Atração efêmera
3 Aproximação perigosa
Notas iniciais
−Boa noite nii-san. – diz me dando um beijo na bochecha e em seguida se despedindo do gato.
−Boa noite. – digo cabisbaixo.
−Ah. – ele para antes de sair pela porta. –O que há entre você e o Hyoga?
−O-o que quer dizer? – digo alarmado.
−Não sei, me diz você. – ele diz sério cruzando os braços.
−O que poderia haver entre mim e o pato além das frequentes alfinetadas? – digo rindo nervosamente, ele não poderia saber, poderia?
Ele me olha desconfiado sustentando o olhar, mas não consigo encara-lo. Tento mostrar que estou despreocupado, mas acho que minhas mãos apertando tão firmemente o colchão não passam essa impressão.
−Há alguns dias Hyoga me contou que você estava um tanto nervoso. – ele comenta.
Engulo o seco.
Ele permanece sério, fecha a porta colocando em seguida as mãos na cintura como se estivesse prestes a iniciar uma série de interrogações acusadoras. Droga! Agora que ele não vai sair tão cedo daqui.
−Disse que você parecia estranho, muito estranho. – ele diz colocando a mão no queixo num gesto interrogativo. −E também parecia bastante abatido nos últimos dias. Acredito que ele está certo, afinal isso é obvio. É claro que passei a te observar melhor, nii-san. Percebi que você anda mesmo nervoso, o problema é que você parece mais nervoso quando o Hyoga está por perto, aliás, percebi que você não tem provocado ele com suas brincadeiras sem graça de sempre, não como antes, e isso pareceu ainda mais visível hoje enquanto trabalhávamos no playground. O Hyoga fez alguma coisa que te deixou desconfortável? – ele realmente está me perguntando isso?
Não sabia o que responder, acho que seria uma boa ideia colocar toda a culpa no pato. Bom, talvez se...
−Eu... err... Bom, realmente não é nada, não entendo o que você quer dizer com isso.
Ele suspira colocando a mão no rosto pacientemente.
−O que poderia ser? – ele diz falando consigo mesmo, pensativo. –Vocês nunca se deram tão bem assim, talvez porque são tão parecidos, cabeças duras realmente não se batem. Talvez o fato de estarem vivendo juntos novamente não tenha sido uma boa ideia. – ele comenta colocando a mão no queixo como se buscasse a solução pra um problema que ele nem conhece.
−Shun...
−Ou pode ser também... – ele pensa e me olha surpreso. –Você se sente atraído pelo Hyoga, nii-san? – ele diz surpreso com suas próprias palavras, me encarando como se tivesse levado um soco no estomago, é tão ruim assim?
−O que?! – finjo indignação.
−Bom, você já me disse uma vez que achava ele atraente.
−Não! – digo com mais convicção que o necessário. –Quer dizer... ele é... ele é bonito, mas isso não significa que eu... eu não estou, você sabe... eu não poderia...
−Eu não sou cego nii-san. – ele diz cruzando os braços com aquela expressão que poucas vezes tive a oportunidade de ver. Shun pode ser assustador quando quer. –Sei que está passando por uma crise em sua relação com o Shaka e reparar nas pessoas próximas é o mais natural, tenho consciência também que o Hyoga desperta o interesse das pessoas, mas não achei que logo você seria afetado por isso. Afinal é do Hyoga que estamos falando, vocês nunca se deram bem, porque agora é diferente?
Peraí, esse pirralho está mesmo me colocando contra a parede? Eu sou o mais velho aqui, é bom que ele se lembre disso.
−Você rolou escada a baixo e bateu a cabeça, Shun? – digo sério me levantando, ele sabe intimidar, mas eu também sei, afinal ele aprendeu comigo.
−Hã? – ele parece confuso baixando a guarda e perdendo a pose. –Porque?
−Porque só batendo a cabeça com tanta força pra insinuar algo do tipo. EU me sentindo atraído pelo pato? Tá de brincadeira comigo? – Shaka tinha razão quando disse que eu seria um bom ator.
Ele me olha confuso, olhos bem vidrados, analisando a mim e minha resposta, mantenho-me firme e convicto querendo convencer a mim mesmo da veracidade daquilo.
−Tem razão. – ele suspira descruzando os braços. –Você nunca sentiria nada disso. – diz agora parecendo ridículo por ter insinuado aquilo. Só eu mesmo pra fazer com que ele se sinta ridículo com algo que ele tem total razão.
–Desculpe nii-san. É que... – ele coça a cabeça sem jeito. –Bom, você e o Hyoga se parecem tanto, que as vezes sinto que ele se sente mais à vontade com você do que com qualquer outro, quer dizer... há tantas coisas que eu não sei, e o Hyoga sempre tem assunto pra conversar com os outros, coisas que estou totalmente por fora, você sabe, coisas do tipo: carros, política, economia, esporte, e vocês sempre conversam com tanta sincronia sobre tudo isso que parecem uma extensão um do outro... somos um casal, mas também somos tão diferentes. Sinto que tem uma parte de mim que não atende a uma parte dele. Bom, ele é sempre tão natural comigo, nunca me deixa de fora de nada, as vezes ele tenta conversar comigo como ele conversa com você, mas eu sou tão tapado, não tenho opinião formada e nunca sei o que responder nessas ocasiões. – ele diz suspirando.
Como poderia responder aquilo? Extensão um do outro? Conversar com sincronia? Quantas conversas minhas e do pato ele presenciou? Houve momentos que estávamos juntos na mesma sala e parecia que tinha um decreto na porta com o aviso que o voto de silencio era obrigatório. Bom, admito que as vezes eu e o pato, quando estamos inspirados a falar, conversamos sobre todo tipo de coisa, gosto de descontrair com ele, gosto de suas opiniões, suas ideias, ele é dinâmico quando quer, e me inspira a ser também... Bom, talvez eu entenda um pouco o que o Shun quer dizer.
−Foi mal, nii-san. Você tá cheio de problemas e eu aqui fazendo acusações e descontando minhas frustrações em você.
−Espera aí Shun, o que quer dizer? Você e o pato parecem melhores amigos o tempo todo, qualquer um que passar um tempo com vocês vai dizer que são feitos um para o outro. Já vi vocês conversando, não parece que não tem assunto rolando. – comento estranhando.
−Ah, você sabe, são bobagens. – ele diz dando de ombros. –Hyoga acompanha meu ritmo, ele nunca insiste em um assunto que não me integro, só conversamos sobre coisas que me fazem sentir à vontade... Hyoga é um anjo não é. – ele diz com um sorriso bobo no rosto. –Tenho muita sorte.
Ah, sem dúvidas ele está apaixonado. Parece um idiota!
Shaka é como o Shun as vezes, um idiota. Houve momentos que eu falava tanto e o Shaka só me observava sorrindo, concordando e tentando me acompanhar. Acho que as vezes o único jeito de manter a harmonia de uma relação é tentar entender o parceiro, acompanha-lo, mesmo que isso não seja seu forte, o esforço de ambos é que faz as coisas darem certo. Bom, eu reconheço que o Shaka tentava me acompanhar, mas eu tentava fazer o mesmo por ele?
Na verdade, não me lembro de alguma vez ter sido tão condescendente com ele, na maioria das vezes eu ficava era irritado por ele não conseguir acompanhar meu ritmo. Acho que fui um idiota insensível a maioria das vezes. Shaka não merecia isso.
−Tentar entender o parceiro é o que faz as coisas darem certo. – comento pensativo.
−Isso mesmo. – ele diz contente por eu ter acompanhado seu raciocínio. –Acredita que eu comecei a assistir futebol só pra ter algo pra conversar com o Hyoga? Pra falar a verdade eu não gosto muito, mas ele sim, então achei que seria uma boa tentar entender o motivo disso.
−Ele faz o mesmo por você?
−É claro, quer ver? Eu gosto do canal de culinária, eu sei, não ria. –ele diz como se esperasse uma reação negativa minha. –Bom, e você conhece o Hyoga, ele não sabe nem fritar um ovo. – comenta rindo. –Então ele passou a assistir os programas comigo, até mesmo as receitas que eu aprendo ele se dispõe a acompanhar quando quero fazer, ele não tem o mínimo jeito na cozinha, as vezes só atrapalha, mas ele se esforça ao máximo, só pra me deixar contente. – ele diz com um sorriso encantador.
−Hum. – não me lembro de alguma vez ter tentado fazer algo do tipo pelo Shaka.
−Bom, eu viajei nessa bobagem, nunca haveria nada entre você e o Hyoga, afinal são os opostos que se atraem, não é? – ele comenta rindo.
−É, talvez.
−Bom, vou deixa-lo descansar. Boa noite nii-san. Boa noite gatinho. – ele diz finalmente se retirando.
Shun realmente me deu um susto agora, pensei que tivesse descoberto tudo, mas se ele percebeu então quer dizer que estou dando bandeira demais, tenho que ser mais cuidadoso, mas o que posso fazer se não consigo mais me controlar quando estou com esse pato?
E Shun ainda me deixou com muita coisa pra pensar. Eu realmente fui um babaca com o Shaka, será que foi por isso que não estávamos dando certo?
Pior que a dor de uma magoa é magoar a pessoa amada, assistir seu sofrimento e não poder mudar o passado. Queria poder voltar no tempo e consertar as coisas.
Pessoa amada? Novamente isso, realmente estou amando o Shaka?
...
Acordei com a luz forte vinda de uma linha da janela semiaberta que batia diretamente nos meus olhos. Que horas deve ser? Ah, é domingo, então não me importo.
Me mexi na cama e topei com alguma coisa impedindo que eu esticasse mais meus pés. Ainda sonolento me forcei a achar o empecilho.
Só pode ser brincadeira, esse gato tá folgado demais pro meu gosto. Deitado bem na base dos meus pés, em cima da cama. Vou já dar uns chutes nele pra a prender a deixar de ser folgado.
Ele se remexe um pouco se espreguiçando sem se importar de estar diante do meu olhar ameaçador.
Sento-me na cama pronto pra atira-lo pela janela. Ele simplesmente me olha como se dissesse que se eu tentasse ele simplesmente voltaria, o que eu diria ao Shun? Que o gato de repente decidiu tentar aprender a voar?
Ele miou com aqueles grandes olhos verdes de pupilas dilatadas. É só um filhote. Não posso joga-lo pela janela do segundo andar. Quem sabe se eu esperar ele crescer mais um pouco.
Ele senta-se na cama e começa a lamber suas pequeninas patas rajadas. Após se esticar mais um pouco enquanto se espreguiça ele decide vir até mim, miando e se enroscando como se coçasse. Ronronando como se eu tivesse feito um convite pra ele se aproximar abanando esse rabo felpudo tão languidamente.
Não te dei intimidade bichano!
Mesmo depois da minha recusa em acaricia-lo ele roda em um mesmo lugar entre as minhas pernas antes de se acomodar e deitar ali. Folgado!
Admito que ele é até bonitinho. Esse pelo de cores misturadas, mais pra malhado marrom. Todo peludo, espalhando esses pelos pela minha cama.
Quando dou por mim já estou o acariciando.
−Não se acomode demais, não vai ficar aqui comigo pra sempre. – o aviso.
Ele apenas me olha e responde com um miado.
−Tenho que levantar, já deve ser tarde. – comento, estou falando com um gato?
Suspiro com minha idiotice e me levanto da cama deixando ele por lá.
−Vou te trazer um pouco de leite, mas não se acostume. – digo pra ele antes de sair pela porta e ele apenas me observa atento antes de se despedir brevemente de mim com mais um miado.
Realmente deve ser tarde, ouço vozes vindo da cozinha.
−Bom dia, Ikki. — Shun diz sorrindo quando me vê.
−Bom dia. — digo pra todos.
Sentei a mesa com eles e percebi o pato lá fora andando de um lado pro outro no jardim.
−O que há com ele? — digo enquanto me sirvo com café.
−Procurando o gato. — Shun diz rindo.
−Eu quero o gatinho tabem. -Miguel pede.
−Estou tentando isso, querido. -Shun responde. −Ele tá bem escondido?
−Sim, mas vai ter que pegar ele logo. — resmungo.
−Não! Ainda não consegui convencer o Hyoga. Ele quer levar o bichinho pro abrigo.
−Espera aí. O gato tá com você? -May diz surpresa −Hyoga vai ficar uma fera, ele tá mais de vinte minutos procurando esse gato.
−Ele supera. — Shun diz indiferente.
−Deixe que leve logo. Não vou abrigar aquele folgado pra sempre. — digo.
−Ah, por favor, Ikki.
Hyoga desistiu de procurar lá fora e voltou pra dentro com cara de poucos amigos e todos ficamos em silencio.
Parou de frente pra mesa cruzando os braços e olhando muito sério pro Shun.
Shun fingia que estava distraído passando manteiga em uma torrada da forma mais lenta possível.
Parecia que uma ogiva estava prestes a ser detonada. Mesmo quem não estava envolvido nessa confusão parecia tenso. Até o Miguel parecia consciente que não deveria abrir a boca naquele momento.
−Ao que parece você só vai falar na base da tortura não é Amamyia? -ele diz com uma voz extremamente fria e calma, esses calmos que dão medo.
Shun continua fingindo que não é com ele fazendo o pato parecer mais puto da vida ainda.
−Muito bem então. -disse frio e se retirou bufando.
Ótimo. Guerra declarada em plena manhã de domingo.
Não me lembro de já ter visto ele irritado assim, não com o Shun.
Shun suspirou alto quando ele saiu. Parecendo prestes a se desmanchar na cadeira. Bom, foi ele mesmo que pediu por isso.
−Eu tô ferrado. — Shun comenta.
−O que ele poderia fazer? — pergunto, afinal o pato jamais torturaria o Shun. Será?
−É difícil dizer, ele é sempre imprevisível. Só sei que tenho que ficar bem esperto daqui por diante.
−É só devolver o gato, ora.
−Não vou fazer isso. — ele resmunga. Teimoso como sempre.
−Papa tá bravo? -Miguel pergunta.
−Com certeza. Procure não o aborrecer Miguel. — Shun avisa.
−Hyoga nunca desconta em ninguém. — Mai defende o pato.
−Ah claro, só em mim. — Shun resmunga.
−Ao que parece é sempre você que começa. — digo.
−Estão todos do lado dele agora? -Shun diz indignado.
Hyoga retorna e aparece na cozinha já vestindo uma jaqueta, se aprontando pra sair.
−Aonde você vai? -Shun pergunta aborrecido.
−Sair.
−Disso eu sei. Quero saber pra onde.
−Assunto meu. — ele diz simplesmente enquanto vai até a geladeira e procura insistentemente por alguma coisa em particular.
−Como assim assunto seu? — Shun continua discutindo.
O pato apenas ignora e continua sua busca.
−Não temos carne? – o pato pergunta.
−Pra quê? – Shun diz receoso, até eu fiquei.
−Será que vendem ratoeiras grandes na loja de ferramentas? – o pato pergunta deixando todos mais receosos ainda. –Qual o tamanho do gato mesmo Shun? – ele pergunta ao Shun esboçando um sorrisinho.
−Tá brincando né? – Shun diz surpreso.
−Bom, não custa nada tentar. – ele diz sem qualquer preocupação com a surpresa de todos e se retirou assobiando.
−Ele não poderia estar falando sério, poderia? – Shun diz ainda não acreditando.
...
Esse gato tá cada vez mais folgado, passou a manhã toda deitado na minha cama. Estou começando a achar que o pato tem razão sobre esse gato ser um estorvo.
Como era domingo e eu não tinha nada pra fazer, decidi distrair minha mente com um dos vários livros da coleção do Shun. Sempre achei que esses autores britânicos eram uma droga, mas pensando bem ‘Orgulho e preconceito’ não é tão ruim assim.
−Ela realmente estava errada sobre ele, não acha? – pergunto para o vazio, a quem estou tentando enganar? Estou falando com esse gato de novo.
Ele apenas permanece deitado lá, me olhando. Qual o problema desse bicho? Normalmente os filhotes brincam o tempo todo, não é?
−Está entediado? – ele me responde com um miado.
−Talvez eu devesse ter lido em voz alta. – comento. –Em tempos modernos... acha que se esses tantos mal-entendidos foram uma forma do destino unir eles no final? – comento olhando pro teto. –Aliás, eles vão ficar juntos no final?
Ele dá mais um miado.
−É, tem razão, bichano... se ficassem juntos desde o princípio tiraria toda a estrutura da história, o orgulho dele e o preconceito que dela. – concordo com o pensamento do bichano.
Volto a olha-lo.
−Você precisa de um nome, pelo menos um provisório. Não posso te chamar de bichano pra sempre.
Ele apenas limita-se a se espreguiçar antes de se sentar e me olhar com mais atenção.
−Nunca tive nenhum bicho de estimação, qual nome as pessoas costumam dar aos gatos?
Ele parece entender tão bem o que digo que até assusta.
−Talvez de preguiçoso, você é isso mesmo né? – digo rindo.
Ele joga o ar pelas narinas com força, como se tivesse entendido a ofensa.
−Tá bom, vou pensar em algo melhor.
Ouço batidas na porta.
−Ikki? – é o Shun.
−Entra. – digo deixando o livro de lado.
−Tá falando sozinho? – ele pergunta estranhando.
−Com as paredes Shun, estou falando com as paredes. – digo entediado.
−Hunf. E como você está Eikichi? – ele diz afagando o gato.
−Eikichi? Que nome ridículo é esse?
−Como assim ridículo? É de um anime. – Shun reclama.
−Então esse anime também é ridículo.
−Ridículo é você que fala com as paredes. – diz indiferente. –Anda, o almoço tá pronto. – diz indo e resolvo segui-lo antes de me despedir do gato. Isso não é bom, estou me apegando demais a esse bichano.
Hyoga já tinha chegado e falava muito animado ao telefone enquanto andava lá fora no jardim, provavelmente procurando pelo gato de novo.
−Desliga isso e vem pra mesa Hyoga. – Shun resmunga pela janela.
Hyoga apenas acena enquanto ainda conversa animadamente.
−Com quem ele tanto fala? – pergunto.
−Como o melhor amigo dele. – Shun diz revirando os olhos em agrura.
Melhor amigo?
O pato finalmente vem pra mesa, mas exibia um humor estranho que dava calafrios, o que ele tá aprontando?
−Vai dizer onde esteve a manhã toda? – Shun pergunta desconfiado pro pato quando já estamos comendo.
−Não vai querer saber. – diz com um sorrisinho. –A propósito, como está o gato?
−Não diz onde vai, mas quer que eu diga o paradeiro do gato? – Shun diz arqueando uma sobrancelha.
−Diga onde ele está que eu digo onde eu fui.
−Esquece.
O pato apenas ri.
−Poquê o catinho num pode fica, papa? – Miguel pergunta.
−Você pode ser alérgico, Miguel.
−Como pode saber? – Shun contesta. –Ele ficou perto do gato ontem e não aconteceu nada.
−Existem diferentes tipos de alergia Shun.
−Discordo. – Shun diz teimoso.
−É mesmo, você é médico? – o pato diz irônico.
É, parece que essa guerra está longe de acabar.
−Será que podemos esquecer esse gato por alguns minutos? – Mai reclama.
−Você sabe onde está? – o pato pergunta.
−Não. – Mai diz impaciente. –Podemos conversar outra coisa?
−Sobre? – o pato pergunta.
−Hoje é domingo, podemos sair? Quero relaxar da semana de provas.
−Isso é ótimo. – Shun diz animado. –Podemos ir ao cinema. – conheço bem as técnicas de distração do Shun, quer tirar a atenção do pato de cima dele.
−Não poderei ir, tenho que revisar os currículos de alguns residentes. – Hyoga comenta.
−Só isso mesmo? – Shun diz desconfiado.
−É claro, que outro motivo eu teria pra ficar em casa? – o pato diz sarcástico.
−Ora, por favor, parem com isso. – Mai diz.
−E você? Como foi nas provas? – o pato pergunta. Ótimo, um novo assunto.
−Fui bem, vou pegar os gabaritos na semana que vem. – ela diz animada.
−Caiu muita coisa de anatomia que estudamos?
−Sim, me ajudou bastante. – Mai diz sorrindo. Se essa garota não tivesse namorado eu iria jurar que ela tem uma queda pelo pato. –Você devia dar aulas na universidade, Hyoga.
−Nem pensar. – Shun logo se opõe.
−Porque não? – Hyoga pergunta.
−Se for como da ultima vez, lembra quando você trouxe suas amigas aqui pra ter aulas com o Hyoga também? – Shun diz olhando pra garota.
−Aquilo foi um caso a parte. – ela se defende.
−Elas ficaram o tempo todo se derretendo pro Hyoga ao invés de prestarem atenção na aula. – Shun comenta me olhando.
−Não tenho culpa dele ser assim. – Mai comenta.
−Assim como? – o pato pergunta.
−Err... assim, ora. – Mai diz envergonhada.
O pato só se limita a dar uma risada. Não falei? Ele sabe que é atraente, esse idiota.
−Você gosta disso, não é? – Shun diz desconfiado pro pato.
−Não disse isso. – ele se defende.
−E então, nós vamos sair ou não? – Mai muda de assunto.
−Vamos sim, Mai. – Shun concorda. –Você vem Ikki?
−Não estou afim de sair. – acho que é a primeira coisa que digo.
−Vai passar o domingo trancado no quarto? – lá vai começar os sermões.
−Não, vou passar o domingo no quarto lendo. – digo indiferente.
−O que está lendo? – o pato pergunta.
−Um dos livros do Shun, ‘Orgulho e preconceito’.
−Hum? Esse não é meu. – Shun diz estranhando.
−É meu. – o pato comenta. –Bom, não exatamente, era da minha esposa. – ele diz e todos paramos de comer, ficamos paralisados com medo de dizer alguma coisa errada. Isso era mais que visível já que o tilintar de talheres parou de imediato.
−Calma gente. – o pato diz sorrindo. –Não é nada demais. É um bom livro, também gosto dele. – o pato comenta pra aliviar o clima.
Acho que ele realmente superou isso.
−Então você prefere ficar no quarto do que sair com a gente? – Shun volta a me questionar depois que o clima tenso se desfez.
−Já falei que vou ficar lendo.
−Hunf. Você que sabe. – sei que ele ficou chateado.
Depois de ajudar o Shun com a louça e um tempo enrolando em conversas que apenas o Shun falava, eu fui pra sala pra me distrair com a Tv por algum tempo antes de voltar a ler.
Quando entrei percebi o pato deitado no sofá maior assistindo o canal de notícias.
−Oi. – digo me sentando num sofá próximo.
Ele não respondeu, permanecia quieto. Depois de observa-lo melhor que eu percebi que ele estava adormecido.
Me aproximei mais, ele respirava calmamente, seu rosto é tão apático quanto quando ele está acordado, será que sou o único que recebe esse tipo de expressão dele? Ainda assim suas feições são suaves, talvez seja a serenidade de suas feições que contribuem tão bem com sua frieza de sempre. Orgulho, não é? Sem dúvidas ele tem de sobra.
Seus cabelos não são lisos como os do Shaka, é meio ondeado. Qual seria a textura?
Lembro-me de passar horas acariciando os longos cabelos do Shaka, cabelos finos e aveludados, tão longos que meus dedos se perdiam na metade do caminho.
O cabelo do pato não era longo do jeito que eu gostava, mas será que a textura é a mesma?
Quando dei por mim a curiosidade já tinha vencido meu bom senso e do nada eu já o estava acariciando. Como eu pensava tão sedosos quanto os do Shaka.
Meus dedos encostavam propositalmente na pele do seu rosto. Normalmente sua pele é fria assim?
Ele vai abrindo os olhos lentamente. Acho que me perdi no tempo e cometi o erro de não retirar minha mão antes que ele despertasse de vez.
−Ikki? – assustou-se com minha proximidade.
Foi quando me toquei da minha idiotice, o que eu estava pensando?
−E-eu... eu estava... err... não é o que você.... não é nada demais. – digo de uma vez nervoso.
Será possível que eu nem consigo formular uma frase decente?
Ele permanece me olhando estranho.
−Hyoga. – Shun o chama aparecendo do nada na porta.
−Hum? – diz finalmente desviando o olhar de cima de mim.
−Eu e a May vamos ao shopping fazer umas compras e depois vamos ao cinema. Vou levar o Miguel.
−Eu deveria ir?
−Se não quiser.
−Não quero, obrigado.
Shun apenas suspira vencido.
−Precisa de alguma coisa? Cuecas; meias; força de vontade?
−Talvez menos sarcasmo.
−Vou procurar, mas não garanto nada.
O pato apenas limita-se a esboçar um sorriso irônico.
−Tá, boas compras e bom filme.
Shun apenas retribui o sorriso. Novamente esses dois me irritam com essa cumplicidade. Ao menos é a deixa pra eu me afastar.
−Não procure nada que não queira achar, viu? – Shun avisa o pato antes de sair.
−Garanto que o que vou procurar é o que quero achar. – o pato diz ainda mantendo atenção no Shun, mas notei que ele observou minha retirada estratégica.
−Hunf. E você nii-san? Não quer mesmo vir conosco?
−Não, obrigado. – digo rápido.
O pato mantêm um olhar desconfiado pra mim, mas procuro me fazer de desentendido.
−Certeza? – Shun insiste.
−Sim, vou terminar de ler. – digo já me retirando daquela sala e do olhar desconfiado do pato. Será que dessa vez eu dei bandeira demais?
...
−É, eles ficam juntos. – comento depois que termino o livro.
O gato apenas permanece me encarando.
−Você não quer saber como terminou? – pergunto a ele. –Sei, quer ficar na expectativa né?
Me aconchego melhor e começo a refletir.
Como vou encarar o pato agora? Aliás, onde ele pode estar? Faz algum tempo que não ouço nada lá embaixo. Bom, só estamos eu e ele em casa, então realmente não tem barulho.
Ele pode simplesmente estar dormindo de novo.
Me levanto e olho pela janela, o tempo está nublado, estamos no inverno, mas a neve ainda não caiu. Será que ainda vai nevar?
Shaka poucas vezes viu a neve. Quando acontecia ele ficava horas sentado na varanda, apenas observando os flocos brancos caírem.
~~
−Acho que você devia ter sido um cavaleiro do gelo. – comento quando chego do trabalho e o vejo sentado lá.
−É lindo, não é. – ele comenta sem desviar os olhos do espetáculo.
−É só neve, Shaka. – comento indiferente.
−Eu gosto. – diz sorrindo.
O observo, está tão concentrado naquilo. O que há de tão interessante na neve?
−É frio, gosto do quente. – comento parando de frente a porta de vidro e observando o que ele tanto admirava.
Ele me olha e simplesmente sorri.
−A neve que cai, modifica o cenário... Ontem foi verão, hoje é inverno. As estações se sucedem, modificando tudo ao seu redor, assim como na natureza, o tempo também nos modifica... E temos a oportunidade de ficar cada vez melhor. – ele diz e volto a encara-lo.
−O que quer dizer?
−O quanto o tempo o modificou, Ikki? – ele diz num tom neutro.
A pergunta encontra o silencio e cai no esquecimento.
~~
Estou modificado?
Eu não era tão fascinado pela neve quanto sou hoje. Apesar de tudo eu ainda não sei responder aquela pergunta.
Suspiro.
Desço com o livro que acabei de ler em mãos. Ouço a voz calma do pato vinda do escritório deles, parecia estar falando ao telefone.
Paro de frente a porta em dúvida se deveria bater.
−Oi. – digo simplesmente entrando.
Ele me olha brevemente e continua falando no telefone. Estava com o notebook ligado e vários papeis espalhados na mesa.
Olho em volta e paro naquela estante gigante, ia do chão ao teto e ocupava as duas paredes laterais, a imensa coleção de livros deles. Coloco o livro que acabei de volta no lugar e procuro por outro pra me distrair.
Espiono discretamente o pato falando. Parecia um tanto animado, como mais cedo, não sei dizer, entendo pouquíssimo de russo, só pude identificar um nome: Adam.
Sempre tive fascínio pela facilidade dele em saber tantos idiomas. Eu particularmente só sei quatro, acho que ele sabe bem mais.
Ele parece mais animado depois de ouvir alguma coisa na ligação e após alguns minutos ele finalmente desliga.
−Terminou o livro? – ele pergunta mantendo a atenção na tela do notebook.
−Sim. – digo.
−Gostou? – ele pergunta finalmente me olhando.
−Foi legal. – digo simplesmente.
−Hum. – voltasse pra tela e começa a digitar olhando continuamente para alguns dos papeis espalhados, quem diria que médicos também tem esse tipo de trabalho burocrático.
−Recomenda algum? – pergunto, mas ele continua concentrado na tarefa.
Ao menos essa indiferença me deixa mais tranquilo quanto ao episódio constrangedor que tivemos mais cedo.
−E então? – volto a perguntar.
−Hum?
−Recomenda outro?
Ele me olha confuso retirando os óculos.
−Outro?
−Livro.
−Ah sim. – ele se levanta de seu lugar e se aproxima. –Bom, prefere os estrangeiros? – ele pergunta olhando para os vários livros.
−Tanto faz, desde que seja em inglês ou japonês.
−Hum. – ainda permanecia concentrado a procura de algo pra mim.
−Estou atrapalhando? – talvez eu tivesse subestimado sua ocupação.
−Ah não, só estou adiantando o trabalho. – ele diz me olhando brevemente.
Após algum tempo indeciso ele retira um único livro da estante.
−Wuthering Heights. – diz me entregando.
−Hum? – estava distraído observando seu perfil.
−O Morro dos ventos uivantes. – ele repete me entregando o livro. –Ele é bom, acho que você vai gostar. – ele diz sorrindo.
−Obrigado. Eu... posso ficar aqui? – pergunto enquanto ele volta pra sua mesa.
−Fique à vontade. – diz indiferente recolocando os óculos e voltando-se para seu trabalho.
Essa indiferença as vezes me mata. Como o Shun consegue lidar com isso? Bom, talvez esse pato seja assim apenas comigo.
Sento-me em um dos sofás e começo a ler, ao menos tento, já que olhar pra esse pato parece mais interessante.
Nem sei quanto tempo fiquei ali o observando discretamente. Olhei as horas e já eram quase sete, o tempo voou.
Passado mais um tempo o pato levantou-se e se retirou, então decidi finalmente me concentrar naquele livro, olhei novamente a hora e me certifiquei que só tinha passado dez minutos, porque o tempo parece passar mais rápido quando estou com esse pato?
Talvez seja melhor ler para o gato, ele poderia se interessar pela história também.
Segui pra subir para meu quarto, quando ouvi o som agudo de panelas sendo derrubadas na cozinha.
−O que está fazendo? – perguntei quando entrei na cozinha e vi o pato tentando recolher o -macarrão cozido que cairá no chão.
−Tentando fazer miojo. – ele disse sem jeito.
−Mas essa é a coisa mais simples do mundo de se fazer.
–É que acabou o instantâneo.
−Mesmo assim, como conseguiu fazer toda essa sujeira? – digo surpreso quando olho pra bancada e vejo uma zona.
−Shun não deixou o jantar pronto, e eu não sei cozinhar, estou com fome. Achei que conseguiria fazer ao menos isso sem ajuda. – diz olhando sem jeito pra bagunça.
−Era só me chamar, idiota. – digo o empurrando dali. –Saí, vou dar um jeito nesse macarrão.
Recolho o macarrão e começo a lava-lo.
−Será que eu posso ajudar? – ele pergunta se esticando para olhar curioso a tarefa que eu executava.
−Não.
−Sabe o que está fazendo?
−É claro.
−Talvez seja melhor fazer só um sanduíche. – ele sugere.
−Sou eu que estou preparando, não é.
−É que não gosto de dar trabalho pra ninguém.
−Não se preocupe, também vou comer.
Terminei de lavar a massa e despejei numa panela a fim de temperar o molho.
−Posso cortar os tomates se você quiser. – ele propõe quando me vê lavando o fruto.
−Tá bom. – digo lhe entregando.
Vou acender o fogo da panela, quando me viro de volta vejo o pato olhando com cara de idiota para os tomates e a faca.
−Como eu devo cortar? – ele pergunta inocentemente.
−Será possível pato? – digo impaciente. –Deixa de ser burro.
−Tenho que saber ora. – diz revoltado.
−Em cubos, idiota.
Ele pega a faca e começa a cortar com a velocidade de um coala em câmera lenta. Como se calculasse o tamanho de cada cubinho milimetricamente.
−Ah, pelo amor de deus. Dá isso aqui. – pego de suas mãos e executo eu mesmo aquela tarefa.
Corto o fruto com a habilidade de um samurai e jogo na panela pra em seguida misturar os temperos que selecionei.
Ele me olhava emburrado, talvez decepcionado por sua total inutilidade. Então decidiu limpar a bagunça que ele fez.
−Como prendeu a cozinhar? – ele está mesmo interessado? Isso me deixa um pouco feliz.
−Sozinho... quer um ovo cozido?
−Sim.
Coloco dois ovos na mistura do caldo e fecho a panela deixando cozinhar. Quem diria que um dia eu estaria cozinhando para Hyoga.
−Como assim sozinho?
−Sei lá, eu misturava as coisas, provava, adicionava outra, assim.
Ele ficou em silencio sentado junto a bancada.
−Deve me achar um inútil, não é? – ele diz envergonhado.
−Porque eu acharia? – digo enquanto observo seu perfil de um ângulo privilegiado.
−Sequer sei me virar sozinho, não sei o que eu faria sem o Shun, em todo caso eu sempre preciso de alguém pra cuidar de mim, isso é frustrante, mal parece que tenho vinte e oito anos na cara. – ele diz triste.
−Tenho certeza que você tem outras habilidades. – tento anima-lo.
Ele sorri.
−Nada que seja de uso doméstico. Talvez eu só seja bom no trabalho.
−Shun me disse que você sempre o ajuda quando cozinha.
−Ele não comentou que eu mais atrapalho do que ajudo? – ele diz rindo.
−Ele não pareceu se importar.
Ficamos em silencio por um tempo, apenas olhando para as paredes.
−Você sempre cozinha pro Shaka? – porque ele decidiu falar do Shaka assim de repente?
−Algumas vezes. – na verdade eu adorava cozinhar para o Shaka e ele também adorava quando eu fazia isso.
−Você parece gostar.
−É relaxante.
Mais um tempo em total silencio.
−Obrigado. – ele disse do nada.
−Porque?
−Eu nunca agradeci, não é?
−Pelo o quê, pato?
−Uma vez você me disse que gostava de mim, e que não se importaria se eu e o Shun ficássemos juntos... obrigado por ter me aprovado. – ele estava vermelho.
Eu realmente o aprovei, foi o único que aprovei pro Shun. Isso faz de mim o idiota mais altruísta do planeta, entreguei a pessoa que gosto de mão beijada pro meu irmão.
−Apenas cumpri meu papel de irmão. – disse seco. Mas ele estava certo, ele é mesmo a pessoa ideal pro meu irmão, por mais que me doa admitir isso.
−Você é uma pessoa fantástica Hyoga, disso eu sei, e é por isso que eu aprovo você. – acabo admitindo.
Olhei emburrado pra um ponto na parede, olhei, olhei até enfim perceber o olhar do pato fixo em mim.
−Você não percebe Ikki, mas as vezes você é uma pessoa extremamente doce. Deveria exercitar mais esse lado, principalmente pra pessoa que ama... cozinhe mais. – ele sugere, ainda sorrindo ternamente pra mim.
O que isso quer dizer?
...
Após um breve jantar com o pato eu me refugiei em meu quarto pra pensar sobre o que ele dissera.
Adoro cozinhar, não só cozinhar, gosto de preparar coisas especiais pras pessoas que gosto, e principalmente, adorava a companhia do Shaka em meio essa tarefa.
Ele sorria mais nessas ocasiões. Como era mesmo seu sorriso? Shaka sempre foi uma pessoa séria, raramente ria de alguma coisa, mas quando o fazia era como se fosse uma estrela brilhando, um espetáculo.
Fecho os olhos tentando lembrar de seu sorriso, como essas lembranças podem estar desaparecendo tão rápido da minha mente?
Forço um pouco a memória, mas tudo que consigo visualizar é a última imagem do pato sorrindo pra mim, isso é tão raro que pode até substituir o Shaka.
Merda! Tenho que parar com isso, acabei de confirmar a gratidão que o pato tem por eu tê-lo aprovado com meu irmão, mas minha mente vive me empurrando fantasias sem cabimento com esse pato.
Eu deveria evitar ficar sozinho com o pato de novo.
...
Acordo cedo, tenho que trabalhar hoje, mas na verdade o que me acordou não foi o despertador, mas sim as mordidas que esse gato está dando nos meus dedos dos pés, na tentativa de ter minha atenção pra brincar.
−Fica quieto aí. – resmungo encolhendo as pernas, mas isso não o detém. –Tá bom, já vou levantar. – digo me colocando de pé pra buscar o que ele quer: leite.
Desci pra cozinha e já vi o pato de costas sentado à mesa da cozinha.
−Bom dia, pato. – digo indo até a geladeira.
−Privet*. – pude identificar na mesma hora que não era sua voz.
Rapidamente me virei pra ele, não eram seus olhos azuis, mas sim verdes. Parecia muito, mas não era ele. Quem é esse cara?
Shun aparece na cozinha.
−Bom dia nii-san, já conhece o amigo do Hyoga? – disse acenando pra aquele sujeito.
Olho novamente pra ele, ainda assustado com aquela aparência tão familiar.
O sujeito apenas limita-se a acenar e sorrir pra mim.
−Ainda não. – digo.
−Seu nome é Adam. – ele diz. –E Adam, esse é o Ikki, meu irmão.
−Oi. – digo.
Amigo do Hyoga é? Tá mais pra gêmeo. Até que isso é bastante conveniente.
Privet*=привет=Oi.
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