Notas iniciais
Olá meninas. Mil desculpas pela demora, meu computador estava com defeito e não deu para postar! Espero que gostem.

“A primeira vez que vi seu rosto

Eu pensei que o sol se levantava em seus olhos

E a lua e as estrelas

Eram o presente que você deu

Aos céus escuros e vazios

Meu amor.”

(The First Time Have I Saw Your Face, de Roberta Flack)

Em outubro, enquanto caminhava com Spencer à caminho da escola escola, vi uma coisa que me chocou. Meu pai estava dentro de um carro, beijando outra mulher. Fiquei indignada, pois minha mãe passou os últimos vinte e dois anos da vida dela se doando a ele, fazendo o possível para manter a casa toda em ordem, nos criando praticamente sozinha, pois a única coisa que ele fazia era não deixar faltar dinheiro, agüentando desaforos e sendo humilhada para ele fazer isso com ela? Não era justo. Passei pelo carro em silêncio e com muita raiva e segui para o colégio. Durante a dificílima prova de Aritmética, passei mal só por estar pensando na traição de papai. Uma tontura seguida por um forte enjôo. Pedi à senhorita Yorke, nossa professora para ir ao banheiro e fui para a enfermaria.

– Posso te ajudar?- uma mulher de mais ou menos trinta e cinco anos perguntou, com um belo sorriso nos olhos. Ela era baixa, morena e tinha os cabelos cacheados e olhos castanhos.

– Aonde está a senhora Lovato? – perguntei sobre a nossa enfermeira.

– Ela tirou licença. Sou a substituta.

– Prazer, meu nome é Aria. Aria Montgomery. – apresentei-me estendendo a mão.

– Prazer. Sou Juliet McKeen. – disse retribuindo o aperto. – em que posso ajudá-la.

– Você tem um analgésico? Estou com tontura e enjôo. Eu sabia que não deveria ter comido aqueles lanches que servem aqui.

Ela me olhou desconfiada e depois sorriu.

– Sente-se, Aria. – ela puxou uma cadeira e eu me sentei. – desde quando está sentindo estes enjôos? Começou a senti-los hoje?

– Por que a pergunta?

– Procedimento padrão.

– Ah, não sei. – suspirei e olhei fixamente para um calendário, que repousava em sua mesa. Meu coração acelerou e eu comecei a tremer.

– O que houve?

– Não pode ser. — disse e logo em seguida, tapei a boca com uma das mãos.

– Suas regras estão atrasadas?

– É, estão. O que eu faço?

– Não se apavore, talvez seja apenas preocupações.

– Os enjoos e as tonturas também?

– Hum... Não se preocupe está bem? Mais te aconselho a conversar com o seu namorado.

– Ele está no Vietnã.

– Você, bem... O traiu?

– Não! Claro que não! Eu o amo e não faria isso. — disse, irritada com a pergunta dela.

– Faz quanto tempo que ele está lá?

– Dois meses e meio.

– Meu marido também está na Guerra. Ele é tenente.

– Eu sinto.

– Eu também. – ela suspirou. – toma, este é o telefone do meu médico. Faça os exames e confirme. Não custa nada. Talvez seja apenas preocupação, como eu disse.

– O que eu vou fazer se eu estiver mesmo grávida? – comecei a chorar e Juliet me abraçou. – e outra: faz muito tempo que ele não me escreve.

– Uma criança é um presente de Deus, Aria. E não se apavore, querida. Ele irá te escrever. Os soldados não têm vida fácil na Guerra. A toda hora têm que estar prontos para o combate.

– Meus pais irão me expulsar de casa! Eles nunca iriam aceitar um neto filho de um pobre professor de Literatura.

– Esse é o problema então? O seu namorado ser pobre?

– Exatamente.

– Seus pais estão presos no tempo. – ela sorriu. Olhei para o lado e vi alguns preservativos dentro de um vidro.

– Você está distribuindo isso para as meninas?

– Estou, qual é o problema?

– Nenhum, acho ótimo, mas se a escola descobrir, você vai ser demitida. O discurso deles abomina os métodos contraceptivos...

– Aria, eu vou continuar distribuindo, não quero que as meninas tenham uma gravidez indesejada.

– Só tome cuidado com Alison DiLaurentis, ok?

– Por quê?

– Ela escreve para o jornal da escola. Ela defende o casamento e condena estes métodos, o movimento feminista e tudo o que envolve revolução. Se ela ficar sabendo, vai ter problemas.

– Ela ficará sabendo, mais cedo ou mais tarde. Já distribui preservativos para muitas meninas.

– Obrigada Juliet.

– Não precisa me agradecer, Aria. Vou rezar por você.

– Faça isso. – sorri e voltei para a sala de aula.

Mais tarde, quando cheguei em casa, presenciei um pouco de uma discussão acalorada entre meus pais. Eu não entendi direito o porquê da briga, pois estavam trancados no escritório. Fui para o meu quarto e me tranquei lá. Fiquei pensando na possibilidade da gravidez e entrei em pânico. Estava preocupada comigo e com o Ezra. Adormeci e acordei na hora do jantar, porque minha mãe me chamou.

– Querida, venha comer. – ela sorriu quando abriu a porta.

– Não estou com fome.

– Coma pelo menos um pouco. Fiz frango com quiabo.

– Quiabo? – meu estômago revirou.

– Você adora quiabo!

– É, eu adoro. – disfarcei. – o que houve hoje mais cedo?

– O quê? – mamãe perguntou, se fazendo de desentendida.

– Você sabe o quê. A briga entre você e o papai.

– Coisas de casal. Não se preocupe, está bem?

– Vocês pareciam bem nervosos um com o outro.

– Às vezes os adultos são assim. – ela deu um sorriso amarelo. – está tudo bem agora.

Eu sabia que não estava nada bem. Desci para o jantar e papai não estava sentado em seu lugar. Mamãe e eu estávamos sozinhas e ficamos caladas durante a refeição toda. Resolvi dizer tudo a ela enquanto lava os pratos.

– Mamãe?

– Sim, meu bem?

– Eu preciso te contar uma coisa.

– Conte o que quiser querida.

– Eu corro o risco de estar... bem... grávida.

Mamãe arregalou os olhos e derrubou o prato que estava em sua mão.

– Por Deus, Aria! Como isso foi acontecer?

– Você quer mesmo que eu te explique?

– Eu nem sabia que você já tinha relações! Como você vai se casar deste jeito? Os homens da nossa época não aceitam se casar com uma mulher que já se entregou para outro homem.

– Eu vou me casar com o Ezra. Ele é o pai do meu filho.

– Seu pai vai te matar.

– Ele não vai ficar sabendo. Por enquanto.

– Eu não posso mentir para ele, Aria.

– Ele mente pra você, mamãe.

– Como?

– Eu sei sobre o que vocês “conversavam” mamãe. Você descobriu, não é?

– Descobri o quê, Aria?

– Não se faça de idiota, mamãe.

– Não fale assim comigo, Aria.

– Eu vi, ok? Eu vi o papai com outra mulher.

– Eu não agüento mais esta situação, Aria. – mamãe disse, sentando-se em uma cadeira. Ela começou a chorar e eu a abracei.

– Vai ficar tudo bem. Você pode se separar.

– Separar? O que acha que os seus avós vão achar de ter uma filha desquitada?

– Você já tem quarenta anos, mamãe. Já é bem grandinha, não acha?

– Eu serei uma vergonha pra minha família, Aria.

– Não será. E sabe porque? Porque eu e o Mike temos orgulho de você e nunca vamos deixar de ter. Eu sei que você está infeliz há anos, mamãe.

– Ele disse que faz três anos que ele tem um caso com a moça. Se chama Meredith e mora na rua de cima. Eu sempre fui tão boa! Sempre obedeci suas ordens sem reclamar e com um sorriso no rosto. Sou quem lava as roupas dele, quem prepara seu café, quem deixa os seus ternos bem passados, que agüento o cheiro horrível daquele charuto que el fuma... E ele faz isso comigo? Eu fui um fracasso! A culpa disso tudo foi minha! Eu é quem não soube ser uma esposa e mãe exemplar! – mamãe colocou as mãos no rosto e chorou mais ainda.

– Você não é um fracasso ok? Você é simplesmente a melhor mãe do mundo e eu não quero te ver sofrendo. Mãe, saia deste casamento enquanto há tempo! Você não é obrigada a agüentar os desaforos do papai.

– Eu não posso. Eu jurei perante à Deus que iria amá-lo e respeitá-lo até que a morte nos separasse. Eu não posso me desquitar, entenda. – ela levantou-se e foi para o quarto. Terminei de lavar a louça e fui dormir também.

Na manhã seguinte, tudo se normalizou. Mamãe acordou com um sorriso no rosto e fez todas as suas tarefas. Após a escola, fui visitar Mona e a ajudei com o jantar. Por volta das nove, Mike me levou para casa. Nós entramos e papai estava sentado lendo o jornal e mamãe fazendo crochê. Senti uma tensão no ar e meu corpo gelou.

– Aria? Chegou isso pra você. – papai disse, com voz trêmula. Me entregou um pequeno envelope de Washington. Mike me olhou com tristeza, mamãe também e papai, com indiferença. Meu corpo todo se estremeceu. Eu sabia o que era aquela carta. Abri o envelope com lágrimas nos olhos.

Washington DC, 10 de Outubro de 1969.

Sentimos informar que o soldado Ezra Fitzgerald perdeu sua vida em uma das batalhas no Vietnã, no dia 30 de setembro de 1969. O governo dos Estados Unidos da América lamenta sua perda e espera que aceite os nossos mais sinceros sentimentos.

Atenciosamente.

A Secretaria do Estado.