Através da janela
6 VI
Era uma cena de filme.
Se a música no rádio tocando fosse uma ópera rebuscada, teria dado um ar cômico a cena. Se fosse apenas os sons dos galhos das árvores batendo nos vidros ou das rodas patinando no barro morro abaixo, teria sido uma tragédia.
Mas estava passando um comercial da vila turística de Hogsmeade, “o paraíso natalino no coração de Devon” em alto e bom som, então Pansy gritou de medo e de fúria, porque sua morte não poderia ser mais patética.
A inclinação da colina ficou menor, então a garota finalmente teve resposta do freio, fazendo o carro virar para o lado do carona, antes de bater de leve em uma árvore cheia de neve.
O barulho do monte branco que caiu sobre o teto do carro abafou o som das respirações nervosas dos dois adolescentes, que ainda encaravam seu próprio fim com pânico.
Porém ainda não era o fim, já que ambos estavam vivos e o carro parecia estabilizado.
Rony foi o primeiro a se pronunciar, passando uma mão nervosamente pelo cabelo, tentando ouvir a própria voz sobre o batimento cardíaco acelerado. Seu coração parecia que estava tentando entrar com o pedido de divórcio para deixar o seu corpo!
— Pansy, você está bem? — Como ele não recebeu nenhuma resposta, virou para tentar vê-la no escuro, agora que estavam apenas com os faróis iluminando o grande nada mais a frente.— Pansy, você está…
— Meu carro… — Ela gemeu com uma voz chorosa e Rony teve certeza de que poderia entrar em combustão a qualquer segundo, apesar da temperatura estar no negativo lá fora. Ela continuou o lamento. — Meu carro novo!
— A gente podia ter morrido e você está aí ligando para seu carro novo?!? — Rony resmungou com a mandíbula travada de ódio, então não foi sem surpresa que ele recebeu os tapas vindo da garota ao lado. — HEY!
— SEU FILHO DA PUTA, ESTÚPIDO! Eu tinha tudo sob controle, eu… — Ela parou de bater no garoto com um grito frustrado e começou a agredir o volante sem piedade. — EU. TINHA. TUDO. SOB. CONTROLE!
Rony a olhou como se ela fosse uma bagunça maior na sua vida do que o acidente que eles tinham acabado de sofrer, o que não deixava de ser verdade. Deixou ela gritar um pouco mais, para desabafar, antes de tentar qualquer coisa.
Assim que ela pareceu se acalmar um pouco, o garoto passou a mão na testa, para tentar controlar o início de dor de cabeça que estava sentindo e pensar com mais clareza.
— Vou lá fora ver como está o carro, você liga para o seguro, pode ser? — Ele falou com o que pensou ser toda a calma do mundo, mas Pansy não o respondeu, ela ainda estava segurando o volante com força. — Então tá, estou indo lá fora.
Teve que forçar a porta um pouco, por causa do banco de neve onde haviam ficado encalhados, mas não estavam trancados como em um filme de comédia romântica, ou algo assim, logo já estava muito melhor do que teria imaginado com seu pessimismo.
Rony usou a lanterna do seu celular para verificar o veículo, umedecendo a calça do senhor Parkinson até a altura dos joelhos, na neve. Voltou para dentro do carro, tremendo de frio por conta da inspeção.
— Boas notícias: tem alguns arranhões e uma mossa na minha porta, mas fora isso, não parece que teve nada sério com seu carro, pode ficar tranquila. — Ele falou em um fôlego só, depois soprou as mãos, para tê-las mais aquecidas.
Olhou para Pansy com cuidado, ela parecia já ter saído do seu estado de fúria completa, estava olhando para o celular, embora não mexesse nele. O brilho do aparelho em seu rosto fazia sua expressão ficar muito sinistra.
— Não tem sinal.
— O que? — Rony havia tentado parar de recuperar a temperatura corporal e agora a encarava confuso.
— Eu disse que meu celular está sem sinal! Dá uma olhada no seu.— Ela repetiu com impaciência e ele tirou o aparelho do bolso de novo, dessa vez com menos calma do que antes.
— Que merda! Procurando rede… O que acha da gente voltar para a estrada e tentar achar algum sinal? — Ele falou ainda tentando posicionar o aparelho de alguma forma milagrosa, na esperança que a barrinha de sua operadora se preenchesse o suficiente para uma ligação.
Até os presos tinham direito a uma ligação, o que custava dar isso a ele, Deus?
— Meu salto é muito alto, não foi feito para caminhadas.— Ela falou monocórdica, de um jeito apático que estava começando a inquietar Rony. — Acho que tenho um tênis de treino em algum lugar por aqui.
— Aqui no fundo? Eu pego. — O garoto começou o desastrado processo de fazer seu corpo grande passar no vão entre os bancos, até ficar quase de cabeça para baixo, procurando por uma coisa que nem sabia com o que se parecia. — Nossa, isso aqui tá uma bagunça!
Pansy estava ainda meio chocada com toda a situação, mas teve que dar uma pausa na sua entorpecência para revirar os olhos.
— É claro que está uma bagunça, nós acabamos de sofrer um acidente! — Ela se virou indignada, mas acabou dando de cara com a bunda dele para cima. Deu um tapa forte e estalado nele. — Esquece esse maldito tênis, a gente precisa conversar.
Porra, o tapa na bunda havia doído mais do que os outros, mas obviamente Rony não havia dado um pio para essa nova agressão gratuita, voltou para seu banco.
Teve que fechar os olhos um pouco, tinha ficado tonto com o movimento brusco de levantar a cabeça. Quando abriu os olhos, Pansy o encarava com uma expressão estranha.
Se fosse uma garota normal, tipo Mione ou Ginny, ela estaria preocupada, perguntando freneticamente se ele estava bem, se estava sentido alguma coisa… Mas Pansy só o olhava acuada, como se o seu mal estar pudesse fazer algo contra ela.
Se pegou invertendo a ordem das coisas.
— Você está bem? — Ela fez que sim com a cabeça, colocando uma mecha do cabelo muito escuro para trás da orelha. — Eu só fiquei meio tonto, o sangue tinha ido todo para a cabeça e eu a levantei rápido demais.
Ela pareceu aceitar bem a resposta, já que havia voltado a relaxar contra o banco de couro aquecido do veículo. Rony coçou a cabeça, antes de começar a tentar forçar uma conversa de novo.
— Sobre o que você queria falar?
— Sobre… A gente precisa de um plano.— Ela estava voltando a parecer consigo mesma, então Rony concordou de leve. — Acha mesmo que dá para a gente subir e procurar ajuda na estrada?
— Ela é pouco movimentada, a chance de alguém passar para nos dar uma carona é pequena, você viu como estava deserto lá em cima. — Ele respondeu com pouca esperança de encontrar ajuda. — Quase tão pequena quanto a chance de sermos achados aqui.
— E o que a gente faz? Anda a esmo nesse frio? — Pansy perguntou impaciente, mas não necessariamente com ele. A situação toda era desesperadora!
— A gente pode tentar chegar a uma casa ou a uma das cidades… Se a gente seguir a estrada mesmo, já há uma chance mínima de um carro passar e nos ajudar. — Rony falou pouco animado com a ideia, mas terminou dando de ombros. — Ao menos é um plano.
— A gente não dirigiu por tanto tempo assim, Ottery deve estar perto, eu vou… Deixa eu pegar meu tênis. — Ela desafivelou o cinto e abriu a porta do carro. Tremeu com o frio do lado de fora. —Puta que me pariu, que inferno congelado!
Estava frio, mas Pansy foi com frio mesmo, ninguém podia chamá-la de acomodada ou covarde. Abriu a porta dos fundos, entrou e a fechou com tudo, tentando manter o calor remanescente do aquecedor dentro do carro.
— Acha que se a gente bater a chave na ignição, só para ligar o aquecedor, o carro vai explodir? — A garota perguntou já tentando pôr um pouco de ordem na bagunça do fundo, colocando as compras de volta no saco e sapatos reservas debaixo do banco.
— Estou disposto a correr o risco. — Rony disse com uma leve nota de diversão, que a fez sorrir.
Droga, ela tinha mesmo um sorriso e tanto.
Ele maneou a cabeça com frustração, porque, pior do que o acidente com o carro, tinha sido a discussão de antes. Enquanto passava para o banco do motorista e girava a chave na ignição, Rony resolveu melhorar aquele clima horrível entre eles.
— Desculpa pelo que eu disse. — Ele falou, ouvindo o motor do veículo responder saudavelmente a sua iniciativa, mas Pansy continuou calada. — Não quis insinuar que você é uma má companhia, eu só queria…
— Está tudo bem, Weasley, sem danos feitos. — Ela respondeu de cabeça baixa, concentrada em tirar a bota de salto alto que usava, para pôr um tênis no lugar.
O ronronar leve do aquecedor preencheu o silêncio entre os dois, até ele tentar de novo.
— Não é porque eu vejo além de sua má reputação, que eu deva ter que fingir que ela não existe. — Ainda sem resposta, então dessa vez Rony se virou no banco para poder falar olhando para ela. — Você é irresponsável e não liga muito para o que os outros querem, se quer saber.
— Obrigada pela aula gratuita sobre mim. — Ela falou com sarcasmo, amarrando o último cadarço. Assim que terminou, o olhou com um sorriso falso. — Estou pronta. Vamos?
— Vamos esperar o carro aquecer mais um pouco, a gente provavelmente vai ficar um bom tempo na estrada. — Ele respondeu a pergunta contra vontade, suspirando pesado.
Aquilo não estava indo nada bem.
— Bobagem, vamos congelar de qualquer jeito, o melhor é que a gente nem se acostume com o calor. — A garota começou a enrolar no pescoço um cachecol que havia encontrado na bagunça do banco de trás. O olhou com desafio assim que terminou. — Se quiser ficar, fique a vontade, eu vou subir para conseguir ajuda.
Abriu a porta novamente e bateu com mais força do que o necessário. Rony voltou a olhar para frente, frustrado.
Ele não era exatamente muito conhecido por ser bom com palavras e sentimentos, Deus era testemunha do quanto ele havia penado para escrever aquela carta para Pansy, mas… Ela conseguia ser ainda pior do que ele!
Suspendeu a gola do casaco caro e emprestado, para não dizer roubado, e foi encarar o frio ao lado dela, porque não era bom com palavras, mas era bom com ações.
Pansy já havia subido uma boa parte da encosta, provavelmente com a força do ódio por ele. Não levou muito tempo para alcançá-la, entretanto.
O frio tinha melhorado um pouco com o esforço físico da subida, mas assim que os dois chegaram na estrada e pararam para recuperar o fôlego, a temperatura ao redor pareceu diminuir alguns graus. Pansy apontou para sua esquerda.
— Ottery fica para lá, acho que está mais próxima do que Hollows. — Ela tirou o cachecol do nariz para falar, depois recolocou, se abraçando com força para manter algum calor no corpo.
— Então vamos logo. — Rony confiava cegamente no senso de direção dela, porque o seu era comprometido desde o nascimento. Retomou a conversa do carro.— Quanto ao que eu disse, eu só queria…
— Porra! Você fala mais do que minhas amigas quando terminam com os estúpidos namorados delas! — Tinha sido através do tecido do cachecol, mas Rony tinha entendido bem toda a frase da garota.
— Não vou tomar como ofensa, porque eu nunca soube de ninguém resolvendo as coisas sem falar! — Ele também não tomaria como ofensa, porque esse era justamente o problema que tanto Mione quanto Lilá insistiram para ele resolver ao longo dos namoros.
Se ele estava se comunicando melhor, era sinal de que estava evoluindo, certo?
— E quem disse que eu quero resolver alguma coisa? Quer saber qual foi o seu maior erro? Não foi ter entrado no carro comigo em direção a lugar nenhum e sim ter escrito aquela maldita carta!
A garota acusou, mas continuou andando, determinada. Rony esperou que ela dissesse mais alguma coisa, mas ela não o fez.
— Não me arrependo de ter escrito aquela carta, eu fui sincero em cada palavra. — Ele desabafou baixo em resposta à observação ressentida dela, a falta de vento e carros na estrada ajudando a sua voz a chegar até Pansy. — Achei que seria pior deixar como estava, então arrisquei.
— Pois achou errado, está pior agora. — A princípio Rony achou que ela se referia ao fato deles estarem caminhando no inverno inglês ao relento, mas o olhar magoado no rosto dela lhe disse o contrário.— Achei que o cara daquela carta era alguém que valia a pena, mas você é só como qualquer outro.
— Você também é como qualquer outra. — Ele disse, sem refletir direito, depois sorriu sem humor. — Nenhum de nós é tão especial ou amaldiçoado como pensamos.
— Que bela reflexão de pub! Pena que em um momento você fala uma coisa, depois fala outra completamente diferente. — Dessa vez ela apressou o passo para conseguir se colocar na frente do garoto, a ponto de pará-lo. — Você me acusou de fingir ser outra pessoa, o que inferno você pensa que está fazendo agora, hum? Me fez acreditar que podia ver além das aparências, mas no fim das contas é só mais um merdinha amarrado às convenções sociais!
— O problema aqui não são minhas convenções sociais, Pansy e sim o fato de você se incomodar com as besteiras que você faz e mesmo assim bater no peito, cheia de orgulho delas! — Ele aproveitou que ela o havia parado, para a encarar de frente.— Está me acusando de ficar bravo por você ter feito algo que faz sempre? Eu sei que há muito mais em você do que isso, mas sei também que você é cheia de merda, garota.
— Você é um filho da…
— Sou sim e você também é, então para de agir como se fosse vítima! Eu disse a você que estava disposto a te ouvir e estou mesmo, mas tem que ser a verdadeira Pansy e eu sei bem que essa garota é a mistura entre a de dentro da janela e a de fora!
A fumaça das respirações ofegantes dava para ser vista a distância, por causa do céu limpo e da lua cheia, que brincava naquela estranha noite de dezembro. Rony passou o dorso na mão pelo nariz, que já estava ardendo por conta da temperatura.
— Se você esperava um cara passivo para enxugar suas lágrimas, enquanto você comete os mesmos erros, desculpa, mas eu sou o cara errado. — Ele jogou as mãos para cima, em sinal de exasperação, então a contornou para continuar andando, a deixando para trás. — Eu mal sei que bosta eu vou fazer com a minha vida, eu não sou um cavaleiro no corcel branco, a única coisa que eu posso te oferecer é minha honestidade. E só.
Pansy deixou ele se afastar bastante, tanto que quase não tinha conseguido ouvir as últimas palavras. Deu uma corridinha para alcançá-lo, ele andava muito rápido.
— Não preciso de um herói num cavalo branco, só preciso de alguém que não fique jogando todos os meus defeitos na minha cara, como se eu continuasse assim porque eu quero!
Estava feliz que pela primeira vez havia desabafado isso sem chorar de raiva, exatamente como fazia todas às vezes que tentava conversar com os pais sobre suas transgressões.
— Apontei seus defeitos porque você me deixou irritado! Eu confiei em você e você me fez pensar que a gente ia para um lugar, sendo que íamos para outro! Fez isso deliberadamente. — Ele argumentou, mas nem chegou perto da acusação de minutos atrás.
— Se eu te dissesse para onde íamos, você não ia querer ir. — Ela falou mal humorada, de cabeça baixa. Não estava fazendo birra infantil, nem nada, era só uma constatação óbvia. Rony sorriu para o bico que ela fez.
— E o que tem de mal nisso? Além de eu obviamente ter o direito de saber para onde eu vou, se eu discordasse da ideia, a gente podia ao menos ter pensado em outra coisa que os dois quisessem fazer. — Ele falou mexendo as mãos dentro dos bolsos, os dedos estavam começando a congelar mesmo estando protegidos.
— Não, você iria voltar para casa, para ficar com seus irmãos. Ia ficar para sempre na sua zona de conforto. — Ela o olhou, desafiando ele a negar.
— E você ficaria sozinha.
Rony falou consciente de que ela sabia muito bem disso e que esse era o verdadeiro motivo para ela ter mentido, para início de conversa.
Pansy não respondeu nada, porque, o que havia mais a ser dito? Ela não queria ficar sozinha em casa, esperando os pais voltarem de seus compromissos importantíssimos, para então irem a uma festa refinadíssima, com gente elegantíssima.
Estava exausta de sua vida solitária, não tinha entendido o quanto até se agarrar naquela carta piegas dele como um náufrago em um colete salva-vidas. Deu mais alguns passos incertos, antes de vocalizar sua conclusão.
— Sinto muito ter te tirado da sua casa, foi egoísmo da minha parte. — Esse era todo o pedido de desculpas que ele teria dela, afinal o restante dos problemas todos foram causados por ele mesmo.
— Tecnicamente os gêmeos me tiraram, mas quer saber? Até que não foi tão ruim. Nesse ritmo a gente deve chegar em casa amanhã de manhã, ou seja, com tempo suficiente para ouvir a bronca de nossos pais e para curtir a ceia de Natal. — Ele falou de braços cruzados e um sorriso ladino. — Está convidada para o nosso jantar, se quiser.
— Não, obrigada, sua irmã daria um jeito de me servir como prato principal. — Pansy falou cínica, arrancando uma risada involuntária de Rony.
— E ela nem teria a decência de te servir com um molho gostoso! Tudo para fazer você parecer pior do que realmente é. — Ele falou de brincadeira, mas no fundo era verdade. Sorriu a olhando de soslaio. — Desculpe por isso, a propósito.
— Não por isso… Você não tem culpa de eu ter transado com o namorado dela ou de eu ter inventado que ele havia transado com Granger e… — Ela se interrompeu, o olhando culpada. — Você provavelmente não sabia dessa parte.
— Skeeter tem que tirar as fofocas de algum lugar para fazer a coluna dela, não é? — Ele falou sem parecer se importar muito, o que na verdade era bastante irritante.
Ela tinha dito que a namorada dele e o seu melhor amigo estavam transando e ele nem ligou! Tudo bem que na época ela nem destinara um segundo pensamento para ele, mas mesmo assim, aquilo foi uma ofensa pessoal!
— Eu odeio Skeeter, mas na época Granger também era um grande pé no saco, sempre pagando de certinha… — Pansy tirou o olhar da estrada escura, para olhar o garoto nos olhos. — Fala a verdade, ela é tão perfeita quando finge ser?
— Mione? Ela não é perfeita, ninguém é perfeito, Pansy. — Rony falou tentando fechar mais o casaco ao redor de seu corpo. Haviam chegado em uma parte da estrada que recebia uma corrente de vento horrível. — Mas se está se referindo ao fato dela ter parâmetros de existência inalcançáveis, então sim, ela é exatamente como parece.
— Quer dizer que ela nunca deixou você tirar a calcinha dela? — Pansy perguntou maliciosa e Rony a olhou sério.
— Que? Claro que deixou! O que uma coisa tem a ver com a outra? — Ele perguntou meio indignado com a insinuação, depois achou por bem explicar o que tinha querido dizer com aquilo de parâmetros inalcançáveis.— Ela não tem nenhum defeito mortal, apenas esperava coisas que eu, sinceramente, não acho que nenhum cara possa dar a ela.
— Não um cara da nossa idade, de qualquer forma, ouvir dizer que ela é um gênio! — Pansy tentou consolar o garoto de um jeito meio capenga. Não era tão ruim se ele era tão inferior a ex como qualquer outro, certo?
— Mione é incrível, então o melhor para ela e para mim foi a gente continuar como amigos, porque amigos ela tem muitos, então a carga é menor. — Ele riu com secura, porque aquilo era praticamente uma admissão de que havia desistido de ficar com ela por preguiça de ter que se esforçar mais.
— Como assim? — Pansy parecia com uma dúvida genuína, então Rony se forçou a falar uma daquelas coisas que nunca teve coragem de desabafar.
— É meio deprimente, mas… É aquela velha história de você não ser bom suficiente para uma pessoa, então o máximo que você pode fazer é deixar ela livre. — Ele falou com uma dose de amargura que Pansy não entendeu direito de onde vinha. — Todos esperam que você faça isso, mas poucos se importam com o que você vai fazer depois.
— Acho que sei como se sente. — Ela falou em voz baixa, porque esse era o seu problema com Draco.— Não se sentir bom o suficiente deve ser o sentimento que mais dá para ter empatia no mundo.
— É um saco todo mundo se perguntando o que uma garota como ela está fazendo com um cara como eu e quando a gente termina respeitando a ordem do universo… Não sabe o que fazer com aquele sentimento que não temos o direito de sentir.
— Você fala muito de não ter o direito disso ou daquilo… Para de ser medroso, você tem direito as coisas, nem que seja um direito conquistado! — Ela falou com sentimento.
— Nem sempre.
— Não! Sempre. Você tem direito a querer mais do que esperam de você, sempre! — Ela falou isso com indignação para a passividade, depois deu risada para o raciocínio. — Meu Deus! Isso é mais fácil de enxergar quando se aplica a vida alheia!
Rony acompanhou o sorriso dela, porque era exatamente isso que sentia. Era fácil apontar para Pansy onde ela podia melhorar, enquanto tateava no escuro na própria vida.
— Agora já sabe por que eu escrevi a carta, né? Não pode ser exatamente uma novidade para você, você sempre se meteu muito bem na vida dos outros, mas… O que? — Ele se interrompeu, porque ela havia parado de andar e agora apontava para algo atrás dele. Rony se virou para ver do que se tratava.
Era uma casa!
Bem, se não era uma casa, ao menos era uma construção humana, com luz e um pouco de fumaça saindo de uma chaminé.
Ainda estavam muito longe para saberem do que se tratava exatamente aquele lugar, mas dada as circunstâncias, qualquer ambiente com um teto sobre suas cabeças e uma lareira com fogo crepitando na lenha seria um paraíso.
— Estamos salvos!
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