Através da Renegada
8 Capítulo 8: Luz de Velas
Notas iniciais
Anthony e Dominic chegaram à casa de Lisandra de madrugada, a patrona não parecia estar surpresa, deu um longo abraço em seu filho e acolheu os garotos. Anthony deitou-se em sua cama e ficou observando seu antigo quarto na penumbra daquela madrugada. Manhattan era tão diferente de Scarlet, tudo estava tão diferente agora. Sua mente estava ora em seu pai, ora em Rubra. Pensava muito em Clarissa e Avalon também. E no Livro das Profecias. Havia a tal Pedra Fundamental de Scarlet.
Anthony sentou-se em sua cama e esfregou o rosto. Dominic estava deitado num colchão, mesmo após Anthony insistir que ele dormisse na cama, o príncipe não se incomodava de deitar no sofá ou no colchão, afinal era sua casa.
— Também não consigo dormir. — resmungou Dominic remexendo-se no colchão.
O elfo sentou-se.
— Viemos por que o livro nos chamou. Paramos na casa do homem que é o meu pai. Achamos o objeto mais precioso da nossa terra. E agora? — o príncipe indagou. — Iremos atrás do desenho que o livro nos mostrou ou atrás do que realmente queremos?
Inconscientemente Anthony confiava na sabedoria de Dominic, por que ele era um homem de Scarlet e jamais seria dominado por algo que não fosse racional.
— Anthony, você é um príncipe de uma terra mágica. Eu sou um servo da realeza e do povo. — Dominic começou. — Rubra é uma salvadora. Avalon é a rainha de todos nós. O Livro das Profecias nos rege desde o princípio, então buscaremos pelo o que o livro nos deu e acredito que acharemos o que procuramos.
Anthony ficou em silêncio e Dominic deitou-se novamente. A noite foi longa para os dois rapazes.
***
Rubra estava com seus dedos agarrados a uma barra fria e áspera enquanto Avalon estava com seu rosto encostado numa parede empoeirada. O breu dominava aquele lugar, tal qual elas não faziam ideia do que era. Ou onde era. Mas sabiam que estavam presas. A última lembrança de ambas dava calafrios.
As salvadoras entreolharam-se cheias de dúvidas quando a voz de Branca sumiu do recinto. Após alguns segundos, Rubra voltou a espiar as duas mulheres que conversavam naquela caverna. A fada vermelha inclinou-se e de repente sentiu algo felpudo passando por suas pernas: um gato de penugens negras que soltou um miado alto denunciando que havia alguém diferente ali.
Uma mulher estranha de cabelos dourados e emaranhados surgiu. Olhou-as com ódio. Avalon teve medo por um segundo, não pela figura da mulher – que já suspeitava ser Morgana, que definitivamente não a saudava –, mas sim pelos seus olhos verdes tão parecidos com os de sua mãe. A bruxa arrastou-a com uma força invisível. Ao ver Alexa, Avalon e Rubra tiveram um misto de sentimentos, mas essencialmente permanecia a dúvida. A rainha destronada por outro lado via a oportunidade de sanar seu ódio pelas responsáveis por sua ruína.
Foram erguidas no ar para morrer e tudo ficou preto, desmaiaram. Mas acordaram, afinal.
Rubra abaixou o rosto e apertou os olhos com força, depois fez o mesmo com a barra quente. Seus dedos já tinham a marca do ferro. Avalon remexeu-se no canto da parede. O único som que se ouvia era a respiração lenta de ambas. Elas já haviam tateado o chão em busca da bolsa que trouxeram, mas não acharam nada. Não gritaram, elas temiam quem pudesse escutar.
Sem fôlego. Presas no ar. Alexa. Branca. A mulher horrorosa com manchas no rosto. Breu.
— Por que ela não nos matou? — Avalon sussurrou. — Nos prender pra que?
Rubra não respondeu, apenas apertou novamente as barras que as prendiam. A fada vermelha estava se sentindo impotente e idiota. Jamais deveria ter deixado Scarlet. Jamais deveria ter concordado em buscar o lugar desenhado pelo Livro das Profecias.
— Não tínhamos escolha. — a voz de Avalon ressurgiu um pouco mais alta. — O livro nos clamou outra vez.
Rubra negou mesmo sabendo que Avalon não poderia ver.
— Saia dos meus pensamentos, em primeiro lugar. — a fada resmungou com a voz rouca. — O livro queria que morrêssemos? Por que é exatamente isso que vai acontecer se continuarmos...
Um rangido calou o som da voz impaciente de Rubra. A fada vermelha levantou-se num supetão, assim como a rainha. Um som de porta se fechando surgiu. Outro som, como o de um risco, foi ouvido. Uma chama fina acendeu e depois aumentou, uma vela foi acesa. A vela iluminou um rosto familiar que não demonstrava nenhuma expressão.
Rubra rugiu e andando pra frente com passos fortes agarrou violentamente a barra da cela como se pudesse arrancá-la com as mãos.
— É melhor você me matar por que se não quem vai morrer será você. — a fada vermelha disse odiosa com os olhos iluminados pela breve brasa da vela.
— Branca. — Avalon deu passos lentos para frente, com mansidão.
A princesa dos olhos brancos segurava um pires com uma vela acesa sobre ele. Branca deu um passo à frente, com postura impecável e rosto levantado ela passou os olhos por Rubra e em seguida encarou Avalon.
— Vocês precisam fugir, mas eu não posso ajudar. — Branca foi sucinta. — Fujam o mais rápido que puderem.
A princesa disse e virou as costas.
— Como você espera que a gente saia daqui? Estamos presas! Não está vendo? Estamos atrás de barras de ferro altas e pesadas! — Rubra exclamou exasperada.
Branca virou-se com rapidez.
— Grite mais alto, acorde-as e estará morta antes do amanhecer! — Branca foi ríspida agitando sua mão fazendo a chama da vela dançar. — Eu salvei sua vida, ingrata.
Este foi um dos raros momentos em que Branca e Rubra encararam-se verdadeiramente. Ambas olharam-se nos olhos que estavam tão cinzas quanto um céu nublado.
— Eu impedi que Morgana e Alexa matassem vocês sem ar naquele recinto macabro. — agora a princesa olhava Avalon.
Rubra respirava pesadamente enquanto tentava espantar um leve sentimento de remorso.
— O que é este lugar, Branca? Como fazemos para sair daqui? — havia súplica na voz da rainha de Scarlet.
Branca inspirou e expirou devagar, dando uma rápida olhada para trás.
— Este é o covil de Morgana. Ela foi expulsa de Scarlet e é filha de Eros. — os rostos das salvadoras tinham o mesmo semblante de choque. — Ela precisa do seu coração para vitalizar o portal dela e retornar para Scarlet para fazer algo que com certeza não é bom.
Branca olhou novamente para Rubra que tinha sua mão direita repousada sobre seu peito.
— Elas irão me...
— Sim. — Branca cortou a fada vermelha com urgência. — Não sei quando, mas será em breve.
A fada vermelha deu alguns passos pra trás.
— O livro me quer morta. — Rubra concluiu num sussurro.
— Não! — Avalon replicou. — O livro foi claro: não permita.
Branca observou ambas com as sobrancelhas juntas.
— O Livro das Profecias as trouxe aqui? — a princesa perguntou com lentidão.
A chama na vela que segurava estava totalmente ereta e imóvel. Avalon assentiu.
— Ele dizia algo além de “não permita?” — Branca aproximou-se da cela.
Rubra negou. Sem dizer mais nada Branca deixou aquela sala fria e assustadora, levando consigo a única que luz que tinha ali. A fada vermelha andava em círculos com a mão na cabeça. Avalon a observava sem saber o que dizer.
— Eu não vou deixarem matar você. — a rainha foi sucinta. — Você não irá morrer.
Rubra parou de andar, e mesmo que estivesse escuro demais para olhar nos olhos de Avalon, ela focou na direção do breu de onde vinha a voz da rainha.
— Eu não me importo se vivo ou morro, Avalon. — Rubra disse impiedosa. — Esta mulher que quer meu coração é uma Cleveland, uma filha de Eros, e ela foi expulsa de Scarlet. Ela pode ter feito coisas terríveis, veja o exemplo de Alexa! Agora ela quer retornar. Tem ideia do quanto isso não pode acontecer? Se ela me matar e enfim ter meu coração poderá fazer isso. Não faço ideia de como, mas até um portal ela tem! Não sabemos o quão poderosa Morgana é e isso é terrível.
A fada vermelha sussurrava tão rápido que perdeu o fôlego. Não houve resposta imediata de Avalon.
— Você se importa mais com Scarlet do que com sua própria vida. — a rainha pontuou com a voz monótona.
Rubra passou a mão pelo próprio rosto sujo.
— Av, nós precisamos fugir. — a voz da fada vermelha soou exausta. — Eu tenho uma ideia.
— Diga. — disse Avalon.
— Você precisa dormir e encontrar Dominic nos seus sonhos. — a fada vermelha começou. — Tenho certeza de que ele e Anthony já estão nos procurando, mas não temos tempo para que eles descubram onde estamos ou o que está acontecendo. Encontre Dominic e conte tudo.
Avalon iria argumentar contra, mas calou-se. Sem dizer mais nada, a rainha deitou-se no chão e mesmo que demorando horas, ela adormeceu.
Naquela noite todas as mulheres que estavam naquele covil tinham anseios sobre o dia seguinte. Branca passou a noite inteira repassando em sua mente a frase que lera no livro antes que ele desaparecesse: O Retorno da Promessa.
***
O dia estava quase amanhecendo e Dominic estava quase pronto para acordar, mas um sonho vívido o acometeu.
Estava claro e havia areia. O sol iluminava com força aquele lugar desértico. Dominic ouvia claramente o som das ondas do mar, mas não as via. Olhou para si mesmo e notou estar com as mesmas roupas do dia da coroação de Avalon, e quando levantou o rosto lá estava ela, de costas para ele. Avalon usava o vestido de sua coroação.
— Avalon! — Dominic gritou e começou a correr pela areia.
Quando ele chegou perto, Avalon virou-se devagar. Seu rosto estava repleto de lágrimas.
— Preciso de você. — ela disse pegando nas mãos do elfo. — Rubra precisa. Você e Anthony.
A voz da rainha estava embargada. Dominic juntou suas grossas sobrancelhas.
— Onde vocês estão? O que está acontecendo? — ele apertou as mãos de Avalon.
Ela respirou fundo.
— O Livro das Profecias apareceu para nós e tinha um desenho nele, nós...
Avalon se interrompeu ao ver a expressão de Dominic.
— O livro mostrou algo para nós também e uma frase com letras estranhas...
— É um idioma de bruxa. — a rainha respondeu com rapidez. — Quer dizer “Morgana Saúda-vos”.
O elfo assentiu confuso.
— Quem é Morgana? — ele questionou.
Sem pausa alguma, Avalon explicou tudo o que aconteceu para Dominic. Sua voz rápida e ofegante denunciava o quão urgente para ela era salvar Rubra.
— Esta mulher... esta Cleveland... ela possui um portal? — o elfo perguntou com descrença.
— Sim, e eu preciso que você e Anthony sigam o desenho e nos ajudem a sair daqui. — Avalon apertou as mãos de Dominic. — Rápido, Dominic. Elas querem o coração da Rubra para vitalizar o portal. Se ela o fizer, a matará, e retornará para Scarlet. Ela está com Alexa e Branca. Não ataquem a Branca. Será difícil para vocês nos tirarem daqui, mas conto com vocês mais do que nunca.
A rainha olhou profundamente nos olhos do elfo que não sabia o que dizer.
— Faremos tudo, majestade. — ele disse com firmeza.
Avalon abaixou o olhar. No sonho, seus olhos possuíam o mais vivo rosa.
— Acorde, Dominic. — ela disse com mansidão.
O elfo acordou de imediato, puxando o ar com força. Já era manhã.
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