e Zoro também pediu um. — Estou muito cansado. — Justificou.

Não o julguei, às vezes ele fumava um e não era como se fosse um drogado. Na verdade, Zoro era muito disciplinado e responsável.

Ele deu um risinho que me intrigou. — O que é tão engraçado?

— Bem... — Ele meneou a cabeça com o cigarro sendo apertado com o polegar e o indicador. — É que está um caos, mas saber que você ainda está vivo, me tranquiliza um pouco.

Pisquei os olhos por pensar o mesmo. — Eu sinto uma necessidade para te ver.

— Seria por que somos namorados? — Ele perguntou, brincado com o óbvio.

— Na verdade, eu acho que seria por você não ser um escroto.

Ele tragou o cigarro e assoprou. — Tem certeza que não conhece ninguém mais interessante?

— Quando fico com você, só penso que tirei a sorte grande, embora você que seja o sortudo.

Zoro ficou quieto, pisando no cigarro a seguir, ele não me encarava, olhou pro céu nublado como se fôssemos ser abduzidos num disco voador por sermos tão diferentes do resto e que nos levariam para o mundo certo.

— Tá tudo uma confusão, né? — Finalmente falou.

— Você diz a nossa política?

— Sim... — Ajeitou a postura. — Se continuar assim eu vou para o campo.

— Por quê?! — Isso me pegou desprevenido.

— Morar no dojô do meu tio... o lamen não está dando lucro.

— Quê? Não está dando? Seu pai idiota só te liberou quando viu que não havia mais macarrão!

Zoro riu com as minhas bochechas infladas. — É verdade... mas eu só disse que talvez terei que me mudar. Ainda não é certo, não pense muito nisso, sobrancelhas.

Mas pensei e não pensei. Muitas informações se juntaram e eu o abracei antes de meu cigarro tocar o chão. — Não vá.

— Sobrancelhas...

— Hoje na reunião com os meus colegas eu os vi rindo de uma garota que não sabia algo e só pensei que você nunca a trataria dessa forma. — Eu falava sem parar e chorando enquanto apertava os braços ao redor de seu pescoço. — Você é muito especial e tem que ter alguém que te valorize ao seu lado.

— Você está dizendo que é você no caso. — Zoro não chorava, pelo contrário, estava sendo seco porque não gostava da minha cara de pau.

— Marimo, não vá! Eu quero me casar com você!

Depois de dizer isso eu não me lembrava mais de nada e quando abri meus olhos me encontrei com os olhos intensos de Zoro. Ele me abraçou, apesar de estar todo catarrento, de nariz vermelho e as lágrimas que não cessaram.

— Você tem razão. — Ele disse beijando meu rosto catarrento. — Nós não somos daqui...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!