Atrasados
1 Capítulo Único
- Anda, anda – dizia a lebre, pulando apressada em direção à mesa posta em meio ao jardim.
Um homem com uma cartola estranha e listada estava parado, com uma xícara quebrada em mãos, enquanto olhava para cima.
- Pois sim – disse o coelho branco – Estamos atrasados, atrasados! – reclamava o coelho, olhando no relógio de bolso.
- Não somos os únicos – reclamou a duquesa, segurando seu bebê com cara de porco com cuidado – Onde estão os outros? Se meus olhos não me tapeiam, vejo apenas o Chapeleiro.
- Pois seus olhos a tapeiam, minha senhora – disse a pequena Alice, que estava de pé em cima da mesa. Ah, ela realmente devia parar de beber o líquido que a fazia encolher, todos ali já estavam cansados de terem de procurar biscoitos para que ela aumentasse novamente – Como vê, aqui estou eu – disse ela, balançando os braços.
- Ora, ora, Alice – sorriu o Chapeleiro, pegando a menina pelo vestido – Está aí. Nem eu pude vê-la assim, tão pequenina.
A garota bufou. Realmente precisava de um biscoito que a fizesse crescer.
- Nos atrasamos devido a um... – começou o coelho, inteligentemente querendo retardar a cara brava que Alice agora demonstrava a todos eles.
- Um blecaute! – comentou a Rainha de Copas, chegando com a cara emburrada e mais dois de seus soldados carta.
- Como?! Aqui nem lâmpadas existem! – reclamou Alice, colocando as mãos na cintura.
- Ora, minha querida, nunca ouviu que às vezes o Sol se apaga para alguns? Assim como as velas, que se recusaram a acender – suspirou a Rainha, já tomando lugar à mesa – O Rei ficou tão apavorado, por exemplo, que se recusou a descer.
- Encontramos a lagarta pelo caminho, ela estava apenas preparando o narguilé para já vir.
- Essas pessoas atrasam tudo... – reclamou a Rainha, furiosa.
Alice coçou a cabeça e olhou para o Chapeleiro.
- Pois onde está o bule? – perguntou ela, franzindo o cenho.
- Aqui, meu bem, aqui – disse ele, abrindo a aba rasgada do chapéu e tirando-o lá de dentro – Bem sabes que aqui ele fica mais quentinho – sorriu ele.
- Ah, o chá foi esquentado pelo chapéu do Chapeleiro – exclamou a Lebre de Março, empolgada, tomando seu lugar ao lado do mesma – Agora me deu ainda mais vontade de tomá-lo! Pois sirva-o!
Todos sentaram-se animados. O bebê da duquesa começou a chorar escandalosamente assim que o cheiro do chá espalhou-se.
- Acho que ele não se agrada com o cheiro – observou ela.
- Pois que cortem-lhe a cabeça! – disse a Rainha, estupefata – Desde criança, ele deve apreciar o cheiro de um bom chá inglês! – reclamou ela.
- Acalmem-se todos! – reclamou o Coelho Branco – Acaso não vêem que o Chapeleiro está impaciente para servir o chá?
- Mas a Lagarta ainda não chegou! – disse Alice, arregalando os olhos.
- E já são cinco horas e dez – disse a Rainha, olhando para o Sol.
- Já se passaram das cinco?! – o Chapeleiro parecia nervoso. A lagarta subiu à mesa, anunciando sua chegada com o típico cheiro do narguilé a se espalhar.
- Sim... Já... Se passaram... Das... Cinco... – disse a Lagarta, soltando a cada palavra um anel de fumaça.
Alice agora parecia emburrada.
- Agora estão todos aqui! – reclamou ela – Podemos começar, pois não?!
- Não, claro que não! – o Chapeleiro levantou-se, jogando o chá no solo, derramando-o inteiro e guardando o bule novamente no chapéu – Tomar o chá após as cinco traz tanta má sorte quanto cruzar o caminho com uma flor saltitante.
- Flor saltitante? – murmurou Alice, mas parecia que todos haviam entendido pela cara de espanto que agora faziam.
- Oh, não – disse a Lebre de Março.
- Pois teremos que esperar até as seis! – declarou triunfalmente o Chapeleiro.
- Chá das seis! – exclamaram todos eles, contentes, erguendo a xícara.
“Esperar mais cinqüenta minutos por um chá normal, que poderia tomar em casa?” Alice pensou.
Todos ficaram sentados à mesa, quietos, como se esperassem que o tempo fosse passar mais rápido daquela maneira.
“Pois bem” pensou Alice “Desejo que haja um ‘blecaute’ imediatamente, para que eu possa fugir dessa festa entediante”.
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