Atração
1 único
Notas iniciais
Naquele dia, eu já havia notado o meu destino. Na janela do meu quarto, enquanto me arrumava para descer no restaurante, vi o Merry se aproximar pelo mar de East Blue e sob um céu sem nuvens que quase impedia do horizonte se sobressair. Toda vez que acordo e saio do aposento masculino e me empoleiro no parapeito do navio, eu lembro desse detalhe.
O crepúsculo da manhã refletia no mar da Grand Line e, como naquela vez, ficava difícil distinguir o horizonte. Ficava difícil não me lembrar do primeiro dia, quando tudo começou.
Dava dois tragos no cigarro e ia preparar o café. Eu era o primeiro a acordar, meu relógio biológico funcionava uma hora antes dos outros e isso era o mínimo que eu devia fazer por ser o cozinheiro do bando. Havia tardes que o céu repentinamente se tornava preto e dele caía um aguaceiro, ficava difícil de fumar enquanto atendia as ordens de Nami-san e terminávamos todos molhados, mas meu olhar pairava mais pesado no marimo e na sua camisa branca agora transparente. Sua pele dourada ficava, de uma forma nada elegante, mais atrativa aos meus olhos. Nas tardes calmas era um entra e sai dos meus companheiros na cozinha e, apesar de me enfurnar nesse cômodo, eu ainda tinha contato com o mundo lá de fora por meio deles, até porque quase todas as reuniões aconteciam ali. Eu até mesmo já sabia o som de seus passos e na minha cabeça se formava a figura de um homem entediado a procura de álcool, mas com o tempo essa imagem se modificou.
Zoro já não entrava e saía como os demais, assim que ouvia seus coturnos após o ranger da porta, imaginava a sua nova figura: ele ficando encostado na parede e de braços cruzados, esperando que lhe dissesse algo. Eu olhava discretamente para trás e era exatamente como na minha imaginação. Seus olhos me observavam com peso e não era nada elegante.
A noite chegava e todos iam dormir, eu tinha pesadelos e muitos envolviam o marimo; porque eu só pensava se ele sentia o mesmo, aquela repulsa magnetizada que me atraía ao mesmo tempo. Ficava difícil distinguir suas reais intenções quando toda tarde estava na cozinha me esperando dizer algo. Por mais que eu ficasse de costas a ele, seus olhos castanhos tinham aquele peso, mas eu não tinha coragem de perguntar o que estava havendo. Contudo, ele também não se pronunciava, éramos como Yin e Yang, claro e escuro, queríamos nos ver longe, mas todas as circunstâncias da vida faziam com que nos uníssemos.
Certa noite, resolvi sair do quarto para arejar meus pensamentos, Zoro estava de vigia e eu me praguejei quando o vi encostado no mastro do navio.
— Espera. — Disse ele, assim que me viu voltando ao dormitório masculino.
— O que foi?
— Eu estava pensando em ti agora mesmo. — Ele respondeu e eu senti um frio insuportável no peito esquerdo.
— Como assim?
— Das nossas brigas.
— Ah... não posso fazer nada, você não coopera, sabe?
— Somos os mais fortes depois do Luffy. — Ele disse desviando o seu olhar para o céu e mudando de assunto completamente. Estava mais sereno e por isso resolvi me aproximar, sentando ao seu lado.
— Sim... você acha que devemos ter uma boa convivência por conta disso?
— É... eu achava isso... mas me lembrei da luta contra os homens-peixes e eu vi que podia confiar a segurança do bando a ti... aliás, fiquei preocupado quando você mergulhou daquela forma, na água aqueles monstros são mais fortes, né? Pensei que você fosse morrer.
— Luffy precisava de ajuda.
Zoro estreitou o olhar, como se procurasse algo no meu rosto. — Você é que nem eu.
— Ham? — Um imenso ponto de interrogação se formou no meu rosto. — Eu igual a você? Onde? Você é um marimo e eu sou um cavalheiro, sai dessa, cara.
— Calma, idiota! Só tô falando que você se joga não só naquele dia, mas se joga em tudo. Só há uma diferença: quando me uni a Luffy, eu disse a ele que assim que ele atrapalhasse o meu objetivo, eu o deixaria, mas me pergunto... como você alcançaria o seu se morresse ali tentando salvar o Luffy?
Eu pisquei os olhos e ponderei as minhas ideias. — Não... isso não é verdade...
— Como não? Eu te vi mergulhando, eu estava lá, sobrancelhas.
— Não é disso que tô falando, imbecil! Eu tô falando que você faria o mesmo por Luffy.
O olhar de Zoro abriu com o que disse.
— Acho que somos mais parecidos do que imaginamos... — Disse num sussurro. — Eu tenho uma repulsa muito grande por ti, mas desde que te vi lutando contra os olhos de falcão, eu só pensei que não podia perder pra uma pessoa de cabelo verde...
— Não estou entendendo...
— Zoro, eu voltei a sonhar depois de ver a coça que tu levou.
O sangue subiu à sua cabeça por conta da raiva do meu desdenho ao falar da batalha mais importante de sua vida desde então. — Você é repulsivo!
— É, eu penso o mesmo. — Tencionei a levar as mãos nos bolos, mas meu cigarro ficara no quarto. — Mas você sente algo por mim, certo?
Depois de eu dizer isso, Zoro piscou os olhos perplexo. — Claro, idiota, eu confio em você! Confio que faremos tudo por todos os idiotas desse navio!
Eu ri. — Acho que é esse o meu destino...
Sim, desde que vira o Merry na janela do meu quarto antes de descer para o restaurante.
— Oi?
— Fazer Luffy encontrar o maior tesouro do mundo.
Zoro ficou intrigado, percebi ao ver suas sobrancelhas enviesadas, ele se aproximou mais de mim. — Tá esquecendo de ti de novo, idiota... seu destino é encontrar o All Blue, não viaja... — Eu pisquei os olhos atônito, havia mesmo me esquecido do All Blue. — Você cuida muito desse bando preguiçoso, tem que tirar o tempo pra ti.
— É... talvez você esteja certo.
Ele me deu uma cotovelada e apontou para o céu, fazendo-me erguer a cabeça para cima. — Olha como o céu está bonito, e sabe de uma coisa? O All Blue deve ser muito mais lindo do que isso.
— Com certeza é.
Meus olhos começaram a marejar à medida que ficávamos em silêncio, mas ainda fitando as estrelas, até que resolvi finalmente ter coragem de perguntar: — Por que fica na cozinha me observando?
— Ultimamente você não me é tão repulsivo. — Ele disse ainda fitando as estrelas, como eu também fazia. — Eu fico tentando melhorar nossa relação... mas acho que não tem jeit-
Do nada o puxei pelo queixo e selei meus lábios nos deles, Zoro ficou assustado e ofegante, mas logo puxou minha nuca para me dar um beijo mais faminto.
Era repulsivo, nada elegante, mas muito atrativo.
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