Através da Decepção
3 Capítulo 3
Notas iniciais
A tarde chegou de maneira bem rápida.
Até agora não havia caído a ficha que eu passei o dia inteiro conversando com Natsumi e brincando com minha irmão.
Depois de inúmeros papos sobre trivialidades Yuka dormia no colo de Natsumi.
-Ela é adorável, Goenji.
-Eu lhe amo muito. — Os olhos de Natsumi se arregalaram e ela ficou extremamente vermelha. Não entendi o fato. -Natsumi, você está bem?
-Si... Sim, claro, por que não estaria?
-Você me pareceu estranha e vermelha agora à pouco.
-Eu estranha? Goenji a sua doença é no pé não na cabeça. — Eu sorri de leve com o comentário, sabia que não tinha sido coisa da minha imaginação mas resolvi não insistir, ela conseguia que todos aceitassem o que ela dizia, o mais estranho, para mim, é que eu caio direitinho que tudo que ela fala.
-Tem razão só deve ser impressão minha.
Eu olhei para a janela, não gostava de estar trancafiado.
Suspirei ao sentir a brisa de vento batendo contra o meu rosto.
Eu não queria de maneira alguma continuar preso lá.
Vi as muletas escoradas à porta, elas estavam lá por algum motivo, motivo esse que eu atenderia.
Como se estivesse fazendo uma flexão levantei meu tórax deixando meus braços em uma altura boa para desamarrar meu pé engessado e suspenso.
Natsumi viu a cena com um semblante péssimo para mim.
-Deixa ela aqui na minha cama e me passa as muletas.
-Você bebeu? Não pode sair andando por aí.
-Eu também não posso ficar mais aqui.
-Goenji!
-Shh! — Com o olhar apontei para minha irmã que ainda dormia em seus braços.
-Você não quer acordá-la, certo?
Natsumi com um cuidado quase maternal pousou a menina ao meu lado na cama.
Ainda de feições duras me entregou as muletas e me ajudou a me levantar. Seu toque em meu braço para me dar um suporte foi macio e firme, um toque suave e pertinente meu cérebro fez questão de guardar.
Saímos do quarto cautelosos para não acordar a Yuka.
Na última olhada que lhe lancei ver ela imóvel e deitada me lembrou com más e dolorosas memória o tempo que ela havia passado em coma, isso às vezes me acaba por dentro.
Descemos até o jardim do hospital, Natsumi me ajudava a cada passo, eu me sentia seguro ao lado dela, não só isso, me sentia confortado como se minhas amarguras não existissem mais.
Começamos andar por lá, minha perna me incomodava só que eu ignorava aquela dor chata.
-Você não acha que é melhor nos sentarmos? – Ela falou me puxando de leve para um banco em baixo de uma árvore.
-Se você quiser.
Nós ficamos calados por um tempo, ela não me olhava diretamente no olho e eu sorria toda vez que ela olhava para mim.
-Goenji a equipe vai ficar desfalcada sem você.
-É eu sei, e sinto muito por isso.
-A culpa não foi sua, você estava fazendo o seu melhor.
-O meu melhor custou minha participação no jogo.
-O seu melhor custou o reconhecimento de todos como sendo você o melhor goleador do time.
Eu sorri no canto da boca, ela encostou sua mão em meu ombro.
-A sua irmã me contou tudo o que vocês passaram. Fico feliz por não ter desistido do futebol.
-Eu não podia desistir, eu amo demais esse esporte e me divirto muito jogando.
Ficamos em silêncio quando terminei de falar. Eu não entendia aquela tranqüilidade no ar e sinceramente não estava entendo nada. Eu achei que aquela tarde eu poderia me tornar mais amigo na Natsumi, ela que sempre, mesmo sendo de forma discreta, esteve ao meu lado e ao lado de toda a equipe.
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