Até a Próxima Noite
2 A Primeira Noite
“Quando o amor lhe chamar
Se guie
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados
E quando ele vos envolver com suas asas
Cedei-lhe
Embora a espada oculta na sua plumagem possa feri-vos
E quando ele vos falar
Acreditai nele”
Alguns dias antes do casamento
Era verdade que ela não usava tantas camadas quanto as damas da corte, já que suas tarefas como herbalista e curandeira exigiam que ela se mantivesse livre para trabalhar, mas ela sempre se surpreendia com a rapidez com que a mão dele conseguia se esgueirar por debaixo de seu hakama¹.
— Sasuke-kun — ela arfou e buscou se segurar nas prateleiras quando os lábios dele deixaram os seus para beijar seu rosto e ela pode sentir a respiração quente dele contra seu ouvido.
— Aceite minha graça, Sakura – ela levou a própria mão a boca para sufocar os sons que ele estava arrancando dela, afinal, embora ela tivesse escolhido aquele armário de ervas por ser um local mais escondido, o herbário do palácio ainda era um local bem frequentado pelos seus colegas de trabalho e qualquer um deles poderia os encontrar naquela posição.
— Depois que você tiver nosso primeiro filho nenhuma mulher vai estar a cima de você.
Ela puxou a mão dele para fora de suas roupas, sentindo cada célula de seu corpo a odiar por estar negando a si mesma o clímax e, ainda com a respiração arfante, ela se desvencilhou para longe do abraço do Imperador, em passos trêmulos para o mais distante o possível dele, o que não era muito naquele espaço restrito de forma que quando suas costas se chocaram com a parede coberta de prateleiras, os recipientes de cerâmica tintilaram perigosamente.
— Excerto a Imperatriz... Que também vai ser a verdadeira mãe de qualquer filho que viremos a ter.
— Sakura... — ele respirou fundo, também longe de estar imperturbável depois dos momentos que haviam partilhado, Sasuke tirou um lenço de dentro das roupas e secou os dedos, Sakura engoliu em seco, as sensações que eles haviam causado nela ainda bem presentes em seu corpo. — Você sabe que eu não tenho escolha quanto a isso.
— Mas eu tenho — disse ela desafiadoramente o olhando nos olhos. — Nós já tivemos essa conversa várias vezes, Ue-sama² — a mandíbula dele se contraiu a ouvi-la se referir a ele pelo título. — Eu não seria feliz longe do meu trabalho, tendo que seguir as regras da Ooku³... E menos ainda tendo que te dividir com a Imperatriz.
— Sakura-san?
Sakura pulou de susto ao ser arrancada de suas lembranças por um toque suave em seu ombro, por pouco não deixando o pilão de madeira que tinha nas mãos cair.
— Hinata-hime!
Ela se virou para dar de cara com a jovem nobre que tinha por amiga. Hinata era sempre uma graça de se olhar, hoje estava envolta de sedas de cor coral e branco, seu obi um tom esmaecido de amarelo tinha pinturas de dragões azuis
— D-desculpe! — ela recuou um passo, as flores de seu kanzashi4 balançaram. — Eu te assustei?
— Ah... você não precisa se desculpar — disse Sakura sorrindo — minha culpa por estar distraída.
— Lembranças tão boas assim? — Hinata sorriu cumplice enquanto examinava as folhas de uma das ervas no balcão.
— Na verdade... — Sakura inspirou profundamente, por um segundo voltando ao momento em que mais uma vez havia se recusado a ser concubina do Imperador — nós brigamos.
— Oh... — ela pareceu genuinamente preocupada e Sakura quase sorriu. — Algo grave?
— Com ele eu nunca sei... Eu... – abaixou a cabeça com um ar de derrota — o recusei mais uma vez.
— Sakura-san, — Hinata se aproximou com uma expressão empática — a vida na Ooku lhe parece assim tão indesejável?
Sakura estudou a mulher que tinha como amiga a pesar de suas diferenças de status. Era impossível que não são se visse a diferença entre as duas. Desde de suas características marcantemente estrangeiras em contraste com a beleza clássica de Hinata, as vestes que as cobriam. Ela com seu uniforme de trabalho que não a diferenciava nem sequer em seu gênero dos outros herbalistas do palácio e a outra em ricas sedas e joias esperadas de uma mulher da alta nobreza. Hinata havia sido criada para a Ooku, tendo nascido numa família aristocrática, havia sido podada para saber ser agradável, obedecer a regras e saber seu lugar. Para Sakura a vida havia sido muito diferente, ela não era filha de um nobre, sua mãe havia sido uma das damas trazidas do Redemoinho para cuidar da educação do Imperador e seu primo, quando eram crianças costumavam a brincar juntos, a ponto de que Sakura se esquecer que eram tão distantes quanto o céu e a terra, pois era tratada pelos dois como igual, talvez por sua falta de feminidade na época, entrando nas brigas e brincadeiras e muitas vezes saindo como vencedora sem que ele lhes dessem nenhuma vantagem por ela ser menina.
— Eu não quero viver eternamente esperando por ele. E é isso que eu vou fazer lá, não é? Aqui eu sou mais livre que a maioria das mulheres, eu tenho uma profissão, eu posso fazer a diferença... — então percebendo o que havia dito ela parou, alarmada. — Desculpe... eu não quis dizer...
— Está tudo bem, Sakura-san, — Hinata sorriu bondosa — eu compreendo, continue.
— Então... Ele me ama agora, eu sei, mas será que vai continuar a me amar se eu não conseguir dar o filho que ele precisa? Ele é o – ela abaixou o tom de voz – Imperador.
— Você não tem como adivinhar como as coisas vão acontecer no futuro, talvez você seja a mãe do futuro Imperador, talvez vocês tenham muitos filhos juntos, mas.... Tsunade-san deve deixar o cargo para você em breve, de qualquer forma será sua tarefa ajudar os filhos dele a chegarem a esse mundo, só que talvez sua posição não seja a mais desejável por vocês dois então...
— Eu sei... — ela fechou os olhos com força, a cena se formando dolorosamente em sua mente — eu sei... Mas isso deve demorar um pouco ainda, depois do que aconteceu...
— Sobre isso... Ele não veio falar com você antes de partir?
Sakura demorou um pouco para responder, embora a fofoca corresse por todo palácio, aquele era um assunto mais perigoso para ser pega explorando, mais até do que o anterior.
— Não. — e voltou a socar ervas em seu pilão.
— Sakura-san...
— Não Hinata-hime, eu não sei o que aconteceu, de verdade. Mas você não é uma das pessoas que pensam que ele...
— N-não! Claro que não. Quero dizer, eu não conheço Tennou Heika5 como você, mas eu não acho que ele fez o que dizem e é por isso...
Ela parou mais uma vez e se virou para Hinata com o cenho franzido.
— É por isso...?
— Você deve saber sobre Naruto no Miya6... — a desconfiança de Sakura aumentou quando das bochechas da outra se tornaram corais como seu kimono.
— Que o Naruto está noivo? Aquele idiota! Depois de tudo que aconteceu e do que as pessoas estão falando, o que ele tem na cabeça para ficar noivo assim do nada? Desculpa Hinata-hime, eu sei como você se sente em relação a ele, mas convenhamos...
— Er- então... É c-comigo que ele vai se c-casar...
Sakura fez silêncio por alguns segundos antes de olhar para Hinata com o cenho franzido.
—Desculpe, eu acho que não ouvi direito.
— Sakura-san...
— Hinata-hime, no que você estava pensando? Se bem que né... provavelmente você não teve muita escolha de novo....
— Na verdade, dessa vez foi por escolha minha, sim.
— Olha, eu quero ficar feliz por você, — ela colocou a mão sobre a da amiga — de verdade, mas... Hinata-hime... Eu não sei o que aconteceu à Chuugu Heika7, mas não quero que o mesmo aconteça a você.
— Mas você não acha que ele irá...
— Não, claro que não, — ela tirou a mão da de Hinata e voltou a socar as ervas com mais afinco — mas eu não sei quem o que está por trás do desaparecimento de Karin Heika. Eu amo o Naruto como um irmão, mas... Você nunca sabe o que se passa pelo coração de uma pessoa, mesmo aquelas que você acha que conhece tão bem.
— Ainda assim... Dizem que ao amanhecer eu estarei... E-eu só tenho que arrumar algum modo de me manter relevante até a próxima noite.
— E como você vai fazer isso?
— Foi por isso que eu vim lhe ver hoje... Depois de Tennou Heika, você é quem melhor conhece Naruto no Miya.
— Eu?! — ela arregalou os olhos e a surpresa foi tanta que o pequeno pilão escapou de suas mãos derramando líquido gosmento e verde sobre a mesa.
— Pense, Sakura-san, o que eu poderia fazer para com que Naruto no Miya me desse mais tempo?
Sakura se apressou para conter o estrago buscando um pano para limpar a bagunça.
— Mas você não acha que ele...?
— Não! Mas como você mesma disse, não podemos presumir.
— Ai Hinata-hime... Eu não sei...
— Pense um pouco, por favor, eu não sei a quem mais recorrer — Hinata implorou com urgência.
Sakura parou, segurando pano manchado em suas mãos.
— Estou pensando! Desculpe... — e fechou os olhos com força, tentando pensar em algo.
Fez-se silêncio entre as duas por alguns momentos, até que Hinata murchou como uma flor.
— Não, tudo bem, — ela suspirou resignada — é injusto que eu peça isso de você... Bem, eu vou indo. Foi bom ver você.
Ela se preparava para sair quando Sakura fez um movimento em direção a ela.
— Espere! Eu tenho uma ideia, mas não sei se é boa. Meu pai, você sabe, ele veio de uma vila do Redemoinho, ele disse que lá tinha um contador de estórias muito famoso, ele não tinha muito dinheiro e como era de casta baixa, vivia nas ruas, mas, suas estórias eram tão famosas e deixavam todos tão curiosos e movidos a cada reviravolta que desde os generais até as crianças pobres se reuniam para ouvi-lo.
— Sim... Eu ouvi falar disso. Do próprio Naruto no Miya — ela sorriu lembrando de quando ele se sentava ao seu lado para ouvir as estórias que ela lia nos livros, aqueles sendo milagrosamente os únicos momentos que ela não gaguejava ao falar com ele. — Sua mãe, Kushina Heika contava estórias que eram desse homem para ele e para Tennou Heika antes de dormir, Naruto no Miya sempre estava falando sobre elas na manhã seguinte.
— Exato, ele sempre foi curioso e facilmente impressionável — mas ele sorriu com carinho — você poderia usar isso.
— Mas como? Contando estórias? Que estórias? — ela não conseguia pensar em nenhuma estória de todos os livros que havia lido que seria interessante o suficiente.
— Aí eu não sei, Hinata-hime. Essa vai ser uma decisão que você vai ter que fazer sozinha.
— Você acha que isso pode mesmo funcionar?
— Eu espero, para o bem de vocês dois, que sim...
Na noite de Núpcias
Hinata se encolheu com o som do vaso se estilhaçando contra o chão.
— VELHO GANANCIOSO! — e se encolheu ainda mais com a raiva contida no grito de seu agora, então, marido. — No que ele estava pensando? Dando a própria filha em sacrifício assim’ttebayo?!
— Denka-sama8 e-espere...
Depois do termino da cerimônia, ambos foram conduzidos para o quarto onde passariam a noite de núpcias, mas ao que parecia, não seria das mais tradicionais, assim que ficaram sozinhos, o príncipe havia ignorado a decoração festiva, a ceia que dividiriam e até mesmo a transparência do kimono com o qual sua noiva fora vestida e passou a externar seu acesso de raiva.
— Eu não tenho nenhum real poder político, ele sabe disso! Isso é algum plano? — ele que estava de costas para ela de repente começou a se aproximar. — É claro... Aqueles velhos mesquinhos do concelho acham que eu vou usurpar o Sasuke e o maldito do Hyuuga não podia perder a chance, mas se desfazer da própria filha assim? Eu não sabia que alguém poderia ser TÃO BAIXO — e mais um vaso foi contra o chão.
— D-denka-sama...
— E você Hinata? — ele agora estava tão próximo que ela se viu recuando até esbarrar na mesa que haviam posto para eles e quase cair, ele mais uma vez a amparou, como se fizesse parte de sua natureza, mas Hinata não se tranquilizou ao ter sua queda evitada, ele parecia realmente transtornado e agora estava perto demais. — Como se deixou fazer parte disso?
— F-foi de minha escolha Denka-sama.
— Escolha? — aqueles olhos azuis, tão expressivos pareceram realmente surpresos e até, o coração de Hinata diminuiu, decepcionados.
— Eles... Chihi-ue9 e o concelho... — ela juntou coragem. — E-eles não me forçaram a nada.
— Mas... Não, não, não, não... Você ouviu o que disseram, eu fiz questão que todos soubessem... Você sabia o risco que estava correndo’ttebayo! — ele havia começado a gritar de novo e Hinata virou o rosto, mas o aperto dele em seu braço logo a deixou e ele voltou a caminhar pelo quarto.
As pernas dela cederam e ela caiu, seu coração parecia que iria sair pela boca, com as pernas trêmulas, ela voltou a se levantar.
— Eu... E-eu não acreditei nas fofocas — ela deu um passo vacilante em direção a ele.
— O que? — ele se virou para ela mais uma vez, sua voz saindo fraca tamanha era sua perplexidade.
— E-eu sei que Denka-sama e Tennou Heika jamais fariam o que dizem que fizeram.
Ele se aprumou, sua expressão se tornando sombria.
— Você não sabe de nada, Hinata... — a voz dele saiu como um rosnado.
Ela engoliu em seco e deu mais um passo em direção a ele.
— M-mais eu sei!
Ele riu sem humor.
— Do que você sabe?
— Que Denka-sama que era g-gentil comigo quando éramos crianças jamais seria capaz de fazer as coisas horríveis das quais o acusam.
— Você tem tanta certeza, assim? Não somos mais crianças, Hinata...
— Tenho — disse ela irredutível.
— Eu sinto muito, — agora ele parecia realmente derrotado, como se toda a ira houvesse sido substituída por tristeza — você me julgou mal, e isso vai custar sua vida.
Ela empalideceu e por alguns momentos não soube o que dizer.
— Eu tenho um p-pedido a lhe fazer antes...
— Um pedido? O que você poderia querer de mim’ttebayo?
— Tempo... e... a-atenção, eu acho.
— Tempo e atenção? Você tem minha atenção, mas não sei quanto ao tempo.
— Até o amanhecer? — ela perguntou esperançosa.
— Então você ouviu, não ouviu?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Certo, até o amanhecer’ttebayo. Mas não prometo mais nada depois disso.
— H-hai.
— O que você vai fazer com esse tempo, tendo em vista que serão suas últimas... — ele fechou os olhos, uma expressão de dor em seu rosto. — Bem, você sabe.
E então ele se jogou em uma das almofadas, as mãos tapando o rosto.
Hinata sentiu seus joelhos vacilantes cederem mais uma vez e ela também se deixou cair sobre uma das almofadas cobertas de cetim.
— S-sim, eu gostaria de te contar uma estória.
— Uma estória? — ele riu, mas novamente não havia humor nenhum, o som partiu o coração de Hinata. — Eu estou te dizendo que você não vai sobreviver a essa noite você quer me contar uma estória dattebayo?
— Entenda como meu último desejo então — era estranho, ela estava assustada, é claro, sabia do perigo que estava correndo e entanto, sentia que era ela quem o estava consolando.
Ele tirou as mãos da frente do rosto e voltou seu olhar para ela, Hinata de aprumou e começou a servir o sakê da garrafa posta a mesa entre os dois.
— Mesmo agora eu te acho estranha e me desculpe se não estou no melhor humor para ser delicado, eu não consigo entender porque você escolheu estar aqui... E como mantém essa aparência calma? Você não entendeu nada do que eu disse’ttebayo?
— Eu entendi completamente.
— Certo — ele suspirou — vamos lá, me conte a sua estória.
Hinata sentiu o coração falhar uma batida, havia chegado o momento que havia planejado, ela sabia, precisava fisgá-lo logo no início, afinal o príncipe não era conhecido por sua meticulosidade ou capacidade de se manter atento por muito tempo. Se ela o perdesse logo no início, estaria tudo perdido.
Ela respirou fundo e, não vendo outra alternativa, começou.
“A mulher de um nobre havia dado à luz a dois filhos gêmeos e embora ambos fossem saudáveis e varões somente o primeiro poderia ser o herdeiro, o outro teria que passar a vida servindo a pessoa com a qual havia dividido um ventre. Embora o tratamento dispensado a cada um deles por todos que os rodeavam, inclusive seus pais, fosse diferente, pois o mais velho era ovacionado em suas menores vitórias e ninguém prestasse atenção no mais novo, ninguém poderia dizer que os dois irmãos não se amavam.”
Hinata fingiu não notar quando o observou acariciar com o polegar o brasão da família real em um dos copos, os leques Uchiha estavam em todos os lugares do palácio, menos nas costas do haori que ele mesmo usava, em seu lugar estava o rodamoinho dos Uzumaki.
“Mas as coisas mudaram quando o irmão mais velho, um ano depois da esposa de seu irmão mais novo ter dado à luz a um menino forte e esperto, recebeu a notícia que sua própria esposa não tinha trazido ao mundo o herdeiro que ele esperava e sim a uma menina de saúde frágil. Então, o irmão mais velho que nunca em sua vida havia provado qualquer sentimento negativo em relação ao irmão mais novo e menos privilegiado, provou o gosto amargo da inveja e as coisas mudaram entre os dois, com o irmão mais velho procurando formas de lembrar ao irmão mais novo de seu lugar na hierarquia da família. A resposta deste era apenas sorrir quando o irmão era duro ou injusto com ele e quando as crianças foram formalmente apresentadas, o irmão mais novo fez seu filho jurar que sempre protegeria a filha de seu rancoroso irmão.”
— Que cara egoísta’ttebayo. Você não disse que todo mundo ignorava o mais novo e só porque, pela primeira vez, ele tinha alguma coisa que o outro não tinha ele começou a guardar ressentimento?
— O coração humano é como as águas profundas de um rio, nunca se sabe se o que há no fundo um dia irá perturbar a superfície. Talvez ele sempre sentisse inveja do irmão, afinal, de certa forma, se tem mais liberdade quando não se espera tanto de você.
O príncipe pareceu ponderar sobre as palavras de Hinata e, então, finalmente se aprumou e apanhou um dos doces em cima da mesa e enfiou na boca.
— C’ntinue — disse ele de boca cheia.
Hinata sorriu, embora seu coração disparasse, estava dando certo, ele parecia até mais relaxado, talvez... Talvez houvesse uma chance para ela.
Ela tomou um gole de seu sakê para criar coragem e ele ergueu as suas sobrancelhas para ela que se viu corando por algo que não tinha nada a ver com a bebida.
“Anos se passaram e o irmão mais velho não teve sucesso quanto a produção de um herdeiro para a sucessão. Enquanto isso o filho do irmão mais novo se tornava cada vez mais talentoso chamando atenção de todos para o prodígio que era, e a filha do irmão mais velho tinha dificuldade para cumprir as tarefas mais simples que se esperaria de uma menina de sua idade.
Então, numa noite de inverno, perto do aniversário de quatro anos da, até então, herdeira do clã, algo terrível aconteceu, uma tentativa de sequestro.”
Ela sorriu um pouco ao vê-lo se inclinar em direção a ela, como se para ouvir melhor a estória.
“Inimigos do reino que visitavam para assinar um tratado de paz conquistado depois de muita luta e sacrifício, ainda não estavam satisfeitos com o acordo firmado pelos nobres dos dois países envolvidos e especialmente tinha ressentimento guardado contra o irmão mais velho, pois ele havia sido o general que liderou as tropas a derrotá-los.
Então, eles tentaram levar a menina para usá-la como refém e conseguir vantagens desleais para si próprios ou pelo menos, para se vingar de quem os tinham feito provar vergonhosa derrota.”
— Mas eles não conseguiram levar a menina, certo?
— Não, — ela sorriu — o irmão mais novo a salvou.
“Mas, ainda não estava tudo terminado. Durante o salvamento da menina um dos sequestradores acabou morto e este nada mais era que o filho dos líderes do clã inimigo.
Arrasado pela morte de seu único herdeiro, ele ameaçou a iniciar as guerras novamente se sua sede de vingança não fosse saciada. E para isso, somente a cabeça do irmão mais velho numa bandeja de prata seria o suficiente.”
Hinata observou os primeiros raios dourados da manhã se esgueirarem por entre as frestas das janelas e tentou esconder um bocejo por trás das mangas do kimono de seda translúcida com que havia sido vestida para sua noite de núpcias. Todo seu corpo implorava para que ela se deitasse.
— E então, o que eles fizeram em seguida’ttebayo?
— N-na noite seguinte.
— O que?
— Na noite seguinte eu continuarei.
Ele arregalou os olhos e olhou para trás como se estivesse assustado. Os painéis de papel brilhavam num tom suave de dourado conforme eram banhados pela luz do sol.
Então ele se levantou e, sem dizer uma palavra a ela entrou atrás do biombo com uma paisagem de um amanhecer em chamas por trás de peônias em flor, Hinata se levantou ao ouvir de uma porta deslizar se abrindo para logo depois se fechar, antes que ela pudesse se mover muito Príncipe Naruto estava de volta sua frente com uma expressão intensa no rosto.
Ele se aproximou dela, de forma que ficaram bem próximos, Hinata engoliu seco, o sono sendo trocado pelo medo, seu coração batia loucamente enquanto ela se via sendo invadida por aqueles olhos azuis sem saber o que se passava na mente dele ou o que ele faria em seguida.
Ele não disse nada a ela, somente pegou o sino que chamava os criados e tocou uma vez antes de recuar um passo se distanciando dela.
Logo o quarto foi invadido por um séquito de damas da corte.
— A minha esposa vai voltar na noite seguinte, mas agora deve descansar.
— Hai, Denka-sama.
Hinata foi então retirada do quarto, mas antes olhou por uma última vez para o príncipe, de costas para ela, enquanto era banhado pelos raios do sol que a haviam salvado.
1 — Hakama: Calças da vestimenta tradicional japonesa.
2 — Ue-sama: Modo de se adereçar ao imperador, algo como "vossa majestade".
3 — Ooku: lugar onde o imperador mantinha as mulheres ligadas a ele, Imperatriz, concubinas e a mãe dele etc.
4 — Kanzashi: Enfeite de cabelo usado por mulheres que imita flores, geralmente feito de tecido.
5 — Tennou Heika: "Sua majestade" como se faz referência ao Imperador, note a diferença de pronomes quando se traduz para o português.
6 — Naruto no Miya: "no Miya" é como se referencia ao príncipe.
7 — Chuugu Heika: "sua alteza" mas em referencia a Imperatriz.
8 — Denka-sama: Modo de se adereçar ao príncipe territorial.
9 — Chichi-ue: modo respeitoso de se referir ao próprio pai.
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