Até O Décimo Pôr do sol
5 Capítulo 4
Capítulo quatro
Sentia-se marear. Era como estar flutuando na ressaca das ondas do oceano, seu corpo entregue ao eterno vai-e-vem do movimento marítimo. Uma sensação peremptória, um estado de estranha calmaria, que teria perdurado caso não houvesse sentido um cuidado roçar em sua mão.
Pouco a pouco, Emma volvia a sua consciência, todavia, ela não detinha forças ainda para abrir seus olhos, mas podia sentir algo realmente tocando sua mão. Num primeiro instante, ela entrou em pânico ao se recordar do ataque que ocorrera na beira da praia, pensando em Aurora desprotegida e em Snow lutando e na dor súbita do golpe em suas costas. O coração disparou em medo mudo. Elas poderiam estar feridas. Ela poderia estar sendo atacada e coagida de novo. Entretanto, o toque que recebia em sua mão lhe transmitia calmaria, não a sensação de um ataque iminente, e denotou que era a mão de outra pessoa que tocava a sua.
Aos poucos, ainda enlaçada com o marear que a cingia, seus olhos tempestuosos se apartaram, e primeiramente ela denotou que estava deitada em uma cama, e em seguida viu que era Hook quem tocava sua mão, envolvendo um lenço ao redor dela cuidadosamente para estancar um ferimento. Por instinto, parte de Emma queria acordar por completo e detê-lo, entrementes, sua escassa força apenas a forçou a esperar, fingindo ainda estar inconsciente. Rememorou-se da cena semelhante que acontecera no pé-de-feijão, na qual o pirata também colocara um lenço no machucado que ela ganhara durante a escalada, após, é claro, banhá-lo com uma boa dose de rum. O que acontecera com aquele outro lenço? Não conseguia se recordar.
Como se impelido por esta lembrança, Emma observou Hook tomar sua outra mão – a que ela ferira no pé-de-feijão – e analisar o corte, este apenas pouco visível, exceto por uma fraca linha vermelha que ainda estava lá. Ela sentiu o pirata deslizar o polegar de sua boa mão sobre o corte e, por um tênue momento, aquele toque a confortou.
Espere, no que eu estou pensando mesmo?
Subitamente, Emma abriu os olhos, entretanto, Killian ainda não parecera notar seu despertar até que ela puxou a mão de volta.
– O que você está fazendo? – ela indagou em suspicácia, mirando-o.
– Ah, vejo que a princesa acordou – ele sorriu provocativo na direção outrem.
– Não me chame assim – Emma intimou, tentando soerguer-se na cama. Suas costas latejaram com o movimento, e ela se viu obrigada a ficar deitada. Irritada, deixou os olhos percorrerem o local, denotando que estava em quarto, quase como uma espécie de cabine.
– Como quiser, princesa – Hook piscou – O corte já está estancado.
Emma revirou os olhos, meneando a cabeça em sinal de desistência:
– Onde estou? Cadê a Mary Margaret?
– Para sua primeira pergunta, amor, lhe informo que você tem a honra de estar na cabine do meu navio – ele informou – Para sua segunda pergunta, sua encantadora mamãe precisou sair daqui por um momento para acudir aquela outra princesinha, que estava tendo um pesadelo.
– Elas estão bem? Se feriram no ataque? – o coração de Emma disparou em preocupação ao se recordar do que acontecera na praia.
Hook assentiu:
– Estão todas bem. A única que se feriu foi você ao ser golpeada por trás, mas agora parece que já está bem.
O corpo de Emma relaxou. Mary Margaret estava bem.
Ela levou os olhos até o pirata, analisando-o meticulosamente. Notou-o retribuir seu olhar com mais intensidade, até que seus lábios se entreabriram, e antes que ele dissesse alguma coisa, Emma se adiantou:
– E você, Hook? Está bem? Não foi ferido?
Ele sorriu ironicamente para ela:
– Preocupada comigo, querida?
Emma bufou, seus olhos revirando. Ainda não entedia como tentava insistir em estabelecer um diálogo normal com ele.
A porta da cabine se abriu de súbito, e Snow adentrou, correndo até a filha.
– Emma! Você acordou. Oh, eu estava tão preocupada com você – ela se sentou na beirada da cama, ao lado oposto de Hook, tomando as mãos da filha – Como você está? Está ferida? Com dor?
– Estou bem – ela puxou as mãos de volta, mirando Hook de soslaio – Não se preocupe.
Snow suspirou aliviada.
– Bom, deixarei as garotas conversarem em paz – o pirata anunciou, colocando-se em pé – Irei até o deque para analisar a direção em que o vento está soprando e fazer uma estimativa de quanto tempo levará para chegarmos até a segunda ilha.
– Certo – Snow assentiu.
Emma observou o homem deixar a cabine, seu olhar se anuviando enquanto acompanhava sua saída. Havia algo intrigante nele, algo que colocava em risco a parede que ela erguera ao seu redor. E ela não apreciava aquele sentimento.
Limpando a garganta, volveu a mirar Mary Margaret:
– O que aconteceu na praia?
– Bem, fomos atacados por aqueles mortos-vivos enviados pela Cora. Eu, Mulan e Hook estávamos lutando com eles enquanto você protegia a Aurora. Até que um deles te atacou por trás e te derrubou – os olhos de Snow se encheram de remorso – Tentei correr até você para defendê-la, mas não consegui. Porém... Hook chegou a tempo e conseguiu te proteger de quase ser morta.
Emma engoliu em seco:
– Ele me salvou? Depois de eu tê-lo abandonado no pé-de-feijão? Por quê?
– Terá que perguntar para ele – Snow arriou o olhar, e Emma observou como ela parecia mergulhar em um passado distante, algo selado somente em suas memórias – Talvez ele tenha achado que era a coisa mais digna de se fazer.
Emma meneou a cabeça, não compreendendo. Limpou a garganta:
– E por que fomos atacados? Pensei que Cora e eu tínhamos um acordo. Achei que estaríamos em trégua até o décimo pôr-do-sol.
– Aquela mulher é traiçoeira. Creio que fará de tudo para nos atrasar e para impedir que você complete o desafio. Afinal, ela também quer ir para Storybrooke e, se você vencer, ela não conseguirá.
– Sim...
A voz de Emma falhou no último consentimento. Sim, realmente Cora poderia estar querendo atrasá-la. Porém... Porém... Havia algo oculto ainda, algo que lhe incomodava, algo que ela ainda não conseguira desvendar.
***
Assim que Hook que deixou a cabine em que Emma e Snow White estavam, ele caminhou até outro compartimento do navio, entrando em um minúsculo quarto no qual o único objeto existente era um majestoso espelho.
Antes de fechar a porta, constatou realmente se não havia ninguém por perto. Assim, volveu para o espelho.
- Cora? – ele indagou para seu próprio reflexo.
Lentamente, uma fumaça roxa foi surgindo no espelho, e no lugar de seu reflexo, esta tomou a forma da Rainha de Copas.
- Oh, Hook. Vejo que já está em seu navio – a mulher enunciou do outro lado do espelho – Você é rápido.
- Sou um pirata, madame – ele bradou sem muita vontade.
- E por que está me contatando agora? Não faz nem um dia desde que nos separamos.
- Tenho uma pergunta.
- Diga.
- Por que você promoveu aquele ataque na praia, Cora? – Hook indagou, olhando por cima de seu ombro para constatar que ninguém abriria a porta daquela cabine – Se você selou um acordo com a garota Swan, pensei que estaria em trégua com ela nesses dez dias. Vai tentar atrasá-las o tempo todo?
Cora riu:
- Eu sou a Rainha de Copas. E tenho todo o plano traçado em minha mente.
O pirata franziu o cenho para a bruxa refletida no espelho, demonstrando que não compreendia os objetivos outrem.
- Ora, Hook, este ataque foi para lhe favorecer.
- Me favorecer? – ele arqueou uma sobrancelha.
- Você salvou nossa querida Emma – Cora deu um tom irônico à voz – Ela e sua adorável mãe provavelmente vão lhe olhar com bons olhos agora.
- Oh, está me vendendo uma imagem de bom rapaz? – ele bradou com desdém – Não combina com o perfil de um pirata.
- Mas se enquadra com a situação de agora. Se Emma confiar em você, as chances de lhe escutar são maiores, assim, as chances de você impedir que ela se apaixone por alguém também crescem. Não se esqueça do que eu lhe disse ontem à noite – Cora enfatizou, seus olhos reluzindo em crueldade, os lábios duros impedindo um sorriso: – Se você conseguir, poderá vir comigo para Storybrooke e vingar sua querida Milah. Mas se você falhar... Irá se arrepender.
Após isso, a imagem de Cora desapareceu do espelho, deixando Hook encarando seu próprio reflexo.
Ele tomou uma longa respiração, comprimindo os olhos.
Havia algo que ele ainda não conseguia desvendar.
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