Atos e Conseqüências
3 Recomeço
Notas iniciais
##################### ALGUNS ANOS DEPOIS ####################
Abri os olhos devagar, a chuva batia na janela e convidava-me a retornar a dormir, me revirei na cama escondendo o rosto debaixo do travesseiro e soltando um sonoro suspiro. Fiquei, por alguns minutos, imóvel e depois levantei preguiçosamente, fechei os olhos espreguiçando-me para logo levantar-me e caminhar até a escrivaninha de estudos, lá peguei uma foto antiga.
Nela viam-se duas garotas abraçadas, rindo, exalando felicidade e paixão por todos os poros do corpo, suspirei profundamente.
— Já se passaram mais de dez anos desde a última vez que nos encontramos e você não sai do meu coração e pensamento nem um segundo sequer. Como pude deixar você ir assim de mim? - suspirou, novamente. - Gostaria que você voltasse, que tivéssemos uma segunda chance. Eu juro que seria tudo diferente. Eu ainda lhe amo.
Deixei o porta-retratos no mesmo lugar, fui até meu guarda roupas, peguei uma calça jeans justa, azul escura com apenas os bolsos traseiros, uma blusinha branca, ajustada ao corpo, não muito apertada, mas o suficiente para definir-me as curvas.
Arrumei a cama, joguei o travesseiro e o pijama de qualquer jeito no guarda-roupa, saindo do quarto em direção à cozinha. Lá abri a geladeira, peguei o leite e a manteiga, derramei o leite num copo que estava no escorredor, coloquei chocolate, não suportava café pela manhã, fazia com que ficasse de mau humor, e esquentei apenas o tempo necessário para que o chocolate dissolvesse por completo.
Fui até a mesa, deixei o leite e a manteiga, peguei o controle do som no balcão e liguei o rádio em minha estação favorita, sentei-me na mesa, beberiquei o leite de maneira despreocupada enquanto passava a manteiga num pão e dava uma mordida. Era o começo de um sábado comum para mim, se não fosse pelo toque de meu celular. Atendi calma, mas minha feição logo mudou para uma de preocupação e esperança.
— Tem certeza disso? — tomei um gole de seu leite automaticamente. — Saiba que é muito arriscado para vocês, ela saiu daqui dizen... - calei-me suspirando com a resposta do outro lado. - Está bem, ficarei pronta. Quanto tempo? Meia hora? Tudo bem. Tchau. - suspirei, terminei meu leite e voltei para meu quarto, não poderia perder tempo.
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Fui desperta pela aeromoça avisando que em breve chegaríamos ao nosso destino, espreguicei-me e olhei minha companheira que cochilava ao meu lado, sorri e, carinhosamente, comecei a chamá-la.
— Fer... Fer... Acorda, Já estamos quase chegando, linda. - ouvi um resmungo de sua parte, já estava acordada.
— Já chegamos??? - perguntou em meio a um bocejo. - Mas não passaram nem dois minutinho desde que você dormiu. - resmungou indo olhar para o relógio, levou um susto ao ver que horas eram. - Puts!!! Acabei dormindo também e nem notei o tempo passar.
— Depois a preguiçosa sou eu, né? — brinquei fingindo-me brava.
— Ahhh, o bebezinho da mamãe ficou bravo foi? Num fica assim não, a mamãe jura que compra um docinho pra você quando descermos, ta lindinha? - respondeu zoando com a minha cara.
— Droga!!! Mato o Mauro e a Flávia. Já falei mais de mil vezes que odeio que me chamem de lindinha. Fico parecendo uma criancinha, saco! - resmunguei, era óbvio que não suportava quando me chamavam desse jeito e, mais óbvio ainda, era como ela adorava chamar-me assim. Só pra irritar mesmo.
— Calminha. Já estressada e nem ao menos chegamos ainda. - respondeu zombeteira.
— Cala boca, vai? - estressei mesmo, meio italiana, meio espanhola e pedem-me calma. É o mesmo que dizer para um vulcão, em plena atividade, não exploda, inútil.
Nossa discussão iria continuar se não fossemos interrompidas pela aeromoça avisando que estávamos aterrissando, deveríamos colocar os cintos e mais algumas informações padrões antes da aterrissagem, não agüentei a saudade e abri a janelinha. Olhar minha terrinha querida do alto era uma sensação maravilhosa, principalmente depois de estar afastada por tanto tempo daqui.
— Dá para fechar essa porcaria de janela ou vai ser difícil? - perguntou minha educada amiga, a qual morre de medo da aterrissagem. Não me perguntem nada, nem eu entendi muito bem esse medo.
— Tá com medinho, ta? Não se preocupa não que a titia ta qui pra segulá sua mãozinha, viu? - respondi sarcasticamente fingindo falar com um bebê, respondendo ao ‘lindinha’ de antes.
— Cala boca! - murmurou de olhos fechados e agarrando a poltrona. Ri um pouco, mas fechei a janela, já tinha visto meu país de novo, estava satisfeita.
Depois de passar pelo check-up, e toda uma série de procedimentos tediosos estávamos liberadas, fomos para um café e liguei para um amigo.
— E ai cara? Onde você está? - fiquei quieta por alguns instantes e depois respondi. - Tudo bem, estamos em um café por aqui. Quando chegar ligue-me e vamos para o estacionamento. Tchau. - desliguei e virei-me para minha acompanhante. - Ele pegou o maior trânsito pela chuva e vai demorar algum tempo.”
— Sem problemas. - disse e sorriu, completando em seguida. - Você pode me contar de alguns lugares que me mostrará.
— Nem bem chegou e já está assim de curiosidade, garota? - não podia perder a oportunidade de ver sua cara de brava. Sorri e comecei a explicar nosso itinerário, por assim dizer.
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Fui desperta de meus devaneios pelo som da buzina, eles chegaram. Sai de casa, tranquei a porta e sai correndo até o carro para não me molhar muito. Entrei, já estavam todos lá, partimos e o silêncio instalou-se entre nós, um silêncio incômodo, pesado, diria até, hostil.
— Vocês tem certeza que querem fazer isso - perguntei temerosa, as imagens daquele dia não saiam de minha memória. - Ela pode reagir do mesmo modo.
— É um risco que vamos correr. - respondeu o homem atrás do volante. - Não agüento mais vê-la definhando, a tristeza consumindo cada rastro de vida de seu corpo. - parou de falar, vi uma lágrima aparecer em seus olhos, mas não deixou que ela caísse.
— Nem da última vez foi tão intenso como essa. - a mulher no banco de passageiros afirmou. - Acompanhei as duas crises e posso afirmar com toda a certeza que ela ainda sofre por tudo, muito embora finja bem melhor. Seus olhos não conseguem esconder o que sentem e estão opacos desde...
— Minha suposta traição. - completei com pesar, ainda doía sua falta de confiança em mim, mas sabia que a culpa era inteiramente minha. Ninguém falou nada, todos naquele carro sabiam o que acontecera anos atrás.
— Todos mudaram, ninguém mais é o mesmo de dez anos atrás. Você pagou tudo o que colheu e sei que ela reconhecerá isso. - respondeu, com voz cansada, uma mulher de olhos azuis. - Dessa vez as coisas serão diferentes.
— É tudo o que desejamos. - completou o homem de olhos negros. O silêncio tornou a voltar, virei meu rosto para a janela, chovia. “Como aquele dia”, foi meu único pensamento.
Em pouco tempo chegamos ao aeroporto, antes de descermos o homem novamente falou.
— Ela vai estar acompanhada por uma amiga muito querida, foi o suporte emocional dela durante muito tempo e conhece toda a história. - seu tom era de aviso, ninguém falou nada e saímos indo para o café que estaria esperando.
Conforme nos aproximávamos de onde estavam meus passos iam diminuído sem que pudesse controlar, estava com medo de sua reação, medo de, novamente, ver seus olhos frios, sarcásticos. Temia que, igualmente anos atrás, ela partisse para longe de mim, mesmo que permanecesse no mesmo estado e cidade.
— Vamos logo, elas estão ali. - avisou nosso amigo apontando para uma mesa, vi como uma loira sorria e acenava para nós. - AI ESTÁ NOSSA LINDINHA!!! - em outra situação eu riria, pois ela odiava ser chamada assim, mas prendi a respiração ao ver como girava, levantando-se da cadeira, e seu rosto de brincalhão tornava-se assustado.
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— AI ESTÁ NOSSA LINDINHA!!! - não pude deixar de sorrir ao ouvi meu queridíssimo amigo gritar meu mais odiado apelido.
Virei pronta para mandá-lo para um lugar não muito agradável, mas meu rosto foi tomado pelo espanto de ver as duas pessoas que eu menos queria reencontrar naquele momento.
Nossos olhares encontraram-se e não consegui pronunciar nada até que ficamos frente a frente, uma mistura de sentimentos veio à tona, tristeza, raiva, decepção, e, por mais que não quisesse admitir, felicidade e admiração, porém, como de costume, não demonstrei e minha voz saiu controlada.
— O que elas fazem aqui? - olhei para meus dois amigos esperando uma resposta.
— Raquel! Deixa de ser mal-educada, não fale assim com as garotas. - olhei para ela sem alterar nada, não era sua culpa que durante todos esses anos eu não tenha mostrado nenhuma foto delas, pois a história ela já sabia. - Desculpem a mal-educada da minha amiga, eu sou a Fernanda e vocês são?
— Eu sou a... - começou a responder a de olhos claros olhando fixamente para mim, vi mágoa, tristeza e cansaço dentro daquele olhar.
— Elas são Jackeline. - cortei-a apontando para a de olhos negros que ficara calada até o momento. - E esta é a Carolina. - apontei para a de olhos claros. - Já falei delas para você. - terminei e as duas abaixaram a cabeça.
— Oh! Então vocês são...? - minha amiga não terminou de falar e ficou olhando de mim para elas, espantada.
— E então Mauro? Por que elas estão aqui? - perguntei novamente, ainda controlada.
— Vocês tem assuntos incompletos para resolver. - começou, ia replicar, mas ele continuou. - E não adianta dizer que não, passei esses dez anos vendo vocês definhando na tristeza e solidão, no caso delas. Sou amigo de todas e por isso mesmo não posso deixar que continuem a se machucar mais e mais. - terminou ainda sustentando meu olhar, era o único que conseguia isso, talvez por me conhecer tão bem.
— Você concorda Flávia? - perguntei sem desviar o olhar, vamos ver quem pode mais.
— Nem sempre fomos amigas, o principal culpado disso foi o Mauro e nosso sentimento. - falou isso e vi um sorriso aparecer nos lábios de meu amigo, sorri em resposta. A felicidade deles era visível. – Mas, mesmo antes, observava você de longe, torcia por sua infelicidade, confesso. Vibrei quando você caiu pela primeira vez, não pensei que isso afetaria tanto nossa relação, mas até nossa competição você abandonou, fiquei sendo a melhor da classe, mas com um gosto de derrota na boca e, por isso mesmo, fiz o que fiz na época, você deve bem se lembrar. - sorriu de canto.
— Ainda lembro o tapa que me deu, me surpreendi com a força, para uma garota magrinha e pequena, você batia forte. - sorri também. - Mas sua ameaçinha foi o que me fez acordar e, pelo menos na escola, voltar aos velhos tempos.
— E isso foi o que me importou, mas continuei lhe observando, vi quando conheceu a ‘novata da classe’ e notei que se envolveram. - seu sorriso permanecia, mas o meu apagou-se. - Bons tempos aquele, pois sua motivação para impressioná-la fazia com que tivesse que me esforçar mais para continuar na competição, mas você caiu de novo. Deu para perceber que foi pior que a primeira vez, nessa você entregou tudo o que tinha e não tinha e o tombo foi muito grande. - parou de sorrir também. - Você nunca mais se recuperou e, encurtando a história, hoje você melhorou, mas ainda é uma sombra perto do que chegou a ser na época em que namorava a Jack. Sabemos disso, basta ver no seu olhar, está tudo ai, como um livro aberto para quem quiser ler. - chegou perto o bastante de mim e virou meu rosto para que deixasse de encarar Mauro e olhasse dentro de seus olhos cor de mel. - Você sente falta daquele tempo, não é? Sente falta do trio que vocês formavam, de sua amizade com a Carol, de estar junto com a Jack, de ficarem as três sem preocupações nem receios, pois conheciam tudo uma da outra, sabiam que podiam manter uma confiança entre si, dá para ver no seu olhar. - terminou e desviei nossos olhares, suas palavras atingiram em cheio o que por anos ficou sepultado em meu coração. Uma lágrima ameaçou sair, mas não deixei.
— Velhas feridas devem ser esquecidas, mágoas recentes não devem ser tocadas, pois ainda doem, não sabia Flávia? - respondi e minha voz quebrou sem que pudesse evitar, abaixei a cabeça. - Bem você querem conversar, então vamos conversar, mas em um lugar mais apropriado não acham? - recuperei o controle de mim e minha voz saiu mais segura dessa vez. - Que tal irmos para casa? Mandei um amigo preparar uma festinha de retorno, já deve estar lá, mas antes preciso fazer uma ligação particular. Que acham? - perguntei encarando o grupo, fingindo uma segurança que estava longe de possuir.
— Tudo bem, mas a ligação será feita aqui mesmo, na nossa frente. - sentenciou Mauro, sorrindo. - Para quem vai ligar?
— Tudo bem, era para ser em particular, mas duvido que entendam alguma coisa mesmo. - falei enquanto pegava o celular e discava um número de memória. - E não interessa para quem é, só que vai resolver nosso excesso de pessoal, se não notaram com as pessoas extras ficamos em seis e em um carro cabem cinco. - sorri. - Alô? Sou eu Carlos... Tudo bem chapa e a família? - perguntei sorrindo e encarando meu velho amigo que me olhava com estranheza. - Beleza então, olha preciso de um favor... Sabe aquilo que deixei com você antes de partir? - uma pausinha para ele se lembrar, o pessoal não entendia nada do que falava. - Isso, ela mesmo. Bem estou no aeroporto e veio muita gente me buscar, não tem espaço no carro para todos, então tem como trazê-la para mim? - mais uma pausa. - Beleza, mas vem com alguém para voltar porque carona não vai ser possível. Quanto tempo? - os olhos de todos demonstravam apreensão, não entendiam minha atitude. - Beleza, estou esperando. Valeu amigão. - desliguei e o olhar de meu amigo era inquisitivo. - Não se preocupem, só relaxemos e esperemos cinco minutos.
— Para quem você ligou e o que pediu para trazer Raquel? - dessa vez foi Flávia que perguntou, calmamente me sentei na cadeira da cafeteria.
— Alguém que ninguém aqui conhece, mas que posso confiar cegamente, diferente de muitas outras pessoas e o que vai trazer não importa, a ligação era particular. - cortante e fria foi essa a resposta que dei, sem brechas para nada mais.
— Quem vai chegar Raquel? Quem é esse Carlos que ninguém aqui conhece? - Essa foi a Fernanda perguntando, seu sotaquezinho era muito fofinho, sorri e ela fechou a cara. - Não ouse falar de meu sotaque agora e responda minha pergunta. - dei uma gargalhada, só ela para conseguir isso.
— Que garota brava, mas tudo bem eu respondo por você. - continuava sorrindo, mas ignorei a presença dos outros por alguns instantes. - Conheço muita gente por aqui, várias não são conhecidas por meu círculo mais próximo, mas isso não significa que mereçam menos atenção. O Carlos é meu conhecido desde antes da minha viagem, ele guarda uma preciosidade minha. Cheguei aqui pensando em vendê-la ou mesmo dar para o próprio, mas o destino prega peças em nós e pelo visto vou ter que usá-la novamente. - dei um meio sorriso e abaixei o rosto ela pegou minha mão por cima da mesa e deu um leve apertão. - Sossegue amiga, não vou fazer nenhuma bobagem, são só algumas lembranças que preciso trazer à tona novamente. Necessito recordá-las e isso vai me ajudar. - uma lágrima escorreu e minha amiga limpa-a.
— Sabe que sempre estaremos aqui para você, não é? - perguntou levantando meu rosto e encarando-me profundamente.
— Você eu tenho certeza, mas dos outros perdi. - iam repicar, mas meu celular tocou e, me recompondo, atendi com minha melhor voz. - Sim? Beleza então Carlos, estamos indo. - desliguei, peguei minhas malas e fui andando enquanto falava. - Ele chegou, vamos, já demoramos mais do que deveríamos.
Nenhuma palavra foi trocada no caminho até a saída, a chuva deixava o ambiente mais pesado que nunca, em minha mente as imagens do passado mesclavam-se com as do presente, os olhos tristes, feridos que possuía aquela que não deixei de amar faziam meu coração apertar, a dor estava presente também, eram um reflexo dos meus, os sentimentos era irmãos, os mesmo. Ela parecia sofrer na mesma quantidade.
Abaixei o rosto, o peso da situação instalava-se em meus ombros, mas um toque quente em minha mão fez com que olhasse para cima novamente e reencontrasse as orbes negras de minha melhor amiga nesses anos todos, apertei sua mão em resposta e sorrimos, só nós sabíamos o significado desse simples gesto, o peso que sentia diminuiu, mas meu coração falhou uma batida ao olhar para o outro lado e ver silenciosas lágrimas descendo pelo rosto de Jackeline.
Chegamos à porta de saída e uma Ducati 999S preta metalizada, molhada pela chuva que caia, eu sempre me impressionava com ela. Ao seu lado estava parado um homem alto, encorpado, moreno de sol, com uma mochila e dois capacetes, sorri na hora, ele adivinhara meus mais recentes pensamentos, com um movimento rápido jogou um capacete para mim, peguei no ar.
— Então essa belezinha aqui vai voltar a rodar com sua dona? - perguntou dando um tapinha carinhoso no banco dela - Eu a usei esses anos, o motor não teria agüentado ficar parado, você sabe né? - avisou sorrindo, meio encabulado.
— Claro que sei meu amigo, não precisa me explicar nada. - respondi cordial, olhei para o lado e as faces lívidas de Flávia, Mauro, Carolina e Fernanda demonstravam que reconheciam a moto que estava à sua frente, embora a última só a conhecesse por fotos antigas. - Carlos esse são meus amigos, Mauro, Carolina, Flávia e Fernanda. - apontava cada um à medida que falava os nomes. - E aquela ali é a responsável pela minha partida. - terminei apontando para Jackeline que ainda chorava silenciosa não entendendo o pânico que tomava conta dos outros, ela não conhecia a história. Meu amigo olhou fixamente para ela e depois para mim, sorrimos.
— Boa sorte no seu intento e saiba que pode contar comigo sempre. - meus amigos ainda não reagiam. - Eles sabem de tudo não é mesmo? - perguntou com um sorrisinho sacana, assenti com a cabeça e parei de sorrir, ele notou a mudança e ficou sério também. - Aqui tem duas roupas especiais, os documentos estão no bolso da sua, espero que dê tudo certo.
— Obrigada amigo, você leu meus pensamentos. - sorri pegando a mochila e o capacete que me eram estendidos. - Vá para casa que vai haver uma pequena comemoração, você é meu convidado de honra.
— Foi o André que preparou tudo? Se foi estou dentro. – respondeu gargalhando. — Até daqui a pouco. - despediu-se e entrou em um carro que estava estacionado ali perto e partiu.
Respirei profundamente, abri a mochila, peguei uma das roupas e joguei para a Jack que me olhou assustada, não sabia o que fazer com aquela roupa, tranquilamente comecei a vestir a outra.
— Ponha por cima da sua senão vai se molhar. - ela começou a vestir-se velozmente.
— Pensei que ela não existisse mais Raquel. - exclamou irritado o Mauro traduzindo o pensamento de todos. — Não pense que você vai montar novamente nisso. - falou mais irritado ainda quando se viu ignorado e agarrou meu braço.
— Se valoriza tudo o que construímos até hoje é melhor largar meu braço agora. - fuzilei-o com os olhos, ele me largou eu subi o último zíper, olhei para o lado e Jackeline já estava vestida. — Pegue isso e vamos. Vocês vão para meu apartamento, logo vamos para lá. - avisei montando na moto e esperando minha companheira montar também.
— Raquel você tem certeza do que vai fazer? - perguntou apreensiva Fernanda enquanto via como fazia o motor roncar alto, coloquei meu capacete.
— Mais do que nunca. - disse e acelerei partindo em alta velocidade dali.
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O tempo que rodamos, sem um destino fixo, não consigo precisar, o calor do corpo que durante esses anos desejei atordoava-me os sentidos e deixava-me com ânsias de, novamente, voltar aos tempos em que éramos felizes juntas. ‘Um tempo que joguei fora por minha estupidez.’, pensei amargurada enquanto sentia que a moto perdia velocidade e parava em um local que não conhecia.
Ela desceu e pude visualizar melhor onde estávamos, um penhasco que, em uma queda vertiginosa, acabava no mar arredio e perigoso. Um cenário que nunca imaginei encontrar naquela cidade tão bela e pacifica, era uma verdadeira contradição, pois, olhando para trás, era possível visualizar a praia calma e deserta que nos protegia de olhares curiosos, uma beleza contrastante, tão parecida com meus sentimentos e pensamentos.
Vi como retirava seu traje e deixava a chuva tocar seu corpo, caminhou até a borda do penhasco, ficando centímetros de uma queda mortal, abriu os braços, fechou os olhos e ficou ali, com uma segurança invejável deixava seu corpo ser balançado pelo vento, como se dele fosse apenas um boneco; a chuva molhava suas roupas, as deixando mais e mais unidas a seu corpo definindo-lhe as curvas que tanto conhecia, mas isso não parecia incomodá-la.
Admirei sua figura mais uma vez, os anos passados não modificaram seu corpo, mas lhe emprestaram um ar sério, o sorriso não era mais visível na mesma quantidade que antes, mas isso não era um contra e sim um ponto a seu favor já que os raros que apareciam eram de uma beleza jamais vista, carregados de felicidade e inocência, pelo menos quando estava com aquela Fernanda.
Desci da moto, tirei o capacete e a roupa imitando seus gestos, aproximei-me, mas não conseguia chegar até onde estava, era muito difícil, sempre tive muito medo de lugares altos e aquele era aterrador para mim. Tentei dar mais um passo quando uma voz fez-se ouvir.
— É melhor não chegar muito perto, uma vertigem e ninguém poderá salvar-lhe a vida. - não moveu nem um músculo sequer para esse aviso e o fez tão friamente que respondi muito magoada.
— Minha vida perdeu o sentido de existir dez anos atrás, quando por erros próprios deixei quem eu mais amava partir, desde então colho a mesma semente que por tantos anos espalhei em outros corações e, agora que tenho mais uma chance, essa pessoa nada mais quer comigo. - respondi e forcei-me a chegar ao seu lado, seus olhos continuavam fechados, olhei para frente e tentei não olhar para baixo.
— Não julgue o que não conhece, nem tente achar falsas certezas em lugares desconhecidos, pois pode ferir quem não merece. - lágrimas começaram a descer por meus olhos e baixei a cabeça.
Esse foi o meu erro, pois ao ver a distância que me separava do mar uma vertigem tomou conta de todo meu corpo, meus joelhos fraquejaram e vi-me precipitar ao precipício. Fechei os olhos pensando ser a melhor opção, meus pés já não tocavam o chão e conformara-me com a morte, mas um par de fortes braços tomou minha cintura e com uma força desconhecida por mim puxou-me novamente ao solo. Abracei forte aquele corpo que já havia sido meu e chorei, um choro sofrido, angustiado, doloroso, por tudo o que passamos.
No sei ao certo quanto tempo ficamos ali, mas meu pranto não parecia fintar, quando escutei as palavras que me devolveram à calma, palavras sussurradas em meu ouvido como um alento divino, murmúrios quebrado pelas mesmas lágrimas que eu vertia.
— Chore o quanto quiser, o quanto precisar, eu farei companhia com as mesmas lágrimas, pelos mesmos sentimentos, você já percebeu que nossos sentimentos são iguais, porém volte a sorrir, volte a sorrir quando sentir que quer, tanto quanto eu, uma vida a dois comigo. - aferrei-me mais no abraço, meu pranto aumentou, mas de felicidade, agora nada mais importava, sabia que ficaríamos juntas.
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A conversa fazia-se necessária, muitas dúvidas ainda estavam presentes, fatos do passado continuavam vivos e permeando qualquer ato delas, mas tudo o que desejavam naquele momento era continuar no abraço reconfortante em que estavam, era continuar sentindo que o mundo parara de girar e o tempo não mais existia.
Os olhos reencontraram-se saudosos, neles os verdadeiros sentimentos ressurgiram vitoriosos, fortalecidos, esperançosos, as palavras eram incômodas, pesadas, desnecessárias, os gestos, os olhares falavam mais, uma mão acariciou um rosto, um par de olhos se fechou, dois lábios se uniram, um sentimento gritou vitória, novamente encararam-se, os lábios a centímetros de distancia, um sussurro... saiu de qual boca? Nenhuma sabia, mas um “Te amo”, flutuou em meio as duas fazendo com que o brilho aumentasse, se abraçaram novamente, sorriram, riram, repetiram a mesma frase em alto e bom som olhando-se no mais profundo de seus olhos, as almas abraçavam-se também, felizes, livres para voarem para onde quisessem, para onde desejassem, juntas.
A chuva já não caia mais, mas o mar continuava bravio, se aproximaram da borda novamente, abraçadas, felizes, um rastro de medo passou pelos olhos da mais baixa, um arrepio desceu-lhe pelo corpo fazendo-a estremecer, a outra percebeu seu estremecimento e abraçou-lhe mais forte.
— Confia em mim? - perguntou sussurrando em seu ouvido para depois beijá-lo, a de cabelos escuros acenou afirmativamente. - Então feche os olhos e deixe que minha voz lhe guie. - ela seguiu as instruções e foram seguindo até ficarem na mesma posição que a morena antes, esta se separou um pouco e voltou a falar. - Agora abra os braços, não se preocupe que não vou lhe soltar.
— Eu sei que não. - foi a única coisa que pronunciou antes de obedecer.
As duas ficaram com as mãos dadas, levantadas, braços esticados, olhos fechados, sentindo o vento acariciar seus rostos, murmurar canções desconhecidas acompanhado pelas ondas do mar quebrando, metros abaixo de onde estavam, uma paz tomou conta de seus corpos e o sorriso foi inevitável, palavras não descreveriam o estado de espírito em que se encontravam.
Em dado momento suas peles aqueceram-se, sentiram-se energizadas, renovadas, uma sensação maravilhosa que Jackeline nunca tinha experimentado.
— Agora abra os olhos lentamente e olhe sempre para frente, para o horizonte, depois veja o que está abaixo de nós. - falou Raquel com a voz entrecortada pelo momento, não eram lágrimas que desciam por seu rosto que deixaram sua voz assim, mas o espetáculo que a natureza lhes proporcionava.
Aceitou a sugestão e entendeu o que a pessoa ao seu lado sentia, era algo indescritível ver o sol aparecendo por detrás das nuvens, aquecendo todos os corpos e, ao longe, um arco-íris enfeitando o céu, depois segurando forte a mão de sua companheira foi descendo os olhos e teve uma surpresa, já não sentia a tontura e o pavor de antes, conseguia encarar o desfiladeiro, suas escarpas e a água chocando-se contra eles.
— Co...como isso po... - não conseguia terminar a oração de tão surpresa.
— Você sempre temeu os abismos por algo que não consegui descobrir, sua visão sempre foi de algo obscuro, amedrontador, com a visão que teve agora viu a beleza escondida e já não sentiu medo, isso fez com que as antigas sensações desaparecessem. - disse calma e segura. - Se enfrentamos nossos medos conseguimos coisas inimagináveis é só tentar. - terminou encarando-lhe com carinho.
— Você tem razão e vou enfrentar outro medo meu que durante muito tempo me persegue, mas que hoje pode deixar de existir. - falou decidida.
— E qual seria? - perguntou fazendo-se de desentendida.
— O que seremos daqui para frente? - perguntou encarando a motociclista. - Poderemos voltar ao que éramos há dez anos antes?
— Não. - foi a resposta firme que recebeu com grande espanto. - Nunca poderemos ser igual ao que éramos dez anos antes, nós amadurecemos, crescemos, tomamos decisões e enfrentamos as conseqüências delas. - continuou impedindo que a outra saísse correndo. - Há cada segundo que passa somos diferentes, não poderíamos voltar porque já mudamos e temos reações distintas, já não pensamos da mesma maneira e eu sou grata por isso. Eu não quero a Jackeline imatura que deixei há dez anos atrás e você não gostaria de ter a velha Raquel, desmedida e intransigente de antes, quero conhecer e desvendar a nova Jack. - tomou fôlego e soltou o braço da mulher a sua frente, ela não mais queria fugir. - Quero me apaixonar novamente e, todos os dias, quero lhe deixar apaixonada também, cada dia que passe, o amor vai ser renovado cada vez mais, vai tornar-se um sentimento maduro, puro, sem pressa. Será igual a essas ondas que batem incessantemente contra os rochedos, firmes e maleáveis, persistentes, cristalinas e misteriosas. Foram, são e serão sempre elas quem modificaram essas escarpas, tem paciência para mudar pouco a pouco e vão transformando em inofensivas as perigosas formações que você pode ver. - falou com tanta emoção que lágrimas escorreram por seus olhos. - E então aceita trocar o velho amor que sentíamos e que me propôs por este? - perguntou encarando seus olhos.
— É claro que sim. - jogou-se em seus braços, os lábios procuraram-se e o acordo foi selado, um acordo entre duas metades da mesma alma.
— Que tal irmos para casa? Os outros devem estar preocupados com nossa demora. - propôs quando se separaram.
— Vamos, mas falando neles pode me explicar porque ficaram com tanto medo dessa moto? E desde quando você conhece esse lugar que nunca me trouxe aqui? - perguntou enquanto observava a outra recolhendo o macacão que usaram para chegar até ali, não estranhou não estarem molhados, pegou o que lhe era estendido e começou a vestir enquanto esperava a resposta de suas perguntas.
— Bem o do medo deles é meio complicado, pois envolve muito meu passado antes de conhecer você e ainda não é o momento, não aqui. - explicou enquanto vestia-se também, a outra se aproximou e acariciou seu rosto.
— Não precisa falar se não lhe fizer bem. - deu-lhe um selinho rápido e fechou o último zíper que faltava.
— Ainda descubro como você se veste mais rápido que eu se nunca andou de moto na vida. - exclamou rindo para quebrar o ambiente que se instalara. - E quanto a isso é que não quero falar sobre isso hoje, quem sabe amanhã você não descobre. Já esse lugar eu nunca lhe trouxe antes por seu medo, não sabia se você iria gostar, era tão encanada com isso antes que não me atreveria. — sorriu e roubou-lhe outro selinho. - Eu o descobri no mesmo dia que resolvi comprar a moto, então vai ter que esperar um pouco também para descobrir. - sorriu e montou na moto, a garota de intensos olhos negros subiu logo em seguida e partiram.
Uma nova vida começava para as duas, muita conversa ainda estaria por vim, o passado das duas seria revelado para que o futuro não reservasse mais nenhuma surpresa.
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