Atração efêmera
2 Convivência
Notas iniciais
O problema de se gostar de alguém que é inalcançável, não é o fato de não poder me aproximar, mas o fato de estar próximo. Dolorosamente próximo.
Essa manhã assim que levei o Shun onde ele queria eu sequer fui para o trabalho como planejado. Peguei o dia inteiro de folga e me refugiei num parque do outro lado da cidade, para pensar.
Aparentemente o pato não contou ao Shun o episódio confuso e constrangedor comigo da noite passada.
Tinha concluído que a melhor maneira de fugir dessa encruzilhada de emoções seria me mudar para um apartamento bem longe do pato.
Só que tinha um problema: como eu explicaria minha retirada repentina ao Shun?
Desse jeito o pato concluiria que definitivamente tem alguma coisa errada e que realmente o problema é com ele. Assim ele acharia que tem a obrigação de contar ao meu irmão que logo viria procurar satisfação. E logicamente não aceitaria qualquer desculpa esfarrapada e assim as coisas só se complicariam.
Então conclui que ignorar o problema fugindo e fingindo que nada aconteceu não é a melhor solução.
Pensei em voltar para o meu apartamento de uma vez, mas prometi ao Shaka que ao voltar para casa seria o mesmo que voltar para ele e definitivamente ainda não estou pronto para isso, ainda mais com toda essa confusão de sentimentos me rodeando.
Logo, o jeito é continuar do jeito que estou.
Evitei a todos de todas as formas possíveis nos dias que se seguirão. Saio cedo e chego bem tarde sem que me notem. Isso já está cansativo.
Estou entre a cruz e a espada.
Seria mais lógico abrir o jogo com o pato, dizer o que sinto e ser honesto com ele e com meu irmão. Mas quem disse que a coisa certa é sempre a melhor opção?
Eu não poderia, não seria capaz de magoar tantos.
Droga! Eu realmente não queria pensar assim, mas acho que estou mesmo depressivo.
Sempre prezei que não existia essa coisa de depressão. Todos temos dias em que nos sentimos gordos, com frio, pobres e cansados; quando o mundo aparenta ser hostil e grosseiro; e parece ser mais seguro simplesmente não se levantar da cama de manhã. Mas a vida é assim mesmo... nada disso era motivo para tomar um monte de comprimidos, tirar uma licença do trabalho ou se internar em um hospital psiquiátrico por algum tempo. Uns belos brioches doces, essa sim é a solução. Todos os problemas desaparecem depois de alguns doces ingeridos, mas ultimamente ando tão travado que nem lembro a última vez que comi.
Já é sábado. Saí cedo de novo pra pensar, dou voltas e mais voltas pelas ruas, apenas caminhando. Gosto de ficar sozinho, é relaxante.
Isso é algo que nunca fiz o Shaka entender, das outras vezes ele deve ter pensado que eu queria distancia dele, mas não é bem assim. Ele tem o modo dele de relaxar e eu tenho o meu, será que ele nunca vai entender? Só porque eu não gosto de ficar sentado por horas no chão com a bunda doendo e de olhos fechados, fingindo que estou concentrado no universo com a mente vazia é que eu estou sobrecarregado de energias negativas.
Ele e essas teorias de hippie me davam nos nervos.
~~
−Tente ficar quieto, pela amor de deus!
−Qual é Shaka? Tem mosquitos aqui, e esse chão é duro.
−Isso é parte do processo, tentar relaxar em situações adversas.
−Eu prefiro relaxar em um colchão macio, de preferência na minha cama com um ventilador virado pra ela. – digo indiferente.
−Se eu soubesse que você ia reclamar tanto não teria chamado.
−Se eu soubesse que seria tão chato não teria aceitado. – digo já perdendo a paciência e me levantando.
Shaka fecha os olhos, invocando a gigantesca reserva de paciência necessária para lidar comigo.
−Faça o que quiser então. – disse indiferente e voltou pra sua meditação.
Esse era um ponto a se discutir, ele nunca reagia de imediato, mas mais tarde ele jogava na minha cara tudo que eu fiz de errado, pelo menos pra ele.
~~
Voltei cedo, por volta das dez da manhã, não podia continuar fugindo.
Procurei entrar pela frente, tenho a chave, é claro, mas a casa estava quieta. Nenhum ruído vindo de cima, nem da cozinha. Onde poderiam estar?
−Alguém em casa? – sem resposta.
Fui até a cozinha e os avistei no jardim.
Shun estava rodeado de várias caixas abertas, despontando algumas coisas de plástico coloridas e ele em meio à confusão de materiais tentava conter o Miguel que pulava de um lado ao outro com curiosidade. Mayuri sentada na grama envolta de papeis gigantes que mais pareciam um mapa detalhado do mundo. Acho que se tratava de um manual de instruções.
A grande porta de vidro parecia a moldura daquela cena. Como se um museu num futuro distante pusesse retratar em escala real a forma como os ancestrais montavam brinquedos aleatórios que pudessem divertir a insistente raça das crianças hiperativas de seu tempo.
Eu me pergunto o porquê deles não terem contratado alguém pra montar aquilo.
−Parece uma zona, e é, mas vai ficar bem melhor depois de montado. Acredite. – levo um susto quando ouço sua voz calma atrás de mim.
Viro-me e o vejo sorrindo enquanto observava a cena que eu fitava a alguns instantes. Nas mãos carregava uma caixa média preta.
Me sinto totalmente culpado pela noite que o tratei mal. Mas aquela expressão, aquele sorriso de alguma forma parecia dizer que tudo fora esquecido.
−Eu... – nem sabia o que dizer.
−Ferramentas. — ele disse me erguendo a caixa.
Fiquei em silencio sem saber ao certo o que responder sobre aquela informação.
Ele suspirou pacientemente. O que queria que eu interpretasse?
−São ferramentas. O que vamos precisar para montar tudo. — ele volta a explicar. −Não me diga que esqueceu?
−Como assim?
−O playground. Shun notificou você a participar, lembra? Hoje é sábado.
Agora sim fazia sentido. Droga! Tinha esquecido completamente disso.
−Ele está chateado com você. — Hyoga diz em tom de aviso enquanto toma caminho até a porta.
−Hã? Porque? — estava começando a ficar preocupado, será que o pato contou mesmo alguma coisa ao Shun?
−Ele não me deixou chamar alguém para montar tudo isso porque queria que fizéssemos tudo juntos. E a participação do irmão era indispensável. Daí você sai cedo sem ninguém ver e nem explica nada. Concordo por ele estar chateado. — ele diz, já fico aliviado.
Olho para o Shun lá fora agitado. Tentando manter tudo sob controle. Ele me queria por perto, buscava uma maneira de me distrair de meus problemas, queria me poupar de pensar demais no Shaka. Nem me toquei que aquele era o mesmo Shun gentil e prestativo que quer sempre unir todos em fraternidade. Meu irmão. Como poderia pensar em trair seu amor por um sentimento que nem sei explicar ainda o que é?
O pato sustenta o olhar sobre mim como se desvendasse meus pensamentos apenas me observando.
−Não se aflija. Apenas diga que teve um problema na empresa e teve que correr para resolver. O importante é que está aqui agora e vai seguir com os planos que seu irmão elaborou para todos nós. — diz sorrindo e abrindo a solução para o problema.
Olhei atentamente para ele. Rapidamente me lembro do porque o estava evitando. Não consigo deixar de me sentir atraído por ele. Não consigo fingir que está tudo bem.
−Hyoga... sobre o outro dia... eu...
−Esqueça isso. – diz dando de ombros. –Todos estamos um tanto estressados ultimamente. Até porque essa não é a primeira vez que temos nossos confrontos. – ele diz sorrindo. –Não devia se preocupar tanto com qualquer coisa que me fala, não sou nenhuma moça frágil. Entendo seus motivos, eu só estava no lugar errado e na hora errada.
Não, ele não entende. Não era uma provocação, eu não queria feri-lo daquela vez, não daquela vez. É bem difícil dizer para uma pessoa com quem sempre se teve rivalidade que agora gosta dela. Eu gosto dele, na verdade nunca o odiei, apenas era a maneira que eu encontrei de me manter perto, sem dizer isso em voz alta.
E ele nem está perto de parecer uma moça frágil, se fosse assim não teria a mínima graça em provoca-lo, muito pelo contrário, ele sempre rebate na mesma proporção, e é isso que torna nosso relacionamento interessante, nenhum de nós nunca ganhou nenhuma das brigas que começamos e aguardar a nossa inesperada revanche é que deixava as coisas equilibradas.
−É, você é sempre inconveniente, pato. Da próxima vez não serei tão gentil. – digo sorrindo desafiador.
Ele ri. Pela primeira vez desde que passei a morar aqui ele ri tão abertamente pra mim. Olho em volta, não tem mais ninguém aqui. Então esse sorriso é realmente pra mim. Me sinto encantado... Ah, droga!
−Esse é o frango que eu conheço. – ele diz rindo. –Vamos, deixe de conversa, o Shun está quase tendo um surto lá fora. – ele diz já seguindo pra fora e decido segui-lo.
Esse pato sempre foi assim, muitas vezes ele me surpreendeu com um sorriso inesperado, como o de agora. Algumas vezes me ignora como se eu não existisse, e em outras me faz sentir como a pessoa mais especial desse mundo. Ele tem que parar com isso, é por causa disso que estou tão concentrado nele ultimamente.
−Não mexe aí Miguel! – Shun diz agitado tentando encaixar alguma peça aleatória em outra mais aleatória ainda, enquanto Miguel vai de caixa em caixa com curiosidade jogando tudo pra fora delas.
−Miguel, coloque essas coisas de volta no lugar e vai brincar lá dentro. – o pato diz autoritário.
−Mas papa... – diz manhoso.
−Agora.
O menino soltou tudo de volta na caixa e dirigiu-se pra dentro cabisbaixo.
−Até que enfim. – Shun diz aborrecido. –Pensei que tinha ido fabricar essas ferramentas. – o pato apenas ignora, qual o problema dele? Eu já teria dado uns cascudos no Shun.
−E você? Por onde andou? – Shun me pergunta já sem paciência.
−Trabalhando. – digo com convicção. Shaka sempre me disse que eu seria um bom ator, não sei se por ironia ou porque tenho talento, talvez um pouco dos dois.
−Sei. – Shun diz desconfiado. –Agora pega alguma coisa aí e comece a ajudar.
−Você já pensou em, sei lá, seguir as instruções? – Hyoga diz sarcástico.
−Que ideia brilhante Hyoga, porque não pensei nisso antes? Ah é, porque essas instruções estão terríveis. – Shun diz sarcástico também, aposto que ele aprendeu isso com o pato.
−Sempre exagerado – diz indiferente −, deixa eu ver isso Mayuri. – ele diz pegando o manual de instruções com a garota.
Opto por começar a tentar encaixar alguma coisa em alguma coisa, nem é tão difícil, o Shun que sempre teve dificuldade com estruturas, não quero nem lembrar da vez quando ainda éramos crianças e ele não conseguiu montar uns bloquinhos de uma casa de brinquedo, quem sofreu foi o pato, pois sempre brincávamos juntos e o coitado foi a vítima da vez, Shun atirou tudo nele só de birra.
−É, tá meio estranho mesmo essas instruções. – o pato finalmente concorda depois de dar uma olhada nas instruções.
Shun apenas limita-se a lhe direcionar um olhar de “não te falei? ”.
−Já sei. – o pato diz vencido. –Ah, a parte em alemão explica melhor. – ele comenta enquanto lê.
−Olha a minha cara de que sei alemão, Hyoga. – Shun diz.
−Você sabe alemão? – May pergunta surpresa pro pato.
−Sei. – diz indiferente ignorando a surpresa da garota.
−Vocês são burros ou o quê? São apenas brinquedos de criança. – digo indiferente com toda aquela dificuldade deles.
−É mesmo, engenheiro? – o pato sorri desafiador. −Por onde começamos então?
−Tá na cara que as peças de cores iguais encaixam umas nas outras. – concluo.
−É mesmo? Então olha só o desenho. – Shun diz mostrando a caixa com o desenho do brinquedo montado, realmente as cores estavam todas misturadas, droga!
−Err... então...
−Então... – o pato continua me desafiando.
−Ah, me dá essas instruções aqui. – digo pegando as instruções dele, nossos dedos se tocam novamente, ofego quando sinto o mesmo choque de antes, mas procuro conter dessa vez.
−Tudo bem? – Shun diz estranhando. Droga! Não posso deixar que ele também perceba, não ele.
−É claro. – digo disfarçando, acho que consegui.
Começo a ler, mas não entendo muito. Qual o problema desses fabricantes? Encaixar o lado A no canto G, e depois no lado D... que porra de lados! Tá, sempre fui impaciente mesmo.
−Admite Ikki, não tá entendendo nada né? – Shun diz rindo.
Suspiro.
−Ah, dá isso aqui. – o pato toma de volta as instruções e volta a ler.
−Certo, hum... pegue aquela peça comprida ali Mai. – ele diz apontando pra uma das caixas.
−Essa? – ela tira uma haste comprida de uma caixa.
−Sim, primeiro temos que montar o esqueleto, isso fica bem claro. – ele diz concentrado.
−São as de metal né? – Shun pergunta.
−Isso mesmo.
−As outras também estão aqui. – Mai diz olhando dentro da mesma caixa.
−Ótimo. Vamos começar por aí então.
Todos nos voltamos para aquela caixa e finalmente a montagem teve início. Miguel ainda se fez de joão-sem-braço e voltou pra perto de nós.
Até que isso tá me distraindo um pouco, procuro me concentrar no que estou fazendo sem dar muita importância para a proximidade desse pato, só me desconcentro quando ele se aproxima demais, mas procuro disfarçar. Apesar de ser ótimo passar um tempo com ele... ou todos.
Shaka sempre disse que gostaria de ter uma família grande.
~~
−Deve ser ótimo você não acha? – ele diz sorrindo enquanto olhávamos o movimento dos turistas da Grécia de longe.
Famílias, crianças. Todos agitados e alheios a nós.
−Parece um pé no saco. – digo indiferente.
Nunca me veio à cabeça a ideia de realmente formar uma família, nem filhos, nada disso. Gosto da minha independência. Família é algo que nos prende a um lugar, essa é uma responsabilidade que não preciso. A vida em família para mim não é mais natural do que uma gaiola é para um papagaio.
−Não é tão ruim assim. – ele diz insistente.
−Ah, é sim. – ele sabe ser teimoso, mas eu também sei.
−Ikki, a família pode ser uma de nossas maiores fontes de felicidade. Nenhum amor é tão profundo, nenhuma alegria tão plena quanto aquela que pode existir dentro do círculo familiar. A família pode ajudar-nos a receber o melhor que a vida tem a oferecer.
−Eu sou feliz do jeito que estou.
−Não acha que lhe falta algo? – ele diz insistente. –Não gostaria de ter pessoas lhe esperando ao chegar de um dia exaustivo de trabalho?
−Já tenho você me esperando, ora. Pra quê preciso complicar isso?
−Ikki assim como com todas as outras coisas de valor, o relacionamento familiar dá trabalho, mas vale a pena, porque a família foi feita para ficar junta para sempre e para dar-nos alegria. Podemos não ter o melhor modelo de família, nem a mais agradável, mais rica, mais inteligente.... Porém, família não se escolhe, e se pudéssemos escolher, não escolheríamos tão bem assim.
−O que quer dizer?
−Você me escolheu Ikki, mas não poderia melhorar o que você já tem?
−De que jeito? – digo impaciente, porque ele estava insistindo tanto naquilo?
Ele me olhou, olhou e olhou. Suspirou e voltou sua atenção para algum ponto no horizonte.
−Nada. Deixa pra lá.
Isso me dava nos nervos, ele insiste tanto em um assunto e do nada ele se faz de desentendido.
−Ah, pelo amor de Deus, isso é ridículo, diga logo o que quer dizer, não entendo quando você faz enigmas.
−Não é óbvio? Por que você é tão cabeça dura? – ele diz insistente.
−Shaka eu já tenho você. Não quero complicar a minha vida mais ainda.
−Mais ainda?
−Não dá pra conversar quando você está assim. – digo já irritado.
−Eu sou sempre assim. Este sou eu.
−Que saco! Além do mais não tem como você saber tudo isso sobre famílias. – rebato logo. −Você não tem família. – digo irritado.
Ele finalmente me olhou, parecia profundamente ofendido, o que foi que eu disse de errado dessa vez?
−Achei que fossemos uma família. – ele diz magoado, seus olhos diziam tudo.
Suspirei e o deixei, às vezes eu realmente não o entendo.
Ele me conheceu assim, solitário. Nunca fui do tipo que anda em grupo. Sempre gostei de ficar sozinho. Essa história toda de família nunca foi pra mim. Shun é a unica família que considerei, os demais nada mais eram que companheiros de batalha.
É claro que gosto dos meus amigos, mas depois que as batalhas acabaram eu me senti perdido, sem rumo. Lutar era a única coisa que eu sabia fazer, como poderia pensar que algum dia estaria vivendo uma vida tranquila?
Shun se virou tão bem nesse sentido, bem melhor do que eu. E isso de alguma forma me abalou, pois senti que ele não precisava tanto assim de mim.
Hyoga terminou os estudos antes do previsto, e pra surpresa de todos ele resolveu partir inesperadamente. Achei que meu irmão entraria numa depressão profunda, pois foi isso que aconteceu nas primeiras semanas, esses dois eram tão amigos que todos já imaginavam que algum dia aquilo se tornaria algo maior. Por incrível que pareça esse pato realmente não tinha nenhum interesse no meu irmão, não nesse sentido, já que acabou se casando e até teve um filho.
Passado algum tempo abatido, Shun finalmente deu a volta por cima e começou a se estabilizar e encontrar um ritmo próprio. Se dedicou mais aos estudos e iniciou uma frenética obsessão por escrever, parecia tentar se tornar tão estudioso quanto o pato era. Ele parecia tão absorto na intenção de esquecer o pato que em algum momento ele finalmente encontrou a solução. Escrever era o que o fazia feliz, e foi isso que o salvou da vida amarga que ele quase se afundou.
Alguns acham que ele estava tentando acompanhar meu ritmo, mas era o contrario, pois era eu que estava tentando acompanha-lo. Sou o irmão mais velho, é claro que eu deveria ser o exemplo.
Shun se encontrou, encontrou um sentido pra sua vida. Eu não poderia ficar pra trás. Terminei os estudos no tempo certo e conclui que a melhor coisa que eu tinha que fazer pra seguir em frente era me dedicando em alguma coisa, assim como o Shun.
Saori ajudou todos a encontrar alguma carreira, e pra surpresa de todos eu também participei. Meus testes só me direcionavam pra um lugar, trabalhos operacionais. A essa altura Shun já até pesquisava em qual faculdade ele poderia cursar literatura quando terminasse os estudos dois anos depois de mim, então corri e escolhi logo o curso de engenharia.
Pode parecer que eu estava competindo por alguma coisa, mas não é bem assim. Sempre fiz parecer que tinha tudo em minha volta sob controle, como poderia deixar transparecer que estava mais perdido que todos?
Não mesmo. Não iria ficar pra trás.
Fiz o que tinha que fazer. Tomei as rédeas da situação e cursei o que me pareceu mais aceitável. Me mudei da mansão e levei Shun comigo. Foi assim que iniciamos nossa vida.
Por mais que eu desejasse ter tudo sobre controle não consegui. Ainda me sentia perdido. Tudo ainda estava bem, mas o que aconteceria quando Shun se afastasse de mim? Eu sabia que ele não ia ficar debaixo da minha asa pra sempre. Ele estava crescendo, amadurecendo. Eu deveria estar também. Não conseguia imaginar uma vida pra mim dez anos a frente. A única coisa que eu enxergava era a solidão. E pela primeira vez essa ideia não me pareceu agradável.
Shun namorou algumas garotas, e depois de algum tempo alguns caras, os quais a maioria eu detestei, acho que o pato foi o único companheiro do meu irmão que eu aprovei.
Tive uma vida um tanto selvagem antes de começar a sair com o Shaka, a única coisa que me interessava era sexo. Garotas passaram por minha vida e eu não me lembro o nome de nem da metade delas.
Quando Shaka surgiu de repente na minha vida eu o odiei, como poderia pensar que algum dia eu teria interesse em homens? Shun lidou com isso bem melhor do que eu. Percebi que isso parecia o auge da minha hipocrisia, pois novamente Shun se mostrava como o irmão mais velho que eu deveria ter sido.
Busquei limpar minha mente depois desse conflito pessoal e resolvi dar uma chance ao Shaka, e novamente pareceu que era eu que estava sob controle.
Shun sempre pareceu me admirar tanto que não sou capaz de demostrar esse tipo de fraqueza, não pra ele.
Quando esse pato voltou a aparecer eu ainda tentava entender e lidar melhor com o que eu sentia pelo Shaka, nós terminamos e reatamos tantas vezes que até perdi a conta.
Pode parecer estranho, mas eu ainda não consigo imaginar uma vida daqui a dez anos, não com ele.
Talvez seja essa minha incerteza que o aflige tanto. Queria saber dizer a ele que o problema não é ele, mas sim a minha maldita dependência que tenho da ação dos outros pra decidir meu próximo passo.
Ao invés de eu ser um modelo pro Shun foi ele que acabou sendo um modelo pra mim. Isso é tão frustrante.
Minha reação depois que ele arranjou sua vida deveria ser a de consertar a minha. Mas ao invés disso eu subitamente criei uma louca obsessão por seu companheiro ao invés de consertar as coisas com o meu.
Qual é o meu problema?
Afinal a alguns meses atrás eu até ajudei meu irmão a conquistar o pato. Naquela vez deve ser porque as coisas entre mim e o Shaka ainda estavam bem.
Após ver que Shun guiou tão bem sua vida com Hyoga. Ver o quanto ele está feliz e realizado me fez pensar se eu não deveria dar mais um passo em minha relação com o Shaka.
Essa dúvida me deixou num impasse tão grande, pois afinal o que eu poderia fazer pra dar esse passo? Tudo já não está resolvido? O que mais eu poderia fazer pra melhorar?
Skaka ainda me pressionou por algo que ainda não sei o que é. Como se ele esperasse por algo. Como se aguardasse alguma atitude minha.
O que poderia ser?
Eu estava enlouquecendo, era sufocante. Nossas brigas se tornaram cada vez mais frequentes, cada vez por coisas mais triviais.
Eu poderia relatar boa parte de nossas conversas, mas seria apenas mais do mesmo: duas pessoas cujo amor se tornou tóxico atirando granadas de ressentimento uma na outra.
Quando se percebe que o convívio está se tornando insuportável por parte de pessoas que ainda se gostam tanto a unica solução é dar um tempo, se distanciar e esperar até que as mentes esfriem, o coração se cure e as magoas tenham sido esquecidas.
Ainda não sei qual deveria ser meu próximo passo. E esse tempo que estamos dando um ao outro não tem sido a solução, ainda mais estando atualmente obsessivo por alguém que nunca será meu.
Não é a primeira vez que me sinto perdido, mas é a primeira vez que demoro tanto pra me encontrar. E não tenho nenhum modelo a seguir. Sinto como se a solução estivesse diante de mim, me esbofeteando com sua clareza, mas estou tão absorto com os borrões de incertezas na minha frente que sequer posso vê-la, quanto menos entende-la.
Sinto inveja do Shun por ser tão decidido nesses assuntos. Ele decidiu que amava o pato e decidiu arriscar tudo em prol disso. Por que não consigo fazer o mesmo?
−Tudo bem Ikki? – Shun pergunta quando me vê pensativo demais.
−Não é nada. – digo suspirando.
Tudo bem, talvez as vezes eu seja mesmo um insensível problemático, sou uma máquina que causa mágoa, tanto que as vezes nem percebo quando magoo as pessoas que amo... amo.
Eu amo o Shaka?
~~
Paramos para o almoço e finalmente terminamos depois das três da tarde. Quem diria que esses simples brinquedos de criança davam tanto trabalho assim de montar.
Mas valeu a pena, nunca vi um sorriso tão grande quanto o que o Miguel está fazendo a horas.
Ele corre de um lado para outro todo animado. Me lembrou aquelas crianças que eu e o Shaka observávamos daquela vez.
Talvez agora eu entenda um pouco o que ele quis dizer sobre família.
.
Já que ficamos boa parte da tarde no trabalho manual então guardamos o restante do tempo para relaxar.
Shun sempre obriga todos a participarem das brincadeiras que ele gosta. Dessa vez é um jogo de tabuleiro estranho aí. Odeio esses tipos de jogos. A única dinâmica consiste em ficar girando em círculos, ou melhor, em quadrados, por horas, até que a maioria dos participantes desista de jogar, e sinceramente não tenho a mínima paciência pra isso.
−Vamos começar, anda Ikki. – Shun me chama já que estou enrolando pra me aproximar.
−Jogo imobiliário de novo? – o pato diz impaciente quando adentra a sala e percebe o jogo montado.
−Não é jogo, é banco. – Shun diz indiferente. –E vem logo.
−Eu não, prefiro jogar shogi, esse aí é chato, só fica girando em círculos um tempão até alguém desistir de tanto tédio. – ele comenta e me surpreendo com suas palavras, ele lê pensamentos por acaso?
−Nem sei jogar isso. – digo sem ânimo.
−Ele se animou com esse jogo quando fomos para a América e agora só quer jogar ele. – o pato comenta.
−Também não sei jogar. – May também resmunga.
−Tá, tá. Vocês venceram, o que querem fazer então? – Shun diz aborrecido.
−Karaokê. – May sugere animada.
−Nããoo. – todos impõem resistência em coro.
−Vamos assistir o jornal e pronto. – o pato propõe aparentemente entediado.
−Deixa de ser chato Hyoga, tá chegando na andropausa muito rápido. – Shun comenta.
−Ninguém quer fazer nada, ora.
−Vamos assistir uns filmes. – sugeri.
−Não temos opção melhor mesmo. – Shun comenta.
Começamos a procurar alguma coisa pra assistir. É claro que alguns deles crianças não podiam ver, como terror por exemplo.
Escolhi um de suspense e terror. Shun escolheu alguma comedia romântica junto com a Mai e Hyoga um de ação. Filmes de terror não assustam. Tenho medo dos romances. Neles, as pessoas se casam.
É claro que assistimos primeiro um infantil com o Miguel, todos morremos de tédio, é claro, mas o que importa é que o garoto estava se divertindo. Quando ele finalmente tirou seu cochilo da tarde nós passamos a assistir os filmes que queríamos.
O problema desses filmes de romance é que eles são sempre clichês, não digo que odeio, as vezes eu até gosto, mas é sempre a mesma ladainha, o roteirista monta toda uma trama em volta de algo que já sabemos como vai acabar, é como dar um upgrade em nossas mentes. O incrível é que por mais que você se faça de durão não consegue deixar de se abalar pelo romantismo ilusório, talvez seja meu abalo emocional que está me causando isso, ou pode ser também a cena na minha frente que não posso deixar de notar.
Hyoga está no meio do sofá. Shun está praticamente deitado no peito do pato, enquanto este acaricia seu cabelo suavemente, estão distraídos assistindo o filme, até Mayuri está encostada no ombro do pato sonolenta, ao que parece o filme está muito tedioso, mas porque será que estou me emocionando tão facilmente? É apenas uma história de amor clichê como todas as outras, apenas cenas e cenários montados, nada espetacular, sei disso, mas então o que há comigo?
Talvez o problema não seja o filme, talvez o problema seja ver que todos podem se aproximar do pato com intimidade, menos eu.
Ele os acolhe em seus braços tão carinhosamente que posso até imaginar a sensação. Será que seria muito estranho se eu tivesse toda essa liberdade também?
Filmes de romance só servem para apurar nossos sentimentos, se houver lágrimas pode ter certeza que você está carente, mas não vou chegar a esse ponto, não mesmo. Ainda bem que já está acabando.
Shaka odeia esses filmes, na verdade ele odeia quase tudo que passa na Tv, ele diz que é como uma forma de manipular as mentes fracas da massa. Uma extensão da própria mediocridade humana, torcer por algum personagem fictício, viver em um universo falso e esquecer de viver a própria vida, pois afinal é como um círculo vicioso, você assiste o primeiro capítulo de uma novela e provavelmente vai querer assistir o próximo só para saber se a moça fica com o cara.
Estou começando a achar que ele tem razão.
~~
−Já está acabando? – Shaka me pergunta.
−Ainda não.
−E agora?
−Não.
Estávamos assistindo um filme que o Shun me emprestou, não é de se surpreender que estejamos tão entediados.
−E agora?
−Não!
−Vamos assistir outra coisa. – ele insiste.
−Shun vai me perguntar depois se eu assisti essa droga, o que vou responder quando ele perguntar?
−Que o filme é horrível.
Só fiz rir.
−Tem razão.
−Quer fazer outra coisa? – ele pergunta me envolvendo em seus braços.
Confesso que a única coisa boa de assistir esses filmes com o Shaka era ter o pretexto de me acolher em seus braços por horas sem ter que justificar nenhum outro motivo.
As pessoas costumam fazer isso depois de fazer amor, e por mais que eu aprecie esses momentos pós-sexo, ainda é bom, só pra variar, apreciar algo que não seja apenas lascivo.
Ele é quente, reconfortante, e gostaria que momentos assim durassem muito mais.
−O que você sugere? – pergunto.
−O mesmo que você está pensando agora. – diz insinuante descendo as mãos por meu peito.
Rapidamente o jogo de bruços no sofá e puxo seu queixo para em seguida lhe roubar um beijo ávido.
Não é surpresa imaginar que não assistimos o final do filme.
~~
Acordo de meus pensamentos quando Shun se levanta para trocar o filme, ué? Já acabou?
...
Estou me aprontando para reunião de cavaleiros, mas não estou nenhum pouco animado. Talvez seja pelo fato que ocasionalmente posso ter que me encontrar com o Shaka, mas Shun insiste que eu não posso mais fugir disso, então ele me notificou a ir.
−Já está terminando? – ele diz batendo na porta do quarto.
−Ainda não. E para de encher o saco! – reclamo.
Ele simplesmente abre a porta enquanto ainda estou de cueca procurando uma roupa adequada na mala.
−Shun!
−Ah, pensei que estava me enrolando. – ele diz sem jeito. –Procurando uma roupa? Esqueci de avisar que coloquei a maioria pra lavar... ah, e esqueci de colocar na secadora.
−Como espera que eu vá então? Pelado?
−Não pelado, você está de cueca. – ele fala como se fosse uma solução aceitável.
Só o olho aborrecido.
−Não me olha assim... tá, desculpa. Você pode pegar alguma coisa do Hyoga, vem. – diz me chamando porta afora.
O que ele queria que eu fizesse?
−Só coloca uma toalha e vem Ikki. – diz impaciente da porta.
Deixa só eu me vestir que ele logo vai levar uns cascudos!
Quando adentrei o quarto me surpreendi ao ver o pato terminando de vestir a calça. Quem diria, dessa vez foi mesmo ao acaso. E olha só quem levou a isso, o próprio Shun.
−Hyoga. – Shun o chama.
−Hum. – diz passando um cinto pela cintura e novamente indiferente a mim, ainda bem, talvez assim ninguém perceba que estou vermelho.
−Empresta uma roupa pro Ikki. Esqueci de colocar as roupas na secadora.
O pato finalmente direciona o olhar pra mim.
−E servem? – ele pergunta.
−Não sei, vocês têm a mesma altura, não é?
−Acho que sim, vem cá frango. – ele me chama e fico em dúvida com o que devo fazer.
−Vou terminar de vestir o Miguel. – Shun diz se retirando do quarto e me deixando sozinho com o pato.
Permaneço no mesmo lugar paralisado. Esperando alguma instrução.
−Que foi? – Hyoga volta a direcionar a atenção pra mim, será que percebeu que não consigo tirar os olhos dele desde que entrei?
Ele estala os dedos me fazendo acordar.
−Alguém aí? – ele pergunta novamente.
Consigo finalmente me recompor e desviar o olhar. Qual é o meu problema? O que ele tem ali eu também tenho, ora. Se fosse só por isso talvez eu pudesse me controlar melhor. O problema é exatamente por ser ele. Admito que é bem diferente do Shaka, mas os dois tipos ainda me atraem. Droga!
−Qualquer coisa serve. – digo tentando mostrar indiferença enquanto mantenho toda minha atenção direcionada para a janela e pensando na possibilidade de me jogar através dela.
Ele suspira sem dar muita atenção ao meu constrangimento e volta-se para o armário pra encontrar alguma roupa adequada pra mim.
Eu deveria manter meu olhar na janela, mas ele atraí minha atenção como um imã então não posso deixar de observa-lo. Aí está, imaculado como sempre. Chamando para ser tocado e me negando ao mesmo tempo. Como pode ser tão parecido comigo e ao mesmo tempo ser tão diferente?
Essa história de que os opostos se atraem é um tremendo mito. Ele não tem nada a ver com o Shaka, nem em aparência quanto menos em personalidade, Shaka sim é meu oposto. Toda essa semelhança que Hyoga tem comigo reflete toda sorte de afinidade que tenho por ele. Esse tipo calado e orgulhoso que ele tanto esbanja só serve pra despertar meu interesse.
Acho que a única coisa que poderia justificar minha atração por ele com similaridades com o Shaka é só o fato de ele ser loiro, admito que tenho uma queda por loiros.
Não sei explicar, mas loiros tem aquele ar de confiança, são seguros de si. Eles são atraentes, e sabem disso. É uma arma genética que eles usam descaradamente. Deve ser por isso que ele tem toda essa confiança. E é isso que mais gosto nele, sua confiança e orgulho. Shaka é inseguro. Será que fui eu que fiz ele ser assim?
−E então? Escolheu alguma? Você tem que aparecer bem vestido hoje caso o Shaka vá. – Shun volta pro quarto com o filho no colo ainda o vestindo.
−Sei lá, ele não quer escolher. – o pato resmunga.
−Já falei que qualquer coisa serve. – digo impaciente cruzando os braços, quero sair logo daqui.
−Oh céus, eu tenho que fazer tudo? – Shun diz colocando o garoto na cama e indo escolher a roupa no meu lugar, ele não sabe que é melhor permanecer onde estou? Se eu me aproximar mais desse pato não vai ser nada bom.
−Acho que não vai precisar de cinto. – Shun comenta se aproximando com uma calça preta e social nas mãos.
−Tá me chamando de gordo? – resmungo.
−Hã? Não! É só que o Hyoga parece ter mais cintura que você. – ele tenta corrigir.
−Tá me chamando de magrela? – dessa vez é o pato que resmunga.
−Ah, pelo amor de deus! Parem com isso.
−Papa é maguela? – Miguel pergunta.
−Eu não, seu tio que é gordo. – Hyoga diz indo terminar de arrumar o garoto.
Não posso deixar de rir, tenho que admitir que a situação é engraçada, esse pato sempre sabe o que dizer mesmo nas horas erradas. De alguma forma ele sempre faz com que eu me sinta mais à vontade, mesmo na situação tão inconveniente.
−Gordo é a mãe. – resmungo já vestindo a calça que o Shun me entregou.
−Só se for a sua. – ele resmunga também.
−É minha também. – Shun reclama.
−De acordo então, a mãe de vocês é a gorda. – pato diz sem um pingo de arrependimento pro Shun. –E nem precisou de cinto mesmo. – ele comenta quando percebe que já vesti a calça.
−Verdade. – Shun comenta surpreso.
−Garanto que uns exercícios podem resolver. – o pato comenta rindo e já vestindo a camisa, quase esqueci que ele não estava completamente vestido, ele me distrai tanto de forma positiva quanto negativa afinal de contas.
Não respondo a afronta porque ele distraiu minha mente novamente com seu corpo.
Shun me entregou uma camisa que nem me dei ao trabalho de checar, apenas a peguei e saí de uma vez daquele quarto.
...
Shaka não apareceu. Para minha surpresa eu inesperadamente torci pra que ele viesse. Repentinamente me veio uma vontade súbita de vê-lo.
Como poderia estar? Já tem três semanas que não o vejo. Será que tem se saído bem sem mim? Será que sente minha falta?
Nunca nos separamos por tanto tempo. Terminávamos e voltávamos em intervalos de apenas algumas semanas. Vezes ou outras quando eu me enfezava com alguma coisa decidia sumir por alguns dias, mas nada tão dramático. Afinal ele sempre me recebia de volta e acabávamos na cama ofegantes reconciliados de mais uma briga sem sentido.
Porque dessa vez parece diferente? Sinto como se faltasse algo, por alguma razão estou com medo de voltar dessa vez. Medo que ele não me aceite de volta?
Claro que não. Ele sempre me aceita de volta. Sempre joga na minha cara o quanto eu sou indiferente ao amor dele. Ele não deixaria de me amar em apenas algumas semanas, não é?
Melhor não pensar muito. Vou dar uma volta pelo salão antes de voltar para o bar. Pra ninguém sair por aí falando que estou me isolando de tanta depressão.
Encontro um grupo reunido em um sofá semicircular, conversando seja lá o que for, mas o que estava estranho é que todos olhavam atentamente para alguém na varanda mais adiante. Como se assistissem a uma partida de futebol que estava em um empate obviamente tenso.
Quando me aproximei logo perguntei o que se passava.
−O que há?
−Shhh. — alguém resmunga sem desviarem o olhar do aparente espetáculo.
Curioso eu acabo olhando na mesma direção. Shun e Hyoga estão na varanda tranquilos conversando sobre alguma coisa. Completamente alheios a plateia que os observava.
Qual o problema? Eles não estão fazendo nada demais para chamar tanta atenção.
−O que tanto olham? — pergunto.
−Esperando a orgia. — Afrodite comenta. Quando ele finalmente repara que sou eu ele paralisa. −Ikki?
−Acredito que sim. — digo irônico me olhando.
−Err... nós estamos...
−O que há de tão interessante ali? — o interrompo.
−Não reparou? — Carlo retruca apontando para os dois mais adiante. −Eles não se tocam. Diferente de você e do Shaka. — ele diz com um sorrisinho de troça.
Ignoro a insinuação.
−Olha! Olha! É agora. — Shura diz animado.
Olho pra frente como todos e vejo Shun quase tocando Hyoga no ombro, mas sua mão para na metade do caminho quando o pato comenta alguma coisa e ambos riem.
−Aahhh. — segue-se um uivo de insatisfação.
Prestando mais atenção eu percebi que eles realmente não estão se tocando. Sequer estão próximos, já que uma distância de quase um metro e meio os separa.
Shun está sentado na grade com as pernas suspensas lá fora e as abanando. Isso seria extremamente perigoso de ele não fosse um cavaleiro. Enquanto o pato está apenas encostado olhando lá fora também.
Definitivamente eles são discretos. Muito discretos!
Nem parece que são um casal.
−Nós fizemos uma aposta- Millo comenta. -Alguns aqui estão certos que eles vão trocar ao menos um beijo esta noite. Mas alguns insistem que não vão nem se tocar a noite toda. — ele comenta olhando pro Mu que só dá de ombros.
−Eles só estão sendo discretos ora. — Mu resmunga.
−Já estamos faz um bom tempo aqui e eles sequer se abraçaram. — Aldebaram comenta.
−De qualquer forma estamos todos ansiosos para alguma coisa acontecer. Mas parece uma causa perdida. — Millo resmunga.
−É só esperar. Uma hora eles vão ter que fazer alguma coisa. — Kanon completa. Isso encerra o grupo reunido.
−Fala sério! Isso não é normal. — Afrodite resmunga. −Nem parece que são um casal.
−Você já viu eles trocarem ao menos um beijo Ikki? — Carlo pergunta.
−Já. — digo indiferente e todos se viram para mim ansiosos para que eu dissesse mais algum detalhe.
−E como eles são? Aposto que se devoram. — Kanon fiz maliciosamente.
Não estou a fim de detalhar a intimidade daqueles dois. Pois afinal não tinha muito o que dizer já que o único beijo que eu vi foi o pato beijando carinhosamente o Shun no topo da cabeça ou na testa. Nada depravado. Talvez um beijo ou outro na boca, mas nada demais.
−Na verdade eu não vi muito. E o que há de errado com vocês? Eles estão somente conversando civilizadamente. Nem todo mundo tem a necessidade de se agarrar na frente de todos como animais. — eu os censuro aborrecido.
Droga! Esqueci que eu e o Shaka costumávamos ficar assim. Isso é obvio já que todos estão me olhando maliciosamente.
De alguma forma eu detestei aquele interesse repentino de verem meu irmão nos braços do pato em amassos intensos.
Sentia-me exposto de alguma forma.
−Como você e o Shaka? — Carlo volta a insinuar. Admito que eu realmente não conseguia manter minhas mãos longe do Shaka. A tensão sexual que havia entre nós era quase palpável.
−Eu manteria minha língua presa se fosse você. — lhe digo ameaçadoramente
−Ah. Qual é Ikki. Aposto que você também está curioso. — ele diz rindo.
−Nem um pouco.
−Olha! — Aldebaram diz de repente e todos direcionamos nossa atenção para o casal distraído.
A cena que se desenrola é confusa. Aparentemente o pato parece apreensivo enquanto se aproxima do meu irmão e repousa a mão em seu ombro enquanto ambos olham com curiosidade alguma coisa lá em baixo.
Eles se olham e comentam alguma coisa e voltam sua atenção para baixo de novo.
Se olham novamente e sorriem para o que parece ser um desafio. Ambos concordam mutuamente depois de comentarem alguma coisa. Erguem as mãos em uma brincadeira de criança. Jo-ken-pô, dá pra notar.
Aparentemente o Shun perdeu e depois de suspirar decepcionado ele olha novamente lá em baixo e em menos de um segundo ele salta da varanda lá pra baixo. O que esses dois estão aprontando?
Será que parecemos muito anormais quando fazemos coisas surpreendentes como essa?
Ficamos ansiosos olhando apenas o Hyoga encostado na varanda e fazendo gestos para o Shun lá em baixo que não conseguimos ver.
Em um instante Shun retorna em uma velocidade impressionante e volta a se sentar na beirada da grade como antes. Ele comenta alguma coisa rindo e mostra a mão fechada com alguma coisa em segredo e mostra para o pato com cuidado. Parece ser alguma coisa peluda.
O pato comenta alguma coisa e o Shun lhe oferece o que está segurando, mas o pato se recusa a pegar, aparentemente desconfortável.
Ficam nesse impasse discutindo a respeito até Shun levantar-se impaciente de seu lugar com aquele troço peludo nas mãos.
Vimos quando inesperadamente Miguel aparece pra procurar pelo pai e os dois se surpreendem fazendo rapidamente com que o pato pegasse o troço peludo das mãos do Shun e o escondesse atrás de si antes que o garoto perceba.
O que estão aprontando?
−Não entendi nada. — alguem perto de mim comenta.
−É um gato. — Shura comenta tirando a dúvida de todos.
−Ahh! — tem-se uma exclamação conjunta.
−Agora que não vai ter amasso mesmo. — alguém diz decepcionado.
Todos se disperssão até sobrar apenas eu os observando.
Após algum tempo tentando distrair o filho o pato consegue fazer ele voltar a brincar com os gêmeos do Shiryu e vira-se pro Shun pra continuarem a discutir sobre aquele bicho peludo.
Acho que estão decidindo o destino do bichano.
Não sei porque, mas acho que o Shun vai acabar ganhando.
...
−Falei pra devolver esse bicho pro lugar dele. — o pato resmunga enquanto dirige de volta pra casa.
−Aquele não era o lugar dele. Ele estava abandonado. — Shun resmunga de volta ainda com o bichano nas mãos.
Falei que ele ia ganhar.
−E tira ele de perto do Miguel.
−Não tá nem perto dele. — Shun resmunga.
−Posso pegar papa?
−Claro que não Miguel, nem sabemos por onde esse bicho andou.
Eles estão discutindo nem sei quanto tempo. Estou no banco do carona já entediado com aquilo. Olho pela janela, pra chuva fina que está caindo, tentando imaginar que estou sozinho no carro.
−Melhor que comprar uma vida é salvar uma Hyoga. — Shun tenta apelar pro lado bom do pato.
−Primeiro que eu nunca pensei em comprar. — ele rebate. −E segundo que não vamos adotar. Amanhã mesmo você vai levar esse bicho pro abrigo.
−Nem pensar. Eles sacrificam os bichinhos lá.
−Como sabe?
−É o que dizem.
−Você não sabe nem o que está dizendo quanto menos o que os outros dizem.
−Sinceramente Hyoga. Você tem medo de gatos, é isso?
−Tenho medo das doenças que eles transmitem.
−Ele não tá doente. É até manso. Só tá um pouco sujo.
−Céus, se você soubesse a quantidade de bactérias e germes que tem nesse bicho não estaria segurando ele agora.
−Quando chegarmos eu dou um banho nele.
−Não se apegue demais. Não vamos ficar com ele.
−E por que não? Se tratar dele vamos poder sim.
−Por que eu não vou deixar e pronto.
Shun resmunga alguma coisa e finalmente ficamos em silencio.
...
Estou entediado virando de um lado pro outro na cama, sem sono.
Já é quase uma da madrugada quando alguém bate na minha porta.
−Nii-san. – Shun sussurra.
Vou abrir a porta quando ouço um miado.
−O quê?
Como eu esperava, ele estava mesmo com aquele gato nas mãos.
−Me faz um favor? – ele sorri com aquele olhar pidão.
−Não mesmo Shun.
−Por favor. – ele insiste manhoso. –Aqui é o único lugar que o Hyoga não procuraria.
Aquela informação só serve pra me deixar mais frustrado.
−Pelo que eu sei o pato disse que esse gato iria dormir lá fora. – replico.
−Mas tá frio lá fora, por favor, Ikki.
Suspiro.
−Tá bom, mas ele vai dormir no chão.
−Obrigado Ikki. – ele diz sorridente entrando no quarto com o bichano e uma almofada, imagine só, o folgado ainda vai dormir no conforto.
−Sabe que não vai poder esconder ele aqui pra sempre né?
−E só até eu conseguir convencer o Hyoga a ficarmos com ele. – ele diz distraído acomodando o gato mandrião.
−E é fácil assim? – digo rindo.
−Não, de jeito nenhum, aquele lá é teimoso por decreto, mas eu dou um jeito. – ele comenta confiante.
Ele se senta na beirada da cama observando o gato em silencio até enfim direcionar um olhar preocupado pra mim.
−É uma pena que o Shaka não tenha aparecido. – ele diz solidário. –Afrodite me contou que ele está em missão.
−Hum. – baixo o olhar, eu queria mesmo vê-lo.
−Você queria vê-lo? — ele pergunta.
−Eu... – ele sustenta o olhar. Shun realmente está preocupado comigo. Como poderia dizer que estou interessado no companheiro dele? –Não tenho certeza. Acho que sim.
−Não sente falta?
−É claro. – digo suspirando e sentando ao seu lado na cama. –Mas talvez ele esteja certo em me evitar. Sou insensível demais com ele.
−Não é tanto, não quando quer... – ele sorri para pedir desculpas. −Sabe que ele ainda gosta de você, mas e você Ikki, o que realmente sente?
Fico calado esperando uma resposta do vazio.
Shun suspira pacientemente.
−É isso que tem que descobrir antes de voltar pra ele. – ele diz por fim já se levantando, me colocando esse dever de casa antes de se retirar.
−Boa noite nii-san. – diz me dando um beijo na bochecha e em seguida se despedindo do gato.
−Boa noite. – digo cabisbaixo.
−Ah. – ele para antes de sair pela porta. –O que há entre você e o Hyoga?
Fale com o autor