Notas iniciais
Ultimo capitulo ;) Desculpem a demora. Espero que gostem. *3*

Quando cheguei em casa logo ouvi uma voz familiar vinda dos fundos.

Não acredito! Só pode ser brincadeira.

Logo aos fundos ouvi a voz do Shaka e de Hyoga, estavam conversando.

Já é certo que estou em sérios apuros.

Assim que me viram Shaka me direcionou um olhar mordaz, sorrindo feito um mafioso. Qual o problema dele? Tem fetiche em torturar os outros?

Imaginei que ele já havia contado tudo a Hyoga que iria me olhar aterrorizado por conta dos sentimentos tão sem noção que tenho por ele, não poderia mais olhar nos olhos do meu irmão, e nem teria mais chances com o Shaka. E assim eu teria que procurar outro país para morar, estou pensando no Brasil. Afinal lá é quente o bastante para mim.

É inacreditável que em um momento tão tenso a minha mente comece a se inundar de pensamentos totalmente incoerentes. Deve ser a adrenalina.

−Err... Oi. – digo sem jeito.

−Enfim chegou, frango. – Hyoga diz.

O que aconteceu? Achei que ele iria descarregar uma serie de ofensas em cima de mim. A não ser que Shaka não tenha dito nada ainda.

−Shaka ficou a tarde inteira esperando por você. – Shun comenta vindo com uma bebida gelada e entregando para o Shaka. –Porque você convida ele e não aparece? – ele me censura.

Entendi. Ele não disse nada ainda.

−Porque não me ligaram? – direciono meu olhar mais assassino para Shaka. O que ele está tramando afinal de contas?

−Ora, eu liguei. – Shaka diz sorrindo com cara de inocente.

−Podemos conversar a sós, Shaka?

−Fiquem à vontade, estaremos lá dentro se precisarem de nós. – Shun diz sorrindo e volta-se para dentro de casa com Hyoga.

Shun deve estar pensando que eu finalmente irei conciliar minha vida com o Shaka, sinto-me triste por ele estar errado.

Assim que saem eu logo disparo as palavras em cima desse indiano sem noção.

−O que está fazendo? Liguei para você o dia inteiro, estava até agora no nosso apartamento esperando por você, e do nada te encontro aqui.

Ele me olha tranquilamente, e só depois de tomar um gole de sua bebida é que ele responde.

−Só queria conhecer mais o Hyoga, conversar e entender o que tem nele para te atrair tanto. – ele diz sério.

−Eu já te disse que não é nada disso, eu ia te explicar isso ontem e...

−Será que pode tentar ser honesto ao menos uma vez comigo, Ikki? – ele diz mais firme.

Permaneço calado. Pacientemente ele coloca sua bebida na mesa como se finalmente fosse iniciar seu monologo, porque isso não me surpreende?

−O que ele tem que eu não tenho? – ele diz triste fiquei surpreso com a subida comoção em sua voz.

−Olha, Shaka eu não...

−Conversei com eles a tarde inteira... bom, ao menos com o Shun. – ele diz de imediato. –Qual graça de ficar com um cara que quase não fala nada? Nunca achei o Camus simpático e não é agora que vou achar por causa dessa mini cópia dele. – ele diz irritado, sempre me esqueço que o Shaka ciumento é terrível.

−Mini cópia?

−Eu não irei fazer o escarcéu por conta das suas escolhas sem fundamento, mas não poderia ter me trocado por alguém mais expressivo?

−Você não tem intimidade dele para que ele lhe mostre mais de suas expressões.

−E você tem? – ele diz mais aborrecido ainda.

Suspiro.

−Podemos conversar em outro lugar? Eles podem acabar ouvindo você.

−Não vejo nenhum problema em conversar aqui. – diz cruzando os braços. Céus, ele parece uma criança as vezes.

−Escuta – agarro seu braço. –Não vou deixar você estragar tudo, meu irmão e Hyoga não merecem isso. Agora vem comigo, e sem reclamar!

Seu olhar está cheio de surpresa, mas não me importo, e o arrasto pro meu carro para leva-lo para bem longe dali.

Ele ficou emburrado quando entrou no carro, mas conforme íamos nos distanciando ele me pareceu mais triste e melancólico.

Eu nem sabia para onde leva-lo nem o que dizer naquele momento. O silencio se prolongou até que decidi parar o carro, estávamos próximos ao parque Hibiya, então achei que ir para um lugar mais relaxante faria ele esfriar a cabeça.

Desci do carro, mas ele permanecia inerte com um olhar vazio.

−Shaka, por favor. – digo pacientemente.

Ele enfim me olhou nos olhos, pelo menos por meio segundo e decidiu me acompanhar.

Em silencio começamos a caminhar. O dia estava frio, e eu o puxei de casa antes que ele pudesse buscar seu casado então eu tive que lhe oferecer o meu.

−Obrigado. – disse se acolhendo na vestimenta.

Eu tinha muitas coisas para explicar, mas não queria bombardeá-lo de desculpas que ele obviamente não estava disposto a ouvir, então esperei que ele falasse primeiro.

−Você nunca me trouxe aqui. – ele disse olhando em volta, para as árvores altas, o lago intacto, e a pouca quantidade de pessoas que caminhavam por ali naquele dia.

−Sabe que eu não tenho muito tempo livre.

Sentamos em um dos bancos livres em frente o lago, mas preferimos virar e olhar para as arvores balançando desordenadamente com o vento, de alguma forma aquela cena descreve melhor a nossa situação.

Digamos que pouco antes de nos separar já não costumávamos sair frequentemente, o trabalho ocupa boa parte do meu tempo e sempre que eu podia era o Shaka que estava ocupado em alguma missão.

É estranha a forma como a convivência nos tornou tão cômodos. Quando começamos a sair eu sempre buscava lugares novos para leva-lo, já que ele não conhecia Tóquio muito bem, então tudo era novidade.

Por incontáveis vezes caminhamos por parques, íamos ver o mar, e nunca faltava assunto para conversar. Nossa viajem de férias à Índia foi uma das melhores experiências que já tive. Quando começamos a morar juntos diminuímos o ritmo, até o ponto de quase não nos vermos.

Eu gostava da companhia do Shaka. Seu jeito maduro, sempre ter o tempo certo em dizer as coisas. Nunca se exaltava, sempre calmo e com alegria moderada. Era como se ele tivesse tudo sob controle, nada era inesperado, mas também nunca ficou monótono. Ele era sempre seguro de si e independente.

Foi por aquele Shaka por quem me apaixonei. Não sei quando ele começou a mudar, nem quando eu mesmo comecei a mudar. Em algum momento de nossas vidas as coisas se tornaram monótonas, e a constante busca de cada um em retornar às nossas origens só nos tornava pior, pois um começou a culpar o outro. Nunca passou pela minha cabeça que era eu mesmo que tinha que mudar, sempre me pareceu que era o Shaka quem deveria voltar a ser quem era, não essa pessoa insegura que ele se transformou. Eu questionava o que estava acontecendo com ele, e ele dizia que era eu que tinha me tornado mais frio com ele. Nossas brigas tornaram-se frequentes e sempre com os mesmos questionamentos.

Eu já não sentia tanta vontade de ficar com ele por saber o que me esperava, no que ele se transformou. Admito que me tornei mais rude e muitas vezes fui grosseiro com ele. Nós dois sempre concordamos que a melhor defesa sempre foi uma ofensiva maior, então não importava o quanto um gritava, o outro sempre gritaria mais alto.

Às vezes me admira que ainda ficamos juntos por tanto tempo, mesmo depois das coisas se tornarem tão sérias, e que nosso relacionamento se tornou tão insuportável.

Mas nesse tempo que nos demos eu passei a pensar melhor e analisar nossa situação com mais cuidado. Eu não o deixei completamente simplesmente porque eu já sentia algo maior por ele, ele já se tornara especial demais, eu já não poderia abrir mão de alguém que se tornou tão importante em minha vida. Assim sempre tive esperanças dele voltar a ser aquele cara gentil e compreensivo. E acredito que ele sempre esperou o mesmo de mim.

Mesmo no auge do nosso relacionamento eu continha meus impulsos de lhe dizer o que sentia, constantemente imaginei que isso poderia assusta-lo, era cedo demais, sempre foi cedo demais. Talvez a minha falta de noção de tempo não tenha me feito perceber que as melhores oportunidades estavam passando, e que com o tempo justamente essa falta de declarações tenha feito ele se sentir cada vez mais inseguro.

Mesmo quando ele me dizia que me amava eu me sentia vacilante em responder, e as palavras sempre acabavam esquecidas. Afinal eu não era sensível o suficiente para perceber o quão eram importantes.

Hoje, com nosso relacionamento abalado, eu já não tenho certeza, se antes tudo era confuso hoje é mais ainda.

Não tenho certeza se quero voltar apenas para retornar ao comodismo, ou se eu realmente sinto algo mais forte por ele. Quer dizer, nos filmes sempre há toda aquela comoção antes do casal finalmente ficar justo no final, não é?

Eu não sinto nenhuma dessas emoções quando estou com Shaka. Pode parecer insensível e egoísta da minha parte, mas não é. Eu só não quero machuca-lo mais do que machuquei.

Falar com ele agora parece-me mais como se tivesse que andar sobre cacos de vidro, sempre com todo cuidado para não dizer a coisa errada, isso é sufocante, não quero passar o resto da minha vida tendo esses tipos de preocupações. Embora eu saiba que nunca encontraria alguém como o Shaka, que me amasse mesmo com todos os meus defeitos. Que me aturasse nos momentos que estou zangado, que saiba me animar quando estou triste, ou que sempre me diga as coisas certas quando eu me excedo.

Tenho que concordar com tudo que conversei com o pato na noite passada. Ele tinha razão. O ‘antigo’ Shaka me completava, mas eu ainda não sei se eu o completo.

−Pode começar. – ele disse de subido me acordando de todos esses pensamentos.

−O quê?

−Comece a se explicar.

Suspiro.

−Não me diga que agora você odeia o Hyoga?

−Claro que não, só não entendo o que você vê nele.

−Shaka – inicio pacientemente. –Mesmo que eu sentisse alguma coisa por ele, eu jamais tentaria algo, nunca magoaria meu irmão dessa forma, além do mais Hyoga não sente absolutamente nada por mim.

−Não tenho tanta certeza. – ele diz irritado.

−Como assim?

−Nada.

−Me enlouquece quando você não me diz tudo. – começo a me irritar.

−Quando isso começou? Desde quando sente atração por ele?

−Ouça quando as pessoas estão falando Shaka. Eu acabei de dizer que...

−Ikki, mesmo antes quando eu sentia ciúmes de alguém eu sabia que não era nada, eu já te conheço muito bem, então eu sei que o jeito que você olha para o Hyoga é diferente. Pare de negar e admita.

Fico em silencio. Não queria que fosse dessa forma.

−Ele nem se parece comigo, o que foi? Eu sou tão insuportável assim para que você não queira ter nenhum meio de se lembrar? – ele continua.

−Tudo bem, eu gosto dele! – falo mais alto e ele finalmente fica em silencio. –Gosto do jeito dele me contrariar. Admiro sua liderança com toda aquela família, de saber que ele é forte mesmo depois de tudo pelo que passou. Gosto das provocações... da sua independência e segurança, da sua inteligência, de suas habilidades. Gosto de seu lado paterno, da sua discrição. – ele me olhava chocado mas segui em frente. – Dele ser maduro e compreensível. Gosto quando ele é alegre apenas com quem ele gosta, gosto da exclusividade.

Naquele momento eu percebi, quem sabe devido aquele abalo emocional, que Shaka era mais parecido com o pato do que eu imaginava e tinha as mesmas qualidades que eu mencionava. Ou pelo menos tinha antes de ele mudar.

−Feliz?! Você venceu, eu admito, eu gosto dele. – disparo as palavras. –Eu sei que é errado, eu sei que é ultrajante, mas não consigo evitar. Simplesmente aconteceu. – de certa forma me senti aliviado em finalmente ter dito tudo aquilo a alguém, embora seja para a pessoa menos indicada.

Era assustador o modo como ele ficava em um silencio inquietante. Eu não queria ter dito aquilo daquela forma. Mas o estrago já estava feito e eu teria que assumir as consequências.

Ele baixou o olhar, após alguns minutos levantou-se em silencio e retirou o meu casaco me entregando em seguida.

−Aonde você vai? – digo surpreso.

−Acabamos. – ele diz sem me olhar nos olhos.

−Shaka. – tento impedi-lo.

−Lamento muito por você, entendo exatamente como se sente. – ele lamenta?

−Como assim?

−Gostar tanto de alguém que nunca terá. – diz simplesmente e vai embora sem me dizer mais nada.

[...]

Eu estraguei tudo. Foi um erro. Tudo isso foi um grande erro. A mudança, a conversa e tudo mais que foi dito sem pensar.

Eu o perdi. Perdi a única pessoa que gostou verdadeiramente de mim. Que me amou mesmo quando eu o tentava afastar.

Já se passou três dias e eu já me sinto completamente esgotado. Não consigo trabalhar, simplesmente porque sou incapaz de me concentrar.

Shun já tentou conversar comigo tantas vezes, mesmo com minha atitude estupida em enxotá-lo do meu quarto.

Ele me traz de comer no quarto, já que eu mal saio. É a única pessoa que vejo frequentemente.

Bom, ele e o bichano, mesmo que não se possa considerar uma pessoa, mas ainda é uma companhia. Estou sentado por horas olhando pela janela enquanto acaricio seu pelo macio. Finalmente está nevando... como o Shaka gosta.

O bichano se espreguiça no meu colo e fico observando ele descer e comer sua ração colocada recentemente. Shun também faz isso por mim agora.

O pior em tudo isso é que mesmo depois do que aconteceu eu ainda não sei dizer o que sinto. Eu lamento ter perdido o Shaka, mas não sei se isso é uma lastima por não ter mais ninguém para quem voltar ou se é simplesmente ter que começar tudo de novo.

Voltar a sair. Conhecer alguém, tentar gostar, conviver, descobrir. Tudo isso soa tão cansativo agora. Não sinto a mínima vontade de fazer nada disso.

Tenho visto bem menos o pato. Sinto-me na obrigação de honrar meu termino com o Shaka, e olhar para Hyoga soa como uma ofensa.

Nunca imaginei que me sentiria tão deprimido quando terminasse um relacionamento. Essa ideia sempre me pareceu tão patética, coisa de adolescentes mimadas que não sabem nada sobre os altos e baixos que a vida lhes reserva.

Minha teoria era que todo drama excessivo era desnecessário.

Até mesmo quando Shun me contou que Hyoga precisou de terapia depois da morte da esposa eu acreditei que ele estava sendo dramático demais. Quer dizer, tudo bem sentir-se triste, mas fazer terapia era exagerar.

Sempre me baseei com o que passei com Esmeralda. Perdê-la foi realmente aterrador, mas eu superei, não foi? Segui em frente. Só que no fundo eu sabia que aquele amor adolescente não teria futuro, eu a via como vejo Shun, era um amor fraternal, só que tão mais singelo e frágil do que o que eu sentia pelo meu irmão. A dor da perda não era latente, aquele infortúnio era suportável, talvez porque eu já esperasse pela morte cedo ou tarde naquele treinamento. Mesmo que não tenha atingido a mim eu sempre esperei que fosse em alguém próximo, então de certa forma, no fundo, eu já estava preparado. Pode parecer muito frigido da minha parte, mas era assim que eu me sentia confortável, não ter muitas expectativas com nada e nunca me forçar a sentir nada tão intenso.

Jamais me coloquei em situações parecidas até sair com o Shaka, não queria ter aquele tipo de dor novamente. Mas tudo cresceu tanto com o passar do tempo, e sem que eu me desse conta esse sentimento me inundou e me fez sentir coisas que até então eu achava impossível. Como pude deixar ele se tornar tão importante?

Esse sentimento machuca, nunca pensei que saudade, remorso, e até mesmo melancolia fossem emoções capazes de me ferir tão profundamente. Lamento se algum dia menosprezei esses sentimentos, se algum dia zombei de quem sofreu por conta disso.

Vejam só, eu menosprezei o drama que o pato fez com a morte de um ente querido e agora estou sofrendo com o simples término de um namoro. Eu sou patético.

−Ikki. – é o Shun de novo, batendo na porta.

Como não respondi ele simplesmente decidiu entrar sem ser convidado.

−Ainda não comeu? – ele diz olhando pra bandeja intocada que ele veio me deixar mais cedo.

Ele me encara e me olha espantado.

Quando digo que sou patético é porque sou mesmo. Minha situação é desprezível e ainda assim essas lagrimas involuntárias insistem em cair apenas para confirmar minha tão baixa autoestima. Nunca me permiti sofrer na sua frente, sempre quis mostrar segurança e controle sobre minhas emoções. Foram raras as vezes que ele me viu chorar e agora é como tornar todo esse esforço em vão.

−Oh Ikki. – ele diz triste vindo me abraçar.

Ele está chorando por mim, não esperaria menos do meu irmão. Sempre tão doce e empático, capaz de sentir toda a minha dor, e eu aqui desonrando sua doçura com minha hipocrisia.

Shaka descobrir tudo foi uma coisa, mas o Shun, ele não poderia, posso suportar perder a todos, menos meu irmão querido.

Aceitei o abraço, eu estava com a estupida necessidade de sentir o calor de alguém, qualquer um. Só queria sentir que alguém se importa.

Novamente confirmo o quanto sou patético.

Shun passou a noite comigo, me consolando. Apesar do meu constante silencio, ele não se importava, continuava ao meu lado. Tenho certeza que ele está crucificando o Shaka em pensamentos. Isso era tão impróprio e me fazia sentir mais e mais culpado. Muitas vezes tive o ímpeto de lhe dizer a verdade, dizer o que realmente aconteceu, os motivos, mas eu tinha medo da reação dele, que me desprezasse, me abandonasse e me fizesse sentir ainda pior. Eu não suportaria seu desprezo.

[...]

Pela manhã ele me preparou o café e me obrigou a comer e ainda ficou me vigiando.

Pelas oito observei da minha janela o pato indo até seu carro para ir para o trabalho, uma das vantagens de ter ficado no quarto com a janela direcionada para a rua é que eu poderia observar tudo anonimamente, então eu podia ver que as pessoas continuavam suas vidas tranquilamente, e o que eu estava passando ou sentindo naquele momento não significava nada para ninguém, ou pelo menos para 99,9% da população. Ainda estava decidindo se isso era reconfortante ou frustrante.

Vejo ele destrancar o carro, abrir a porta de trás para em seguida jogar uma bolsa dentro e depois entrar colocando o cinto logo em seguida. É o único momento do dia que o vejo, admito que se tornou rotina vigiar seus mínimos gestos nessa simples tarefa. Seu olhar fica fixo na porta da frente enquanto aguarda pacientemente, logo Mayuri vem agitada para alcança-lo, ela entra no carro já falando, imagino que o pato deve ouvi-la calado o caminho inteiro que a leva para a faculdade. Agora ele vai olhar pelo retrovisor de dentro, certo, agora vai ligar o carro e dar a ré.

Meu coração disparou quando instantaneamente seu olhar perde o foco do retrovisor e ele me olha diretamente, parecendo enxergar tudo através mim, como se soubesse que estava sendo observado. Por um ato reflexo eu rapidamente me abaixo, sinto-me como se estivesse fazendo algo terrivelmente errado, ou como se fosse uma criança e tocasse a campainha da casa de alguém e saísse em disparada para não ser pego na travessura. É a primeira vez que ele faz isso. Quando volto a olhar pela janela, segundos depois, seu carro já está virando e seguindo para a rua.

Aquele olhar foi diferente, pode ter durado apenas meio segundo, mas senti algum significado nele, como se ele já soubesse de tudo. É uma suposição tola, já que ele é desligado demais para notar alguma coisa.

Eu não queria que ele viesse me perguntar como estou, mas ao mesmo tempo queria. Mas ele não veio, nenhuma vez. E não tem sentido sondar o Shun para ver se ele perguntou por mim. Afinal que motivos ele teria para se importar?

Esse pato já tinha até suposto que a culpa era apenas minha, então é claro que ele não está do meu lado.

Eu já tinha decidido desde o princípio que nunca pensaria em rouba-lo do meu irmão. Mas eu queria saber o que Hyoga pensa de mim, se sou apenas um amigo distante, um cunhado, um irmão, não sei. Se eu tenho algum significado na sua vida.

Ele disse que se importa muito mais com a família. Ele ao menos me considera parte dela? Queria saber se sou tão importante para ele o quanto ele é para mim.

É engraçado como as coisas mudam, por um longo tempo eu o detestei, tanto que o ver perto do meu irmão já me irritava. Odiava sua timidez na adolescência. Odiava quando no início ele sempre respondesse minhas afrontas, afinal eu sou o mais velho, ele deveria só ficar calado e me obedecer, não é? Odiava sua indiferença, bom, até hoje odeio.

Comecei a criar realidades onde tudo era diferente. Uma em que ele não me odiava, que se importava comigo, que ninguém mais existia, apenas nós.

Criei outras em que eu fazia tudo diferente com o Shaka, que ele ainda me amava, e que eu poderia responder de volta, sem dúvida, sem remorso ou culpa. Em que eu era uma pessoa totalmente diferente da que sou hoje, que sou integro, que meus sentimentos são definitivos e que não deixo qualquer margem de dúvida para ninguém quanto ao que sinto.

Tudo não passava de fantasias, é claro.

[...]

Hoje é sexta, eu acho. Os dias estão passando muito devagar, acho que a gravidade se tornou mais forte para segurar a terra no eixo, ou é impressão minha?

Minha última teoria é que o cosmos está modificando a realidade para me punir com uma era mais longa, para que eu tenha muito tempo extra para me martirizar com a culpa.

Minha cabeça está zumbindo, não durmo direito a dias, mas tenho que sair desse quarto, senão vou acabar enlouquecendo de vez.

Shun saiu para uma reunião, embora tenha ficado receoso em me deixar sozinho em casa com a cabeça tão perturbada, só foi porque eu lhe confirmei que ficaria quieto.

O celular não sai da minha mão, eu o seguro firmemente o tempo todo, com o contato do Shaka ao aguardo, a um clique para chama-lo. Mas eu não liguei, nenhuma vez.

Não tenho coragem, sei que ele deve estar sofrendo e se sentindo tão solitário quanto eu, é nisso que quero acreditar. Queria ouvir sua voz, queria que ele estivesse aqui do meu lado, dizendo novamente que me ama. Dizendo que tudo foi esquecido e que vai me aceitar de volta.

Queria voltar aos passeios animados dos primeiros encontros, as primeiras noites de amor, queria acordar pela manhã com ele abraçando minha cintura, como sempre fazia. Queria conversar bobagens na madrugada, criar teorias de como ele conseguiu ficar de olhos fechados por tantos anos. Ele ria alegremente a cada teoria que eu criava.

.

−Você deve ter espiado algumas vezes. – eu comentava.

−Não. – ele diz convicto balançando a cabeça. –Nenhuma vez.

−Mesmo? Sabia quando estava de dia ou de noite?

−É claro. Meus outros sentidos ficaram muito mais aguçados. – ele comentou sorrindo enquanto falava, estava apoiado na minha barriga, enquanto eu brincava com seus cabelos fazendo desenhos em suas costas com as mexas longas.

−No começo deve ter se machucado muito com os tropeços, não é?

Ele riu.

−Um pouco.

−Aposto que quando você conversava com alguém chato fingia que estava escutando quando na verdade estava dormindo, não é? – digo enquanto faço o desenho de uma espiral no meio de suas costas, criando a vaga noção de hipnotismo.

−Quem sabe. – ele se faz de misterioso. –Mas não leve essa teoria para o Saga. – diz voltando a rir.

−Qual foi a sensação ao voltar a ver?

Ele pensa um pouco.

−Libertadora. – sorri tranquilo e seus olhos brilham com a lembrança. −A primeira pessoa que vi quando abri os olhos depois de tanto tempo foi você.

−Aposto que se apaixonou à primeira vista. – digo rindo.

−Convencido. – ele brinca beijando meu umbigo. Sempre achei adorável alguns dos gestos dele.

−Seus olhos são lindos demais para escondê-los por tanto tempo. – comento displicente afastando sua franja dos olhos.

−Acha mesmo?

−É claro, eu não saberia dizer nada sobre você sem poder olha-lo nos olhos.

−E o que eles dizem?

Sorri e o trouxe para perto para beija-lo.

.

Seus olhos só diziam uma coisa: que ele já era meu desde o princípio, que seus olhos já denunciavam seu amor por mim, que sempre brilhavam diferente quando ele me olhava.

Mas não queria intimida-lo com minha descoberta, talvez isso o deixasse mais inseguro, pois cada vez que ele dizia que me amava e eu não respondia de volta, de alguma forma eu sentia aquele brilho diminuir.

Um simples olhar pode significar muitas coisas. E eu sempre me senti orgulhoso em decifrar o olhar de muitos. Embora sempre tivesse medo de meus olhos denunciarem algo a mais em mim.

A possibilidade de estar exposto para alguém soava assustadora. Desfazia qualquer expectativa e tirava toda a emoção dos momentos. Eu queria me manter anônimo, tanto que em algum momento eu me tornei vítima do meu próprio retraimento, chegando ao ponto de eu mesmo não saber o que sinto, quanto menos demostrar.

Em todos os dias desde meu rompimento com Shaka eu me mantive sóbrio, era uma maneira que achei de me punir, mas eu já não suportava mais, precisava anestesiar aquela dor tão parecida com uma perda definitiva.

Já que Shun não estava em casa eu desci para a cozinha e busquei aquela garrafa de vodca de dias atrás.

Sentei no chão da cozinha atrás do balcão e comecei a beber direto do gargalo. Beber me fazia lembrar do incidente com o pato aquela vez a cozinha, então me empenhei mais ainda para esquecer.

Como meu estomago estava vazio, pois eu estava comendo muito mal, mesmo com a vigília do Shun, não demorou muito para que eu ficasse bêbado.

Não sabia que horas eram, nem quanto tempo passei ali. Só sabia de uma coisa que todo mundo diz: o álcool não é solução para nada, pois a dor, a saudade, o remorso e a culpa não diminuíram nenhum pouco.

Meu estomago revirou e eu acabei vomitando ali mesmo. Minha situação é deprimente. Realmente deprimente. Olhem só para mim, nem parece que algum dia fui aquele cara confiante e seguro de si.

Ouvi um baque surdo de uma porta, parecia distante, mas não me importei. Ninguém poderia me interromper naquele momento, seria deselegante demais atrapalhar o ritual autodestrutivo de um homem, não acham?

−Ikki? – era o pato. Puta merda! Tinha que ser justamente ele?

Droga, eu não quero ver ele. Ele me olhava com lamento, jamais ele havia direcionado aquele olhar para mim, isso me fez perceber o quanto minha situação era digna de pena, já não restava mais nada, minha dignidade foi a última a descer pelo ralo. Essa comoção de indignação e raiva me fez explodir com ele.

−Maldição! Eu não quero ver você, não você! – digo tentando ao mesmo tempo afastar as malditas lagrimas enquanto faço gestos para que ele vá embora.

Em algum momento a raiva me fez acender o cosmo e meu corpo quente fez a garrafa em minha mão estourar. Se eu fosse uma pessoa normal provavelmente teria sido mais grave, e eu teria grandes pedaços de vidro atravessando minha mão, mas eu ainda sou um cavaleiro, então os estilhaços foram apenas fortes o suficiente para me causar cortes pouco mais leves porem não tão insignificantes, ao menos o suficiente para me fazer jorrar sangue sem parar. Como dizem mesmo? Circulação rápida?

Esse pensamento me passou rapidamente enquanto eu apenas olhava o sangue escorrer, já que ainda não sentia dor, ao menos para isso o álcool serviu.

O pato se aproximou, nem percebi que ele ainda estava ali.

Em silencio ele puxou meu braço para que eu levantasse e me direcionou para mais perto da pia e cuidadosamente foi tirando caco por caco que ficou encravado no meu palmo. Decidi cooperar dessa vez e fiquei quieto.

Ele lavou meu ferimento pressionando ao mesmo tempo para fazer o sangue parar de escorrer, em seguida me fez sentar em uma cadeira e buscou uma maleta de primeiros socorros em um armário e cuidou de tudo com toda a experiência de um profissional.

Em todo o tempo que cuidou de mim eu me perguntava porque ele fazia tudo isso, por que se importava. Mas ele não me encarava então eu não podia achar as respostas em seus olhos.

Assim que cobriu meu ferimento com gaze e uma atadura ele procurou por um saco plástico para embrulhar minha mão. Estava curioso com a utilidade daquilo, mas não perguntei.

Ele me fez levantar, mas eu estava tonto então ele teve que me apoiar em seu ombro para me levar para o segundo andar, foi um desafio subir as escadas. Quando pensei que ele ia me levar para o quarto ele mudou o caminho e me fez entrar no banheiro do corredor e me empurrou para o boxe com roupa e tudo para em seguida ligar o chuveiro com a agua congelando, devo lembrar que lá fora estava nevando?

Em seguida ele saiu me deixando só, escorreguei na parede até sentar no chão, meus pensamentos estavam turvos e eu não sentia nada.

Após algum tempo ele voltou com uma toalha e roupas limpas, vi ele suspirar cansando me vendo ali sentado, estático sem estar disposto a mover nenhum musculo.

Pacientemente ele começou a dobrar as mangas de sua camisa, seu silencio era o que mais me assustava. Ele estava ali fazendo coisas que nunca achei que faria por mim, logo por mim. Nunca me imaginei recebendo seus cuidados, naquela situação, naquele estado tão deprimente.

Mas ele estava fazendo tudo isso, não estava? Não era um equívoco. Hyoga estava cuidando de mim. Me dava banho como daria a uma criança, com todo cuidado possível.

Não estava lúcido o suficiente para sentir vergonha em estar nu na sua frente, e ele não parecia se importar. Pois seu olhar neutro não mudou em nenhum momento. A mesma intensidade com que cuidava de mim era contrariada com a indiferença com que fazia.

Agia como se já tivesse feito tantas vezes que já não demostrava emoção alguma.

Em nenhum segundo não deixei de me sentir um fardo. Ele simplesmente estava fazendo um favor para o meu irmão, o poupando de ter todo esse trabalho comigo.

Enquanto lavava meu rosto ele me olhou nos olhos pela primeira vez. Mesmo a agua caindo sobre mim e atrapalhando minha visão não me impediu de ver finalmente o quanto seus olhos demostravam pena. Me senti um lixo.

Ele me ajudou a me vestir e finalmente me levou para o quarto, mas não me deixou deitar. Me obrigou a ficar sentado na cama, depois ele se retirou e após mais alguns minutos ele voltou com uma bandeja, com um sanduiche e um copo de suco.

−Come. – ele ordenou. O olhei neutro então ele voltou a falar. –Agora!

Não o contrariei, ele já estava fazendo demais por mim.

Na primeira mordida me lamentei, estava com um gosto esquisito, será possível que nem um sanduiche ele sabe fazer? Até mesmo o suco estava amargo, mas eu não estava em posição de reclamar, então fiquei calado.

Eu devia ficar feliz por ele ao menos ter se esforçado.

Quando terminei ele pegou de volta a bandeja e se retirou. Continuei sentado olhando para minha mão machucada pensando se ele ainda iria voltar.

Olhei para a janela e vi que já tinha escurecido. Achei que o pato não iria mesmo voltar então me deitei, tinha a sensação que minha cabeça ia explodir.

Minha garganta começou a doer também, e senti meu corpo esquentar mais que o habitual. Ótimo, ficar doente para fechar o dia com chave de ouro.

Isso é culpa do pato por me dar banhos frios. Quando minha mente estava prestes a ser inundada de ingratidão duas vozes no corredor me interromperam. Eles falavam baixo, mas eu ainda podia ouvir.

−Ele está bem agora. – é o pato.

−Tem certeza? – diz outra voz preocupada, então eu a identifico como sendo do Shun.

−Sim, não se preocupe.

−Vou falar com ele.

−Você já tentou tantas vezes, não acho que dará resultados.

−Então o que faremos? – ele parece ainda mais preocupado, eles devem estar supondo que meu próximo passo seria fazer alguma loucura.

Ficam em silencio.

−Eu falo com ele. – o pato diz.

−Não é uma boa ideia. – Shun parecia receoso demais.

−Tem outra opção?

Mais um momento de silencio.

−Mas logo você? – Shun contesta, qual o problema dele?

−Não se preocupe. Terei cuidado com o que direi.

Mais silencio.

−Tudo bem.

Mais alguns ruídos e finalmente ouço porta se abrir.

Permaneço de olhos fechados enquanto sinto alguém se aproximar, sentar-se na cama perto de mim e ligando o abajur em seguida. Só aquela luz fraca já é o suficiente para me fazer recuar como um vampiro recebendo a luz do dia.

−Ei, acorda. – ele bate na minha testa com as pontas do dedos gelados. Como esperado só pelo ‘jeito carinhoso’, é o pato.

Abro os olhos.

−O que você quer?

−Conversar.

−Eu não. – volto a fechar os olhos.

−Ok. – ele começa a esfriar o quarto com o cosmo, me fazendo me encolher embaixo do lençol e agredindo ainda mais minha garganta.

−Cof. Cof. Cof. Idiota! Pare... Cof. Cof… Pare com isso.

−Então levanta para conversarmos. – ele é persistente.

Fico quieto embaixo do lençol, pensando na possibilidade de atira-lo pela janela, mas na minha situação é mais provável que ele revide e eu que vá parar lá fora.

Suspiro e finalmente me sento, mas não o encaro.

−Melhor assim. – ele sorri baixando o cosmo. –Toma, vai se sentir melhor. – me entrega alguns comprimidos juntamente com um copo de água.

−Muito bem... – ele começa assim que termino. Ótimo! Agora ele vai dar uma de terapeuta.

Ele fica alguns segundos em silencio, deve estar escolhendo as palavras para começar seu discurso.

−Você é um idiota. – ele finalmente diz, o encaro e lá está ele com aquela expressão tranquila.

−Como é?

−O que você ouviu. Você é um idiota. – ele volta a confirmar com convicção.

É realmente fascinante o cuidado que ele está tendo com as palavras. Onde Shun estava com a cabeça em permitir que esse pato idiota dê uma de consolador para o meu lado?

−Que direito você tem de me dizer essas coi...

−Você realmente deixou o Shaka escapar por achar que sente alguma coisa por mim? – ele diz sarcástico, então aquilo não era novidade para ele.

Mesmo assim não posso deixar de ficar atônito.

Ele me encara sem qualquer emoção.

−Não faz essa cara de espanto, isso me irrita. – ele reclama.

−Quando você...?

−Quando eu descobri? Ah Ikki. – ele sorri irônico. –Desde que você fez aquela cena na cozinha algumas semanas atrás, pouco a pouco suas atitudes foram te denunciando. – ele comenta com indiferença... porém não parecia ter o mínimo de espanto ou repulsão.

−Eu...

−Quão desligado você crê que eu sou? Você deixou pistas, muitas pistas. Todas aquelas conversas que tivemos, todas as vezes que você deixou escapar alguma coisa, ou mesmo as suas atitudes e comportamento quando está perto de mim, vamos, é só escolher. Realmente acreditou que eu não descobriria? Que sou idiota? Cego? Inocente? Não acha que me subestimou demais? – ele estava terrivelmente sério.

−Porque você nunca...?

−É claro que eu não ia expor você, idiota. – ele suspira balançando a cabeça. –Você estava confuso, perdido com o que sentia, não parecia saber o que fazer com tudo isso, confrontá-lo seria a última coisa que eu faria.

−O Shun...

−É claro que ele sabe, qual foi a parte de ‘eu falo sobre tudo com ele’ que você não entendeu?

Fico mudo. Queria morrer agora. Shun sabia. Quando eu penso que já estraguei tudo me acontece isso.

Começo a ficar ofegante, perdido e uma náusea terrível se apossa de mim.

−Calma. – ele diz pacientemente e incrivelmente afaga meu cabelo.

Segura meu queixo e me obriga a encara-lo.

–Está tudo bem. – ele parecia bastante convincente, mas minha mente se recusa a acreditar.

−E-eu... eu sinto muito, eu devia... sou um idiota. Não queria que isso acontecesse... é só que...

−Já disse para ter calma – ele repete. –Anda, beba isso. – diz me entregando o copo d’água de novo.

Aceitei porque minha garganta se fechou de vez e estava me sufocando.

−Isso. – ele diz sorrindo me vendo beber a água em goles generosos.

Quando consigo me acalmar não posso deixar de fazer a pergunta que tanto anseie.

−Você... está enojado com o que eu sinto por você? – não consigo nem olhar pra ele.

Ele ri.

−Como assim? Porque eu estaria?

Porque ele está tão calmo? De todas as maneiras que imaginei essa conversa esse era o caminho mais improvável que acreditei que ela seguiria. Onde estão os insultos, as acusações, a lastima?

−Porque tudo isso é insultante, não é? Você é o companheiro do meu irmão, eu nunca deveria sentir algo assim.

−Não mandamos no coração, você não tem culpa, afinal esteve guardando tudo isso dentro de si esse tempo todo. Escondendo o que sentia. Se machucando desnecessariamente. Além do mais... – ele deu uma pausa suspirando. −Por favor Ikki, isso que você está sentindo por mim não é amor, simplesmente é só uma atração efêmera, acontece com todo mundo.

−Você não sabe, não pode confirmar nada, não sabe o que sinto de verdade. – reclamo por ele estar tão confiante em confirmar coisas que nem eu mesmo consigo entender, como ele poderia?

−Olha, se te faz sentir melhor... – ele suspira como se estivesse prestes a confessar algo. –Bem antes de me casar, quando ainda vivíamos juntos, eu cheguei a sentir atração pela... – ele suspira novamente. –Pela Shunrei.

−Quê?! – não podia estar mais espantado, e meus pensamentos começaram a se inundar de lembranças do Shiryu.

−Eu sei, eu sei. – ele diz revirando os olhos. –Ela até já namorava com o Shiryu, mas não durou muito, foi um lapso célere. Assim que me mudei para Moscou eu já nem lembrava dela.... Quando você começou a se sentir mais atraído por mim? Quando começou a morar aqui conosco, não foi? – ele tenta analisar os fatos, mas ainda estou pensando na sua confissão.

−Hã? Bom, não.. não sei, talvez antes, mas...

−Mas você estava com o Shaka, certo? – ele tenta fazer com que eu acompanhe seu raciocínio. –Acontece que apesar de você não admitir antes, você gosta de mim, sempre gostou, assim como eu também sempre gostei de você, apesar de que os interesses sempre foram de tipos diferentes. – ele diz convicto e com toda a calma do mundo.

Fico quieto analisando seu comentário.

−Quando você passou a morar conosco, a convivência e o fato de estar bem mais próximo de mim fez você confundir o que sentia. O seu ‘gostar’ se tornou mais intenso porque você já estava vulnerável emocionalmente por conta do tempo que você deu com sua relação com o Shaka, então toda essa confusão fez você crer fielmente que estava apaixonado por mim. – ele conclui. –É como estar com uma imunidade baixa, assim você fica vulnerável a outras enfermidades.

Até que aquela analogia fazia sentido, mas isso não mudava toda a confusão do longo relacionamento que eu tinha com o Shaka.

−Eu nunca disse a ele que o amo. – acabo pensando em voz alta.

Ele sorri e de alguma forma eu sabia que ele estava ciente de quem eu falava.

−Quando deixou de amar sua esposa? – pergunto deixando-o repentinamente mais sério.

−Nunca vou deixar de ama-la. – ele diz logo.

−Então quando soube que amava o Shun?

−Bom... – ele fica pensativo. –Eu pensava nele o tempo todo, queria estar próximo, ficava nervoso quando nos beijávamos, sorria feito um idiota quando estávamos juntos, tentava lhe agradar com os mais ínfimos detalhes, adorava observar suas manias, sabia mais sobre ele do que sabia sobre eu mesmo, adorava vê-lo sorrir e me esforçava ao máximo para mantê-lo assim. – ele sorri enquanto olha para o vazio, naquele momento eu notei que ele realmente amava meu irmão, eu sabia, mas agora vejo de camarote a demonstração desse amor.

−Não sei se o que sinto pelo Shaka é amor. – digo triste. Eu não me via no lugar do pato, não tinha toda aquela emoção adolescente, nem fazendo aquele tipo de discurso romântico.

−Você está sofrendo por ele, já não é prova suficiente?

O olho seriamente.

−Posso te fazer uma pergunta importante?

−Claro.

−Hyoga, o que você sente por mim? – eu queria saber, eu tinha que saber.

Ele me olha surpreso.

−Eu... eu gosto de você, do mesmo jeito que gosto do Shiryu, do Seiya, do Isaak e do Adam. – ele dá uma pausa. –Olha, eu lamento muito mesmo, mas é o que sinto, todos vocês são como irmãos para mim, o único amor diferenciado dentre todos vocês é o amor que sinto pelo Shun, e nada vai mudar isso.

−Você realmente acha que não daríamos certo juntos?

Ele suspira.

−É o que eu disse para você aquele dia naquela boate, Ikki. Somos parecidos demais.

Baixo o olhar.

−Eu... eu posso... posso fazer um pedido? – estava nervoso, não tinha certeza se deveria arriscar, mas nunca me perdoaria se perdesse essa oportunidade.

−Claro, o que é?

−Não me entenda mal, eu já estou convencido sobre tudo com relação a você, mas eu queria tirar a prova se o que eu sinto pelo Shaka é realmente inabalável, se não há margens de dúvidas e... eu não poderia pedir isso a mais ninguém, até porque você é atualmente a pessoa mais indicada.

Ele suspira impaciente.

−Fala logo.

−Posso beijar você?

Ele me olha perplexo.

−Ikki, tudo que acabamos de conversar...

−É só um beijo. – digo rápido.

Ele parecia contrariado e aborrecido. Ele abre a boca para murmurar algumas vezes dizendo que Shun não ia gostar nem um pouco daquilo. Até que enfim ele volta a me encarar.

−É só isso que vai me pedir, certo? – ele queria se assegurar que eu não tentaria mais nada.

Aceno confirmando seriamente.

Ele olha para as próprias mãos, pela primeira vez a tanto tempo sinto ele inseguro, seu rosto está corado e ele suspira o tempo todo. Ele realmente não quer fazer aquilo.

−Droga, Hyoga! Não vamos nos casar, é tão repugnante assim? – digo irritado.

−Não é repugnante, droga! É só muito estranho.

−Você não vai trair o Shun com um beijo, ainda mais um de tão má vontade. – reclamo.

−Certo, certo. – ele se irrita também. –Seja rápido.

Ótimo, até que enfim. Embora a má vontade dele tenha me feito perder a vontade também.

Engulo o seco, esperei tanto tempo, apesar de ser o único beijo que vou lhe dar na vida, isso torna tudo ainda mais eternizante, embora aquilo não tenha o mínimo significado para ele.

Eu me aproximo mais dele, já que ele se recusava. Toquei seu rosto e constatei que realmente era frio, mas ele fez uma expressão irritada e afastou minha mão de seu rosto.

Suspirei balançando a cabeça por conta daquela teimosia. Inspirei e me aproximei fechando os olhos, ele fez o mesmo apertando os olhos com força.

Tocamos nossos lábios timidamente. Parecia até que nenhum de nós tínhamos experiência naquilo. Como ele permanecia com os lábios cerrados eu tive que forçar, em nenhuma hora ele perde a teimosia, droga!

Apertei seu braço para indicar que ele colaborasse mais, até em meio ao beijo ele suspirou e no final resolveu ceder abrindo mais a boca, sequer aprofundamos o beijo, paramos ali, só encostados. Me movi o quanto pude, mas ele não cedia de jeito nenhum, saco!

Sua boca era macia, mas estava fria, pensei em aprofundar o beijo, mas era pequena então não tinha muito o que sugar, já que ele devia estar forçando o que não tinha, eu usava apenas dois terços dos meus. Me pergunto se é assim que ele beija o Shun, pensei melhor, claro que não! Como será que eles faziam? Só aí que notei que Shun também tem lábios pequenos, embora fossem mais cheios. Deve funcionar melhor com eles.

Meus pensamentos eram rápidos então aquilo não deve ter durado nem cinco segundos. Nos separamos sem qualquer ânimo. Aquilo foi esquisito, sem graça e sem nenhuma emoção.

Nós nos olhamos suspirando, não precisamos dizer um ao outro o quanto aquele beijo foi ruim. Acho que dissemos juntos balançando a cabeça:

−Não, definitivamente não!

É claro que teria sido melhor se ele tivesse se esforçado, naquela altura do campeonato não posso crer que ele não saiba beijar, apenas fez sem vontade porque era comigo, e eu realmente não senti nada, foi totalmente diferente de quando era com o Shaka.

−Você podia ter se esforçado mais, não acha? – reclamo e ele simplesmente me olha indiferente.

−Isso é tudo? – ele diz impaciente, certamente quer sair para beijar o Shun de verdade e esquecer que algum dia tentamos.

−Sim, está vendo? Isso não matou você. – resmungo.

−Mas chegou perto. – ele resmunga mais ainda.

Se auras fossem visíveis tenho certeza que teria uma grande nuvem negra em volta de nós.

−Está seguro com o que sente agora? – ele pergunta.

Um beijo ruim com outra pessoa não confirmaria que eu amo o Shaka, mas desfez completamente todo aquele sentimento confuso que rodeava o pato, ele estava certo, eu gosto dele, na verdade eu o admiro, mas isso não significa paixão, quanto menos amor, é apenas estima, respeito, até mesmo afeição.

Pode parecer que isso não basta para definir o que sinto pelo Shaka, mas ao analisar as diferenças posso ver que tudo sempre esteve claro. Eu adoro cada característica do Shaka, cada peculiaridade, mesmo os ciúmes exagerados. Eu amo vê-lo sorrir, odeio meditar, mas amo vê-lo concentrado, sempre imaculado e divino. Amo nossas conversas, amo seu cheiro, suas manias, cada parte de seu corpo que eu já conheço bem. Amo o jeito dele pensar, as vezes até seu humor negro. Eu o amo. Do jeito que ele é, mesmo com todas as nossas diferenças, pois ele me completa exatamente como devia, eu sou melhor quando ele é ele mesmo, quando não está sendo inseguro. E apesar de sua insegurança ser culpa minha eu vou tentar me esforçar para ser o que era antes para que ele também volte a ser o Shaka que eu amo.

Sendo assim eu direi finalmente o que sinto, pois agora as dúvidas se foram, e eu posso ser claro e conciso com ele, assim ele poderá deixar de ser inseguro. Não sei se declarar meu amor vai ser suficiente para que ele me aceite de volta, mas não importa o quanto ele resista, vou enche-lo até que ele ceda, afinal essa é a minha principal característica.

−Sim pato, estou seguro... Obrigado, por tudo.

Ele suspira aliviado.

−Assim é melhor, é estranho quando você me chama pelo nome. – ele diz rindo já se levantando. –Fico feliz que já esteja resolvido, cuidar de você cansa.

−Hunf.

−Aliás... – ele para voltando a me encarar. –Qual o problema do Shaka? Ele é sádico? Veio aqui naquela vez e ficou me sondando, tentando me obrigar a falar, não dei intimidade para ele, ora. – ele diz pensativo enquanto lembra do ocorrido. –Então eu disse que você era especial para mim, garanto que ele ficou zangado. – ele diz com um sorriso irônico. –Shun me censura até hoje. – ele diz rindo.

−O quê?! –digo surpreso, então foi isso que deixou o Shaka tão irritado daquela vez. −Seu idiota! – reclamo atirando um travesseiro nele.

Ele ri mais ainda. Mas não posso ficar zangado com ele, ele me ajudou mais do que pensa.

−Hum? – ele parecia surpreso olhando pros pés. –киска? (em russo. lê-se ‘kiska’=bichano)

Bichano finalmente apareceu, devia estar debaixo da cama todo esse tempo, e agora está se alisando nas pernas do pato, justamente a pessoa que quer se livrar dele. Droga!

−Ah, finalmente. – ele diz pegando o gato de qualquer jeito com uma única mão.

−Não vai se livrar dele, vai? — pergunto.

Ele me olha indiferente para em seguida olhar para o gato de perto. De um lado a outro com curiosidade.

−Até que ela é bonitinha. – ele comenta. Ela?

−Ela?

−Sim. – ele ri levantando o rabo.

Só agora que notei que bichano é fêmea.

−Cuidou muito bem dela todo esse tempo. – ele diz surpreso. –Nem parece aquele trapo de pelos feio que vi pela primeira vez.

Bichano continua ronronando para ele. Não tem ideia do perigo que corre.

−O que decidiu fazer com ela?

−Shun perdeu a aposta, então ele vai ter que levar para o abrigo. – ele diz indiferente, abrigo? Esse cara não tem coração?

−Que aposta?

Ele sorri sarcástico.

−Bom, a duas semanas atrás ele apostou comigo que quem de nós aguentar ficar sem sexo por mais tempo decide o destino do gato... Então no outro dia eu simplesmente apareci sem camisa na frente dele e... ganhei a aposta. – ele ri.

−Que idiotice!

−O que você queria? Essa casa inteira e asséptica, não vou correr o risco de comprometer a saúde do meu filho tendo um mascote como este. – ele ergue o bichano.

Suspiro.

−Eu fico com ela.

−Como é? – ele diz surpreso.

−Já disse, fico com ela. – digo pedindo que me dê o bichano.

Ele me olha estranho e enfim me entrega o gato.

−Toda sua.

Ele vai se retirar, mas eu o chamo antes que vá.

−Pato.

−Hum. – diz segurando a maçaneta.

−O que quer dizer... como você a chamou mesmo? Kiska?

−Ah, é bichano. – ele diz sorrindo antes de se retirar.

−Kiska. – falo olhando para ela que responde com um miado.

[...]

Já é sábado, estou com minha mala pronta no meu carro. Pode parecer confiança demais da minha parte. Mas eu quero ver o Shaka para notifica-lo que me aceite de volta. Se ele não aparecer na reunião eu vou até nosso apartamento para força-lo.

Esse curto período que passei com toda essa família foi único. Apreciei estar rodeado de pessoas à mesa nas refeições como uma família. Até então eu nunca soube como era. As brincadeiras, as brigas, as diversões. Aquela família realmente me mostrou o que a vida tem de bom a oferecer. E ela realmente dá trabalho, mas vale a pena. Adorei tudo. Shun tem sorte, não tenho qualquer dúvida que ele esteja em boas mãos. Hyoga é uma boa pessoa, o melhor companheiro que Shun poderia ter, Miguel é o filho que algum dia quero ter igual. E Mayuri, não é só a garota estranha que convive com eles, entendo perfeitamente porque o pato gosta dela, ele a trata como parte da família, como uma irmã, tirei a prova disso diversas vezes.

Entendo agora o que o Shaka queria me fazer entender todo esse tempo. Família não se escolhe, e se pudéssemos não escolheríamos tão bem, eu não escolhi, mas tenho o irmão mais doce do mundo, tenho um cunhado que me provoca e brinca comigo como ninguém mais faz, não importa se ele não me considera seu irmão preferido, para mim ele sempre vai ser especial. Eu tenho um sobrinho que adoro, que enfim me fez gostar de crianças. E agora vou recuperar a peça principal, meu companheiro de todas as horas, Shaka.

E ele estava certo, apesar de todas as minhas confusões eu o escolhi, pois ele é minha família, não tenho dúvidas disso, é com ele que me imagino dez anos à frente, é com ele que quero estar na velhice e sua ideia de melhorar o que eu já tinha é tornar nossa própria família ainda maior. E é isso que farei, já sei o meu próximo passo, e não preciso que ninguém para ditá-lo para mim, um passo de cada vez, a começar com uma simples mascote.

Estou me dirigindo para a reunião na mansão. Olho o banco do carona e vejo kiska dormindo tranquilamente na gaiola que comprei para transporta-la.

Mais cedo liguei para o Saga para que convencesse o Shaka a ir para a reunião, e só depois de me ameaçar dizendo que se eu machucasse novamente o Shaka ele me mataria que ele concordou, não esperava menos do melhor amigo do meu companheiro.

Estou ansioso para vê-lo. Imagino que esteja abatido e entendo perfeitamente como ele se sente. Quero esclarecer tudo, quero compensa-lo pelo mal que lhe fiz. E vou implorar, se for necessário, para que ele me aceite de volta.

Chego mais tarde só para garantir que se Shaka aparecesse ele não desse meia volta quando me visse lá, então é melhor pegá-lo de surpresa.

Entrei cautelosamente. Shun e Hyoga vieram primeiro e como sempre conversavam na sacada tranquilamente sem notar novamente o mesmo grupo reunido os observando, esperando por alguma perversão por parte dos dois.

Olhei mais atentamente em volta e logo avistei Shaka melancólico no bar com Saga ao seu lado tentando consolá-lo.

Me aproximei devagar, ele ainda não notou minha presença. Saga é o primeiro a me ver, então logo me anuncio.

−Oi Shaka.

Ele me olha surpreso. E em seguida já está olhando irritado para Saga.

−Você disse que ele não viria. – ele reclama.

Saga suspira e se levanta para em seguida me olhar sério.

−Resolva isso. – diz antes de se retirar.

Shaka me olha irritado. Virando-se de volta para o bar para iniciar sua tarefa de me ignorar.

−Eu sei que planejava não voltar a me ver por um bom tempo. – comento sentando ao seu lado, no lugar do Saga.

−E você é especialista em contrariar meus planos. – ele diz com desdém sem sequer me encarar.

−Olha Shaka...

−O que aconteceu? Se convenceu que jamais teria Hyoga e voltou pensando que eu te aceitaria de volta? Eu sou o prêmio de consolação, é isso? – ele finalmente me encara com as lagrimas ameaçando cair.

Fecho os olhos pacientemente, aquilo seria difícil.

−Eu sinto sua falta, e isso não tem nada a ver com o pato.

−Claro que não. – ele diz irônico se virando para enxugar as lagrimas nervosamente.

Pego a gaiola com kiska e coloco em cima do balcão. Curioso, mas ainda fungando ele volta a me olhar enquanto tiro ela da gaiola.

−Um gato? – ele diz surpreso.

−Você gosta de gatos, certo? – pergunto, mas eu já sei que sim.

−Então você acha que eu vou te aceitar de volta porque você me comprou um gato? – ele diz irritado.

−Não, você vai me aceitar de volta porque eu não vou aceitar um não como resposta da pessoa que amo.

Ele ficou mudo. Sorri, sempre gostei de causar esse efeito nele.

−Shaka, desde a primeira vez que você disse que me amava eu fiquei em dúvida com a nossa relação. Sempre achei que você estava sendo precipitado em dizer isso tão cedo. – ele me olha bufando. –Você sabe que eu me retardo em muitos sentidos, sempre te disse que nossa noção de tempo é diferente. – me defendo e ele balança a cabeça negativamente. –Acontece que já estamos juntos a tanto tempo que dizer tarde demais também se tornou perigoso. Tenho que dizer a verdade, a sua insegurança de sempre me irritava.

−Como é que você...

−Mas eu entendo. – interrompo logo sua provável discursão. –Você já me disse tantas vezes que me amava e eu nunca respondia de volta, isso deve ser uma droga, mas eu entendo agora como você se sente. É frustrante.

Ele suspira desviando o olhar.

−Então agora você vai dizer? Como espera que eu acredite depois de descobrir o que você sente pelo Hyoga?

−Acontece que você não descobriu nada demais, eu mesmo não sabia o que sentia, como você poderia saber?

−Eu percebi...

−Você é paranoico, isso sim. – digo indiferente.

−Ikki, você não está se ajudando com esse pedido de desculpas esfarrapado.

−Me deixa continuar... O que eu sinto... sentia pelo Hyoga é só uma atração passageira, e não comece a me julgar que eu sei que você já arrastou asa para o Saga no passado. – contesto antes que ele faça isso primeiro.

−Ficou maluco? – ele diz mais irritado ainda.

−Desculpe. – é a verdade, mas não quero contraria-lo ainda mais, afinal esse deveria ser um discurso de desculpas. –O que quero dizer é que essa atração absurda me fez enfim perceber o que eu sinto de verdade por você.

−E o que seria? – ele me encara desconfiado.

−Sabe como eu gosto de curry?

Ele me olha estranho.

−É claro, você adora. – diz indiferente.

−Gosto mesmo, mas o meu gostar não tem nem comparação com o que sinto por você.

−Está me comparando com comida? – ele diz indignado.

−Ouvi o que eu disse? Eu disse que não tem comparação.

−Você é péssimo em declarações. – ele reclama.

−Mas você entendeu a direção que quero tomar, não é? Estou dizendo que eu AMO você.

Ele voltou a ficar mudo então comecei a falar seriamente.

−Eu quero estar com você em todos os momentos, não imagina o quanto eu senti sua falta e ainda mais nesses dias depois que você terminou comigo, não imagina o quanto foi insuportável. – suspiro emocionado, de alguma forma descobrir esses sentimentos me deixou ridiculamente mais emotivo, exatamente o tipo de pessoa que eu odiava ser. –Eu só quero que... que você saiba o quanto você é importante pra mim, realmente importante. – suspirei com dificuldade. –E se... se você quiser, se me aceitar de volta, eu vou ficar feliz em anunciar para todo mundo, pra quem você quiser, que eu te amo, que você finalmente laçou a ave fênix, posso me humilhar se assim você preferir. Que minha vida não tem sentido sem você, que quero envelhecer ao seu lado, quero começar uma família com você. Mesmo que seja um passo de cada vez.

Ele piscou algumas vezes enquanto me olhava boquiaberto. Nem eu mesmo conseguia acreditar que disse aquilo de forma tão patética. Mas o importante foi que eu disse, e agora só tinha que esperar pela resposta.

−Nossa! – ele diz inspirando profundamente. –Isso foi... err... intenso.

Eu não podia estar mais envergonhado.

−Mas... seus olhos brilharam quando você falou, então eu acredito em você. – ele diz sorrindo abertamente.

−Então, eu... eu posso voltar? Porque minha mala já está no carro.

Ele ri e eu também em seguida.

−É claro que você pode voltar, mesmo que você seja convencido, irritante, encrenqueiro, e agora emotivo demais. – ele ri e chora ao mesmo tempo enquanto me diz tudo isso. –Por que te amo exatamente do jeito que você.

−Eu também te amo. – não imaginava que essas simples palavras poderiam me dar tanta felicidade em pronunciar. Porque eram verdadeiras, eu o amava, sempre amei. E eu as direi para ele quantas vezes ele quiser, sempre que for necessário, para que não haja mais dúvidas, nem incertezas entre nós.

Eu o puxei para mim e o beijei com toda vontade que tinha a dias, com todo carinho emoção e intensidade que ele merecia. Afundei meus dedos em seus longos cabelos e aprofundei ainda mais o beijo, e ele se agarrava em mim na mesma intensidade.

−Ooooowwww. – ouvimos urros de aclamação. Será que estávamos sendo observados a tanto tempo?

Nos separamos rindo apenas para notar que os gritos não eram direcionados para nós, mas sim para o casal se beijando na sacada.

Nós nos olhamos e rimos para em seguida começarmos a uivar para acompanhar os outros.

Notas finais
Muito bem, mais uma fic concluída. Não teve lemon, lamento. Bom, espero que tenham gostado do desenvolvimento desse casal, nunca interpretei o Shaka antes, então desculpe se ele ficou incoerente com o original, e o Ikki, bom, tive que deixar ele emotivo, senão o Shaka não acreditaria nele né :v E é isso mesmo, Hyoga e Shun sempre souberam de tudo. Ikki não é tão discreto quanto pensa. Coloquei neste capitulo algumas partes das divagações do Ikki do capitulo 2, apenas para esclarecer os pontos principais que colocavam em risco a relação dele com o Shaka. Assim ele enfim descobriu o que o virginiano queria, não é. E sabe aquela sensação quando algum personagem de filme fala do título dele? Foi essa sensação que tive ao colocar na frase do Hyoga XD Bom, espero mesmo que tenham gostado. Feliz ano novo a todos e boas festas. bjs
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!