Capítulo um

— VOCÊ FEZ O QUÊ?! – Snow soergueu a voz, arregalando os olhos ao mesmo tempo em que sua respiração acelerava. Ela parecia estar irritada, preocupada, muito descontente. E Emma, por um voraz segundo, temeu a expressão de repreensão que se formava no rosto de sua mãe. Ela nunca havia sido repreendida por uma figura materna, e havia se esquecido de que agora tinha uma mãe que poderia bronqueá-la. Embora isso ainda fosse um pensamento estranho para Emma, em algum lugar em seu interior, ela se sentiu um pouquinho culpada.

— Er... Um acordo – ela balbuciou, mordendo o lábio inferior – Com a Cora.

— Emma! – os braços de Snow caíram em decepção – Eu não acredito! Cora é perigosa e traiçoeira. Fazer um acordo com ela é tão perigoso quanto fazer um acordo com Rumplestilskin! Ou pior!

— Eu não tive escolha! Eu não pensei direito! E eu fiz o acordo com ela. É a única forma que eu encontrei para voltar para o meu filho.

— Nós poderíamos dar um jeito. Nós estávamos dando um jeito – Snow apontou para si própria, para a filha, para Mulan e para Aurora – Nós conseguimos a bússola. Faltava apenas conseguir as cinzas.

— Mas com esse acordo podemos conseguir as cinzas, e ainda impedimos Cora de ir para Storybrooke! – Emma insistiu.

— Ou perdemos a bússola. E você perde o seu coração... – Snow fungou, e Emma achou que ela fosse mesmo chorar – E eu perco você de novo.

A garota Swan chacoalhou a cabeça, aturdida.

— Sinto muito, Mary Margaret, eu...

Os lábios de Snow se modelaram em um biquinho ressentido. Emma franziu o cenho, não compreendendo a última reação dela.

— O que foi? – Emma lamentou no último instante o tom ríspido de sua voz. Não era sua intenção, todavia, o calor do momento acabara por alterar sua fala.

— Você... Você poderia me chamar de “mãe”... – ela disse baixinho, brincando com os polegares – Eu iria gostar de ouvir isso...

Emma relaxou os ombros, sem saber o que dizer. Não queria magoar alguém que se importava tanto com ela.

Em silêncio, Mulan e Aurora assistiam a discussão entre mãe e filha. Emma havia regressado ao acampamento há quinze minutos, e não tinha intenções de acordar nenhuma das três para relatar sua conversa com Cora. Todavia, talvez por instinto maternal, Snow despertou e perguntou para a filha porque ela estava tão estranha. Emma pensou mesmo em mentir e inventar qualquer coisa, porém, a expressão do rosto de sua mãe a impeliu a contar a verdade. E agora a confusão estava instaurada.

— Sinto muito... – Emma murmurou, fitando Snow – Sei que isto foi imprudente, mas eu só estava pensando no Henry e...

— E você o colocou em primeiro lugar – Snow completou, alargando um triste sorriso compreensivo.

— Sim... Sinto muito.

Ambas se silenciaram.

A noite cobria a floresta, assim como a crescente hesitação que se instaurava no quarteto. Foi Mulan quem tomou a palavra.

— O acordo foi selado. Não podemos mais mudar isso – ela declarou em seu tom sério de guerreira – A única coisa que podemos fazer é ajudar Emma a conseguir cumprir o desafio antes do pôr do sol do décimo dia.

— Mas como ela vai conseguir um beijo de amor verdadeiro? – Aurora indagou – Estamos no meio de uma floresta. Estamos no meio do nada.

O rosto de Snow se iluminou.

— Eu já sei como! – os olhares volveram-se para a jovem mulher. Snow sorriu carinhosamente para a filha, a confiança regredindo para seu espírito corajoso – Da mesma forma que Henry foi despertado da maldição do sono.

Os lábios de Emma se apartaram, compreendendo as intenções de Mary Margaret. Mulan e Aurora se entreolharam, questionando uma a outra em silêncio.

Snow avançou na direção de sua única filha. Emma, sem se mover, assistiu por sua mãe tomar o seu rosto em suas mãos e depositar um carinhoso beijo em sua testa.

Uma cálida sensação envolveu o coração de Emma.

Era a primeira vez em vinte e oito anos que ela recebia um beijo materno.

— E então? – Snow se afastou, contemplando esperançosa os olhos da filha – Deu certo? Você venceu o desafio da Cora?

— Eu... Eu não sei... – Emma disse, confusa, sentindo as bochechas corarem discretamente pela súbita onda de emoção que a envolveu – Mas...

— Este até pode ter sido um beijo de amor verdadeiro – Mulan interrompeu – Mas não é o beijo de amor verdadeiro que a Emma precisa para ganhar da Cora.

Snow arqueou uma sobrancelha.

— Como não?! É um beijo de amor verdadeiro. Um amor verdadeiro entre mãe filha.

— Acho que a Mulan está certa... – Aurora interviu com delicadeza, antes que a tensão entre a guerreira e Snow White se amplificasse – Pelo que Emma nos contou, Cora foi específica em relação ao acordo selado e ao tipo de beijo.

Emma mordeu o lábio inferior, fitando a mãe:

— Eu preciso fazer alguém se apaixonar por mim.

— Um romântico beijo de amor verdadeiro – Mulan finalizou vitoriosa, cruzando os braços.

O rosto de Snow se preencheu de decepção. Emma se incomodou ao contemplar o estado de Mary Margaret, Snow White, “mamãe”, o que fosse, porém compreendia que não se arrependia de ter feito aquele acordo com Cora. Era a única maneira de voltar para Henry. Era a única maneira de não abandoná-lo de novo. E ela faria o que fosse possível, mesmo que isso significasse arriscar perder seu coração para a Rainha de Copas.

— Fazer alguém se apaixonar por você, Emma? – Snow coçou a nuca – Mas... Não é assim que o amor funciona. Não adianta procurar por ele, pois é ele que encontra você quando você menos espera.

— Eu tenho que tentar. Só assim poderei voltar para o meu filho.

— Mas nós estamos isoladas no meio do nada – Aurora apontou para a floresta – E todas as pessoas do acampamento estão mortas. Cora as matou. Como Emma vai fazer alguém se apaixonar por ela, se não existe mais ninguém aqui?

— Oh! – Snow enterrou o rosto nas mãos, como se estivesse à beira de um pranto compulsivo – Emma! Eu não concordo muito com essa ideia, mas já que você quer tentar... O que vamos fazer agora? Cora preparou uma armadilha perfeita!

— Mary Margaret...

— Vocês estão enganadas – Mulan declarou, e as três outras mulheres voltaram os olhares para a destemida guerreira – Aquele acampamento não era o único aqui. Há outras pessoas que também não foram levadas pela maldição da Rainha Má, e elas formaram outro acampamento. Em um primeiro momento, éramos grupos rivais por causa de comida, água e proteção. Com o tempo, cada um se limitou a ficar em seu canto. E... Talvez lá aja alguém que possa se apaixonar por Emma.

Snow reluziu, segurando a mão de Emma:

— Você pode nos levar até lá, Mulan?

— Sim. A viagem é um pouco longa, mas se formos rápidas, conseguiremos chegar lá antes do prazo de Cora.

— Certo – Emma deu a palavra final – Vamos até lá.

Acima de suas cabeças, a lua cheia iluminava o céu.

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O vestido de Cora se arrastava pelo chão conforme ela avançava sem pressa para frente, um sorriso de contentamento cruzando seus lábios. Garota tola. Ela realmente havia aceitado o acordo.

— Você conseguiu – uma irônica voz masculina se aproximou da Rainha de Copas – Você convenceu a Swan a aceitar o seu desafio. E eu quase cheguei a duvidar que isto poderia mesmo acontecer.

— Uma mãe desesperada faz qualquer coisa para voltar para seu filho.

— Está dizendo isso por você mesma?

Cora não respondeu a indagação, olhando de canto para o pirata. Hook estava sujo e com as vestes rasgadas, consequência da brusca decida depois de ter ficado dez horas preso no pé de feijão.

— E agora? – ele questionou.

— Eu preciso saber se posso mesmo confiar em você para dar continuidade ao meu plano.

— Claro que pode, Cora – Hook deu um passo para frente – Por que ainda está duvidando de mim? Eu disse que vou ajudá-la a recuperar a bússola. E, de brinde, você ainda vai ganhar o coração da garota Swan.

— Hum... Você já a escolheu uma vez. Como posso garantir que isto não acontecerá de novo?

Hook deu à feiticeira um olhar incisivo:

— Porque um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Eu escolho você, Milah e a minha vingança – ele disse, peremptório – O que você quer que eu faça.

Cora fitou-o de canto novamente, juntando as mãos. A luz da lua a iluminava, promovendo um surreal contorno prateado ao seu entorno.

— Eu disse para a garota Swan que ela deve fazer alguém se apaixonar por ela e conseguir um beijo de amor verdadeiro antes do pôr do sol do décimo dia. Todavia, para o beijo de amor verdadeiro funcionar, ela também precisa se apaixonar – Cora riu baixinho – Regra básica.

— Então você já ganhou o desafio – Hook bradou com ironia – É mais fácil um cacto se apaixonar do que a Emma.

— Hum... Mas o amor é traiçoeiro, é fraqueza, é covardia. Não podemos nos dar ao luxo de confiar apenas nisso. Ela realmente pode encontrar alguém que se apaixone de verdade por ela. É aí que você entra. Você vai retornar para aquelas garotas, e vai “perdoar a Emma por ter te abandonado” – Cora fez um biquinho com os lábios, fingindo estar com pena do pirata – Invente qualquer história. Você vai acompanhá-las durante esses dez dias, e vai impedir que Emma se apaixone por qualquer pessoa.

— E como eu farei isso, vossa realeza? – as últimas palavras soaram falsas da boca do pirata, todavia, Cora não se importou.

— Não sei. Invente, improvise. Você é um pirata. Se você conseguir, poderá vir comigo para Storybrooke. Mas se você falhar... – Cora o encarou sem deixar de sorrir – Eu garanto que o seu final não será nem um pouco feliz.