Através do Tempo
26 13.2
Notas iniciais
O fim de semana passou, e Rebeca não tirava aquela história toda da cabeça.
Afinal, Gabriel era culpado pela morte de Aloys?
Ela não conseguia decidir se era ou não, e aquelas dúvidas não a deixavam nem estudar em paz. Na terça-feira, estava cansada de tentar se concentrar em sua lição.
Queria sair de casa e abrir sua cabeça de alguma forma, para ver se seus pensamentos a deixam quieta alguns momentos. Ela não ia no celeiro fazia alguns dias, e decidiu ir até lá.
Nada havia saído do lugar. Mas não era ali que ela queria ficar. Saiu do celeiro e olhou para as árvores. Sem pensar, entrou na floresta. Seguiu o caminho, parando apenas para olhar a árvore "deles". Continuou até chegar no lago.
Estava lindo como sempre, refletindo toda a floresta em volta e a luz do sol. Estava um dia quente e agradável.
Rebeca deixou os chinelos no caminho e entrou na água. Ignorou o frio que a tomou e mergulhou, ficando submersa durante o máximo de segundos que conseguiu. Até conseguia nadar um pouco, mas não quis se arriscar ir mais para o fundo. Poderia estar triste, mas não era o suficiente para tentar se matar afogada.
Ficou ali, dançando com a água, se movendo lentamente e aproveitando o calor do sol no rosto. Quando se sentiu cansada, saiu e se sentou ao lado dos seus chinelos, nas pedrinhas. Dobrou os joelhos e abraçou as pernas, olhando o horizonte. Fechou os olhos e deixou sua mente vagando.
Chegou até a sonhar. Aloys estava ali, jogando água nela.
Se sentiu mais quente, de algum jeito, e aquilo trouxe sua mente de volta. Abriu levemente os olhos e viu algo de canto de olho. Virou o rosto, e no susto, foi para o lado, se afastando.
— Desculpe. — Gabriel falou, levantando as mãos.
O coração de Rebeca estava disparado, e ela percebeu que havia algo em seus ombros. Puxou o tecido e viu que era uma blusa. Olhou o garoto.
— O que você está fazendo? Como sabia daqui? — perguntou irritada.
Ele estava assustado. — Eu... não sabia. Só segui a floresta e te vi aqui.
— Por que seguiu a floresta?
— Não sei, só quis seguir... Eu fui até sua casa, mas não tinha ninguém. Minha vó me disse que você sempre está em casa esse horário, e disse que se você não estivesse lá, estaria no celeiro atrás da casa...
— Você entrou no celeiro? — interrompeu ele, sentindo como se tivessem invadido sua privacidade.
Ele engoliu seco. — E-eu só... entrei e te chamei.
— Não subiu no mezanino?
— N-não.
Relaxou um pouco. — Ainda bem... Mas ainda não estou convencida de como você veio parar aqui.
— Eu já disse. — Revirou os olhos.
Rebeca estranhou. Aquela revirada de olhos parecia muito com a dela.
— A Cecília não te falou desse lago?
— Não.
Bom, não tem como ela saber. Eu nunca falei pra ela, e meus pais também não sabem.
— Então você simplesmente decidiu entrar na floresta e ver até onde ia? — questionou na defensiva.
— Hm... acho que sim. É engraçado, porque de alguma forma até que é familiar pra mim. Sabe quando você tem um "dejave"?
— Dèjá-vu. — O corrigiu.
— Isso, acho que eu tive isso quando vi a floresta. Será que tem a ver com a outra parte da minha alma que...
Rebeca levantou de supetão, não querendo ouvir aquilo.
— Ah! Desculpe, eu não posso tocar nesse assunto! — Levantou também. — Não vou mais falar disso, prometo.
— O que você veio fazer aqui?
— Eu... na verdade não sei. Eu queria te ver.
As bochechas de Rebeca coraram, mas aquilo não a tirou da defensiva. — Para quê?
— Ah... Não sei bem. — Olhou para o chão. — Eu não queria que você ficasse com raiva de mim... Eu... — A olhou. — Eu não tenho culpa do que aconteceu.
— Tem sim. Se tivesse ficado lá, ele ainda estaria aqui.
— Não fui eu que decidi vir, e além do mais, ele que veio para cá. Ele pegou um pedaço da minha alma, não foi o contrário. Eu já estava aqui quando ele chegou — exclamou alto.
Rebeca deu um passo para trás, sentindo seu coração vacilar. Aquilo machucou.
— Desculpa, eu não devia ter falado assim — disse arrependido. — Mas você sabe que é verdade.
Por que aquilo era tão familiar? Eles estavam discutindo igual...
A sensação das pedrinhas nos pés de Rebeca a trouxe de volta. Calçou seus chinelos e foi para a floresta, devolvendo a blusa dele.
Ele a seguiu. — Desculpa. Eu não devia ter falado daquele jeito... Eu sei que você ainda está triste...
Lançou um olhar irritado para ele enquanto andava. — Me deixa em paz.
— Escuta, eu quero resolver esse problema entre nós.
— Não tem nenhum problema aqui além de você. Me deixa em paz.
— Rebeca. — Ele segurou o braço dela, a fazendo parar de andar.
— Me solta. — Suspirou.
Era tudo tão estranho. A voz dele ecoando pelas árvores era tão reconfortante, mas não era ele ali. Parecia uma mentira. Parecia que Gabriel queria de qualquer forma se passar por Aloys.
Aquilo fazia o coração de Rebeca se apertar de confusão.
— Beca... — chamou baixo.
Até aquilo. Até o apelido dela a fazia se sentir mal. Ou bem. Ela não sabia.
Passou as mãos no rosto, secando as lágrimas e olhando para cima. Então viu uma coruja bem acima de sua cabeça, parada em um galho.
A coruja olhava curiosa para os dois. Então uma outra coruja apareceu, colocando a cabeça para fora do buraco de onde estava.
Era a árvore. A toca estava sendo ocupada de novo.
— O que você está olhando? — Gabriel perguntou, olhando para cima também. — Corujas...! — disse baixo, parecendo surpreso.
— Corujas... — Rebeca sussurrou.
Isso é um sinal?
Olhou para Gabriel. Era muito estranho chamá-lo de outro nome. Nunca se acostumaria com isso.
Realmente ele não tinha culpa do que aconteceu. Era errado culpá-lo por algo. Mas Rebeca não ia aceitar que ele era Aloys.
— Desculpa pelo jeito que eu falei também. — Rebeca falou, o fazendo a encarar. — Só que é difícil pra mim... Eu acabei de perder ele.
— Eu sei.
Ela afirmou e continuou a andar. Gabriel a seguiu sem falar mais nada. Entrou em casa, perdida em pensamentos, mas parou bruscamente quando viu sua mãe na cozinha.
— Beca! Oh, Aloys, o que faz aqui? — Maristela sorriu.
Rebeca gelou e olhou para trás. Gabriel olhou de Maristela para Rebeca, perdido.
— Você não tinha se mudado? — Se aproximou e deu um beijo no rosto de Gabriel. — Até cortou o cabelo.
— Ah... — Olhou para Rebeca, pedindo ajuda.
— É, mãe. Ele voltou... Ele... ele vai morar com a avó dele agora.
Maristela olhou para a filha, como se quisesse saber o que ela estava sentindo. Balançou a cabeça, afirmando, e sorriu.
— Que bom. Vai ficar para jantar hoje, Aloys?
— Mãe. — Rebeca disse pegando o braço dela. — Ele... mudou de nome. Agora ele chama Gabriel.
— Gabriel? — Estranhou. — Por que mudou?
— Eu... eu achava meu nome feio. — Pensou na hora.
— Ora, mas não era feio.
— Bom, eu achava. — Riu, sem graça.
— Ah, bom, não prometo que não vou te chamar de Aloys alguma vez, mas vou tentar te chamar pelo nome certo. — Sorriu. — Vai ficar para comer?
— Não. — Rebeca falou antes que Gabriel abrisse a boca. — A vó dele acabou de ligar e disse que é pra ele ir para casa.
Gabriel a observou rapidamente. — É... Isso mesmo. Obrigado mesmo assim.
— Ah, tudo bem. Venha mais vezes.
— Claro, obrigado.
Rebeca andou até a porta da frente e a abriu. Gabriel saiu e ela fechou a porta atrás dela.
— Desculpa por isso — disse, sem jeito.
— Tudo bem. Não esquenta. — Olhou para a rua. — Bom, eu vou indo.
— Você veio a pé?
— Sim.
— Por que não veio de bicicleta?
— Eu não sei andar. Quer dizer, não tenho certeza se eu sei.
— Como não tem certeza?
— Eu nunca andei antes, mas tenho uma noção de como é.
Se ele não sabe como pode ter noção?
— Espera aí.
Rebeca entrou, pegou a bicicleta de seu pai e a levou para fora.
— Pode usar, meu pai nem anda mais.
Gabriel a olhou, confuso. — Eu disse que não sei.
— Vê se você não sabe mesmo.
Os dois foram até a rua e Gabriel subiu na bicicleta. Deu um impulso com um pé e pedalou. Justamente igual a Aloys.
— Olha, até que eu sei! — disse feliz, andando em círculos.
Um pequeno sorriso surgiu no rosto de Rebeca. — É. Depois você me devolve.
— Tá! Tchau!
Ela acenou e olhou ele se afastar.
Depois que entrou, foi ajudar com a janta. Maristela a encheu de perguntas, se ela estava bem, se estava feliz por ele ter voltado e etc. Rebeca tentou responder sem parecer chata.
Depois de comer, fez algumas lições e foi dormir. No outro dia, Rebeca parou na saída da escola, pensando, e decidiu ir na loja da Cecília. Andou até lá e entrou.
— Beca! — Cecília disse feliz. — Que bom que veio. — A abraçou.
— Oi, Ceci... — Olhou ao redor, tentando ser discreta.
— Ele foi almoçar. Logo volta.
Rebeca corou. Foi pega no flagra.
— Então, você pensou? Ele me contou o que aconteceu.
— Eu nem sei. Já pensei em tanta coisa.
— Ele realmente quer se aproximar de você, Beca. Eu sei que é difícil aceitar, mas lembra como Aloys ficou ao descobrir que você não era a Amice?
Ela parou. Não tinha pensado nisso.
Cecília leu sua cara. — Ele não ligou para aquilo, lembra? Ignorou completamente esse fato. Ele não se importava se você era Amice ou Rebeca, ele se importava com quem você era com ele, certo? — Sorriu.
— Sim...
"Você ficou no lugar dela porque você é ela. Vocês são a mesma pessoa. A mesma alma..."
Uma vontade de vê-lo a tomou. Era ele ali. Era a mesma pessoa. O mesmo Aloys. O mesmo Gabriel.
— Rebeca? — Uma voz conhecida falou.
Ela se virou, vendo Gabriel se aproximar. O sorriso dele fez o coração dela acelerar, e acabou sorrindo.
— O que veio fazer aqui? Eu juro que ia devolver sua bicicleta...
Rebeca riu, se sentindo leve pela primeira vez em muito tempo.
— Por falar nisso, quer ir andar por aí? — convidou.
Gabriel olhou rapidamente para Cecília, que balançou a cabeça, incentivando.
— Claro, vamos.
Ele pegou a bicicleta de Rebeca e os dois foram para a rua. Subiu e Rebeca ficou de pé atrás dele, com os pés em uma parte do cano ao lado da roda.
— Por que você veio aqui? — Ele perguntou enquanto pedalava devagar.
— Hm... — Pensou, enquanto segurava os ombros dele. — Sabe que eu não sei...?
Ela sabia, só não queria admitir.
— Deixa eu adivinhar, queria me ver? — adivinhou, sorrindo.
O rosto dela esquentou, e olhou para a nuca de Gabriel. Suspirou e abraçou o pescoço dele, deixando a lateral do rosto colada na orelha dele.
Olhou para frente, envergonhada. — Senti sua falta.
Viu ele sorrindo de canto de olho.
— Eu também.
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