Atração Fatal

14 Capítulo 14: Lost In My Own World


Amor. Dane-se o amor, isso não existe. Pelo menos era o que Katniss pensava até alguns minutos atrás. Annie insistia na ideia de “Você está completamente apaixonada por Peeta”, enquanto rodopiava pelo quarto.
Aquela era a melhor notícia desde então, talvez o amor da garota revertesse tudo, ela até poderia amolecer o coração de Peeta.

— Isso é impossível, Annie! Não sou capaz de amar alguém desde...- ela se interrompeu ao ter um leve flash com o rosto de Cato. Tudo menos pensar nele agora, pensou.

— Parece que Peeta abalou o coração da mocinha da história... — Annie dizia rindo- Isso é ótimo, Kat! Meu irmão pode até mudar por causa disso e...

— Annie, eu não posso. Se eu aceitar, vou me magoar.

Katniss dizia cortando o assunto. Ela realmente olhava para Peeta com outros olhos desde aquele acontecimento com as tintas, mas aquilo não podia ser real. Ela lutaria o que fosse, só não derramaria mais nenhuma lágrima por alguém que não tinha interesse algum nela.

Passou as mãos sobre os olhos antes de ignorar Annie e voltar a beber o chá. Aquele sentimento não existiria, não se dependesse dela.

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Já era de manhã em Londres. Uma bela manhã de outono, na verdade, não tão bela já que as folhas ficavam naquela coloração alaranjada, amarelada ou avermelhada e caíam direto das árvores. Não era a estação mais bonita para os ingleses, não como a primavera. No outono, o ar triste parava por ali, mas pelo menos havia o inverno, que estava para chegar com a neve.

Gale procurava o irmão por todos os lados, mandou o carteiro entregar cartas informando os parentes mais próximos, só que nenhum deles sabiam de nada. Um cavalo havia sumido na noite anterior, o que o assustava, já Peeta não podia cavalgar.

Por isso imediatamente mandou Harry, um dos empregados dali, fazer a busca pela cidade. Não informara Katniss, por causa do bebê.

— Senhor, SENHOR!- Harry correu pela mansão apressadamente, enquanto procurava por todos os lados um sinal de Gale — Mr. Mellark...Eu o encontrei.

Foi a melhor notícia desde então. Gale corria pela casa, tentando avisar aos demais empregados, aos pais e a Annie, finalmente o irmão havia aparecido. Já estava até mandando buscar Peeta, mas viu a expressão preocupada de Harry.

— Onde ele está Harry?- perguntou com receio.

— Er...Peeta foi encontrado por uns moradores da cidade, estava machucado e desacordado...Ele foi levado para um hospital — falou tímido.

Os dois falavam na sala e por má sorte, Katniss passava por ali, ouvindo tudo. O livro em sua mão caiu violentamente no chão, chamando a atenção dos rapazes. O coração de Gale imediatamente pulou, ele sabia do temperamento da garota e sabia a confusão que ela causaria...E o bebê.

Já bastava um ferido por aqui.

— Onde ele está?- Katniss andou com passos firmes até eles — ME FALA! Onde ele está?

— Katniss...Vai lá para dentro, eu cuido disso aqui- Gale tentou acalmá-la vendo a expressão apavorada de Harry.

— Ele pegou o cavalo, não foi?- a garota sentiu os olhos arderem — Se ele quer se matar ... ENTÃO QUE VÁ PARA O INFERNO!

Katniss deixou a sala rapidamente, não queria mais saber de Peeta. Ele queria morrer, sabia muito bem que cavalgar naquele estado era errado. Por fora ela parecia ignorar tudo aquilo, mas por dentro seu coração acelerava, a preocupação era evidente. Só que ela negava esse sentimento.

Gale correu para ver o irmão. O hospital não era grande coisa, muitas cirurgias eram feitas até sem a anestesia e não haviam quartos separados, era uma espécie de enfermaria. As doenças eram evidentes pelo ar, crianças tossindo e chorando, adultos levando pontos em alguma parte do corpo, outros tinham perdido algum membro. Só Peeta, por ser alguém importante, recebeu tratamento especial e ficou em um quarto isolado.

E o que já estava ruim, ficou pior. O rapaz, meio sonolento, viu Gale entrar sério pela porta do quarto. Mais pontos em sua testa foram feitos, várias partes do corpo estavam enfaixadas e o silêncio não ajudava nada. Peeta tinha danificado ainda mais o osso que antes fora quebrado, havia também uma lesão no osso da perna direita. E agora que ele tinha certeza de que não seria capaz de realizar nada mesmo.

— Por que fez isso? Quer se matar?- foi a primeira coisa que Gale conseguiu soltar ao ver o irmão naquele estado.

— O que você faz aqui? Não quero ouvir as suas reclamações — Peeta tinha sua carranca de sempre, parecendo desinteressado naquela conversa. Logo em seguida gemeu de dor assim que tentou se movimentar, sentindo como se tudo em seu corpo estivesse para virar pó.

— Deveria saber que... Katniss passou a noite chorando — Peeta revirou os olhos, não queria falar dela — Ela chorou por você.

— E daí? — disse num tom sarcástico — E o que ela fez? Acha que eu esqueci? A Katniss não é como todos pensam.

— Até quando você vai continuar com isso? — Gale explodiu. Ele andava de um lado para o outro no quarto, nervoso — Você tem 22 anos, Peeta! Mas as vezes me lembra um garotinho de dez...Brigar por causa de uma mulher! Isso é ridículo!

— Ela não é uma mulher...É A mulher! Nunca vou desistir de Glimmer, nem que seja a última coisa que eu faça.

— Ah é? E cadê a …Glimmer?- Gale pronunciou como se evitasse soltar um nome como aquele — Ela nem sequer apareceu ou deu notícias...Você está sendo enganado Peeta!

— Não se meta na minha vida, Gale! — Peeta tentou inutilmente se sentar na cama, mas era difícil quando todo o seu lado direito estava completamente destruído — Para de dizer o que eu devo ou não fazer, ficar achando que é meu pai...Eu sei me cuidar sozinho!

— Sabe, sabe mesmo...Sabe tanto que está em uma cama de hospital, todo quebrado— Gale parou de repente — Vai fazer o que? Fugir para Paris?

— Eu iria antes daquela história ridícula de casamento — falou sem olhar para o irmão — Nós seríamos felizes.

Gale não conseguia mais se mover. Não quando um detalhe chamou sua atenção.

— Já parou para pensar que tudo isso é estranho?- ele levantou a sobrancelha, interrogando o irmão — É...É tudo muito estranho. Essa Glimmer...

— Chega de falar dela, Gale! Escolheu a hora errada para a bronca.

— Só vim aqui te dizer que...- o rapaz voltou a andar, respirando fundo — Não deixe tudo ir embora assim, não deixe de aproveitar cada momento especial de sua vida, você pode se arrepender depois.

Peeta o olhou sério, odiava esses momentos de “lições”. Gale sempre gostou de dar conselhos, advertir e isso já estava ficando irritante. Se ele tivesse morrido naquele acidente, seria bem mais interessante e divertido.

Essa era a pior punição, ficar quebrado em uma cama dura de hospital e para melhorar, ouvindo o chato do irmão e suas filosofias, que nem eram tão boas assim.

— Eu não vou desistir dela...Saiba disso — Peeta disse como se estivesse bastante decidido.

— Por um momento, eu fiquei feliz por você, pelas suas atitudes — Gale o olhou atentamente — Por um momento, eu vi o MEU irmão falar que iria construir uma família...

— E eu tive pena dela, entendeu? Pena— disse revirando os olhos — Katniss queria um momento especial...E eu só dei isso a ela. Por pura pena.

— Não. Você fez aquilo por causa da criança. Você ama demais o seu filho, eu sei disso...Tratou Katniss bem porque queria ver o bebê bem também. Tanto faz se sua esposa morra ou não no parto, você só quer aquela criatura!

— Não fale assim — Peeta falou entredentes — Não o chame assim.

— Viu? Você só se importa com ele — Gale se aproximou do irmão — Se você machucar a Katniss, o problema não será só entre vocês, será entre mim também.

— Por que? — riu sarcástico — Você ainda se diz apaixonado por ela?

— Talvez eu ainda sinta alguma coisa, mas isso não importa. Só quero abrir seus olhos, porque quando você querer recomeçar...Pode ser tarde demais.

Gale saiu do quarto sem pronunciar mais nenhuma palavra. O que ele tinha entalado na garganta, tinha saído completamente. Sua parte estava feita, só faltava o irmão pensar. Conhecendo Peeta durante todos esses anos, sabia que mais tarde ou não, ele faria a escolha certa.

E esse tempo no hospital poderia ajudá-lo.

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Katniss descia as escadas da mansão tranquilamente. Os dias se passaram, e ela não fazia questão de visitar o marido no hospital, ele nem precisava dela mesmo. Só recebia notícias através de Gale, que acompanhava a recuperação do irmão todos os dias. E seu diário foi queimado, então não havia nada para ler.

Os dias foram uma completa solidão, Annie sentia o volume na barriga, Katniss não falava uma palavra sequer e Madge só comentava sobre o bebê da irmã. Sua vida era movida por aquilo, quem dera se ela engravidasse de Gale.

Naquele dia, Katniss descia os degraus da escada tranquilamente, até que viu Annie a chamar no andar debaixo para uma volta no jardim. Jogou o pé direito no próximo degrau e se sentiu fora de si. As coisas ficavam desconexas em sua cabeça, a escada não tinha fim, o rosto da amiga não tinha forma e ela não ouvia nada daquilo.

E de repente, a escuridão tomou conta de sua visão.

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— Já está bem melhor, Mr. Mellark. Assim que recuperar o equilíbrio das pernas, poderá voltar para casa — o médico avisava enquanto tentava ajudar uma enfermeira a tirar os pontos da testa do rapaz.

Peeta já estava mais vivo, suas ações não eram tão frias. Ele até sorria. Principalmente agora, que via as feridas em seu rosto sumirem. Tentava andar as vezes, mas a perna direita o incomodava, fazendo-o se agarrar nas paredes. Por isso, preferia ficar no quarto. O bom era que o estrago não foi tão grande quanto no braço e ele poderia voltar a caminhar em breve.

Não recebia notícias da família há muito tempo, nem queria receber. A noite, até pensava no que poderia fazer, sabia que no dia daquela confusão não era realmente ele ali, ele passara dos limites. Só que o que Katniss fez o tocava profundamente. Sabia que ela não o perdoaria, nem ele fazia questão disso.

Soltou um pequeno riso, aquilo era ridículo. O único fato que os deixava em paz era o filho. Peeta respirou fundo e colocou os pés para fora da cama antes de tentar se equilibrar no chão.

“Não é tão difícil. Você sempre fez isso antes”, dizia a si mesmo. Teve dificuldades no começo, é claro, mas logo se acostumou. Conseguiu sair do quarto, aparecendo no corredor vazio com passos lentos.

— Seu marido apresentou melhoras, até mexeu os dedos hoje pela manhã — Peeta ouviu a voz de uma enfermeira qualquer num quarto próximo — A senhora é uma mulher de sorte!

Peeta parou ao lado do cômodo de onde vinha o som. Um certo homem estava estirado na cama, o braço enfaixado e parte do rosto também. Até parecia que eram queimaduras. Uma mulher estava ao seu lado com umas lágrimas no rosto e a enfermeira, do outro lado, saía do quarto após arrumar os curativos do paciente.

Mas o que chamou a atenção do rapaz foi um menininho bem no canto. Ele era muito pequeno e tinha um bonequinho nas mãos.

O garoto o olhou com os olhos suplicantes, aquele homem machucado na cama do hospital só podia ser o pai daquela criatura. Peeta soltou uma respiração pesada e o menino, meio triste, conseguiu soltar um sorriso a ele. A enfermeira saiu, acenando ao rapaz e a mulher que chorava puxou o baixinho para perto do ferido.

— Olha filho...O papai estará aqui em breve — ela apontava para o homem já chorando novamente — Nós vamos ficar a espera dele, não vamos?

— O papai nos ama, mamãe? — o menino perguntava brincando com bonequinho.

— Muito...Por isso ele vai voltar.

Peeta tentou apressar o passo para voltar ao seu quarto, seu rosto estava transtornado. Ele estava desesperado, se sentia sufocado, como se ali não tivesse saída. Se encostou na cama com os olhos vidrados para o nada. As palavras de Gale borbulhavam em sua cabeça: “Só quero abrir seus olhos, porque quando você quiser recomeçar...Pode ser tarde demais”.

Recomeçar. Era uma boa palavra. Mas não podia ser usada no momento, recomeçar estava fora de seu vocabulário. Infelizmente, o orgulho dominava seu corpo...Mas e aquela família? Eles pareciam ser felizes até na tristeza, a fé deles...Fé. Outra boa palavra. As pessoas que possuem fé, veem o mundo de outra forma, veem o mundo delas.

Assim como Katniss, ela sempre teve fé nos dois, pena que nada daria certo.

— Está aqui, Doutor — depois de semanas, Gale entrou no quarto entregando o relógio de bolso do irmão, que estava meio distante.

Peeta pegou o objeto com uma cara estranha. Depois de todo aquele tempo pensando, ele ainda não tinha tomado uma decisão. Iria voltar para casa, é claro, mas sobre Katniss...Nada.

A perna já estava praticamente curada, só o braço continuava enfaixado e seu rosto frio estava como antes. Os médicos o liberaram e agora ele arrumava o terno para sair daquele terrível hospital. Gale viera buscá-lo, não disfarçando a expressão preocupada.

— Aconteceu algo?- Peeta perguntou arrumando o relógio.

— Não...Só estava pensando em uma coisa — Peeta não se convenceu. Segurou o braço do irmão e levantou a sobrancelha, como sempre fazia quando interrogava alguém.

— Gale, aconteceu alguma coisa que eu deveria saber? — perguntou sério.

— É só que...Acho que Katniss não está bem, Doutor. Sei que não se importa, mas ela não come, não fala e Madge vive ao seu lado trancada no quarto...Ela me contou chorando uma vez, que acha que Katniss pode perder o bebê.

A seriedade de Peeta se transformou em pavor. As únicas palavras que ele ouviu foram: “Katniss pode perder o bebê”.

O bebê. O seu filho. Tudo menos isso.

E ele ainda poderia ser o culpado, mas Katniss fez o que não devia. Só que ele não iria aceitar, faria até o impossível, tudo para deixar o seu herdeiro a salvo. Saiu do hospital as pressas, ignorando o irmão. Durante o caminho, com Gale no seu pé atrás, fez algo que nunca acreditou que faria.

Entrou numa loja, cheia de flores brancas, amarelas, vermelhas, roxas... Mas escolheu as rosas vermelhas, porque sabia que eram as preferidas de Katniss.