Notas iniciais
Essa fic eu escrevi em 2013, mas em inglês, e apenas esse ano me dignei a traduzi-la. Podem encontrar a versão original no AO3 (link no perfil). Inspirada na música da Lana, "Young and Beautiful". Sem spoilers para o Lost Canvas, apenas usei o material da série clássica.

Espero que gostem.

Já não é mais jovem. Já não é mais belo. Passou-se muito tempo desde a última vez em que o sentiu.

Permanece sentado por trás de portas cerradas, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, trinta dias por mês. Está sentado na cátedra há anos. Como estaria a vida a tratar Dohko agora? Que estaria fazendo em Rozan? Shion gostaria de visitar o seu velho amigo, mas o Santuário requer a sua presença a todas as horas do dia.

Já não está mais na sala do mestre. Deixa a sua mente vaguear até 1743, até memórias de uma guerra perdida, de cadáveres que em algum momento na sua vida havia visto sorrir, que tinha a certeza de terem sido pessoas algum tempo atrás. Agora ele desejaria que eles fossem cinza, para poderem ser poupados da vergonha de apodrecerem a céu aberto.

O mesmo que ele gostaria de se tornar, duzentos e quarenta e três anos depois. Irá morrer velho, sentando na velha cátedra do patriarca, em meio às pedras milenares do santuário, com a sua velha amiga solidão segurando sua mão; está ciente disso.

Dohko sabe que Shion não está bem. Não tem agido como ele próprio desde há muito tempo. Dohko pensa que serão os anos que o cansaram. Anos que para ele são apenas dias. Deseja trocar o seu destino pelo do seu amigo, que parece tão triste quando confrontado com a premissa de envelhecer algum dia, mas não pode. Há um dever a cumprir, e ele cumpri-lo-á, por Atena.

No entanto, ao mesmo tempo, ele pergunta-se se preferia estar sentado em Rozan, pacífico mas solitário, ou sentado na cátedra, com a cara escondida atrás de uma fria máscara metálica, envelhecendo rodeado pela juventude que floresce no Santuário.

— Não sei quem colocou isso na sua cabeça — Dohko suspira, pela centésima vez. Shion está apreensivo de novo, observando sua reflexão no espelho. De novo. Como já fez um sem número de vezes no passado.

— Não preciso que alguém coloque coisas em minha cabeça, Dohko — Shion admoesta-o. — É uma conclusão a que chego, cada vez que penso em como eu… estarei aqui… e você estará sentado .

Ele não o diz, mas Dohko ouve-o, numa escuridão subtil que sobrevoa o cosmo de Shion: ele deseja trocar de lugar consigo. Ele deseja-o, e Dohko deseja possuir o poder de oferecer algo que acalme o cosmo inquieto de seu amigo.

— Isso não mudaria coisa alguma.

Shion vira-se e insurge-se:

— Não mudaria? Não mudaria o facto de que irei morrer muito antes que você? Não alteraria o facto de que você renascerá após duzentos e quarenta e três anos e eu serei… pó de estrelas?

— Não, não mudaria. Por que se incomoda tanto com ser jovem mesmo? Você sabe que a idade é apenas um número.

— Estou assustado.

— Você está assustado… Acha que serei bonito quando o Misopheta Menos começar a funcionar?

— Nunca pensei acerca disso — Shion diz baixinho, fazendo beicinho. Dohko revira os olhos na sua direção. — Talvez seja.

— Ou talvez eu me possa parecer… com uma ameixa seca. Me tornarei numa ameixa seca, Shion, uma ameixa seca chinesa! Que iguaria. — Dohko gargalha com a absurdez da ideia, e consegue ver pelo canto de seus olhos que fez pelo menos com que Shion esboçasse um pequeno sorriso.

— E no entanto, eu serei pó de estrelas, eventualmente — Shion profere tristemente.

Dohko se levanta da cama e intimida-o com o olhar, com uma intensidade que não se lembra de ter utilizado nos últimos meses ou anos. Observa as feições do lemuriano, a pele de alabastro, meticulosamente esticada; os olhos violáceos, puxados nos cantos, as pálpebras inexistentes; os pontos que são as sobrancelhas que Dohko aprendeu a amar; os lábios pequenos e ligeiramente grossos; o cabelo esverdeado que emoldura a sua face. Apenas um tolo poderia negar a beleza inata de Shion.

Ah, como Dohko gostaria de conseguir fazer Shion ver-se através de seus olhos. Não há um poder que ele deseje mais possuir nesse momento.

O seu olhar suaviza quando se encontra com o de Shion e sente a tensão no cosmo do seu amigo estremecer até diminuir. Até ser pó de estrelas. Inclina-se para lhe depositar um beijo na bochecha, deixando seus lábios permanecerem na pele de porcelana que tanto adora. Traça um caminho sinuoso de pequenos beijos pela sua face até alcançar os lábios do lemuriano. A respiração quente de Shion faz cócegas na sua boca e Dohko aproxima seus lábios, pressionando os dele num beijo firme e casto.

— E eu não me importo. Te amarei até as estrelas queimarem. Aqui, ali, e em qualquer lugar.

Finalmente sente o cosmo de Shion levantar-se, como se uma neblina escura estivesse sufocando-o até ao momento. Dohko está contente por tê-la feito desaparecer, e consegue entender através do pequeno sorriso que Shion esboça contra os seus lábios que Shion também está.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!