Atração Fatal

29 Capítulo 29: We’ll Be Alright


Não havia dia e nem noite para Katniss. Não havia sorriso e nem lágrimas. Sua vida estava parada, não havia ações. Ela deixava o tempo lhe atingir. Deixava que a luz do sol, que estava de volta depois de tantos meses, atingir sua pele pálida. Andrew também parecia tenso, a escolha do pai afetou a todos. Morrer era uma opção que nunca pareceu estar na lista de Peeta, mas Katniss teria que entender, afinal, era a saída, por mais dolorosa que seja.

— Você não vai vê-lo? — Madge perguntou vendo a irmã paralisada, o que a deixava preocupada. Katniss negou devagar.

— Ele me pediu para não aparecer lá — a garota falou baixo, olhando para um parede a sua frente como se tentasse decifrar algo que não sabia.

— Você não quer conversar com ele? Pela...última vez?

Não havia resposta. Katniss sentia-se morta por dentro, por mais que seu corpo continuasse ali.

— Eu não quero vê-lo mais — ela disse,saindo do quarto.

O choque veio assim que ela leu a carta. Naquele dia jurou que tudo não passava de uma mentira. Mas ao procurar por Peeta, soube de um dos guardas do palácio que ele não queria vê-la. Katniss então sentiu a rejeição mais uma vez, algo que ela jurou que não sentiria nunca mais desde que Peeta confessou que a amava. Nisso veio a raiva, a vontade interminável de ir até ele para lhe pedir explicações e para o fazer sofrer as consequências por aquela escolha. Mas Peeta já iria sentir, ele iria morrer.

Katniss sentiu ódio e tristeza ao mesmo tempo durante todos aqueles dias. Tanto que lágrimas nem saíam por seu rosto, ela não conseguia nem mais chorar.

Por que Peeta tinha que ser tão infantil? Por que escolher a morte?

Ela tinha jurado que iria dar um jeito de tirá-lo da prisão, que não seria tão difícil assim. Mas apesar de tudo, Peeta escolheu o caminho mais difícil. Será que ele não tinha ideia de tudo o que eles passaram para simplesmente deixar tudo para trás?

A situação estava complicada em todos os lados. Gale permanecia naquele sono profundo e Madge também estava aflita. O único que melhorou foi Finnick, que pode voltar para casa.

— Senhorita? — uma criada chamou por Katniss — Temos notícias.

— Sobre Gale?

A criada consentiu. E naquele segundo ela viu uma chama de esperança, principalmente quando a mulher a levou até o quarto, mostrando que Gale havia acordado. Katniss sorriu pela primeira vez em dias.

****

Madge não sabia se abraçava ou se gritava com Gale. Era óbvio, ela estava feliz, mas de certa forma queria espancá-lo. Como ele pode deixá-la daquela maneira?

Gale abriu os olhos e certificou-se de que todos saíram do quarto. Só assim ele pode respirar e ficar mais tranquilo, por mais que seu coração apertasse quando via Madge chorar daquela forma.

— Por que você fez isso, seu idiota? — ela perguntou secando as lágrimas com as mãos — Por que sumiu sem avisar e volta assim?

— Ma-Madge?— era a única coisa que ele conseguia falar, enquanto sorria de orelha a orelha.

— Eu senti tanto a sua falta — Gale foi surpreendido com um abraço. Sentiu-se aliviado, tentando se agarrar a ela também, por mais que fosse difícil.

— Eu também — ele acariciou seu cabelo, sentindo o velho e famosos cheiro da esposa. Madge então o olhou, deixando um pouco de espaço entre ambos para não machucá-lo.

— Me desculpa...eu não deveria ter te julgado e...- Gale a calou com um beijo. A garota voltou a sorrir, emocionada.

— Eu te amo — ele sussurrou em seguida.

Não havia mais nada a se falar. Era tão simples. Uma pequena frase resolvia o grande problema. Madge não conseguiria sobreviver sem ele, nem tentaria mais. Eram um só, não tinha escolha.

****

Katniss vestia preto. Só via esta cor em seu armário. Não havia vida, luz, e tudo estava começando a ficar patético. Ela não sentia mais vontade nem de carregar aquela criança que era dele. Era só mais uma lembrança de Peeta, alguém que a garota carregava certo ódio.

Ele tinha prometido. Peeta prometeu tentar continuar vivendo e um dia conseguir voltar para casa. Mas agora ela se sentia traída.

“- Eu quero ter um filho seu — Katniss murmurou numa certa noite. Peeta tirou a atenção que tinha num livro, ainda deitado na cama.

— Quero tanto quanto você — ele falou dando um sorrindo de repente. Tirou os óculos e jogou o livro de lado, vendo brincar com a barra do cobertor que tapava suas pernas.

— Eu não entendo… por quê não veio ainda? — ela então deixou o pano de lado, sentando no colo do rapaz. Peeta colocou os braços ao redor do corpo dela, posicionando o rosto na curva do pescoço de Katniss. A pele da garota imediatamente arrepiou ao sentir a respiração dele ali — Quando vem as esperanças… no dia seguinte tudo desaparece.

— Se você esquecer e deixar levar, tudo vem mais rápido — ele encostou seus lábios nos dela, sussurrando ali — Quando menos esperar.

— Eu não quero te pressionar — Katniss desviou a boca antes que Peeta a beijasse, levando um beijo na bochecha. Ele bufou insatisfeito — Me sinto mal depois de fazer isso.

— Desde quando se arrepende de ficar comigo? — ele segurou o queixo da garota, obrigando-a a olhá-lo. Katniss tentava, inutilmente, desviar mesmo assim — Nunca vou negar nada a você, quero te ver feliz.

Um mínimo sorriso apareceu nos lábios dela, porém, não era o suficiente. O incômodo ainda estava presente dentro dela. Katniss mordeu o lábio e sentiu o aperto de Peeta em sua cintura intensificar. Ele queria muito beijá-la.

— Mas eu sinto como se tivesse a obrigação de te dar um filho — disse baixo.

Peeta riu, tirando uma mecha de cabelo dela do caminho. Beijou o canto de seus lábios, passando inocentemente a mão pelas costas da esposa, só para vê-la estremecer.

— Vai chegar a hora certa… quando eu ainda estiver do seu lado, os nossos filhos estarão correndo pela casa e você continuará sendo a mulher mais encantadora para mim — Katniss fechou os olhos, se deixando por vencida.

O beijou com certa vontade, querendo ter tudo o que Peeta sempre lhe dava. Talvez o amaria de todas as formas possíveis, mas não o deixaria ir nunca, assim como ele provava o mesmo a cada dia.”

Katniss, pela primeira vez depois de três dias, chorou sem controle. Todos falavam da morte de Peeta, de como ele tinha sido uma vergonha para todos. E é claro que eles parariam para ver a sentença, para vê-lo sendo enforcado em público. Ela não conseguiria ir, ficaria em casa tentando esquecer os dias em que passou ao seu lado. Os dias em que sorriu e que foi feliz.

Katniss nunca entenderia o porquê. Peeta tinha voltado com um propósito claro, por mais que certas coisas tivessem acontecido no meio do caminho, ele deixou a Universidade para seguir com o plano que estava proposto desde o seu nascimento: tomar o trono. Ele se casaria e tomaria o lugar do pai. Peeta agarrou aquela ideia com todas as forças, isso o motivava a cada dia. Mas agora ele deixava tudo ir embora na maior facilidade.

Katniss acabou entrando no escritório de Peeta. Era um lugar onde aconteceram tantos fatos, sejam eles bons ou ruins. Ela levou um susto ao chegar, havia lembranças por todos os lados. A mesa permanecia cuidadosamente arrumada como ele sempre deixou, mas ela também encontrou quadros seus pintados por todos os lados, algo que tinha tomado gosto desde a primeira tela que ganhou dele. Alguns que estavam ali tinha até sido pintados na companhia dele.

Só podia ser ordens dele, ela pensou. Essa era a sua despedida.

Uma lágrima grossa escorreu por sua bochecha quando Katniss viu o que tinha em cima da mesa no centro. O cheiro de Peeta estava por toda a parte e assim ela podia até mesmo sentir a presença dele ali, sentia uma imensa falta de tudo que era relacionado a ele.

Katniss puxou um pequeno quadro que estava sobre a madeira. A pintura retratava claramente ela com um sorriso no rosto. Abaixo da moldura havia um papel, que ela hesitou em pegar. Suas mãos tremiam quando o bilhete foi aberto e num piscar de olhos Katniss reconhecia aquela caligrafia. Seu coração acelerou ao notar que Peeta tinha tocado naquele pedaço de papel e que tinha deixado apenas palavras escritas para o último encontro.

“Lembranças para a única razão de minha vida.

Sei que você nunca vai me perdoar, mas saiba que vou estar ao seu lado, olhando cada passo de nossa família. Não quero que sofra, muito menos quero que chore por mim. Quero que ame, que seja feliz. Estou te deixando livre, te libertando de todos os sofrimentos que te dei. Te libertarei em nome de nosso amor.

Tudo o que menos quero é que continue presa a mim, viva cada minuto, mas por favor, leve coisas boas e nunca esqueça que estive ao seu lado. Pode me odiar, mas saiba que eu te amo, mesmo me arrependendo a cada minuto por não ter demonstrado isso o suficiente. Minha vida, minha paixão, minha razão... Chérie, leve essas palavras com você,

Peeta Mellark”

Katniss deixou o bilhete escorregar de sua mãos, não tendo mais forças. Como iria se libertar? Como Peeta tinha a coragem de escrever aquilo depois de fazê-la se apaixonar daquela forma? Não era justo.

Por que tinha que amá-lo tanto? Katniss não conseguia, tanto que num segundo atirou o quadro dela no chão, assim como pegou o bilhete de volta e o cortou em pedaços. Não conseguiria levar aquelas lembranças. Ela precisava destruir cada pedaço, abaixar a cabeça e deixar o destino levá-la.

****

— Achamos o Louis — Haymitch anunciou. Annie já stinha se arrumado para a tragédia que envolveria o irmão, parando assustada.

— Como? O Louis? Acharam ele?

Haymitch assentiu. Andou por seu escritório, apressado e nervoso com a notícia.

— Ele estava fugindo da Inglaterra, tentou pegar um trem para França, mas a polícia chegou a tempo.

Annie queria correr dali, mas estava agitada demais para saber o que faria primeiro. Paralisava, batia no acusado ou ajudava Peeta? Era difícil resolver.

— Onde ele está? Precisamos impedir a sentença de Peeta! — ela disse de repente. Haymitch parou, nem lembrava desse detalhe. O filho seria morto nessa manhã, daqui alguns minutos.

Como pode esquecer? Tudo porque estava tão enérgico.

— Mas… isso é impossível, ele confessou o crime, a sentença será feita de qualquer maneira — revelou aflito. Annie nem quis terminar de ouvir.

Ela correu para fora do cômodo, destinada a impedir mais uma confusão. Pediu ao pai para que apanhassem Louis e o levassem imediatamente para onde Peeta estava, ele seria obrigado a confessar. Ela tremia de excitação, Katniss dependia daquilo. Via como a amiga sofria pela despedida.

O lugar estava cheio de pessoas, curiosos para ver uma das cenas mais escandalosas de todos os tempos. A bagunça era tão grande que foi difícil conter a multidão. Todos queria saber das fofocas, todos criticavam o nome da família que mais causou escândalos por todo o país. Annie entrou de cabeça baixa, sabia que estava atrasada.

Era difícil para os pais e familiares verem um próprio parente tão próximo ser morto daquela forma, mas quando as enormes portas do Salão se abriram, todos se calaram. Um homem ao centro fechou a boca e olhou irritado para os guardas, que deixaram a garota entrar daquela forma.

— Parem! Porque ele não é o culpado! — ela gritou nervosa. Peeta ergueu os olhos, com as mãos algemadas. Podia-se ouvir até os cochichos dos convidados — Os senhores estão cometendo uma injustiça!

— O que a senhorita quer argumentar? — o homem perguntou com certa ironia nos lábios.

— Meu irmão foi vítima de um golpe. Ele nunca mandou matar a esposa e o filho — Annie disse ainda segura de si. Peeta não mexia nem um centímetro.

— Mas tudo indica que foi ele, temos provas — um outro homem acusou, cruzando os braços. Annie já até via o momento em que seria arrastada dali à força — O Sr. Mellark confessou a todos.

— Peeta ama Katniss, qualquer um percebe vendo os dois… se ele matou a Senhorita Fontaine, foi por amor, foi para defender a esposa. Ela corria risco de vida, foi um acidente… eu me lembro de quando Katniss e Andrew foram sequestrados — ela continuou. Peeta sorriu do outro lado.

As pessoas ao redor ainda cochichavam, tirando suas dúvidas

— É por isso que não aceito essa sentença, não vou vê-lo morrer desta maneira — ela terminou.

— E o que pode nos confirmar toda essa sua fala senhorita? — Annie se calou. Só tinham as suas palavras como prova. Isso fez o homem sorrir vitorioso, acenando para que terminassem tudo logo.

Mas então as portas se abriram novamente, dando espaço para um Haymitch apressado entrar com uma multidão de novos guardas. As pessoas que assistiam a tudo se calaram mais uma vez, abaixando o olhar.

— Ela não tem provas… mas ele tem — Haymitch anunciou.

Louis estava assustado. Era obrigado a andar, vendo que era seu fim. Uma ponta de esperança cresceu dentro do peito de Peeta quando ele viu o homem ser posicionado no centro, algemado como ele.

Tudo estava começando a caminhar novamente.

****

Era a última rosa que Katniss jogava na lareira. Peeta também tinha deixado uma coleção delas no escritório e ela não queria nada daquilo. Tinha colocado Andrew para dormir mais cedo, Madge saiu com Gale mais cedo para ver Finnick e desde então ela não recebeu notícias de Peeta, por mais que desconfiasse do que havia acontecido. Já era noite, não havia quase ninguém em casa e ele não voltaria mais. Nunca mais.

Katniss secou todas as lágrimas, notando que estava tarde para ficar acordada. O único problema era que seus olhos não conseguiam ficar fechados por muito tempo, o sono nunca vinha. Sua cabeça já estava começando a ficar estranha, ela se sentia tonta e exausta, terminando de destruir todas as rosas. Ficar naquela sala também não era uma coisa boa a se fazer, havia lembranças por todos os lados.

Katniss então ouviu passos. O barulho lento era como uma tortura aos seus ouvidos, mas ela permaneceu de costas para a porta do cômodo já sabendo o que iria chegar. Deveria ser algum guarda trazendo as malditas notícias que ela tanto evitou durante o dia inteiro. Ela fungou e se certificou de que não havia nem mais um resquício de choro em seu rosto.

E foi nisso que os passos se aproximaram, parando próximo dela. Katniss estranhou, mas não se virou para ver quem poderia ser. Ela sentiu um braço a envolver pela cintura por trás, enquanto uma mão retirou seu cabelo do caminho. Uma respiração quente foi parar em seu ouvido.

— Chérie...- Katniss imediatamente fechou os olhos, levando a cabeça um pouco para trás. Beijos foram colocados sobre a sua pele do pescoço e seu corpo imediatamente respondeu, agradecendo o carinho. Era muito bom.

Porém, de repente ela parou. Katniss reconhecia aquela voz. Reconhecia aquele cabelo, o cheiro e os beijos.Por um segundo jurou que tudo não passava de um truque da mente, era o mais provável. E por isso ela virou, livrando-se daqueles braços.

Seu coração pareceu parar de bater naquele instante. Katniss precisou piscar algumas vezes para ter a certeza de que Peeta estava ali, tão confuso quanto ela. A garota deu um passo para trás e sentiu o ódio correr em suas veias.

— Como chegou aqui? — ela perguntou grossa.

— Eu vim à cavalo… vim ficar com você — Peeta tentou tocar em seu rosto, mas as mãos dela foram mais rápidas ao tirá-lo.

Ele estava quente, sinal de que não tinha sido morto.

— Você morreu nesta manhã — Katniss sussurrou, percebendo o olhar aflito de Peeta — Me disse naquele bilhete estúpido!

— Mas eu não sabia que tudo aquilo iria acontecer! — ele disse. Katniss franziu novamente as sobranchelhas, agora não entendia mais nada. Não sabia do que ele estava falando — Não te contaram?

— N-não .

Peeta paralisou, encarando-a com certa atenção.

— Louis foi pego… como não te contaram? — Peeta perguntou revoltado, começando a andar de um lado para o outro pelo cômodo — Pensei que estivesse me esperando.

— Eu já estou livre.Você me libertou, lembra? — Katniss queria chorar novamente, se obrigando a fazer a única saída para evitar isso, iria fugir.

Mas sentiu um toque quente em seu braço, fazendo-a estremecer e se deixar ser puxada. Katniss estava com raiva, muita raiva. E Peeta continuava ali tentando fazê-la voltar atrás.

— Você não quer me deixar aqui — ele dizia baixo, sobre os lábios dela.

Katniss fechou os olhos e sentiu os dedos dele entrelaçarem em seu cabelo, segurando sua nuca. Um beijo foi colocado no canto de sua boca, limpando a lágrima que havia acabado de descer. Peeta limpou todas as que caíram, passando o polegar sobre a bochecha corada dela.

— Eu disse que iria ficar ao seu lado — ele tornou a sussurrar.

— Me solta, Peeta, por favor— Katniss ordenou, abrindo os olhos. Peeta obedeceu, mesmo hesitante, como sempre fazia — Não. Você escolheu ficar longe de mim, escolheu morrer.

— Você não sabe a razão de eu ter feito isso! Mandariam me matar de qualquer maneira! — ele explodiu. Katniss cruzou os braços, assustada. Isso o fez parar, a observando, não queria fazer aquilo com ela — Por favor, volta, Chérie. Eu não vou conseguir...

— Você escolheu morrer, ficar longe de mim é o mínimo que pode fazer — ela legou, rude novamente. Era difícil cuspir aquelas palavras para fora, mas também era difícil pensar em tudo o que ele fez. Peeta a olhava sem acreditar, essa era a última reação que esperaria vindo dela — Pode ficar com o quarto se preferir, eu não me importo.

— Chérie...Por favor…

Ela já tinha ido. Peeta agora tinha a certeza de que era capaz de chorar mais uma vez por uma mulher. Só que ele acabou aceitando, merecia cada consequência. Foi um monstro para Katniss. Mas mesmo assim, não havia sentido dormir sem poder abraçá-la.