Atraída por um Darcy
20 Lance Ace do Amor ― Parte 2
Notas iniciais
Eu me sentia bem por pela primeira vez estar tão próxima a ele. Embora não morasse na mesma casa, eu podia sentir que aquele tipo de aproximação era o que eu realmente queria e abriria mão de tudo por aquilo. Algumas pessoas poderiam me achar louca por insistir em alguém que não demonstrava qualquer respeito por mim, mas, por mais que eu tentasse, era como se ele estivesse cravado em meu coração. Eu não poderia esquecê-lo por mais que eu quisesse, até porque a vida acabava zombando de mim e esfregando na minha cara que eu pertencia a ele. Era algo que alguém feito eu não poderia evitar.
― Ei, vamos, tente novamente! ― ele disse jogando a bola para que eu rebatesse. Já estávamos naquilo há algum tempo, apesar de mal ter amanhecido.
― Talvez se você tivesse deixado eu dormir por mais tempo, tivéssemos mais sucesso aqui. ― repliquei irritada. Estava cansada, com sono e com fome. Ele não dava folga!
Para meu desgosto, Darcy havia praticamente invadido o meu quarto antes do nascer do Sol. Eu posso dizer que, pelas minhas companheiras de quarto, isso não era lá uma grande falta. Elas estavam mais preocupadas em lamentar não estarem usando uma lingerie sexy do que irritadas por ele ter acordado elas. Mas eu, por outro lado, tinha muito o que lamentar. E não era pela minha roupa de dormir.
― Se você tivesse jogado no primeiro jogo, poderia estar dormindo agora, afinal eu nem estaria aqui. ― respondeu e novamente lançou a bola na minha direção. E tentei rebater, mas o meu braço estava dolorido e, para completar, não fiz muito esforço para alcançar, fazendo com que a bola passasse direto.
― Vamos, Bennet! O Jogo será hoje, você precisa rebater alguma coisa!
Aquilo estava sendo uma verdadeira tortura. Mas eu havia prometido a ele na noite anterior, quando, ao vê-lo se abrindo para mim, eu acabei me abrindo para ele também.
― Eu não sei se eu posso voltar a jogar... ― sussurrei depois que ficamos em silêncio por um tempo. Ainda não tinha certeza se poderia contar tudo a ele, mas queria que ele entendesse o real motivo por eu ter feito o que fiz. ― Sei que errei por não ter sido sincera desde o começo, mas não fiz por mal. Eu não queria que você fosse humilhado daquela forma.
― Eu sei... mas, se você tivesse dito desde o começo, eu poderia não ter bancado o idiota. ― Darcy respondeu sem tirar os olhos do rio. ― Mas você precisa deixar isso de lado, faz muito tempo.
Foi então que eu percebi.
― C-como você sabe? ― indaguei surpresa, assustada e nervosa. Como ele sabia?
― Quando você não jogou, eu vi que tinha alguma coisa errada. Não na hora, de qualquer forma. Eu estava tão irritado que não vi algo que estava bem na minha frente, mas uma vez que fiquei sozinho e pude pensar, acabei chegando a conclusão de que nem tudo era como parecia ser, sendo assim procurei minha mãe e perguntei. Ela acabou me falando.
Ruborizei imediatamente, não gostava das pessoas sabendo sobre os meus problemas. Era sempre tão discreta sobre eles, pelo menos quando podia.
― E-eu...
― Não se preocupe...
Mas, de alguma forma, eu sentia vontade de explicar a ele. Não era como se ele não soubesse, então eu não estaria exatamente o contando. Respirando fundo, tornei:
― Não, eu quero contar... Minha mãe era uma atleta. Começou a jogar quando tinha um pouco mais do que 10 anos e desde entãopassou a desenvolver uma grande habilidade. Embora não fosse a melhor, ela quase chegava lá, sempre ficando em segundo ou em terceiro lugar nos torneios. Ela queria, mais do que tudo, se tornar uma campeã. Quando tinha 19 anos conheceu meu pai e eles se apaixonaram. Como ela viajava muito, o relacionamento passou por grandes problemas, até que papai decidiu que o melhor era se separarem. Embora quisesse muito ficar em primeiro lugar, ela se viu amando mais o meu pai do que o tênis, então prometeu a ele que faria qualquer coisa, até largar o tênis, para ficar com ele. Ele aceitou e eles se casaram. Eu nasci quase dois anos depois do casamento, então ela passou para mim o seu sonho. Meu primeiro brinquedo foi uma raquete. Segundo meu pai, ela comprou assim que soube que estava grávida. Até a decoração do meu quarto, que deveria ter sido rosa com alguma coisa feminina, era sobre o tênis. ― eu tive que rir nesse momento, mas logo continuei: ― E quando comecei a andar eu já sabia rebater as bolas que ela lançava, pois ela havia passado meses me ensinando. Não era nada espetacular, totalmente desengonçado e sem força, sequer chegava até ela, mas eu fazia. Foi só depois de eu me firmar no chão que ela passou a realmente me treinar. Antes dos 2 anos, eu já podia ”jogar” e, antes dos quatro, podia correr na quadra atrás das bolas que ela lançava. Mamãe havia me feito para reviver seus passos e eu não tinha como sair daquilo. Mas a verdade é que eu não tive uma infância de verdade e foi vendo as outras crianças brincando sempre que queriam que eu passei a pedir para ir brincar com elas, o que ela nunca deixava. Quando fiz 7, no entanto, foi que bati o pé e disse que não iria mais jogar, por mais que ela quisesse. Nessa altura eu já participava de torneios infantis e era conhecida nacionalmente, mas por Elizabeth Gardiner (papai se recusou a deixar usarem o Bennet, disse que era para proteger a família dele). Ela se irritou muito comigo e tentou me deixar de castigo, mas eu não voltaria atrás. Como ela já tinha Lydia, minha irmã que morreu com ela, me deixou em paz, se concentrando em deixar Lydia com a mesma habilidade que eu tinha... e ela não estava longe. Lydia havia seguido os meus passos e, com quase 6 anos, já participava de torneios comigo. Eu sempre vencia a minha categoria e Lydia a dela. Foi indo para a quadra treinar, um ano depois, que elas sofreram o acidente. Morreram na hora. Depois disso eu havia dito ao meu pai que não iria mais jogar, porque se ela não poderia me ver jogar, ninguém mais veria. Nesse dia eu doei tudo o que tinha relacionado ao tênis e joguei algumas coisas que não serviriam para outras pessoas.
― E desde então você realmente não tem jogado, certo? ― ele falou um ou dois momentos depois que eu me calei. Eu assenti, afinal ele já tinha ficado sabendo de muita coisa por Maggie. ― Talvez não deva jogar amanhã, não será tão humilhante ir treinar com roupas femininas. Você sabe, já estou acostumado com isso... ― ele finalizou tentando dar de ombros, mas eu pude ver a expressão de desgosto que ele fez para essas palavras.
E ao ver aquilo, como ele estava se submetendo a novamente ficar vestido de mulher para que eu não passasse por algo que poderia me fazer sofrer, não pude me negar a fazer algo por ele também. Afinal, mamãe estava no céu e, se eu tivesse sorte, ela poderia estar olhando por mim agora. Era o que eu precisava acreditar.
― Eu posso fazer isso.
Ao ouvir minhas palavras que não passavam de um sussurro ele se virou, olhando em meus olhos e assim ficou por mais tempo do que eu estava acostumada. Eu devo ter ficado uns três tons mais vermelha, pois minha face havia esquentando como nunca antes. E então ele sorriu fazendo com que o meu coração se enchesse de vida e que eu me esquecesse de todo sacrifício que iria fazer.
― Obrigado.
Mas toda aquela magia havia acabado e eu estava sendo tratada como um trapo! Então não aguentei mais, tive que ceder ao chão. Meu corpo todo estava dolorido! Darcy bufou, mas logo se aproximou e perguntou se estava tudo bem.
― Sabe, é muito ruim ter que fazer algo que requer tanto esforço sem qualquer incentivo! ― lamuriei, mas 90% era só encenação. Ele revirou os olhos.
― Pare de drama e vamos voltar a jogar!
Eu bufei também, mas quando estava me levantando, passei a atuar novamente e caí de novo no chão.
― Droga, estou tão cansada. ― chorei, dando ênfase no “tão”. Ele revirou os olhos novamente e cruzou os braços, me encarando.
― Vamos, fale o que vai querer.
― E-eu? Nunca poderia pedir nada a você! ― respondi agitando as mãos em negação, mas a verdade era que eu queria muita coisa e precisava de tempo para pensar. O que eu iria pedir mesmo? Um beijo? Um encontro? Eu estava tão desesperada assim? Por Deus!
Talvez uma semana de beijos, hein?
Droga, estava desesperada mesmo!
De qualquer forma, isso era algo que alguém como Stefanski pediria. Eu, por outro lado, nunca teria coragem de trocar os beijos dele por algo assim. Eu queria que ele me beijasse porque me queria, não obrigado.
― Vamos fazer assim... ― ele tornou depois de um tempo que permanecemos em silêncio. ― Se levarmos por bicicleta, você pode me pedir qualquer coisa.
Eu tive um pequeno momento de felicidade até compreender o que ele havia dito. Aquilo seria impossível!
― Você só pode estar doido! Depardieu e Stefanski jogam muito bem, nunca levaríamos os dois sets por 6 a 0, seja sensato! ― implorei.
― Ou isso ou nada. O que vai ser? ― perguntou me encarando.
Eu bufei, depois gemi, depois bufei novamente. Era óbvio que não iríamos levar, mas eu tentaria.
― Certo, certo. Vamos levar isso como você quiser. ― então me levantei irritada, me posicionando para voltar a jogar.
E o treino seguiu bem melhor pelos próximos minutos, afinal, por mais que fosse impossível, tinha algo pelo que lutar. Eu poderia fazer um pedido ao gênio, que não era da lâmpada, mas que era bem mais gostoso! Não pude me conter, tive que dar pulinhos de felicidade nessa hora.
― Vamos, Lizzie, pare com esses sonhos idiotas e volte a treinar! ― Darcy gritou do outro lado da quadra e eu ri, pois fazia muito tempo que ele não me chamada apenas de “Lizzie”. Na verdade, se eu me lembrava bem (o que eu realmente lembrava), ele havia me chamado assim apenas para provocar Collins. Agora isso não era o caso. De qualquer forma eu precisava treinar agora, iria deixar para meditar sobre o quão agradável o meu nome soava saindo dos lábios dele depois.
E então passamos uma boa parte do dia treinando. E por mais que eu quisesse continuar (e aqui levamos isso como ironia), tivemos que parar, pois Depardieu anunciou que o treino iria começar. Sem falar que Darcy não queria que eu mostrasse a minha habilidade na frente dos outros, habilidade essa que havia retornado com alguma força. Talvez não fosse tão impossível assim vencer aqueles dois de bicicleta... Ou fosse.
Nos separamos no início da tarde, mas logo Darcy estava perto de mim novamente, seguindo as regras, e ele me ajudou a preparar o jantar novamente. Eu só pensava no que os outros iriam achar do marquês preparar o jantar deles, seria cômico. Mas, como Darcy pediu segredo, eu teria que manter a minha boca fechada. Além do mais era ótimo levar todo crédito! Qual é, não sou nenhuma santa.
Então a hora da partida finalmente chegou. Todos os outros alunos se reuniram para assistir. Eu estava lendo um livro que seria discutido no dia seguinte em sala quando Stefanski entrou.
― Como você pode estar tão relaxada? ― ela perguntou, mas eu não me dei ao trabalho de responder. Ainda estava com ela engasgada na minha garganta por ter se declarado para ele. ― Lendo um livro? Você realmente leva isso como uma brincadeira, não é?
Eu não me dei ao trabalho de responder, continuei tentando me concentrar na leitura, mas ela não estava parando por ali.
― Você sabe quanto problema tem causado para ele? ― continuou falando enquanto se vestia. Ela estava me irritando.
― Estou colocando todo o meu esforço para não causar problemas para ele. ― repliquei calmamente, depois de respirar algumas vezes até me acalmar.
― E esse esforço já é um problema. No último jogo, assim como neste, Darcy é o único que sai humilhado... e ele só está desperdiçando tempo ao treiná-la. Você só deveria se afastar dele. ― ela pausou por um momento, então voltou-se para mim enquanto falava: ― Está dando tanto problema para o homem que ama... Como pode não se sentir mal por isso?
Dito isso, saiu. Eu fiquei ali algum tempo refletindo sobre tudo o que ela tinha me dito. Não poderia dizer que não concordava com algumas coisas, mas ainda assim ela não tinha direito de o fazer. Eu não daria ouvidos a ela, afinal ela desconhecia boa parte da história.
Ainda permaneci mais alguns minutos me preparando para aquele jogo, assim como lendo mais algumas partes do livro, até que a hora marcada para estar na quadra chegou. Assim que cheguei à quadra me surpreendi por ver todos reunidos. Realmente seria um acontecimento! A minha chegada deve ter alertado Depardieu, pois ele gritou do outro lado da quadra para iniciar logo. Darcy se aproximou no mesmo instante parecendo tenso.
― Lembre-se do que combinamos.
Eu assenti em resposta, dificilmente poderia esquecer.
E, depois disso, afastou-se indo até Depardieu que o aguardava na altura da rede. O capitão do clube passou as regras, avisando que o jogo teria 3 sets. Permaneci à distância enquanto eles jogavam para saber quem escolheria lado da quadra ou iniciar com a bola. Depardieu venceu e ele escolheu iniciar. Eu ri nesse momento, lembrei-me de algo que Darcy havia dito sobre ele nunca gostar de iniciar uma partida. Segundo ele “trazia azar”. Ele nunca havia dito isso a outra pessoa, então eu me senti bem por ser a única.
Então a partida iniciou. Depardieu lançou a primeira bola e bem na minha direção. Como, apesar de tudo, eu não estava preparada, o primeiro ponto foi para eles. Então novamente. Depardieu sacou em cima de mim e eu, novamente, perdi. 30. Darcy me encarou. Eu sabia que se a gente perdesse iria ser problema, precisava levar aquele game. Eu assenti para ele. Depardieu ainda iria sacar novamente e, como eu já sabia, bem em cima de mim. Mas dessa vez eu não me permiti perder aquele ponto e, depois de algum esforço, rebati para o outro lado da quadra, em cima dele que, perplexo, não conseguiu ser rápido o suficiente para levar mais aquele ponto e levamos!
Depois disso a partida foi de lavada. Darcy e eu chegamos a perder alguns pontos, mas levamos todos os games e, ao fim, fechamos por 2x0. Não tinha como ficar melhor, afinal tínhamos levado todos os games. Todos nos aplaudiram e Darcy até envolveu-me em um abraço. Me senti nas alturas com aquilo, mas logo ele se afastou e caminhou na direção de Depardieu.
― Eu gostaria de dizer algumas coisas, Henry. Mas já que as coisas ficaram assim, acho que não é preciso palavras.
Depardieu irou-se e tentou se aproximar da gente, mas foi impedido pela rede.
― O q- qu-
Mas Darcy não o deixou terminar, cortando já que ele não parecia ter capacidade de formular uma frase direito.
― O que o quê, homem? Você quer saber como Lizzie conseguiu jogar desse jeito? ― ele perguntou e eu olhei para ele no mesmo instante surpresa por escutá-lo me chamar pelo meu apelido na frente de todos. ― Você por acaso já ouviu falar da Gardiner? Aquela garota que não tinha nem um metro de altura e já rebatia como um adulto habilidoso?
Eu fiquei vermelha na hora. Não com o elogio, afinal eu era habilidosa mesmo e sabia disso, mas com o fato de todos os olhos terem se voltado para mim. Uns porque sabiam quem era a tal Gardiner, outros porque queriam entender o que estava acontecendo.
― Você é Elizabeth Gardiner? ― indagou Stefanski, sua voz denotando o quanto estava chocada. Eu apenas assenti, não tinha jeito de encontrar a minha voz depois daquilo tudo. ― Não é possível! Você disse que não sabia jogar! ― tornou, achei que ela estava a um passo de estar furiosa.
― Não. ― respondi depois de um tempo. ― Eu disse que não jogava, era diferente.
― Isso dá no mesmo! ― respondeu dando de ombros.
― Não dá não. Não jogar é uma coisa, não saber é outra. E, sim, eu continuo sem jogar.
― Isso não dá possível! ― falou o capitão do clube pela primeira vez. ― Você poderia nos ajudar com a sua habilidade, sempre temos problema com a equipe feminina.
― Sinto muito... ― eu iria começar, mas fui parada por Darcy.
― Deixem Lizzie escolher jogar ou não, nossa equipe é forte o suficiente para levar qualquer campeonato sem problema. Caso ela decida jogar será bem-vinda, mas não iremos pressioná-la.
Eu sorri agradecida para ele. Embora tivesse jogado naquele momento, por ele, ainda teria que enfrentar cada etapa de uma vez até que conseguisse jogar em um campeonato. E, caso fizesse, teria que ser com o nome da minha mãe. Ela merecia isso, seria uma forma de honrá-la. Por agora eu só iria me regozijar por ter ganhado aquela partida, afinal havia levado de brinde um desejo em aberto para pedir ao meu gênio da lâmpada a qualquer momento.
Então o fim de semana chegou ao fim e voltamos todos para a faculdade de ônibus. De lá cada um de nós pegaria um táxi e retornaria para sua casa, mas pelo avançar da hora não era algo tão fácil assim. Alguns dos alunos tiveram seus parentes buscando na faculdade, outros haviam deixado seus carros no estacionamento pelo fim de semana e outros acabaram pegando carona. Eu, para meu completo azar, não tive alternativa e precisei esperar na frente da faculdade até que um táxi passasse. Já estava ali há mais de dez minutos e nada de um táxi passar. Eu até poderia ligar para um disk táxi, mas infelizmente não tinha nenhum salvo no celular no momento. Estava quase ligando para Charlotte mandar um para me buscar quando um carro parou na minha frente. Eu reconheceria aquele veículo em qualquer lugar, afinal era do homem que eu amava. Ele não buzinou, nem abaixou o vidro, sequer falou alguma coisa, apenas desceu do carro e abriu o porta-malas. Eu o segui, deixando que a minha bagagem fosse colocada ao lado da dele. Então, em silêncio, entramos no carro.
― Qual o endereço? ― indagou assim que entramos. Eu falei o endereço e ele franziu a testa.
― Esse bairro é perigoso... ― murmurou. Eu compreendia o que ele queria dizer.
― Não precisa me levar lá, sério. Estou com o dinheiro do táxi, basta me deixar perto de um que posso seguir meu caminho. ― tentei. Não queria que ele perdesse o seu carro, que por sinal devia ter sido muito caro, apenas para me levar em casa.
― Só fiz uma constatação. ― replicou, mas logo tornou murmurando: ― Como se eu fosse ligar para a droga de um carro.
Permaneci em silêncio, era melhor assim. Ele seguiu o caminho, levando-me até o endereço indicado. Assim que chegamos já comecei a descer do carro, depois de lhe agradecer e me despedir. No entanto ele também saiu e eu fiquei assustada.
― Não precisa me levar até lá, posso ir sozinha. ― falei apontando para o alto do edifício. Ele me ignorou, mas seguiu para o porta-malas e eu compreendi. Só estava tirando minha bagagem do porta-malas, claro. Quando eu fiz menção de pegá-la da mão dele, Darcy deu de ombros e passou por mim, entrando no edifício. Era sério que ele iria me levar até lá? No meu simples e desarrumado apartamento? Eu teria um marquês ali? E não qualquer marquês, mas ele? Apressei-me até ele implorando para que me devolvesse meus pertences. Ele ignorou. Enquanto acelerava meus passos e tentava fazê-lo mudar de ideia, tive a impressão de ter ouvido o meu nome, mas a minha angústia de passar por aquela vergonha era tanta que não dei atenção e seguimos para o elevador.
Assim que chegamos ao andar do apartamento eu me apressei em procurar a chave dentro da minha mochila, o que levou algum tempo visto que acabei me atrapalhando por causa do olhar de Darcy sobre mim. Ele realmente iria entrar? Por Deus! Foi depois que abri a porta que levei um choque, daqueles que ninguém espera levar durante toda a vida.
― Onde estão seus móveis?
Fiquei em silêncio durante algum tempo, meu corpo paralisado pelo choque que havia passado. Nem meus olhos piscavam. Aquilo não podia estar acontecendo, não podia...
― Fomos roubados! Meu Deus, fomos roubados! ― gritei desesperada.
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