Através da Renegada
5 Capítulo 5: Morgana Saúda-vos
Notas iniciais
Fazia menos de uma hora que Branca tinha desaparecido pelas ruas de Manhattan. Devon estava sentado na poltrona esquerda de sua sala, agora com a lareira acesa, observando o fogo mexer-se com graciosidade. Hector vinha caminhando lentamente até a sala sentando-se na poltrona ao lado de seu filho, trazendo dois copos com uma dose não muito pouca de uísque.
— Há quanto tempo o senhor não bebe essa porcaria? — Devon questionou olhando de soslaio para as mãos do pai.
Hector deu os ombros e estendeu um dos copos para o filho que pegou sem pensar duas vezes. Devon ficou observando o copo quase passando da metade com o líquido amarronzado e duas pedras de gelo. Bebeu com um gole só e tossiu, batendo o copo de forma desajeitada na mesa de centro. Hector bebericou a sua dose e soltou uma risada afônica.
— Beba como uma pessoa decente, Devon. — o historiador disse enquanto observava o filho. — Uísque não é água.
Devon negou e soltou um sorriso triste.
— Ela é encantadora. — disse o enfermeiro. — Foi por uma mulher como ela que se apaixonou?
Devon ainda estava tentando não sentir-se infantilmente machucado por saber que seu pai amou outra mulher que não foi Theresa. Hector terminou sua bebida e repousou o copo sobre a mesa ao lado, olhou então seu filho com ternura.
— Não há mulheres como Clarissa, meu filho. — ele disse. — Ser de outro universo é a coisa menos singular sobre ela.
Hector trazia um sorriso em seus lábios que entregava todo o amor reprimido que ele guardava por Clarissa. Devon quis tacar o copo na parede, mas não podia. Sua mãe estava morta há muitos anos e era tempo de aceitar.
— Mas eu amei Theresa e ela me deu a melhor coisa do mundo. — Hector olhou nos olhos do filho.
Um iminente momento fraterno foi interrompido e suas atenções chamadas quando ao lado da lareira surgiu uma fumaça acinzentada, primeiramente eles imaginaram um breve incêndio causado pelo fogo, mas não estava quente. Uma brisa fria tomou conta da sala e um espelho bem emoldurado começou a tomar forma ao passo que a fumaça se dissipava e enfim sumia. O espelho cuspiu duas pessoas que caíram de pé, embora desengonçadas. Um rapaz dos olhos verdes tomou um susto ao observar onde estava e não reconhecer o lugar. O outro que tinha cabelos negros volumosos e bagunçados ficou alerta assim que também não reconheceu onde tinha vindo parar. O espelho atrás de ambos desapareceu.
— Quem são vocês? — Devon indagou levantando-se da poltrona abruptamente.
Hector os observou com tranqüilidade e quase soltou uma risada, levantou-se devagar.
— O espelho de névoa. — disse o historiador com um sorriso nos lábios. — Mal pude esperar para conhecê-lo. Apresentem-se, rapazes.
Hector demorou a tirar os olhos do espelho e fitar quem saiu dele. Os garotos que caíram do espelho se entreolhavam, mas não temiam. Eles sabiam que o espelho não iria a lugar nenhum por engano.
— Quem é o senhor? — o rapaz dos olhos verdes observava Hector.
— Responda você, não fomos nós que surgimos por fumaça esquisita e um espelho que some na casa de alguém! — Devon resmungou, ele já totalmente impaciente pelos acontecimentos do dia.
O rapaz dos cabelos negros observou Devon com os olhos apertados, mas sabia que ele tinha razão em estar irritado.
— Sou Dominic. — ele disse finalmente, olhando Hector.
— Anthony. — disse o outro.
Devon assentiu devagar enquanto Hector os observava com curiosidade.
— Vocês são de Scarlet? — o historiador perguntou com simplicidade.
Anthony arqueou as sobrancelhas.
— Quem é o senhor?
O príncipe insistiu e um silêncio tomou conta da sala. Apenas as faíscas da lareira eram ouvidas estourando no ar. Hector olhava Anthony com cautela, seus olhos eram tão familiares.
— Meu nome é Hector. — e estirou a mão para o príncipe.
Com um receio esquisito Anthony apertou a mão do homem e eles se olharam com tenacidade.
— Você é de Scarlet? — Hector deu ênfase no pronome.
Anthony soltou a mão do homem.
— Eu sou. — ele disse.
O historiador estava em um tipo de transe enquanto observava a face do príncipe de Scarlet. Dominic observou-os confuso, mas sabia que não tinha tempo para enigmas, precisava de respostas.
— Eu também sou. — disse o elfo impaciente. — Vamos, Anthony.
Dominic moveu-se pela sala até que notou que não conhecia aquela casa, sequer sabia como sair dela. Devon observava os dois garotos de forma intrigante.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Devon perguntou quase sem mover os lábios.
Hector enfim piscou e olhou o filho.
— Não seja tão...
— Meu nome é Dominic, eu sou o elfo responsável pela guarda real de Scarlet. — ele disse com sua paciência enfim erradicada. — Este é Anthony Cleveland, príncipe de Scarlet. Estamos procurando pela Rainha, pela fada vermelha e pela princesa.
Dominic disparou com rapidez quase se esquecendo que talvez, mas só talvez, também estivessem ali por causa da Branca. Hector despertou dos devaneios esquisitos que estava tendo e olhou o elfo que estava respirando rápido, e sentia-se desesperado para sair dali.
— Clarissa está aqui? — o historiador perguntou com urgência.
Devon bufou e riu desgostoso.
— Não é possível. — ele disse enciumado.
Anthony observou o rapaz com os semicerrados e depois olhou Hector.
— Não está. — o príncipe respondeu voltando a olhar Devon por um curto segundo. — Por que acha isso? Como a conhece?
Hector buscou bem as palavras.
— Eu sei que ela é a rainha de Scarlet. — ele travou em dizer isso, limitando-se a estas palavras.
A face de Dominic mudou e agora ele observava o homem agora com muita curiosidade.
— Minha mãe não é mais a rainha. — o príncipe de Scarlet disse simplório.
Hector achou que nunca mais sentiria seu peito queimar daquela forma, ele teve um espasmo de segurar o braço de Anthony, mas conteve-se.
— Você é filho da Clarissa? — o homem perguntou com a voz em fiapos.
Ele não suportava aquela dor que era silenciosa por que ele não gritava agonizando, mas era invisível como todas as outras. Clarissa havia retornado ao seu reino e achado alguém para estar ao seu lado, e enfim dar-lhe herdeiros. Hector estava devastado. Como nunca havia imaginado? Uma rainha necessitava de herdeiros.
— Eu sou. — Anthony tentou não demonstrar que estava confuso. — Afinal, quem é o senhor? Um patrono?
Hector negou rapidamente.
— Sou um mortal. — o historiador disse com uma exaustão súbita.
— Mortal? — Dominic questionou incrédulo. — Impossível! Por que o espelho nos traria aqui?!
O elfo olhou Anthony esperando que ele dissesse alguma coisa, mas o príncipe estava quieto, observando o rosto doído do homem à sua frente. Hector não pensava em nada além do fato de sua amada ter sido de outro. Anthony não pensava em nada literalmente, seu olhar estava em Hector assistindo-o sem entender. Dominic queria apenas sair dali. Devon foi o único são naquela sala durante vários segundos.
— Pai. — ele se aproximou apoiando Hector devagar e levando-o até sua poltrona.
O homem tirou os óculos e os colocou na mesa, seu olhar agora estava no vazio.
— O senhor está... o senhor está bem? — Anthony pensou em aproximar-se, mas decidiu ficar olhando de onde estava.
— O nome dele é Hector. — Devon disse lançando um olhar nem um pouco amigável ao príncipe.
Anthony ficou quieto e apenas assentiu. Devon estava preocupado, ele era o único ser – seja humano, seja scarletiano – que não estava com os pensamentos tortos ali. Com um lampejo de pensamento Devon teve medo de, possivelmente, ter alguma obrigação de ser gentil com a alteza presente.
— Pai, olhe pra mim. — Devon disse com seriedade. — Quando o senhor viu Clarissa pela última vez?
O nome da mulher amargou no fundo de sua garganta.
— Já faz dezoito anos. — Hector respondeu encostando-se na poltrona e sentindo seu sangue voltar a circular de forma normal. — Foi uma estupidez achar que ela me esperaria.
O historiador soltou uma risada sem graça e massageou as têmporas.
— Eu, um homem mortal, amando uma mulher...
— Ninguém nunca soube quem era o pai do herdeiro da rainha Clarissa. — Dominic soltou com espontaneidade, interrompendo a fala de Hector.
Anthony puxou o ar com força e demorou a soltá-lo. Devon negou devagar e esfregou os olhos.
— Nunca conheci meu pai. — o príncipe revelou.
Hector inicialmente olhou para Dominic com a testa enrugada, pronto para dizer que aquilo era improvável, mas ele notou que não era. O homem levantou-se de sua poltrona. Seus olhos agora estavam bem abertos e brilhavam com lágrimas que estavam loucas para escorrer, mas ele não as deixou ir.
— Anthony tem dezoito anos. — Dominic continuou a dizer. — A história que corre por Scarlet é que de repente a rainha surgiu grávida e jamais revelou o pai de seus filhos. Como soberana ela era uma mulher inquestionável, portanto seu segredo foi prevalecido. O pai das crianças da rainha Clarissa, o pai da nossa rainha, é um homem mortal.
Dominic concluiu com sagacidade e parecia que ele havia acabado de narrar um capítulo de conto de fadas. Hector finalmente chorou com sutileza e levantou sua mão em direção a Anthony que não estava muito distante, e o rapaz o olhava da mesma forma que Devon o olhava desde que nasceu.
— Pai. — a voz de Anthony arrastou-se como se ele tivesse medo daquela palavra.
O príncipe jamais havia dito aquilo com tanto sentimento como naquele momento. Num impulso que não foi controlado Anthony abraçou Hector.
Ninguém notou quando Devon esgueirou-se até seu quarto.
***
A noite começou a cair quando Avalon e Rubra chegaram à rua que o Livro das Profecias havia desenhado. Algumas pessoas estavam passando por ali, algumas lojas estavam acesas e um clima terrível se fazia pertinente entre as, até então, salvadoras de Scarlet.
— Sei que está brava. — Avalon quebrou o gelo quando começaram a adentrar na rua, com os olhos atentos procurando o casebre.
A rainha ajeitou a mochila que carregava em um ombro só. Elas levavam garrafas de água, dois sanduíches, o celular antigo de Avalon e o longo papel amarronzado que as ajudaria a decifrar eventuais frases em um idioma de bruxa em decadência. Rubra parou de andar, a fada estava irritada há horas, ela odiava roupas mundanas, a calça jeans a apertava, a blusa era apertada e ela sentia o colete jeans que usava pinicar. Sobretudo, sentia falta de andar descalça. Seus cabelos coloridos num negro tão escuro que agora parecia ébano estavam esvoaçados e cobrindo grande parte das costas de Rubra estavam começando a incomodá-la, os fios simplesmente não conseguiam ficar presos num coque improvisado. Rubra olhou Avalon nos olhos enquanto tentava, mais uma vez, enrolar os cabelos.
— Você foi irresponsável. — a fada começou a dizer, deixando o cabelo enrolado num coque que se desmancharia rápido. — Você tem um compromisso, Avalon. Você é a rainha de um povo. Não pode ficar agindo com egoísmo. Rainhas não podem tremer desta forma.
Rubra não foi rude, e sim honesta. Talvez seja isso que tenha mais doído em Avalon quando ela recebeu aquelas palavras. A rainha inspirou e expirou devagar, passando a mão pelo rosto.
— Você tem razão. — ela disse exausta. — Resolveremos isso e partiremos, cumprirei meu destino.
Avalon soava infeliz e Rubra sentiu um resquício de culpa que se transformou em mais fúria quando seu cabelo voltou a desmanchar-se.
— Eu não aguento essa cabeleira toda! — Rubra resmungou alto no meio da rua.
Ninguém parou pra olhar. A fada vermelha puxou Avalon para um canto da calçada e arrancou a mochila do ombro dela, abaixou-se no chão e começou a remexer na bolsa.
— O que você está fazendo? — Avalon sussurrou sem entender, oscilando seu olhar entre Rubra e as pessoas que passavam pela calçada.
A fada vermelha tirou uma longa faca no fundo da mochila.
— Mas o que é isso, Rubra?! — a Rainha questionou abaixando-se também, tentando ficar em frente ao utensílio afiado.
— Achei que pudesse ser útil, mas não era exatamente pra isso que eu o estava querendo. — a fada deu os ombros e com uma mão segurou numa parte alta do cabelo e com a outra a arrancou com a faca.
Avalon soltou uma exclamação e agora algumas pessoas estavam olhando.
— O que você está fazendo? — ela questionou o óbvio.
Rubra não se importou e continuou a cortar suas madeixas escuras no meio da rua, quando terminou enfiou a faca de volta na mochila e sacudiu o cabelo que estava no ombro, depois balançou a cabeça devagar para ajeitar o novo penteado. A fada deixou seu cabelo curto na altura do pescoço. O volume do cabelo cheio se tornou ainda mais charmoso.
— Vamos. — Rubra disse quando terminou de fechar a bolsa e a devolveu para Avalon.
A Rainha a observava boquiaberta.
— Tudo bem. — ela soltou uma risada ajeitando a mochila.
Deixando muito cabelo negro pra trás, as duas continuaram a seguir pela rua e quase no fim no dela viram uma luz amarelada. Caminharam mais rápido e quando se aproximaram, não havia ninguém por ali. Havia uma loja de doces de um lado e do outro um estabelecimento qualquer, mas as luzes de entrada desses lugares estavam apagadas. A única luz que iluminava aquela parte da calçada era a do casebre. O largo muro era preenchido por azulejos gastos e escuros, centralizadamente tinha uma porta fina com vários papéis colados por ela e logo abaixo uma maçaneta de metal reluzia a luz da lua. Havia uma janela ao lado da porta, mas ela estava coberta por pedaços de madeira. O interior do lugar parecia ser terrível.
— É aqui. — Rubra disse baixinho como se contasse um segredo,
Ambas reconheceram o lugar sem dificuldade. Avalon apertou a alça da mochila e olhou de soslaio pra Rubra que olhava para o alto. A fada soltou uma risada.
— Olha pra cima. — ela disse.
Avalon olhou e viu uma placa de madeira velha com riscos que poderiam ter sido feitos com uma faca, as marcas formavam uma frase num idioma antes desconhecido. Sem pensar duas vezes, Avalon abriu a mochila e retirou o grande papel marrom de dentro dela e o estirou.
— Vamos lá. — Rubra murmurou aproximando-se pra observar o papel.
Após longos minutos de análise elas se entreolharam com olhos duvidosos. Avalon dobrou o papel com cuidado e o guardou de volta na mochila.
— Esquisito. — Rubra foi juntou as sobrancelhas. — Quem será...
Avalon deu os ombros.
— É a construção que vimos no livro. É aqui de qualquer forma. — disse a rainha sucinta. — Não importa o que diz na placa.
Rubra assentiu e colocou a mão na maçaneta gelada. Assim como haviam decifrado minutos atrás a placa dizia: Morgana Saúda-vos.
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