Atração Fatal
12 Capítulo 12: Dear Peeta
Katniss conversava tranquilamente com a irmã, como em todas as manhãs. Ela contava em como seu casamento caminhava, como eles pareciam estar felizes. Tudo estava diferente e agradável, pelo menos até as duas ouvirem um grito desesperado de Annie ecoar pela casa. Katniss pensou que havia um problema com o bebê, então correu até lá para ver. Só que infelizmente, não era nada daquilo.
Madge a puxou antes mesmo de ver o que era. As portas da enorme mansão se abriram violentamente e de lá, só se viam Gale e um empregado qualquer, carregando um corpo. Katniss tentou avançar, porém a seguravam mesmo com os seus gritos de protesto. Um Peeta desacordado era levado até o quarto.
— ME LARGUE! Por Deus Madge, eu preciso vê-lo!— a irmã a abraçou, enquanto a Everdeen continuava a chorar — O que aconteceu com ele? Eu preciso saber!
— Vai ficar tudo bem Kat, vai ficar tudo bem... — Madge afagou os cabelos da moça. Logo, as duas foram para a sala tentar esquecer o choque.
Peeta andava a cavalo, como de costume a cada fim de semana. O Mellark, não conseguindo controlar o animal, acabou acelerando demais e chocou-se com o chão. Mas ele foi parar a metros de distância, a queda tinha sido feia. Gale correu para ajudá-lo ao perceber um sangramento em sua testa, enquanto Annie chamava o médico no mesmo segundo em que presenciou a cena.
Peeta acordou rapidamente, quando já estava no quarto, totalmente assustado com aquela situação. Lembrava-se de estar no jardim, enquanto apenas via um escuro e agora, acordava em sua cama. Seu braço doía e a cabeça também, estava bem melhor quando dormia.
Um homem estava a sua frente, Gale logo atrás com a expressão preocupada. Aquele homem, provavelmente o doutor, pegou seu braço dolorido e o puxou para baixo com força. Peeta deu um grito de dor ao sentir o seu osso ser colocado no lugar. Foi enfaixado e ele continuava paralisado, não sabia de nada do que tinha acontecido.
— Eu preciso ver ele! Me deixe ir, Madge!— Katniss exclamou. Ouvir o grito do marido, mesmo que a remoesse de curiosidade e preocupação, também a deixava por um lado feliz, apenas por saber que agora ele havia acordado e deveria estar um pouco melhor.
Katniss não teve tempo de vê-lo. Ninguém a deixou, Gale ficou o tempo todo no quarto do irmão, verificando se tudo estava bem. Por sorte, Peeta só havia quebrado um braço e tinha um enorme ferida na testa, bem perto do cabelo. Quase que a costela foi atingida, mas ele já era acostumado, já sofrera acidentes assim. Gemeu de dor ao sentir o álcool tocar em sua ferida.
— K-Katniss...- encontrou sua voz como um sussurro, o que chamou a atenção de Gale — Eu preciso vê-la...Traga-a aqui.
O rapaz imediatamente obedeceu o pedido, mandando o aviso para Katniss, que praticamente pulou do sofá ao ouvir a notícia. Ela colocou as mãos sobre a boca ao ver o marido naquele estado, jogado na cama. Aquele não era Peeta, estava sem expressão, os olhos caídos, o rosto machucado.
A Everdeen tocou o braço quebrado dele sobre o curativo e desceu até sua mão, entrelaçando seus dedos.
— Eu estou aqui — falou sentando-se ao seu lado. O loiro deu um leve sorriso e gemeu novamente, o álcool ardia — Cuidado com isso!
Katniss reclamou ao médico ao ver a careta estampada na face do Mellark. Ela notou algumas agulhas e logo, presenciou uma das piores cenas da sua vida. Peeta levava pontos na testa. Vê-lo sendo praticamente costurado era torturante, a cara de dor do marido a sufocava.
Como ela poderia se sentir assim?
— Faça o curativo toda noite e assim ele ficará melhor rapidamente — o médico avisou deixando uma caixa de curativos a garota, que pegou no mesmo segundo.
Katniss tocou o rosto ferido do marido. Tudo estava tão bem, por que aquilo foi acontecer? Agora só haviam os dois ali, ela o cobriu com o edredom e fechou as cortinas, iria deixá-lo descansar, mas o garoto tocou a sua mão a impedindo de ir.
— Você disse que queria me conhecer...abra aquela gaveta — Peeta apontou para um criado mudo. Katniss obedeceu, tirando de lá um pequeno livro de capa dura — Esse é o meu diário...só aqui eu escrevo coisas totalmente diferentes.
— Quer mesmo que eu leia? — o Mellark assentiu, ciente de que agora Katniss seria a primeira pessoa a saber de um lado dele que muitos nunca acreditariam que existia. Ele escrevia as vezes, mas nunca tivera coragem de contar a ninguém. Talvez essa fosse a hora.
— Fica aqui comigo — o loiro pediu de repente. Ele queria sentir o perfume da esposa para assim poder dormir, queria ter aquelas mãos quentes passando em seu cabelo enquanto fechava os olhos.
Katniss não discordara, deixando que um sorriso brotasse em seus lábios com aquele pedido. Ela se deitou ali, permitindo que seus braços o acolhessem. A cabeça do rapaz repousou em seu colo enquanto uma mão dele repousava em seu ventre, como ele sempre fazia ao abraçá-la. Peeta finalmente pode fechar os olhos e sentir aquele aroma tão bom.
— Katniss...você saberia definir a gente? — o Mellark falava com a voz rouca, enquanto a garota pensava na resposta.
— Temos uma ligação complicada, um certo tipo de atração, eu acho. Penso que nunca teremos uma coisa concreta — Ele riu, também concordando com o que a Everdeen pensava — E você?
— Acho que estamos conseguindo caminhar, tenho a esperança de que um dia eu consiga...mudar— ela não entendera a última frase, mas não perguntou. O importante era que tudo andava bem.
— Gosto de estar com você — respondeu num sussurro, quando ele sorriu. Katniss, então, abaixou os olhos em direção ao local onde se encontrava a mão do marido, admirando-se com o toque dele ali, o que a fez ter uma nova certeza: Peeta merecia um filho de sangue.
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— Annie! Temos novidades!— Katniss entrou saltitante no quarto da Mellark. Um papel estava em suas mãos, ou melhor, uma carta.
Havia se passado uma semana desde aquele acontecimento com Peeta. O braço ainda estava imobilizado e isso o impedia de escrever ou até mesmo de andar a cavalo, trazendo um arrepio a Katniss, somente por ouvir aquela expressão.
Proibiu o marido de cavalgar até que estivesse totalmente curado, o susto foi grande para querer passar por aquilo novamente. Desde então, Annie sentia um leve volume em sua barriga, era bem discreto, porém dava para perceber quando ela tirava o vestido.
— Pelo menos uma notícia boa por hoje — a Mellark falou sem ânimo algum. A cada dia ela torcia para aquilo ser mentira, mas sempre ao acordar, tinha mais certeza de seu presente.
— Finalmente acho que resolvemos o problema — Katniss recebera uma carta após o almoço, esperava por aquilo a semanas — Recebi agora a pouco...veio de uma parente minha que vive no sul, espero que goste.
— Me dê isso — Annie passou os olhos sobre o papel, a caligrafia delicada mostrava que a carta pertencia a uma mulher. Era um convite, a moça não conhecia aquela garota, mas ela deveria ser bem gentil diante as palavras que usava — Quem é Lady Trinket?
— É uma prima minha...a chame de Effie, ela prefere assim.
— Você quer que eu vá morar com ela? — ela mal conhecia aquela mulher, como poderia ir para a casa de um estranho?
— Já tenho tudo planejado, você vai para lá daqui dois meses, eu uso uma barriga falsa e quando o bebê estiver para nascer...eu invento uma desculpa para viajar até o sul e busco a criança. Peeta ficará chateado caso não presenciar o nascimento do bebê, mas eu não me importo, ele entenderá depois.
— E se ele descobrir da falsa gravidez? Nós duas estaremos mortas — Annie sempre foi certinha. Fazer algo fora das regras, podia ser emocionante só que seu medo a controlava — Não duvido que Peeta seja capaz de matar alguém.
— Peeta não vai matar ninguém...muito menos você que é a irmãzinha dele — a Everdeen revirou os olhos. Estava prestes a decidir, no fundo sabia que aquilo daria tudo errado — Effie disse que adoraria a sua companhia, ela e o Lord Tubbington estão a sua espera em dois meses.
— Quem é Lord Tubbington? – Annie vira isso na carta, contudo pensava que poderia ser o marido da mulher.
— É o gato de estimação dela, pode ter certeza que ele é mais elegante do que a própria rainha...então, aceita a minha proposta?
— Não posso viver com um gato! Sou alérgica e além disso...estou grávida- a última frase foi como um sussurro, para o caso de alguém passar pelo corredor e ouvi-las.
— Annie...esta é a nossa única oportunidade — Katniss apontou para a carta nas mãos da morena — Pensa no que pode acontecer com você caso alguém descobrir nosso segredo? Effie nos ajudará, ela está pronta e totalmente disposta.
Annie tinha medo, mas aceitou. O futuro de toda a sua família estava em jogo, ela tinha que aceitar ou caso contrário, tudo estava perdido. Pensava em Peeta também, no quanto ele ficaria feliz com aquela criança, dava para perceber o quanto os olhos do irmão brilhavam ao olhar para a esposa e confirmar que eles teriam um herdeiro.
Os dois estavam felizes, Annie não poderia acabar com aquilo. A angústia do irmão seria enorme, Peeta poderia descontar tudo em Katniss, provavelmente trazendo consequências fatais.
E ela aceitou uma nova vida fora dali. Uma nova família, novos costumes. Annie iria viajar por um tempo ilimitado, não daria certeza de quando voltaria. Dissera que faria alguns exames para saber o que acontecia com a sua saúde, na casa de uma prima de Katniss.
— Você escreve muito bem...deveria mostrar aos outros — Katniss devolveu o suposto diário ao marido. Ele, ainda ferido, olhava uns quadros no corredor.
— Só você acha isso — falou baixo — Meu pai já falou para desistir, não posso escrever.
Katniss passara as tardes lendo no jardim. Eram umas dez histórias diferentes contadas pelo marido naquele diário. Ela nunca vira alguém escrever tão bem quanto ele, os detalhes, a forma como ele construía o enredo, tudo era perfeito, tanto que pareciam até reais.
— A sua última história me chamou bastante a atenção...parecia real— a Everdeen comentou o que tanto martelava em sua cabeça.
— As vezes trago alguns fatos da minha vida — Peeta deu os ombros em resposta.
Era um conto de romance. Na verdade, ainda não estava terminado, nele um certo homem vivia uma paixão, ele e a sua amada eram completamente felizes, resolvendo montar uma família completa. O casal era totalmente diferente, e isso gerava certas brigas regularmente. Mas, o passado do rapaz retorna, um passado obscuro, que ele tenta não se lembrar. E acaba perdendo a mulher que tanto amou por causa de uma besteira que cometeu.
— Ainda estou pensando no final desta história...não queria que fosse trágico — Peeta voltou a comentar.
— Isso me faz lembrar Romeu e Julieta, gosto de Shakespeare — a moça sorriu, aquela era uma das suas histórias favoritas — Mas gostaria de saber sobre o passado do personagem...você quase não falou. E a garota? Ela morreu?
— Ele só foi perceber as coisas que amava ao perdê-las. Acho que...ainda preciso viver mais para poder concluir isso — Peeta a olhou nesse momento, os olhos da esposa brilhavam de curiosidade — E não se preocupe, Chérie, ela não morreu. Pretendo dar uma bom final para a garota.
Katniss não sabia como, mas um dia iria saber o desfecho daquela história. Algo dentro dela a prendia a querer saber. O modo como aquela personagem sofreu durante toda a narrativa...ela precisava ter um bom desfecho. Talvez o amor mudasse tudo, talvez ele tivesse esse poder. Pelo menos nos simples contos, nas simples histórias.
— Peeta...você já se apaixonou?— a Everdeen perguntou de repente, mal controlando a língua. Sentiu como se aquilo fosse errado no momento em que o marido ficou feito pedra ao seu lado.
— Por que você pergunta isso? — Peeta respondeu frio, mesmo que fosse em forma de outra pergunta.
— Por nada...só acho que, como contei a minha história, você também deve ter alguma — o pavor passou sobre si. Nem para falar, Peeta a olhava.
— Pois saiba que vivi a minha vida inteira aqui, não tenho nada de extraordinário a falar — ele, ainda encarando o chão, se distanciou dali.
Havia algo, com certeza havia algo. E se aquela história fosse verdadeira? E se ela fosse a outra? Ela poderia estar atrapalhando? Mas isso explicaria a falta de educação do marido na época em que eles se casaram. Por um momento, ela queria que ele tivesse dito algo, como “Gosto de estar com você”, mas Peeta nunca soltaria nada desse tipo.
Ele nunca diria que a amava. Porque isso era impossível, eles eram totalmente contrários. Katniss pensou nisso ao caminhar até o jardim. Pensava que se aquele acidente não tivesse acontecido, nada estaria assim. Peeta ficou mais silencioso após esse dia, ele mal falava ou ria.
— Bom dia, Mrs. Mellark! — o carteiro passou perto da moça, com um sorriso de orelha a orelha.
— Bom dia, Jared, quanto tempo não aparece — Katniss o conhecia antes mesmo de se casar. Jared era o carteiro mais famoso dali — Como vai a Sra. Brook?
— Mamãe está quase recuperada, ela mandou os parabéns e desejou felicidades no casamento — Sra. Brook era a mão do rapaz. Ela sofria de depressão desde a morte do marido há três anos atrás e Katniss chegou a vistá-la algumas vezes, porém com a corrida na vida, isso não foi mais possível.
— Mande melhoras e obrigada, Jared — ele deixava o lugar na mesma tranquilidade de antes — EI! E sem essas coisas de sobrenome, ainda sou a mesma Katniss de antes.
Jared apenas acenou para a Everdeen, caminhando para o mesmo caminho por onde aparecera pela primeira vez. Eles era grandes amigos, contudo, desde o casamento, o garoto vem com essas formalidades.
E Katniss ainda tinha a velha ideia de que estar numa família tão nobre não faria diferença nenhuma, ela não sentia como se fosse e muito menos iria mudar seus antigos conceitos. Olhou para as cartas que recebera do amigo, todas para Haymitch. Nenhuma a ela. A última chamou a atenção da garota, era endereçada a Peeta e ela procurou não estranhar quando notou que a mesma vinha da França.
Katniss ainda franziu a testa, esperando que fosse da faculdade onde ele estivera, porém a carta era de uma endereço em especial. Talvez fosse de um amigo dele. A garota leu o envelope, a caligrafia era bem delicada para ser de um homem...fora que um cheiro doce vinha dali. Sentiu um certo perfume vindo do papel, quando a dúvida parou em sua cabeça.
— Katniss, você... — a Everdeen viu a irmã descer as escadarias da mansão procurando por ela, por isso, virou o envelope ao meio e o guardou dentro do vestido, no vale entre os seios. Aquilo era vulgar, mas ali era o único lugar disponível — Até que enfim te achei, mocinha! Por onde andou?
— Er...só vim pegar as cartas! — ela disfarçou entregando os demais envelopes a loira — Leva isso para mim?
— Sem problemas, só não se esqueça de que temos que costurar roupinhas novas para o bebê — Madge saía radiante, crianças eram a sua paixão e saber que a irmã teria um filho, era a melhor notícia de todas.
Katniss se distanciou dali, não queria ser vista. Além de onde estavam as rosas do jardim, no mesmo lugar em que alguns pássaros cantavam, a garota se sentou sobre a grama. Pegou o envelope com as mãos trêmulas, só de pensar no que poderia haver ali dentro, já sentia um arrepio. Aquele cheiro doce entrava por seu nariz, mas dava raiva, nojo.
Aquele maldito perfume não era dela.
Katniss abriu a carta, ciente de que era realmente para o marido. Havia até um “Querido Peeta” no início, isso era sinal de intimidade, eles já se conheciam. A raiva tomou seu corpo ao passar os olhos por aquelas palavras, Peeta nunca tinha falado nada a respeito disso. No final, o nome da tal mulher: Glimmer.
Afinal, quem era Glimmer? Não fazia ideia. Só sabia de uma coisa, tudo estava errado. Katniss agora se sentia como se fosse enganada, e se tudo que passou foi um simples sonho? Melhor que fosse. Deixou o papel cair no chão antes de colocar as mãos sobre a face.
“Querido Peeta,
Ainda não sei por que escrevo isso, mas senti uma imensa vontade. As vezes me pego te esperando, tenho a esperança de sua volta. Sei que não deveria admitir...só que eu ainda sinto algo muito forte por você. Algo tão forte que não consigo controlar mais. Descobri que Louis ainda fala com você por cartas, vocês eram grandes amigos. Numa dessas, vi que aquela “sua esposa” (ainda não me acostumei com a ideia de chamá-la assim), está esperando um filho seu.
Chorei por dias, sei que isso poderia acontecer uma hora ou outra, mas não posso deixar que fique assim. Você não gosta dela, li isso em uma das cartas. Você diz ao Louis que essa garota é insuportável e infantil. Disse que quer fazer a vida dela um inferno. Só que se você a odeia tanto...por que ainda continua aí? Sempre foi de lutar pelo que quer, não de ficar parado deixando as coisas passarem...espero que pense nisso. Sabe que eu te perdoo. Por favor, responda...com amor,
Glimmer”.
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