A passos lentos, Sophie se infiltrava mais afundo no sebo, ali não via mais nenhuma prateleira, mas esperava encontrar alguma sala meio escondida. Talvez tenham mais aqui, os mais raros ou alguma coisa diferente. Foi o que pensou a garota que com cuidado tentava não ser ouvida. Deixou sua amiga para trás, prometendo a si mesma chama-la caso encontrasse algo interessante. Sophie não precisou andar muito mais longe, virando à esquerda, num corredor mal iluminado e escondido atrás do balcão da entrada, viu seu próprio reflexo num grande espelho que ocupava toda a parede no final do corredor. Devagar, caminhou até ele. Não queria ser ouvida.

O corredor possuía duas portas de madeira escura, mas Sophie não se ateve a nenhuma delas. O espelho tomou toda sua curiosidade. Nunca tinha visto um espelho como aquele. Não tanto por seu tamanho, que era grande, mas nada fora do que já havia visto antes, mas sim pela belíssima moldura dourada que fazia do espelho uma obra de arte. A garota se perguntou o motivo dele estar escondido ali. Deixou sua bolsa no canto ao lado do espelho e levou uma de suas mãos à moldura e delicadamente traçou, com a ponta dos dedos, os entalhos finos e delicados. Certamente foram feitos a mão, a muito tempo atrás. O espelho parecia ser uma antiguidade, talvez de um valor absurdamente alto. Rapidamente tirou sua mão dele ao ouvir alguém lhe chamar. A voz de Mary soava distante, ela queria mostrar algo e Sophie também tinha algo a mostrar. Chamou pela amiga que pareceu confusa a respeito de sua localização. Antes que pudesse explicar melhor, a luz já fraca do corredor piscou. Sophie olhou para cima, mas continuou a dar instruções à amiga.

— Atrás do balcão, você precisa ver isso! — disse.

Se virou para trás, para encontrar a amiga, mas antes que pudesse dar mais um passo, a luz voltou a piscar violentamente, até que ela se apagou de vez. Se virou para trás, para encontrar a amiga, mas antes que pudesse dar mais um passo, a luz voltou a piscar violentamente, até que ela se apagou de vez. Com o susto, Sophie deu um passo para trás e tropeçou num degrau que não existia antes das luzes se apagarem. Ela se entrou, por fim, caída no chão, num lugar escuro. Ela tateou o chão ao seu redor, para pegar sua bolsa que estava ao lado do espelho, mas não a encontrou. Malditas luzes. Pensou. Um vulto se moveu em sua frente e Sophie teria soltado um grito se não tivesse percebido que aquele era seu próprio reflexo. Mas, estava de costas para o espelho.

Havia um único feixe de luz que entrava pela fresta de uma cortina, num quarto que, banhado pelo sol, era azul e florido. Na cama, uma grande obra de arte em madeira maciça, Juliet estava sentada, os olhos arregalados diante do que viu acontecer. Teria em seu quarto o mesmo tipo de passagem secreta usado pelo Fantasma na Ópera de Paris? Uma porta secreta no espelho. A garota caída no chão parecia uma estátua, parada e estática, encarando o seu sombrio reflexo. Juliet ainda não tinha sido avistada pela intrusa. Fascinante. Ela se moveu pelo quarto, correndo até as janelas e abriu as cortinas, inundando o ambiente com a luz da manhã. Seus olhos arderam, mas aquilo pouco importava.

Sophie pareceu ficar cega por alguns segundos, quando cortinas foram abertas. Não haviam cortinas ou janelas no sebo. O que está acontecendo? A pergunta se repetia em sua mente confusa. Se sentia enjoada, tonta. O que havia de errado? Numa tentativa de forçar seus sentidos a voltarem ao normal, Sophie se levantou e se virou, se deparando com a responsável pela luz repentina. Uma garota que regulava a idade de dezesseis anos. Cabelos castanhos, quase pretos, emolduravam um rosto redondo e olhos tão escuros quanto os cabelos. Ela encarou Sophie assustada e Sophie teve vontade de correr. Onde estava? Havia um quarto secreto no fim do corredor do sebo? Como era possível?

— Isso é um sonho — A garota se levantou da cama, olhando para os dedos das mãos, como se verificasse que todos ainda estavam ali. Sophie considerou a ideia. Só podia ser um sonho. A própria desconhecida afirmou isso. — Quem é você? O que está fazendo aqui?

— Quem é você?

— Ora, eu perguntei primeiro!

— Pois eu perguntei depois — Houve um momento de silêncio e uma troca de olhares entre as duas. A garota parecia uma adolescente normal e não um alienígena prestes a disseca-la. Sophie concluiu. Também não parecia um mero fruto de sua imaginação. Estava mesmo naquele quarto depois de ter atravessado um espelho. A garota, no entanto, não esperou a mente de sua invasora terminar de raciocinar e correu até a porta de seu quarto, chamando pela mãe. — Não, não, não! Por favor. Meu nome é Sophie. Eu não tenho a menor ideia de como vim parar aqui.

— Você saiu de dentro do espelho! — a garota exclamou, como se tentasse entender

— Deve haver alguma explicação mais lógica do que isso.

— Eu vi com meus próprios olhos.

— Olha, menina,

— Miss Shaffer.

— Estamos num filme de época agora, por acaso?

— O que está dizendo? — Julliet se perguntou por que estava tentando entender uma louca? Uma completa estranha que surgiu em seu quarto, usando as roupas mais estranhas que nem mesmo podia ter imaginado. De algum modo, porém, ela estava disposta a ouvir.

— Ora, não me diga que... Que dia é hoje? — Como numa súbita realização, Sophie olhou para o ambiente ao seu redor e então correu para a janela, afastando as cortinas. Do lado de fora podia ver apenas um pequeno quintal, como um jardim pequenino, cheio de grama e plantas.

— Dia quatorze de maio, por que?

— E o ano?

— 1890 — Sophie soltou uma risada sem humor. Só podia ser uma piada, mas Senhorita Shaffer se manteve séria, como se tentasse entender a graça.

— Deus! Eu devo parecer uma louca, mas... Isso não faz o menor sentido. Onde está meu celular? Minha bolsa? Eu deixei do lado do espelho... do outro espelho. Droga! — Ela começou a caminhar de um lado para o outro do quarto da jovem, tentando pensar em qualquer coisa. Não podia ser possível, viagem no tempo era algo apenas teorizado. Como ela queria ter prestado mais atenção nessa aula da faculdade. Sophie parou, diante da garota confusa. — Você tem certeza?

— Ora, claro que tenho, eu faço dezessete anos este ano. Claro que eu tenho certeza.

— Da última vez que eu chequei, era 2019.

— O que? — Mais uma vez Sophie soltou uma risada sem humor. A expressão da outra garota foi de completo choque. Fazia muito mais sentido isso, considerando as roupas que a mais velha usava. Julliet nunca tinha visto nada parecido, nem mesmo em Paris.

— É isso mesmo. Quase um século e meio. Dois, exagerando um pouco. Dois séculos e eu nem sei como eu... Isso não é uma pegadinha? Daquelas de programa de televisão? A pessoa "atravessa" o espelho e vai parar em outro século? Só pode ser uma pegadinha. Muito engraçado. Onde estão as câmeras?

— Você está me assustando — Julliet deu alguns passos para trás, se afastando da outra que parecia cada vez mais estar no meio de um surto histérico.

— Isso é real, não? — Aquela foi uma pergunta retórica, Julliet soube disso assim que viu as lágrimas surgirem nos olhos de Sophie. Ela parecia confusa, frustrada e muitas mais emoções que Julliet não tentaria listar. Com cuidado, levou a estranha para uma cadeia e a colocou sentada ali.

— Você pode me chamar de Julliet, se quiser, mas precisa respirar fundo e se acalmar. Tudo bem? — Sophie olhou para a garota nos olhos e secou suas lágrimas. Ela se sentia péssima, na beira do abismo da insanidade. Estava mesmo parecendo uma louca. Respirou fundo. Uma, duas, três vezes antes de tentar dizer qualquer coisa.

— Tudo bem. Isso só não faz sentido.

— Eu sei que não.

Sophie finalmente se levantou, mais calma, tentando não se desesperar novamente. Ela caminhou até o espelho de onde veio, aparentemente, e tocou nele. Sólido e gelado. Seja lá como ela passou por ali, não tinha como voltar.

— Estou presa. Que ótimo — Ela se virou para Julliet novamente, que tinha em seu rosto, a expressão de alguém que tem uma ideia genial. No fundo, Julliet sabia que a desconhecida que surgiu no meio de seu quarto seria sua salvação.

— Calma, eu sei como te ajudar.

Notas finais
Olá, Aqui é a Sofia falando. Espero que tenham gostado desse novo capítulo da história. Muito vai acontecer na vida das meninas ainda e espero que estejam aqui para acompanhar! Gabi está me dizendo aqui que quer saber o que vocês estão achando até então. Então, não esqueçam de comentar e votar se gostaram, é muito importante pra nós! Com muito carinho, Sofia e Gabi