Através do Espelho
1 Através do Espelho
Toda magia da viagem se esvaia conforme as ruas da cidade de Londres eram preenchidas por cada vez mais turistas, que vagavam sem rumo por entre as lojas e os pontos turísticos, e nativos animados pelo clima ter melhorado. O sol aparecia pela primeira vez em semanas, motivo suficiente para que passeios fossem organizados e encontros marcados às pressas. Até as mais insignificantes das ruas do centro possuíam movimento incomum.
Sophie estava animada demais para se deixar abater por algo tão trivial quanto pessoas quando se estava em uma das cidades mais importantes e mais antigas da Europa, mas Mary estava aborrecida. Por meses planejaram roteiros e agora o valioso tempo era gasto no deslocamento ao invés dos próprios destinos. Seu semblante fechado piorava cada vez que novos braços e bolsas esbarravam nela, e olhava rancorosa para os culpados.
As duas garotas haviam saído cedo do hotel e o primeiro destino marcado era a Galeria Nacional de Arte de Londres, mas haviam pegado o caminho errado, e tentavam dar conta de se orientarem pelo mapa no Guia do Turista. Sem êxito. Já haviam rodado o mesmo quarteirão diversas vezes procurando a rua que, teoricamente, as levariam em linha reta para a galeria. A rua não estava em lugar algum e apesar de Sophie manter a calma, Mary já tinha perdido a paciência.
— Deveríamos ter chamado um táxi. A essa altura já vai ter se formado filas para comprar as entradas, isso se a gente conseguir chegar lá.
— Se você ajudasse ao invés de reclamar seria de grande ajuda.
— Tem algum outro lugar por aqui que a gente consiga ir? Mary pediu o guia e folheou as páginas de pontos pouco conhecido, mas que mereciam atenção, e torcia para que algum deles fosse perto de onde estavam.
A situação em si não perturbava Sophie, mas lidar com a amiga mal-humorada no primeiro dia livre em Londres a desanimava. Deixou que a amiga, agora encostada no muro de uma pequena casa de tijolos, se preocupasse com o mapa por um tempo e voltou sua atenção para o lugar que estavam.
Do outro lado da rua um prédio baixo, de aparência antiga com uma vasta janela que servia de vitrine, lhe chamou a atenção. Não havia nada de extraordinário nele, na verdade era o edifício mais desajeitado: era baixo demais para que tivesse dois andares, tinha uma cor acinzentada, em parte por causa de sujeira, e uma porta de madeira escura estava aberta, mas não era possível ler o escrito gasto de tinta.
Sophie refletiu por um momento sobre o possível passado daquele prédio, por mais insignificante que pudesse parecer, e seus olhos se iluminaram no instante que conseguiu distinguir os reflexos produzidos na vitrine: eram livros!
— Mary, que tal esquecermos essa galeria e passarmos nossa manhã em um sebo?
— Qualquer coisa que nos tire dessa rua barulhenta está ótima para mim.
Esqueceram então do itinerário da manhã, não que tivessem tido confiança de que conseguiriam segui-lo de qualquer modo, e dirigiram-se a pequena e antiga livraria do outro lado da rua, que mesmo de perto era impossível distinguir o nome. Do lado de dentro, as jovens não encontraram nenhum responsável pelo lugar, balcão que ficava na parede a direita estava vazia, a não ser por uma antiga caixa registradora.
Timidamente elas entraram no sebo, a luz do lugar vinha praticamente toda das lâmpadas amareladas que pareciam deixar tudo ao seu redor parecido com uma fotografia antiga. As estantes ocupavam quase todas as paredes do lugar e em todas elas, dezenas de livros desorganizados, jogados num oceano literário. A poeira era visível de longe, a tempos estes livros antigos não eram abertos ou, pelo menos, limpos. Desviaram toda sua atenção aos títulos apagados e às páginas amareladas.
Conforme caminhavam para os fundos do sebo, ouviram passos ecoarem e então perceberam um senhor, de idade, organizando uma prateleira bagunçada, que deduziram ser dono do estabelecimento. Ele tem muito trabalho pela frente, foi o que pensou uma delas. Mary se prendeu a uma edição de capa dura de um de seus romances favoritos, Jane Eyre, e Sophie se deixou levar pela curiosidade e continuou vagando pelos corredores apertados do lugar. Parecia labirinto de novas estantes e mesas.
Mary folheou as páginas, mas não havia preço. Colocou o livro em baixo do braço e voltou a explorar novos títulos. Seus olhos passaram por um que a menina sabia que a amiga desejava há muito e o pegou animada, estava em perfeito estado.
— Sophie, você tem que ver o livro que eu achei — Mary se virou, mas a amiga não estava onde ela imaginava. Olhou ao redor, mas ela não estava visível em lugar algum — Sophie?
— Estou aqui, perto do espelho — sua voz saiu distante, Mary não se lembrava de ter visto nenhum espelho.
Os passos faziam ranger o chão de madeira, que em diversos lugares afundavam alguns centímetros. Não conseguia escutar nada além do próprio barulho e de livros sendo realocados pelo senhor, que não parecia ser muito cuidadoso.
— Qual espelhou? Não tem nada aqui, só estantes — não houve resposta. Pensou em perguntar para o proprietário, mas não quis interrompe-lo.
Conseguiu chegar até o balcão, onde tinha uma visão mais ampla da loja, que apesar de por fora parecer pequena, por dentro era tão espaçoso que se perder não seria tão difícil, ainda mais com prateleiras tão altas bloqueando a vista.
— Sophie, qual espelho?
— Atrás do balcão, você precisa ver isso.
Mary seguiu pelo corredorzinho, tinha certeza de que aquela área não era destinada aos clientes e temeu que o dono fosse reclamar. Ali estava escuro com uma única lâmpada pendendo no teto, parecia estar prestes a deslizar para o chão. O corredor virava à esquerda e na parede oposta estava o tal espelho.
Sua moldura dourada tornava o espelho ainda maior do que era e atraia a atenção de quem o olhava, ele ocupava toda a parede. O trabalho, provavelmente manual, feito na moldura era encantador e a luz refletia nele e ajudava a iluminar mais o ambiente. Mary tirou sua atenção do espelho e percebeu que a amiga não estava ali. Teria ouvido vozes? O mais provável, e lógico, seria que a amiga se escondeu e logo apareceria numa tentativa frustrada de lhe assustar.
— Sophie? — chamou pela amiga algumas vezes, olhou repetidas vezes para trás, pensando que a amiga apareceria a qualquer momento. — Se você estiver brincando comigo eu vou te dar um soco.
Ainda assim, nada. Nenhuma resposta. Mary viu que caída perto do espelho emoldurado estava a bolsa castanha de Sophie. Parecia ter caído e não colocado, já que o conteúdo havia se espalhado pelo chão.
— Sério? Você realmente acha que eu vou cair nessa? Eu acho um livro e você fica se escondendo? Que madura.
Mary se aproximou do espelho e pensava, irracionalmente, que era possível movê-lo e Sophie estaria se escondendo atrás dele.
Um som trovejou logo atrás dela, o dono da loja tinha aparecido e gritava. Sua voz saiu rouca e tão elevada que Mary deu um salto e tropeçou na bolsa que estava aos seus pés. Ela perdeu o equilíbrio, e apesar de sentir um par de mãos tentar segurá-la, caiu para frente, em direção ao espelho, sem conseguir se apoiar em coisa alguma. Pensou que bateria a cabeça nele, mas caiu por cima dos braços e bateu o rosto no chão. Mary rolou para ficar virada para cima levou o pulso na altura do peito, ele estava dobrado quando recebeu o peso do corpo, e ela não conseguia mexê-lo. Um grito de susto e dor escapou de seus lábios, e apesar de ter esperado que o senhor logo falaria com ela, ou a ajudaria a levantar-se, não ouviu nada além de si mesma.
Lágrimas tinham brotado em seus olhos e a menina tentava não se mover enquanto segurava seu pulso esquerdo com força.
— Seria um ótimo momento para você parar de graça, Sophie! — Mary gritou sem se importar se o proprietário gritaria ainda mais com ela — Eu realmente machuquei a droga do meu pulso.
A dor era tão intensa que prendeu toda sua atenção por longos minutos. Estava ainda deitada no chão quando reabriu os olhos marejados e se deu conta que não estava mais no pequeno e escuro corredor, mas em uma ampla sala iluminada pela luz do sol que entrava pelas janelas.
Nem um sinal do dono da loja e, principalmente, nenhum sinal de Sophie. Nenhum sinal de ninguém além da cortina que esvoaçava.
Notas finais
Espero que tenham gostado desse primeiro capítulo.
Essa história está sendo escrita em parceria com minha grande amiga, ela não tem uma conta Nyah! ainda então eu tomei a liberdade de postar aqui.
Muito obrigada se você chegou a ler até aqui e vejo você no próximo capítulo!
Sof
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