Notas iniciais
Oi gente, faz tempo né. Mais uma fic. Eu sei que estou atrasada em outras fics Mas não se preocupem que ainda vou conclui-las, por enquanto vamos curtir essa, tá bom? É apenas uma ideia que surgiu de repente. Apenas uma breve continuação da minha fic Destino, ela ocorre depois da viajem de férias do Shun e do Hyoga na fic anterior. Sim, sim, sim. eu sei. eu amo mesmo o Hyoga. Essa fic não vai ser muito longa, será breve e terá apenas a visão do Ikki com relação a tudo. E não se preocupe quem não gosta do casal IkkixHyoga, afinal não será propriamente um romance entre os dois, mas sim um... Ah, vocês vão ver. Espero que gostem.

Acho que estou apaixonado.

Essa seria uma declaração bastante animadora se o sentimento fosse destinado ao meu atual namorado.

E o problema não termina aí. O pior de tudo é que acho que estou apaixonado pelo meu cunhado.

Eu sei, eu sei. Isso é ultrajante, mas por mais que eu tente não consigo me livrar desse sentimento.

Acho que parte dessa confusão foi desencadeada por minhas constantes brigas com meu namorado, o que me levou a pensar seriamente se nosso relacionamento estava realmente dando certo.

Shaka é controlador demais, ciumento e muito grudento.

Nossa ultima briga foi exatamente por causa de um desses defeitos. Aparentemente é uma tremenda afronta olhar pro crachá da garçonete. Acho que ele realmente acreditou que eu estava olhando pro exagerado decote dela, mas isso não vem ao caso. O importante é que depois de mais uma discursão infrutífera nós resolvemos dar um tempo.

E é aí que começa meu dilema, pois nós dividimos o apartamento e não daria certo pausar um relacionamento e continuar a olhar frequentemente pra ele, dia após dia. Então resolvi me retirar enquanto ainda podia andar.

Quis ir pra um hotel, mas infelizmente eu tenho a terrível mania de falar sempre abertamente com meu irmão, meu confidente, então estando a par de minha vida por completo ele se recusou a deixar que eu afogasse as mágoas em várias garrafas de uísque num quarto de hotel por dias a fim e me afundando cada vez mais em uma decadente depressão.

Não entendo essa cisma dele com meus hábitos autodestrutivos, afinal só porque eu repito esses maus hábitos milhares de vezes que eu farei isso de novo.

Enfim, não tive escolha a não ser aceitar sua ordem de morar com ele, e ele sabe ser persuasivo.

E é aí que o que não deveria acontecer aconteceu, ficar debaixo do mesmo teto que meu cunhado não ajudou em nada minha difícil tarefa de não notá-lo.

Hyoga tem exatamente tudo que me atrai. Não é de agora que percebo isso, é claro que eu o notei há muito mais tempo, mas é claro que sempre contive esse sentimento, afinal eu sabia que meu irmão arrastava um caminhão pelo pato há muito mais tempo que ele próprio.

Procurei esquecer essa cobiça quando comecei a sair com o Shaka.

Confesso que ignorei e contive minha incrível atração pelo pato mais tempo do que devia, afinal, mesmo antes eu já previa que aquele garoto magrela de quinze anos, metido e quieto iria se tornar um belo homem cedo ou tarde, pois afinal ele já era isso desde sempre, apesar de minha constante implicância com ele pra lhe fazer pensar o contrario.

Esse é um detalhe de nosso relacionamento, sempre nos provocamos, embora ele o faça de forma inocente como se fossemos irmãos, minha vontade é que essas provocações fossem mais pra um teor sexual.

De uma forma estranha nós somos parecidos, sempre notei isso. Somos opostos parecidos. Estranho, eu sei. Opostos na aparência, na energia cósmica e na personalidade, mas sinto que somos parecidos psicologicamente, e afinal não é isso que importa?

No entanto esse pato sequer tem olhos pra mim, nunca teve. Meu irmão teve uma tremenda sorte de conquista-lo, embora eu tenha visto de perto o trabalho que foi.

Meu irmão Shun é louco por ele desde... sei lá, sempre.

Esse pato é hoje um pai de família, foi casado e até tem um filho, adoro aquele garoto. Percebo ainda o quanto ele amava... ama a falecida esposa. Shun foi essencial pra fazê-lo superar essa perda, e isso é algo que eu não seria capaz de realizar, já que eu mesmo não consigo resolver meus problemas sentimentais.

Não que o pato ainda sofra por ela, pois hoje posso enxergar perfeitamente, ele ama meu irmão. Profundamente. Ou seja, ele realmente não tem olhos pra mim.

Por ter tanta responsabilidade fica mais que obvio que ele seja super-maduro e autossuficiente pra comandar uma família. E é aí que eu me encaixo, pois também faço parte dela.

Estou com minha única mala na sala da casa deles. Shun insistiu que contou pro pato que eu passaria uns tempos por aqui, mas ainda tenho minhas duvidas quanto a essa afirmação do meu irmão, afinal ele sempre fica inquieto e coça atrás da orelha quando mente... do jeito que está fazendo agora.

─Você pode ficar no quarto de hospedes o tempo que quiser nii-san. – Shun diz animado, sei que ele realmente gosta de me ter por perto.

─Tio vai ficar aqui co a gente, chichi? – o filho do Hyoga, o Miguel, pergunta com aquela fina voz infantil.

─Vai sim querido. – Shun diz sorrindo ternamente pro garoto, sempre tive certeza que Shun seria um bom pai, e vejam só agora, ele é mesmo.

─Vamu bincar muito tio? – o garoto diz sorridente pra mim, exibindo seus pequenos dentes brancos.

─Claro, quando você quiser. – digo afagando seus lindos cabelos dourados, como os do pato. ─Tem certeza que contou pro pato que vou ficar aqui? – novamente pergunto desconfiado pro meu irmão.

─Bom... – ele protela, não sei por que ainda acredito.

─Tadaima. – ouvimos sua voz da entrada.

Por medida do destino, ou qualquer baboseira que queiram pensar aquele pato chegou naquele exato momento, como foi que não ouvimos seu carro chegando?

Meu coração disparou, fazia um mês que eles tinham voltado de uma viajem de férias pelo ocidente, de modo que só meu irmão tinha ido me visitar desde a volta. Logo, já tinha um mês praticamente que eu não via o pato.

─Okaeri nasai. – Shun disse animado.

─Papaa. – Miguel também diz animado indo de encontro ao pai.

Não demorou muito o pato apareceu na sala com o filho no colo.

Como eu lembrava. Meu irmão tem muita sorte, esse pato desgraçado é lindo.

─Oi frango. – ele diz sério quando me vê. Não que ele não goste de mim, mas afinal ele deve estar cansado de um dia exaustivo de trabalho, sei bem como é isso.

─Oi pato. – digo sorrindo.

─Hyoga, vem cá. – Shun rapidamente o chama.

E mesmo sem entender o pato coloca o filho no sofá e seguem pra cozinha, sabia que o Shun estava escondendo dele minha estadia aqui.

Após um tempo fui sorrateiramente até a porta da cozinha pra poder ouvir a conversa.

Pela brecha da porta vi o pato olhando serio pro Shun que tentava convencê-lo.

─E ele está bem? – o ouço perguntar.

─Está um pouco deprimido, embora ele custe a admitir, sabe como ele é. – meu irmão comenta. Será que o pato sabe mesmo?

Vejo a expressão do pato, pensativo. Adoro vê-lo tão sério.

─Tudo bem, sem problemas. – ele diz por fim.

─Obrigado Hyoga. – meloso como sempre meu irmão se joga nos braços dele lhe agradando com um beijo caloroso.

Sei que não devia me sentir assim com algo que nunca me pertenceu, mas ver o pato tão solícito ao carinho alheio me dava náuseas, ou será o ciúme crescendo dentro de mim?

─Tá fazendo o quê tio? – droga! Nem tinha notado que eu tinha um mini Hyoga no meu pé me olhando curiosamente.

─Errr... nada. – digo baixo e me afastei rapidamente da porta quando ouvi que eles já estavam voltando pra sala.

Com um pulo quase olímpico eu me voltei pro sofá como se nunca tivesse levantado dali e aguardava pacientemente a volta dos dois que não demoraram a aparecer sem qualquer suspeita na face.

─Que bom que vai passar um tempo conosco Ikki. – o pato diz sorrindo. Sua voz muda. Ele soa tão… morno, sedutor até. Minha respiração entala, e eu ruborizo, aposto que esse é um dos muitos sorrisos que meu irmão ama nele, pois afinal, eu mesmo estou derretido por esse simples sorriso.

─Vou dar a graça da minha presença pra você por um tempo pato. – consigo finalmente dizer depois de alguns segundos, consigo até sorrir sarcasticamente e ele retribui a afronta é claro.

─Como se você tivesse alguma graça. — ele diz irônico.

─Aff. Já vão começar? — Shun diz aborrecido, não sei por que ele sempre acha que vamos acabar de fato nos socos e pontapés, afinal deixamos de ser crianças briguentas faz tempo. É assim que segue nossa comunicação.

─O que tem pro jantar? — o pato pergunta pra romper logo a possível discursão.

─ Yakiniko. — Shun diz sorrindo. Ele sempre faz minha comida preferida quando estou triste.

─Hum. Parece bom... — diz já seguindo pra subir pro seu quarto. ─Mai chegou? — essa é uma protegida dele, uma das coisas que adoro nele é esse senso de proteção.

─Ainda não. Daqui a pouco, eu acho.

─Ah. Bom, vou tomar um banho e deitar um pouco.

─Tá bom. Daqui a pouco o jantar fica pronto.

─Tá. — ele diz e segue. ─Ah, fique a vontade frango. — diz antes de sumir de vista.

Shun me olha sorrindo animado.

─Viu, ele não se importou.

Meia hora depois que acomodei minhas coisas no quarto de hospedes o jantar ficou pronto.

─Chama lá o Hyoga pra mim Ikki. Aposto que ele acabou dormindo de novo. ─Shun diz enquanto coloca os pratos na mesa.

─Ok.

Subi pro seu quarto. A porta estava entreaberta. Sequer lembrei-me de bater, é claro que desejava vê-lo nu, mas não foi dessa vez, pois ele estava bem vestido comportadamente e estava em um sono profundo. Adorável.

Me aproximei, sem realmente ter a intenção de acorda-lo, estava adorável demais pra tentar algo tão desumano. Realmente parecia cansado.

Seus cabelos ainda úmidos se espalhavam pelo travesseiro, estava com uma simples bermuda folgada e uma camiseta, tão simples, mas ainda conseguia me hipnotizar. A boca pequena e avermelhada em contraste com sua pele alva me dava uma tremenda vontade de acorda-lo com um beijo sôfrego. Culpa dele por se exibir dessa forma.

Minhas pernas se movem sem meu consentimento, estou quase o tocando. Perto. Dolorosamente perto.

─Nossa, ele dormiu mesmo. — me assusto com a voz repentina do Shun atrás de mim. Às vezes eu acho que ele evapora e reaparece do nada.

Mesmo sem ter feito nada eu me sinto como se tivesse sido pego no ato.

Olho ao meu redor, pensando em uma rota de fuga, não, aqui só tem uma porta e uma janela. Maldição! Tente ficar frio Ikki!

─Hyoga. Hyoga querido. Acorde. Vamos. — Shun diz enquanto acaricia o rosto do pato. Coisa que eu queria estar fazendo também.

─Hum.

─O jantar tá pronto.

O desgraçado consegue ser mais lindo ainda quando acorda.

Suspira e enfim abre os olhos.

─Tô sem fome.

─Por favor, Hyoga, você precisa comer um pouco. Vamos, levante. — Shun o adula.

Shaka poucas vezes fez isso comigo. Talvez por que minha teimosia frequente já o tenha feito desistir.

─É sério Shun, estou cansado demais. — ele diz suspirando e quase virando de lado, mas o Shun não deixou.

─Vai fazer essa desfeita pro Ikki? Vamos jantar como uma família hoje, todos reunidos.

─Ele não se importa. — diz bocejando.

─Se importa sim, né nii-san? — tinha mesmo que me colocar no meio né Shun.

O pato finalmente reparou que eu estava ali.

─Desculpe Ikki. — diz logo se levantando. ─Vamos então. — diz bocejando. Fiquei com pena. Parecia exausto, as vezes Shun consegue ser tão insensível.

Sentamos a mesa, a Mayuri já estava conosco, e mesmo o Shun tentando frequentemente puxar assunto e participação de todos o pato ainda continuava distante e sonolento, mal tocara na comida, não pera, ele não tocou mesmo.

─... não acha Hyoga? — Shun diz animado com algo que nem eu que estou acordado prestei atenção.

─Hum?

─Tá dormindo na mesa de novo Hyoga? — Shun o repreende.

─Estou meditando.

─Sei.

─Não estranhe senhor Ikki, é sempre assim. — Mayuri diz rindo pra mim que observava a cena quieto.

─Semana passada o Hyoga dormiu praticamente em cima da sopa. — Shun diz e todos riem, menos o pato que ainda sonhava com a própria cama.

─Bom, já que estou chamando atenção demais então vou deixa-los pra conversarem algo mais interessante. — o pato diz ainda bocejando e já se levantando com o prato intocado.

─Você nem comeu nada. — Shun resmunga.

─Amanhã eu tomo um café reforçado, tá bom assim? — diz dando um beijo carinhoso em Shun, na testa é claro. Mais um beijo nos demais e pra mim apenas um frio boa noite e seguiu pro quarto.

Infelizmente o jeito foi seguir a noite sem ele.
...

A diferença de não estar voltando pra minha própria casa depois de um dia inteiro de trabalho me afetava de forma estranha. Já tinham duas semanas que eu morava naquela casa e ainda me sentia totalmente deslocado. Não é bem pelo fato de estar morando na casa do meu irmão, mas sim pelas pessoas diferentes que aguardavam meu retorno.

O pato não é claro, ele chega do trabalho depois de mim. Era o que eu pensava até encontra-lo em casa naquele dia.

Assim que cheguei a sua casa avistei seu Honda CR-V estacionado na garagem. Estranhei em não avistar o carro do Shun ali também, mas tudo bem, ao menos eu tenho espaço onde colocar meu carro ao invés de larga-lo na calçada.
Segui pelo corredor que se estendia depois da garagem, o som de vozes através da casa se fazia presente cada vez mais alto conforme eu me aproximava, cheguei aos fundos até chegar ao deque onde um grupo de pessoas de boa aparência estava reunido montando – imaginem só o que? – um quebra-cabeça. Hyoga, com seus cabelos loiros como sempre reluzindo, meu irmão animado e com expressões coradas, sentado em um banco comprido ao lado do loiro, com seu ombro magro e delicado encostadinho no pato, Mayuri com seus longos cabelos ruivos e sardas bem colocadas e o pequeno Miguel, pulando sorridente em ter a família, ou mais precisamente o pai, participando de uma atividade tão corriqueira.

Um coro de saudações e sorrisos que pareciam flashes se estendeu pra mim, e fui arrastado para um mar de braços acolhedores, a fim de ser beijado por todos, uma família cordial essa, tenho que admitir.

E quanto Hyoga, no meio dessa cena? Demostrava o maior interesse e parecia profundamente concentrado no canto inferior esquerdo do quebra-cabeça. Totalmente indiferente a mim.

Muitas vezes ele exibia um jeito caladão e misterioso, não muito diferente de tempos atrás.

─E então?... – sorri, um pouco tenso, para os rostos reunidos.

Hyoga ergueu os olhos do quebra-cabeça e me deu uma encarada intensa com seus olhos azuis. Meu Deus. Engoli o seco, com força. Na mesma hora, desejei que o Shun e os demais desaparecessem do mundo, para eu poder curtir algum tempo sozinho com Hyoga. Será que seria descortês pedir a eles para darem o fora?

Eu sei, eu sei. Mesmo que fossem todos embora, ainda assim eu não teria a mínima chance com esse pato.

─Quer beber alguma coisa? – perguntou ele, sustentado o olhar.

Fiz sinal afirmativo com a cabeça, em silencio.

Torci para ele se levantar, para eu poder segui-lo até a cozinha e poder como sempre provoca-lo com insinuações que pra mim eram mais do que brincadeiras, mas infelizmente pra ele não passavam de baboseiras infantis.

─Podem deixar que eu pego as bebidas – ofereceu Mayuri.

Engolindo um uivo de frustração, espiei-a descer adejando pelos degraus até a cozinha, onde a bebida morava. Aquela menina tinha por volta de uns vinte anos e não aparentava ter mais que quinze.

─Quer comer alguma coisa, Ikki? – perguntou Shun. ─O jantar fica pronto daqui a pouco, mas se você quiser fazer uma boquinha antes na geladeira, fique a vontade.
Meu estomago se apertou com força: não havia jeito de ele deixar nada entrar.

─Eu já comi. – na verdade, não tinha comido. Não tinha conseguido empurrar para dentro do estomago nem um café desde cedo. Minhas angustias emocionais afetavam não só minha mente, mas também meu corpo.

─Tem certeza? – Shun me lançou um olhar de cima a baixo, sei bem que ele não vai deixar por isso, como sempre vai me obrigar a comer. ─Você parece abatido. – disse preocupado.

Talvez houvesse razão pra eu estar abatido, e ele sabe muito bem disso. Não fazia uma refeição adequada desde... Bem, já tinha algum tempo. Na verdade, nem conseguia lembrar quando... Mesmo quando eu ainda estava junto do Shaka, mas nosso relacionamento já estava em declínio há tempos, então não é de se admirar que fizesse algum tempo que não jantávamos a mesma mesa como bons companheiros. E meu corpo parecia ter parado de notificar minha mente de que precisava de comida. Ou então minha mente estava tão cheia de preocupações que não conseguia lidar direito com as informações. Quando a mensagem finalmente chegava ao destino, eu já não era mais capaz de fazer qualquer coisa remotamente complicada para aplacar a fome, como despejar leite em cima de cereais, por exemplo. Até comer pipoca, como eu havia tentado em muitas noites anteriores. É claro que desde que vim morar aqui o Shun tem me obrigado a comer, mas digamos que eu disfarço bem, então sempre consigo driblar suas insistentes propostas pra me alimentar, ou enrolo tanto em conversas sem sentido que ele acaba nem notando que eu não estou comendo.

─Tio! – disse Miguel animado. ─É hora de bincar! – ele exibiu dois carrinhos de corrida colocando-os no chão e aguardando pra que eu também me sentasse ali.

─Veja, chegou a bebida! – exclamou Shun, e sussurrou pra Mayuri: ─Anda, entregue logo o copo, não vê que ele está estressado?

─Não estou estressado. – resmunguei enquanto May me estendia o copo.

Ela me entregou uma lata de refrigerante coca bem gelada e um copo com gelo.

─Obrigado, pequena. – digo me servindo da bebida e recebo um olhar solicito dela. Talvez tenha aprendido os hábitos exagerados de gentileza do restante da família.

─Prefere coca zero? – ela perguntou.

Meu Deus, eles eram realmente como perfeitos anfitriões, até mesmo uma figura excêntrica e etérea como Mayuri. Eles sempre tinham coca zero na geladeira especialmente pra mim, pois nenhum deles bebia.

─Não, obrigado, essa já está ótima.

Tomei um pequeno gole da coca com gelo e depois me sentei no chão maciço de azulejos a fim de pegar um dos carrinhos e começar a brincar com o Miguel.
Seus dedinhos guiavam o pequeno automóvel em pistas imaginarias e com o frequente efeito sonoro de motor de carro.

─Teve um dia ruim? – Shun perguntou, solidário e simpático.

─Você não faz nem ideia. – desabafo.

Ser engenheiro não é fácil, ainda mais quando se é chefe de setor.

Shun desistiu de perguntar, sabe que não vou falar mais do que já falei.

Continuei brincando com o Miguel de batidas de carro, bebi minha coca e espiei a família montando o quebra-cabeça, desejando que todos – menos Hyoga, é claro – dessem o fora dali. Será que não podíamos, pelo menos, ir lá pra dentro e ligar a TV? Sempre vivi com a teoria de que “do lado de fora” de casa era um tédio sem fim. Mesmo no auge do verão, nunca entendi exatamente o porquê da existência de jardins, especialmente porque o fio da TV não se estendia até o lado de fora da casa. E o aparelho de televisão sempre fora muito importante pra mim, mesmo quando eu não lhe dava atenção. Como será que essa família conseguia aguentar toda aquela conversa tranquila? Talvez fosse a cisma do pato com a teoria que assistir televisão demais queimava os neurônios.

Talvez o problema não fosse com eles, percebi. Talvez o problema fosse eu mesmo. Minha habilidade para conversar com outras pessoas parecia estar se esvaindo de mim, como o ar escapando de um balão velho. Eu estava pior agora do que a uma hora antes.

Fui interrompido de meus devaneios com o apito de uma panela elétrica vindo da cozinha.

─Ah, o jantar já está pronto. – Shun anunciou e todos se ergueram de seus lugares pra desfrutar da refeição pontual.

Essa questão de pontualidade é precisamente calculada, Shun me contou a algum tempo que Hyoga é obcecado pelos horários da casa. Hora de comer é hora de comer. Hora de assistir TV é controlada. E hora de dormir é sagrada. Acho que eu acabaria enlouquecendo com aquilo.

Para minha surpresa, eu me senti farto dos Yukida, pelo menos naquele momento. Estava cheio daquela família, revoltado com sua aparência impecável, sua graça, suas maneiras finas, seus jogos de tabuleiro, suas pausas amistosas de descontração em família. Na verdade eu queria ficar sozinho com Hyoga, mas isso não iria acontecer, e eu não consegui reunir nem mesmo a energia pra me sentir chateado com a situação; aquilo não era culpa dele. Hyoga tinha um filho, ou praticamente dois, já que Mayuri era sua protegida, um emprego que tomava muito do seu tempo, já disse que ele é médico? E meu irmão, pra quem ele só tinha olhos.

Ele não fazia ideia do dia que eu tinha enfrentado. Ou da semana, na verdade. Quanto menos dos meus sentimentos por ele. Que alias eu pretendia levar pro tumulo comigo.
Suspirei e me levantei também, em caso de duvida, siga a multidão.

Antes de adentrar com os demais percebi que Hyoga permanecia no mesmo lugar me observando.

─Você está bem? – ele começava a parecer preocupado. Sua voz é baixa, e ele está olhando para mim, olhos azuis muito concentrados. Eu ruborizo ainda mais intensamente. Por que diabos ele tem este efeito sobre mim?

─Estou ótimo. – eu não podia tratar de meus assuntos amorosos tão abertamente, especialmente com ele.

─Quer descansar logo? Eu falo com o Shun. – ele propôs. Idiota, como ousa se mostrar tão preocupado comigo em alguns momentos e em outros age com completo desinteresse.

─Não tem problema, é melhor comer alguma coisa de uma vez. – digo suspirando.

Eu deveria parar com isso. Não havia forma de esperar pegar Hyoga sozinho e ter a chance de tirar as roupas do seu belo corpo.

─Tudo bem então. – ele disse por fim me direcionando pela primeira vez naquele dia um sorriso, mesmo que fosse só a sombra de um.

Tocou gentilmente em meu ombro num gesto de amizade e seguiu pra dentro com os demais.

Depressão. É isso que estou sentindo.

Como posso estar atraído por meu amigo de infância e companheiro do meu irmão?

Isso não vai acabar bem...

─Não trabalhou hoje pato? – pergunto quando já estamos todos sentados a mesa jantando calmamente.

─Saí mais cedo, tenho horas extras. – ele comenta.

─Eles abusam demais de você Hyoga. – Shun comenta aborrecido, conheço bem a historia, já que o Shun sempre faz questão de me contar tudo.

─Sou cirurgião chefe, Shun. O que queria? Tenho responsabilidades importantes, ora. – era raro ver o pato responder a qualquer coisa pro meu irmão, sempre impassível e aturando tudo calado, já presenciei isso diversas vezes, não sei como ele aguenta. Mas digamos que o pato sempre foi famoso por sua permissividade.

─Até demais. – Shun resmunga.

Às vezes esqueço que eles realmente são um casal, com seus problemas e tudo mais.

─Como foi o dia? – Hyoga logo muda de assunto pra tirar a atenção de cima dele.

─Bem comum, tive uma reunião com o Ichiro hoje e...

─Ichiro. – Hyoga resmunga. Estou ciente também da pouca simpatia que o pato tem pelo assistente do meu irmão. Alguma coisa relacionada a ciúmes, eu acho.

─Na verdade ele veio me ver também, Hyoga. – Mai comenta.

─Hum. Sei. – diz desconfiado. ─Já te falei pra ficar esperta com esse rapaz. – ele avisa sua filha adotiva.

─Até quando essa implicância vai durar Hyoga? – Shun pergunta indiferente.

─Provavelmente pra sempre.

─Temia que dissesse isso. – Shun diz aos suspiros.

─Alguma novidade sobre o filme? – o pato pergunta. Meu irmão é um escritor de sucesso, tanto que um de seus best-sellers vai virar um filme.

─Só alguns problemas com o elenco, tenho que ir ao estúdio amanhã pra uma reunião com o diretor e a Misaki. E por falar nela, ela mandou um abraço pra vocês dois. – diz olhando pra mim e pro pato.

─Mande um pra ela também. – dissemos juntos e nos olhamos e ele sorri, minimamente.

─O que houve com seu carro Shun? Não o vi na entrada. – comento quando me lembro desse detalhe. Queria puxar um assunto novo pra conversa também.

─Emprestei pro Ichiro, ele vai precisar muito essa semana, muitos assuntos burocráticos pra resolver. – ele comenta e percebo o olhar indiferente do pato pro comentário.

─E ele não pode andar? – diz irônico.

─Poder pode, mas não a quantidade de quilômetros que provavelmente ele vai percorrer por dia. – Shun comenta.

─E como você vai ao estúdio amanhã então?

─Pra isso que eu tenho você.

─É mesmo? Pensei que fosse pra outras coisas. – acho que ele não pretendia dar o teor sexual que tinha surgido.

É claro que a primeira a tossir foi a Mayuri, afinal era uma das que podia entender a insinuação e a mais inocente que não deveria interpretar. Pois afinal o Miguel não tinha idade suficiente sequer pra entender a conversa sobre carros quanto menos sobre sexo.

─Desculpe Mai. – ele diz sem jeito.

A garota ainda vermelha só se limitou a balançar a cabeça.

Shun parecia menos constrangido, pois só fez rir da insinuação. Hyoga sorri deslumbrante também enquanto encara Shun, desprotegido, natural, exibindo todos os seus dentes, um sorriso glorioso. Maldito. Como ousa!?
Pra mim é o mínimo, mas pro Shun é tudo, sempre é tudo.

─A que horas é a reunião? – o pato pergunta.

─Cedo, na hora que você sai já está bom. – Shun diz.

─Eu posso te levar também. – digo de imediato. Porque fiz isso? ─Amanhã só vou resolver alguns problemas na empresa, mas vou mais tarde, o restante do dia vou estar de folga.

─Pode ser. Mais tarde vamos a casa da Misaki pegar uns papeis. – ele anuncia.

─Ela não trabalha a essa hora do dia? – Hyoga faz a pergunta que eu pretendia fazer.

─Em todas as horas.

─Não estou a fim de arrombar a casa de ninguém. – digo. Algumas vezes estava. É ilegal, mas o que seria a vida sem um pouco de terror provocado por uma bela descarga de adrenalina?

─Não se preocupe com isso, eu tenho a chave.

Suspirei lamentando, já tinha me animado com a ideia de arrombar uma porta com grampos.

─Amanhã você vai ter algum horário de folga também Hyoga? — Mayuri pergunta.

─Não, vou trabalhar até tarde, provavelmente até as 22:00h.

─Tão tarde assim? — Shun logo protesta.

─Uma nova equipe de apoio de emergência está em fase de experiência, tenho que supervisiona-los por algumas semanas.

Shun suspira consternado. Entendo seu lamento, se eu fosse casado com o pato também iria querer ter ele sempre por perto.

─Não se preocupe que terei o final de semana de folga. — ele logo corrige. ─Porque perguntou May?

─É que eu preciso da sua ajuda Hyoga.

─Em quê?

─Uma disciplina.

─Hum. Tudo bem. Podemos estudar um pouco hoje e amanhã continuamos.

─Legal!

─Estudar? — pergunto.

─Hyoga é meu tutor. — May relembra, tinha me esquecido que ajuda-la nos estudos também era uma função do pato.

─Já que vai ficar em casa no final de semana podemos aproveitar e montar o playground do Miguel no jardim que você tá adiando há dias. — Shun sugere.

─Pode ser. – diz indiferente.

─Ótimo! Todos já estamos compromissados pro fim de semana. – Shun diz convicto empurrando todos pro mesmo barco.

─Eu também? – Mai resmunga.

─Todos. – Shun volta a afirmar e me dá uma encarada caso eu não tenha entendido aquela indireta.

O que me resta é suspirar e aceitar. E hoje ainda é quarta-feira.
...

Ainda são meia noite e meia e a casa toda já está no terceiro sono. Definitivamente qual o problema dessa família?

É claro que algumas vezes ouço sons diferentes vindo do quarto do pato com meu irmão, aparentemente a vida sexual deles é bem ativa, mas eles são sempre tão silenciosos que mal posso distinguir se realmente estão fazendo. No entanto a ideia de imaginar já me causa um desconforto, será que muito ultrajante ter tara em ouvir meu irmão trepando? Admito, não é bem com ele que eu fantasio, mas sim com seu companheiro. Droga! Lá vou eu de novo.

Ouço frequentemente os ruídos da madrugada: alguém se mexendo na cama. Um carro freando na rua. Uma cigarra azucrinando lá fora e o som frequente dos ar condicionados.

O pato precisa de uma boa terapia pra controlar esse calor todo dele, não passa dos vinte graus e o infeliz já começa a derreter.

Estou desde as dez me mexendo na cama sem conseguir ferrar no sono. Não tem jeito!

Me levanto e desço pra cozinha. Nem acendo as luzes com o receio que possa importunar alguém do andar de cima.
Agora que a fome finalmente aparece decido procurar alguma coisa pra comer. Não me faço de rogado, se o Shun disse que posso me sentir em casa então farei isso, vasculho a geladeira e os armários como se morasse ali a longa data.

Procuro insistentemente por algo que tire minha sobriedade e me faça esquecer, mesmo que fosse por um curto período, o imbecil do Shaka e minha atual obsessão pelo pato.

Infelizmente não acho nada na geladeira, porem após uma longa e incansável busca eu finalmente encontro uma garrafa de vodca no fundo de um armário, muito bem escondido, dividindo espaço com dezenas de latas de calda e mais duzentas barras de chocolate – Shun parecia estar fazendo um estoque para o apocalipse.

O curioso era a forma como a garrafa estava escondida, provavelmente da Mayuri. Acho que o pato pensa que vai manter a garota em um estado de congelamento de maturidade, ele não sabe que logo, logo ela vai estar enchendo a cara com o namorado ou amigas de sua idade? Como se nunca tivesse conhecido a ‘senhora juízo’ de perto.

Odeio bebida quente. Busco algum gelo no freezer, mas vodca é uma bebida forte, então tenho que deixar o gelo descansando no copo por uns minutos.

Enquanto isso observo a estrutura daquela cozinha, os moveis bem distribuídos e planejados. Confesso que dediquei um carinho especial quando projetei aquela casa, ah é, fui eu.

Uma amiga de trabalho me pediu pra fazer esse trabalho especial pra ela, pois tinha pouco tempo pra que ela mesmo o fizesse. Por alguma razão, não sei bem explicar qual, eu me dediquei bastante naquele trabalho, alguma coisa me dizia que eu ainda viveria ali, e vejam só o acaso. Estou aqui.
Seria coincidência meu irmão ter comprado exatamente essa casa? E logo com ele, com o pato?

Vamos lá: Alexei Hyoga. A primeira vez que o reencontrei foi na reunião de cavaleiros na mansão da Saori, cerca de uns cinco meses atrás. Shun sequer tinha aparecido naquele dia. Eu já tinha tido mais uma briga com o Shaka.

Estava enchendo a cara no bar quando eu o vi.

Chegando com – imaginem só? – um garoto. Seu filho. Esse foi o primeiro passo pra imaginar que jamais iria querer nada com o pato. Foi uma grande surpresa (categoria: muito desagradável) descobrir que ele tinha um filho. Ele não parecia se encaixar nesse papel. Muito pelo contrario.

Depois de anos sem vê-lo é claro que fiquei surpreso com a forma que o tempo o tinha modificado. Ele sempre foi atraente, mas agora, transmitia um ar não só beleza, mas também maturidade.

Porém, por incrível que pareça, eu não estava muito interessado, porque preferia descansar meu estresse do trabalho e do Shaka em uma boa dose de uísque ao invés de me dar ao trabalho de cumprimenta-lo.

Após algumas horas em conversas sem fim e chamando atenção que aparentemente ele odiava, ele conseguiu se afastar dos demais e vir me cumprimentar. Pela forma que me escondi acho que realmente foi difícil me notar naquele mar de depressão.

─Oi frango. – ele me cumprimentou sorrindo e apenas me dei ao trabalho de dizer um ‘oi’ seguido do apelido que escolhi especialmente pra ele.

─Oi pato. – acho que éramos os únicos a usa-los. Já que ninguém mais nos chamava assim. Não sei se por respeito ou por medo.

Começamos a conversar, não perguntei diretamente, mas supus que ele era medico, não sei por que, mas algumas características são peculiares dessa profissão. Já que ele não me perguntou então também eu não lhe disse minha profissão.

Suas perguntas seguiam como qualquer pessoa educada e sem interesse perguntaria. A primeira delas era como andava meu irmão, e sem entrar em detalhes eu só lhe disse que o Shun andava tão bem quanto nós dois, é claro que mesmo insatisfeito com minha objetividade ele não perguntou mais nada a respeito.

─Não quer beber? – perguntei indiferente quando percebi que ele não tomara sequer um gole de álcool. Será que seu senso de responsabilidade é tão apurado assim?

─Estou bem, obrigado. – o que isso quer dizer? Bem com o que? Bem em não beber? Que maluco!

Dei uma boa olhada nele. Estava com aquele terrível desbotado de alguém que nunca se bronzeia. É claro que aquilo caia muito bem com os olhos tão azulados que ele tinha, mas não entrei em detalhes, é claro.

Pude notar a quilômetros a dor latente que ele carregava, mas se tem uma coisa que eu odeio é que coloquem minha dor em molduras pra que todos possam ver, então não achei justo colocar a dele a mostra e decidi não demostrar nenhum interesse em seu drástico desfecho de casamento. Ou seja, sua viúves.

─Então me conte – pedi a ele ─, a quanto tempo você não sai no sol?

Ele deve ter notado que seu tom de pele estava pra lá de pálido, parecia abatido. Bom, isso era obvio. Afinal ouvi o tagarela do Millo fofocando a vida do pato de longe.
Depois de um tempo ele respondeu.

─Faz um tempo que não saio pra andar no sol à toa. – aquilo soou mais como uma acusação.

─Não está ensolarado durante o dia?

─Eu estava trabalhando. – replicou.

Ficamos num silencio tedioso até eu não aguentar.

─Você se parece um pouco com os homens do... Médicos sem Fronteiras.

Ele não demostrou nem sequer uma ínfima partícula de interesse por essa informação, mas fui em frente do mesmo jeito:

─Você sabe o que quero dizer: gente viciada em adrenalina, que se sentiria muito mais feliz numa tenda improvisada, no front de uma zona de guerra, amputando membros à luz de um lampião especial contra tempestades, em vez de morar num bairro afastado do centro, criando filhos.

─Não – garantiu ele. ─Nunca amputei nada de ninguém... pelo menos não numa tenda num front de uma zona de guerra à luz de um lampião.
Seguiu-se um silencio engraçado, eu já girava o corpo pra pegar mais uma bebida quando ele inesperadamente começou a falar.

─Para ser sincero, sempre achei que esse pessoal do Médicos sem Fronteiras deve sofrer de algum tipo de ânsia de autodestruição.

─Sério?!

─Não me entenda mal, é uma coisa maravilhosa o que eles fazem, algo muito bom pra humanidade, mas qual é o problema de querer morar num bairro tranquilo e criar filhos?

─Muitos problemas – garanti. – Ah, muitos mesmo!

─Não. – ele me pareceu muito insistente. ─Isso deve ser melhor do que passar a vida costurando pessoas e colocando membros novamente nos devidos lugares, enquanto balas passam zunindo por sua cabeça. Acredite, sei bem do que estou falando.

Confesso que, ao conhecer sua energia e convicção, de repente me senti encantado.

─Diga-me – pedi, porque precisava saber. ─Quanto tempo você está viúvo?

─Um ano.

─Lamento.

─Eu também.

─Então... ainda é um bom tempo. O bastante para as feridas sararem. – eu disse sugestivo.

Ele olhou pra mim. Olhou, olhou e olhou até que, finalmente, abanou a cabeça de leve e deu uma risadinha tranquila.

─Se você diz. – comentou, mas depois de um tempo percebi que ele realmente não tinha entendido a indireta, e de fato fiquei frustrado com isso.

No entanto, eu realmente, realmente, realmente gostei daquele novo Hyoga. Teria adorado passar quarenta e oito horas trancado com ele num quarto de hotel. Mas só isso. Não desejava complicações. Não queria sessões angustiantes às duas da madrugada, tipo ‘discutindo a relação’. E também não queria que as necessidades de seu filho fossem mais importantes que as minhas.

Porque é isso que acontece quando se está com um homem que tem filhos. Eu sei. Sempre fui um egoísta nato, mas em pensar que por mais que eu me esforce eu nunca seria a opção numero um em sua lista de afeto. Nunca seria tão importante em sua vida quanto seu filho é. Isso é frustrante.

Eu havia limitado minha exposição a pais solteiros porque sabia exatamente como eles eram: preocupados com os filhos e sua estabilidade; sempre encucados, imaginando que não deviam apresentar novos companheiros a eles a cada cinco minutos. O tipo de quadro mental que não era nada divertido quando se está no mercado em busca de espontaneidade, livre de compromissos.

É claro, eu não havia saído com muitos pais, e depois de começar a sair com o Shaka isso se tornou mais difícil ainda, mas eu bem sabia o que me esperava em uma situação assim.

E pra encurtar mais a historia eu percebi que realmente não tinha a mínima chance já que esse pato estava mais do que convicto de sua heterossexualidade. De modo que qualquer tentativa de avanço seria frustrada por seu gosto insistente em mulheres.

Afinal era o que eu imaginava antes do Shun surgir na vida dele novamente.

Mas por mais que minha intuição ne dissesse isso, eu pensei seriamente se podia ligar pra ele e marcar alguma coisa. Mas aí o destino (embora eu não acredite nele) interveio. No dia seguinte – no dia seguinte mesmo, vocês acreditam? – o Shaka me ligou e, por mais difícil que seja acreditar nisso nesse momento, todos os pensamentos envolvendo Alexei Hyoga foram banidos da minha cabeça.

Eu fico pensando... se eu tivesse sido mais rápido que o Shun, seria eu a estar morando nessa casa?

Acordei dos meu devaneios quando subitamente a luz da cozinha foi acesa.

─Pelo amor de Deus, Ikki! – o pato exclamou assustado.

─O quê? – digo indiferente, mas satisfeito por ter sido ele a me encontrar ali.

─Você me assustou. Pessoas normais não ficam sentadas no escuro em altas horas da madrugada. – ele resmunga.

─Ainda são quinze pras uma. – digo olhando pro relógio em forma de um gato na parede.

─Essa casa dorme cedo. – diz indo até a geladeira e pegando uma garrafa d’agua.

─Então sou anormal, porque não durmo tão cedo.

─Hunf.

Achei que ele ia sentar a mesa comigo, pra conversar, sei lá. Mas ao invés disso ele bebeu sua agua, e mais alguma coisa que não pude identificar, em silencio ainda virado pra geladeira, sequer fazia esforço pra parecer solicito a conversas na madrugada.

Assim que terminou fechou a geladeira e ia se retirar.

─Boa noite.

─Espera. – ele se vira e me encara esperando que eu dissesse algo, mas eu mesmo não sabia por que o tinha chamado. ─Err... se importa? – pergunto erguendo o copo com a vodca. Brilhante improvisação — pensei me dando conta de minha astucia.

Ele voltou a se aproximar e tocou a garrafa fazendo o liquido gelar em menos de um segundo, até demais, já que formou uma fina camada de gelo em volta da garrafa.

─Obrigado. Não quer se sentar? – digo acenando pra cadeira a minha frente.

Pareceu desconfiado com meu convite, mas enfim puxou uma cadeira e se sentou.

O problema de sermos tão parecidos é que ambos também não somos de falar muito, então qualquer dialogo era difícil de iniciar em se tratando de nós.
Ia arriscar falar sobre o tempo, mas ele foi mais rápido que eu:

─Os problemas te tiram o sono?

─Um pouco, mas normalmente eu durmo mais tarde. – digo me servindo da vodca junto com a que já estava no copo.

─Desculpe, é que quando se tem criança em casa você se acostuma a dormir no horário delas. – ele diz cansado.

─Entendo... Você... tomou alguma coisa? – pergunto curioso.

─Ah, sim. Um analgésico.

─Dor de cabeça?

─Enxaqueca. – ele diz sorrindo indiferente.

─Hum... Não vai beber também? – digo empurrando a garrafa em sua direção.

─Encontrou ela. – ele diz sorrindo divertido enquanto olhava pra garrafa. ─Shun a escondeu da Mayuri.

─Ah foi ele?

─Pensou que tivesse sido eu? – ele diz rindo. ─Não iria adiantar, daqui uns tempo ela vai estar enchendo a cara e xingando como um marinheiro bêbado, não poderei prende-la pra sempre, só espero que ela se lembre dos meus conselhos quando chegar a hora. Mas ainda assim o Shun se preocupa com ela e quer protege-la, tanto quanto eu.

─Ah. – realmente fiquei surpreso com sua declaração. Pensamos igual, definitivamente.

─Não quero beber, tenho que trabalhar amanhã bem cedo. – ele responde a pergunta.

─Eu também. É só um gole, não vai fazer mal. – digo lhe estendendo o copo.

Ele olha pra mim e depois pro copo e decide por pega-lo.
Nossos dedos se tocam muito brevemente, e uma corrente passa por mim, me atravessando como se eu tivesse tocado um fio exposto. Eu ofego involuntariamente quando eu sinto isto, essa corrente percorre todo meu corpo até em algum lugar escuro e inexplorado, no fundo de minha barriga.

Desesperadamente, eu consigo de volta o meu equilíbrio, mas não pude impedir o copo de cair.

Ainda com a mão erguida ele me olhou confuso e surpreso. Seus lábios abrem como se ele estivesse tomando um influxo forte de ar, e ele pisca. Por uma fração de segundo, ele parece perdido de alguma maneira. Puta merda! Porque esse desgraçado tem que ser tão bonito?

─Você está bem? ─ele pergunta preocupado. Fixo-me em seu rosto. Inferno! Não olhe para sua boca!

Eu estou bem? – me faço a mesma pergunta. O que deu em mim? Porque um simples toque dele me causou tanta confusão?

─Er... sim, eu só... o copo escorregou. – porque estou gaguejando?

Ele arqueia uma sobrancelha. É evidente que minha desculpa não o convenceu.

Ele inspira pacientemente e se levanta do lugar, provavelmente pra pegar algum pano e limpar a mesa, era o que eu pensava. Do contrario do que imaginei, ele deu a volta na mesa e se aproximou de mim, me deixando mais nervoso ainda.

Seria mais logico recuar da sua aproximação, mas fiquei ansioso com o que ele iria fazer.

Aproximou-se e meu coração batia cada vez mais rápido. Tocou minha testa, o que está fazendo? Fiquei desapontado. Isso não é nenhuma espécie de caricia.

─Sem febre. – concluiu.

Puxou uma cadeira mais próxima e sentou-se ao meu lado me olhando fixamente. Sequer pude encara-lo.

─Ikki. – começou a falar pacientemente. ─Há algum tempo tenho notado seu desconforto por estar aqui – comecei a ficar alarmado. ─Antes achei que era pelo lugar, a dificuldade de se encaixar, mas depois de um tempo percebi que o problema não é a mudança, sou eu.

Meu coração disparou.

─Não sei do que está falando. – contesto.

─Claro que sabe. Em todas as vezes que estou por perto você fica nervoso, não me olha diretamente, parece desconfortável e quando fala comigo parece se esforçar pra escolher cada palavra. Você não era assim. Quando isso começou? Se for eu, então qual o problema em estar comigo?

Quando finalmente o encaro, mas não consigo firmar o olhar, seus olhos azuis vidrados em mim a procura de respostas que eu não poderia dar, pois a resposta seria não só uma afronta como também trariam uma serie de complicações que magoariam não só a mim como também toda aquela família.

─Realmente não sei do que você esta falando, pato. Isso aqui foi só um acidente, nada mais.

Tento mostrar toda a indiferença que sou capaz de disfarçar e me levanto indo em direção à porta.

─Você deve achar que é tão importante assim pra todos em volta, não é? – digo ainda de costas pra ele. ─Mas me deixe te contar um segredo, Hyoga: você não é o centro do universo. – finalizo e o deixo sozinho por lá sem entender nada e provavelmente magoado.

Não sei como consegui chegar até o quarto. Meu nervosismo ainda não tinha passado, e já passou mais de uma hora desde meu episodio constrangedor com o pato, se eu já não conseguia dormir imagine agora.

Sei que ele já foi dormir, eu ouvi seus passos no corredor. Dei graças a Deus por ele não ter vindo procurar satisfações. Afinal se somos tão parecidos quanto eu acho que somos então ele vai me dar um tempo pra que eu possa ajustar meus pensamentos. O que é mais que apropriado, já que não poderia conversar abertamente nem com ele nem com ninguém, especialmente com o Shun, a quem eu sempre contei tudo e que estou traindo descaradamente com meus pensamentos.

Certo, eu gosto dele. Eu admito, isto para mim mesmo. Eu não posso esconder meu sentimento mais. Eu nunca me senti assim antes. Eu o acho atraente, muito atraente. Mas ele é uma causa perdida, eu sei, e eu suspiro com um pesar agridoce.

O que estou fazendo? Definitivamente, o que estou fazendo?

Ainda não tinha me forçado a pensar na situação em que me encontro, estou dando tempo da minha relação com o Shaka na casa do Hyoga, por quem eu tenho uma paixonite desde... nem sei dizer. O pior de tudo é que esse sentimento é como uma granada, ou seja, sendo exposto vai desencadear mágoa não só pra mim, mas também pra todos a minha volta.

Achei que pudesse controlar. Achei que não seria nada demais permanecer aqui. Achei que esse sentimento fosse passageiro.

Shaka... pra falar a verdade, desde que cheguei aqui não é ele que tem ocupado meus pensamentos, mas sim o desgraçado do Hyoga.

Pare! Pare Agora! — Meu subconsciente está metaforicamente gritando comigo, braços dobrados, apoiando-se em uma perna e batendo seu pé em frustração. Vá dormir, descanse. Esqueça ele… Agora! E pare como toda essa porcaria de auto-piedade.

Eu respiro bem fundo e levanto e começo a dar voltas em círculos no quarto. Componha-se Ikki.

Volto a me deitar. Eu não irei mais pensar nele. Eu simplesmente posso encarar este incidente como uma experiência e me concentrar nos meus verdadeiros problemas com o Shaka. Sim. É isso que vou fazer.

E esta noite eu sonho com olhos azuis e mechas loiras, copos caídos e bebidas perdidas, e eu estou em lugares escuros, com uma luz estranha e eu não sei se estou correndo para alguma coisa ou de alguma coisa... Não está claro.
...

Notas finais
Não acho que o Ikki seja tão durão e insensível quanto aparenta, e embora ele custe a admitir esse leonino tem sentimentos latentes que não pode lidar.É claro que passar um tempo com o cunhado vai ser pra lá de angustiante, principalmente quando seu relacionamento atual está em declínio.O que acham que ele vai fazer com esses sentimentos?