Notas iniciais
Não me matem, por favor. Ele demorou mais está aqui. Um beijo.

“Sonhando, eu estava apenas sonhando?

Eu acordo e encontro você dormindo

No fundo do meu coração aqui

Querido, espero

Que o meu sonho nunca assombre você

Meu coração está te dizendo

Como eu te queria...”

(Gloomy Sunday, interpretada por Billie Holiday)

As semanas foram se passando. Mamãe e Mona se empenhavam ao máximo nos preparativos do casamento e exageravam um pouco também. Eu só queria uma coisa simples, não muito chamativo, apenas para pais, padrinho e familiares mais próximos, mas para elas, isto estava fora de cogitação. Queriam um casamento tipo do Elvis com a Priscilla, e eu não estava nem um pouco animada com isso. Na verdade, nem Noel estava por isso deixamos por conta das duas, sem nos metermos demais.

Uma semana antes do casamento, fui provar meu vestido pela última vez, torcendo para que ele não estivesse apertado, afinal eu já havia engordado um pouquinho. Mamãe, Mona e Spencer me acompanharam. Eu acabava de sair do provador quando vi uma pequena confusão. Os seguranças da loja tentavam tirar uma moça à força da loja. Mamãe as meninas olhavam atentas, sem dizer nada. Me aproximei e reconheci a moça. Era Emily.

– Hei, o que vocês estão fazendo com ela? – eu perguntei indignada.

– Essa hippie estava tentando assaltar a loja. – o segurança se explicou.

– Não estava não, cara! Eu só queria ver se era você mesma, Aria.

– Deixe-a em paz. Ela é minha amiga.

– Você a conhece? – mamãe perguntou.

– Sim. É minha amiga Emily.

– Você é amiga de uma hippie? – Mona virou os olhos.

– Você não é melhor que ela, Mona.

– Eu não disse...

– Deixa. Aria. – Emily falou, chateada.

– E você, tire as mãos dela. – eu disse para o segurança, que ainda segurava o seu braço.

– Mais...

– Mais nada. Solte- a. Ela não vai roubar a loja. Ela não é uma ladra. – o segurança soltou Emily e voltou para a porta de entrada.

– Obrigada. E ai, o que você ta fazendo aqui? O Ezra voltou da Guerra? – ela sorriu.

– Na verdade, ele...

– Ele...

– Ele se foi.

– Oh, Aria. – Emily me abraçou e beijou minha cabeça. – eu sinto muito gatinha.

– Tá tudo bem.

– E você vai se casar por quê e com quem?

– É complicado.

– Tudo bem. Vá até o meu trailer hoje a noite. Pra gente conversar mais à vontade.

– Claro. – ela tirou um papel da bolsa e anotou alguma coisa.

– Meu endereço.

– Obrigada, Emily. Estarei lá. Às oito, pode ser.

– Combinado. Vou te esperar. Até mais. Até mais senhoras. – Emily zombou e foi embora.

– De onde você conhece aquela... garota? – mamãe perguntou, um pouco alterada.

– Foi ela quem me levou à estação de trem pra ver o Ezra no dia em que ele partiu, mamãe.

– Oh, Deus! E você entrou no carro daquela hippie?

– O nome dela é Emily e ela é um ser humano igual a você. Então, a trate com respeito.

– Aria! Esse tipo de gente só quer causar a discórdia em nosso país! Senhor, são uma bando de baderneiros sem moral!

– Essa conversa está revirando meu estômago. – dei as costas e entrei no provador. Me troquei e nós voltamos pra casa. Papai e mamãe foram a um jantar na casa de amigos, e eu dei graças por isso. Assim, não teria que ficar dando satisfações para eles. Peguei um ônibus e depois um metrô para enfim chegar ao Brooklin, onde o trailer de Emily e Maya estava estacionado, numa comunidade hippie. Bati na porta e Emily abriu.

– Oi garota. Pensei que não viesse. – ela sorriu e me abraçou. – entre e fique à vontade.

– Obrigada Emily. – entrei e a casa tinha um cheiro de maconha, macarrão e desinfetante.

– E então pode começar a contar a história do casamento, porque eu sinceramente não entendi.

– É tão complicado...

– Eu tenho muito tempo livre.

– E a Maya?

– Foi visitar a avó dela que está doente.

– Ok. Nem sei por onde começar... Algumas semanas atrás eu descobri que estava grávida.

– Você ta grávida?

– Sim.

– Parabéns.

– Obrigada.

– Continue, por favor.

– Então e logo em seguida eu fui bombardeada com a notícia do falecimento de Ezra. Eu não sabia o que fazer.

– E o que tudo isso tem a ver com o casamento?

– Ai eu contei pra minha mãe e contei para o Noel. Ele foi um namoradinho de infância. Meus pais sempre acharam que ele era o homem ideal para mim. E ele fez a proposta. Ele disse que se eu me casasse com ele, daria uma vida boa ao meu bebê. Que daria seu nome, amor e carinho. Ele seria um pai, Emily.

– Você não o ama, Aria.

– Eu posso aprender a amá-lo, Emily. Afinal, se meu pai descobre que eu engravidei do Ezra, é bem capaz dele me matar e o Noel sabe disso. E ele prometeu que jamais tentaria nada comigo e que até iríamos dormir em quartos separados.

– Que horror, Aria.

– Eu fiz a melhor escolha, Emily.

– Você vai ser infeliz o resto da sua vida, minha linda.

– Talvez não.

– Aria... Você é jovem, bonita tem a vida inteira pela frente. Quer mesmo se prender a um casamento de mentira?

– O que eu vou fazer?

– Venha conosco. Estamos partindo para a Califórnia na segunda feira.

– Eu não posso deixar minha mãe sozinha... Ela precisa de mim.

– Sua mãe sabe se defender, Aria. Voe sozinha. Seja feliz, só você, seu bebê e a liberdade.

– Eu não sei... tenho que pensar.

– Então pense. Venha comer. Fiz macarrão com queijo pra gente. – ela sorriu e nós jantamos. Às dez, ela me levou para casa.

– Obrigada, Emily. Me diverti muito hoje.

– De nada. Só uma coisa: eu estarei lá.

– Lá onde?

– No seu casamento. Na porta, esperando você tomar a decisão certa.

Eu sorri, dei-lhe um beijo no rosto e entrei.

Fiquei a noite inteira pensando na proposta de Emily. Seria mágico ir embora com os hippies. Viver de maneira livre e plena. Sem rótulos, sem aparências, sem tradicionalismo. Viver de acordo com as minhas regras. Ser o que eu tivesse vontade. A possibilidade de largar tudo me deixou confusa.

No dia do casamento, fui acordada cedo por minha mãe. Nós fomos ao salão de beleza e nos arrumamos lá. Fiquei o dia inteiro com dor de cabeça e quieta. Enquanto fazíamos as unhas, mamãe percebeu que eu não estava bem.

– O que foi, querida? Está se sentindo mal?

– Não mãe. Estou nervosa apenas. – menti.

– É normal. Eu estou tão animada!

– É, eu também. – menti novamente.

Finalmente, mamãe percebeu que eu não estava a fim de conversar e se calou. Mais tarde, fui para casa e coloquei meu vestido. Me olhei no espelho e não senti absolutamente nada. Nenhuma emoção ou lágrima, nenhum sorriso conseguiu brotar em meus lábios. Fique ali, me olhando sem expressão alguma. Mona sorriu e olhou para mim.

– Você está maravilhosa.

– Está mesmo. – papai disse entrando no quarto.

– Fantástica. – mamãe começou a chorar.

– Obrigada.

– Vamos então? O motorista está nos esperando. – papai disse e me ajudou a descer as escadas. Entramos na bela limousine preta e seguimos para a Igreja, em silêncio.

– Vai dar tudo certo, meu bem. – mamãe encorajou-me.

– É Aria. Vai dar tudo certo, não precisa ficar nervosa. – Mike disse segurando minha mão.

– Obrigada. – chegamos à Igreja e papai me ajudou a descer do carro. Nos posicionamos de frente para a porta de entrada e a marcha nupcial começou a tocar. As portas se abriram e eu pude ver todos os convidados sorrindo. Lá na frente, Noel parecia nervoso. Papai entregou-me a ele e apertou sua mão. Logo, o reverendo começou a celebrar o casamento.

– Meus caros irmãos estamos aqui reunidos hoje para a celebração da união destes dois jovens no sacramento do matrimônio. Que o nosso Senhor abençoe a vida deste casal.

“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

Eu comecei a tremer. Eu não podia fazer aquilo. Eu estava enganando a mim mesma.

– Você Noel Khan, aceita Aria Montgomery como sua legítima esposa, e promete ser fiel, amá-la, respeitá-la na alegria e na tristeza, na saúde e na doença até que a morte os separe?

– Sim.

– E você, Aria Montgomery, aceita Noel Khan como seu legítimo esposo, e promete ser fiel, amá-lo, respeitá-lo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença até que a morte os separe?

– Eu...

– Aria? – Noel apertou minha mão delicadamente e sorriu.

– O que?

– Responda a pergunta, meu bem.

– Eu não posso fazer isso, Noel. Me perdoe.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.