Estar na frente daquele monitor não era mais novidade para Alphys. Sentia-se mais confiante e confortável, perante a tela azulada repleta de informações. Seus dedos ágeis passeavam pelas teclas e, seus olhos atentos vasculhavam as cenas da câmera, onde a assassina havia passado.

Não havia mulher peixe; Não havia danças e nem música que tirasse sua atenção; Apenas existia Alphys, Sans e os sons da ventoinha dentro do CPU, que estavam girando a todo vapor. E era isso que a monstra mais gostava. O doce e confortável silêncio, como também a presença do parceiro.

Nada... — Murmurou, usando o scroll do mouse para dar zoom em uma das cenas que a câmera exibia. Mesmo com a aproximada, nada lhe pareceu dar evidências de quem poderia ser.

— Não sei você, mas acho inteligente sair assassinando as pessoas com o traje que ela usa. — A voz do amigo esqueleto preenche o ambiente, enquanto o som do café sendo bebericado paira no ar. Aproximou-se de uma das mesas, pegando alguns relatórios, dispondo-se a ler. E encaminhou-se para perto de Alphys, parando ao lado dela. — Convenhamos que assim, será mais difícil identificar quem seja. Pode ser uma monstra, mas também pode ser uma humana.

Aquilo era fato.

As roupas da “assassina” eram resumidas em um grande suéter escuro e calças pretas. Também utilizava um gorro e uma máscara, que acobertava a região do pescoço, impossibilitando de decifrar a figura por trás daquelas roupas. Não havia uma única mecha de cabelo, para tentar adivinhar quem fosse.

“Adivinhar”.

Essa palavra não existia para Alphys.

— Sans... Se nós descobrimos que era uma assassina, por qual motivo você acha que não iremos descobrir quem é? — Se remexeu na cadeira, virando em direção ao ouvinte. Ajeitou seus óculos com dificuldades, pois havia se esquecido, mesmo que por poucas horas... Talvez dias, como era estar usando um.

— Ah... Você sabe. Talvez, a resposta esteja debaixo de seu nariz. — Dirigiu sua mão em direção ao teclado, puxando uma fotografia que retratava Undyne, com uma foto não contemplada antes. Estava estranhamente sorridente, com as bochechas rubras, que mais parecia impossível.

Em breves minutos, a feição desdenhosa de Alphys se transformou em surpresa. Não sabia se estava ficando insana ou se sua incredulidade a fazia achar esquisito e fora do comum Sans estar acusando alguém sem provas. Alguém inocente. Rangeu os dentes, buscando segurar a raiva. Por instantes, começou a sentir as mãos fraquejarem.

Retornou a encarar o parceiro, que mantinha o semblante frio, no entanto ainda degustando do café quente. Não havia palavras, então a órbita dele esboçava um gesto como se estivesse curvando, em sinal de dúvida.

— Algum problema, Alph?

Indagou calmamente. Aquilo deixava a monstra intrigada, pois como poderia se manter tão calmo, perante a uma acusação injusta a uma pessoa inocente? Manteve os dedos nas pernas, tentando manter a calma. Estava torcendo para que fosse uma piada, como as brincadeirinhas de mau-gosto dele.

— Você... Está acusando alguém sem provas, Sans? — Inqueriu.

Os dois se fitaram em uma desconfortável mudez. Sans pensava o quão pode ter sido rude apresentar sua suspeita daquela forma. Sentia-se mal, por ter sido como um balde de gelo na cabeça de sua amiga. A reação em choque dela lhe entregava tudo.

Foi cruel. Sentia-se na obrigação de pedir desculpas.

— Não estou afirmando, Alphys... Apenas quero dizer que... — O olhar receoso lhe impedia de dizer aquilo para ela. Respirou fundo, mirando em um canto que não fosse os olhos havanas da amiga, pois sabia que iria se desconcentrar caso a encarasse novamente. — O nosso pessoal está suspeitando da Undyne. Eles nunca a viram na cidade e vale a pena ressaltar: Aqui é uma cidade pequena.

Ainda permaneceu em mudez. Estava incrédula.

— Sans... Eu só não acredito.

Queria distrair a mente... Desviar daquele assunto. Colocou a mão no bolso, na tentativa de pegar o celular. E quando não o sentiu, arregalou os olhos, começando a tatear o restante dos bolsos que havia no uniforme.

E se a Undyne tivesse roubado? Sans... Poderia estar certo?

— Está procurando seu celular? — O esqueleto mantinha uma cara humorada com o toque de desdém. Alphys continuou procurando, mexendo na mesa e nos papéis, chegando até mesmo abrir as gavetas. Os gritos de réptil afinados, que vinham da monstra, deixava o Sans com um ar cômico.

— Sans... Eu não acredito... — Deu-se por vencida. — E-ela roubou meu celular... E-eu...

Sans riu.

— Alphys, querida. Seu celular está ali, carregando do lado do jarro de planta. — Apontou na direção indicada. Ela olhou, vendo totalmente que era verdade. Suspirou, com um alívio. — Entende agora? Qualquer coisa pode mudar sua mente.

— Desculpe... Desculpe.

Esboçou uma feição mais feliz à policial, como se estivesse tentando confortá-la. No entanto, a sua felicidade se dava ao fato de ter a chamado de querida e ela não esboçar nenhuma reação negativa.

Percebendo o esforço do parceiro, ela devolveu o sorriso.

Apesar das horas terem se passado, assistir todos aqueles vídeos retirados das câmeras de segurança, não davam em nada. Não havia nenhuma dica de quem poderia estar por baixo daquele traje. Como Sans sugeriu, é verdade que pode ser qualquer pessoa. Mas Alphys não podia aceitar. Estava confusa. E dessa forma, começou a ligar os pontos de como havia chegado à conclusão de que era uma mulher, a figura nas roupas de preto.

Talvez fosse pela cintura e pelo tamanho...

Negou com a cabeça, sentindo-se como se tivesse voltado para o início do problema: Mas, e se fosse homem? Existiam alguns monstros com um corpo que se encaixava naqueles padrões.

“Ah, se existia...”, pensou em Mettaton enquanto encarava a foto do rosto da mulher peixe, que estava quase enterrada embaixo do teclado. Não queria aceitar que era ela, pois sua voz e seu rosto pareciam tão sinceros ao dizer tudo aquilo...

Estava com medo de que estivesse sendo enganada novamente. E se isso fosse verdade, caiu que nem um patinho nessa. Sentia que sua mente iria entrar em colapso, graças aos pensamentos em turbilhão.

“Vamos Alphys, não é tão difícil...", tentava se encorajar. Antes mesmo que pudesse se aprofundar nos pensamentos, Sans bate na porta novamente. Questionou a monstra, perguntando se ela iria para a segunda noite.

Após aquela acusação, ainda estavam tenso. Isso era perceptível graças à demora de respostas e o silêncio desconcertante entre ambos. Alphys assentiu com a cabeça, desligando o computador com um olhar entristecido em direção à máquina. Sans gargalhou novamente, abrindo a porta e deixando com que a amiga passasse, antes mesmo dizendo:

— Vamos lá, Alph. Ela vai aparecer por bem ou por mal.

Acompanhando Alphys, Sans insistia em contar-lhe piadinhas, para que melhorasse seu humor, ainda na tentativa de clarear o relacionamento entre ambos. Sentia-se conturbado por ter feito Alphys ficar receosa novamente e mesmo que não fosse de propósito. Ao chegarem a casa dela, abriu a porta, deixando-a entrar primeiramente. Ficou no andar de baixo, observando ela subir e fechar a porta do que poderia ser seu quarto.

Olhou ao redor notando a sala: Um papel de parede amarelo e rosa fraco, algo que metaforicamente representava as cores de suas personagens preferidas. Um arranjo de flores azuis e verdes no canto da janela, simbolizando outra dupla do anime. O chão era um assoalho de madeira, que chegava a ser roxo.

“Tudo é uma referência...”, pensou silenciosamente olhando para o pequeno criado-mudo que estava alojado no final da sala, perto das plantas. Segurou uma vontade interna de ir até lá e mexer nas gavetas, por mais que fosse tentador. Mas o que poderia haver ali, além de mangás impróprios? Riu com esse pensamento, tentando imaginar como ela reagiria ao vê-lo mexer em suas gavetas.

Enquanto aguardava pacientemente, foi até a cozinha procurando algo para comer. Olhou dentro da geladeira, contemplando vários refrigerantes e petiscos congelados. Abriu as gavetas, encontrando pacotes de macarrão instantâneo. Analisou, pegando um doce no pote. Retornou, sentando no sofá.

Olhou as horas no relógio, tendo se passado apenas alguns minutos. Escutou sons de passos e olhou na direção, encontrando Alphys descendo as escadas, totalmente arrumada. Suas íris brancas notavam todos os detalhes mínimos, esboçando um olhar surpreso.

— Sans? — Questionou preocupada, sacudindo o amigo pelos ombros. — Sans?

— Eita, desculpe... — Pronuncia, ajeitando a máscara em seu rosto, deixando escapar uma risada sem-graça. Levantou-se do sofá, estendendo o braço para a parceira. — Vamos?

Naquele baile, a presença de Sans era indispensável. Ele é como um porto-seguro, onde sempre corre para buscar ajuda. Todavia, aos poucos Alphys se acostumava a ficar afastada de sua proteção. Não era necessário, afinal seu divertimento era outro, principalmente em relação a uma bela moça de cabelos vermelhos.

Seus olhos vasculhavam curiosos, em busca da Undyne.

Apesar de percorrer todas as áreas apenas com os olhos, não encontrou nada. Alphys pôde pressupor que a peixe não veio, pois nada se assemelhava à presença do grande cabelo ruivo e a máscara de peixe.

E se ela fosse... Não... Não podia ser.

E estava novamente receosa...

— Ah, você está aí! — Escutou atrás de si, a voz familiar. Olhou em direção, querendo ter certeza que era ela. E pode afirmar: Lá estava a dama com o longo vestido preto e a máscara de peixe. Caminhou mais um pouco para perto de Alphys, parecendo meio tonta. — Pensei que não viria...

— Onde você estava?

Apesar de ser uma pergunta comum, Alphys sentiu como se estivesse sendo invasiva, diante da reação surpresa de sua companhia. Undyne desviou o olhar, fazendo com que as coisas ficassem mais estranhas. Aquilo parecia inesperado, antes da resposta:

— Eu estava na mesa de bebidas. Não que eu seja alcoólatra ou algo do gênero, digamos que eu queria um pouco daquele ponche. Os restos das bebidas não me agradaram muito... Hahah!

Talvez, desconfiar de Undyne não fosse tão efetivo. Ela só era uma pessoa comum, então por qual motivo a desconfiança? As duas se uniram para uma dança. Apesar de a peixe estar cambaleante graças à leve dose de álcool, seus passos eram delicados.

— Ei... Undyne?

— Diga-me?

Após ser respondida com outra pergunta, Alphys hesitou. Parecia-lhe mais precipitação... Poderia recorrer à hipótese de que Undyne era nova na cidade. E se jamais fora vista, pode ser que morasse em uma das casas no campo, acima do morrinho.

— Há quanto tempo você está na cidade? — Alphys recosta a cabeça no peito da companhia, escutando o coração dela palpitar rapidamente.

— H-há q-quanto tempo? — Tossiu, parando a dança. Pôs a mão na boca, sinalizando um “momento”, fazendo Alphys aguardar. Quando se recompôs, murmurou um pedido de desculpas. — Digamos que sou nova na cidade. Fará uma semana desde que eu vim para cá.

Retornaram a dançar, porém as frases da mulher pareciam petrificadas, juntos de seus passos. Os passos lentos, agora pareciam não existirem mais.

— Mas... Tanta cidade boa e você vêm para cá, nesse fim de mundo?

— Me informaram que aqui era uma cidade tranquila, sem muitos problemas. Eu procuro lugares tranquilos para descansar.

— Entendo...

Não era necessário desconfiar dela, afinal.