Atos de Vingança II

Capítulo VII

A vida no deserto não é para seres fracos. O escaldante calor diurno dá lugar a temperaturas próximas do zero durante a noite. Poucas criaturas são adaptadas a esse ambiente. Camelos e seus primos dromedários são algumas delas.

Este que agora vaga em pleno sol do meio dia pelo deserto é um pobre dromedário que se perdeu de seus donos, integrantes de uma caravana de mercadores. A sede não incomoda o plácido animal, tivera chance de beber bastante antes da tempestade de areia o separar dos humanos, mas a fome o assola.

Enquanto sua mente vaga por aquilo que só poderia ser descrito como memórias de uma boa refeição ele vê algo que com toda a certeza daria uma ótima refeição. Um imenso e belo arbusto recheado de flores vermelhas, vistosas e de perfume inebriante.

Qualquer criatura por mais humana que fosse desconfiaria da forte coloração das misteriosas plantas e do fato delas estarem sós em uma área em que nem os resistentes e teimosos cactos davam o ar de sua graça. A fome, como já diz o célebre aforismo popular, é má conselheira e o faminto animal não se perde em devaneios a respeito de sua segurança, afinal, graças a uma estranha sorte evolutiva, não é humano, filosofia para ele é o doce sabor da comida e o suave frescor da água.

Nem bem havia devorado a terceira flor e o imenso animal desaba nas areias escaldantes, no fundo de sua mente ele sabe o que houve, sabe que deveria berrar de medo e desespero, mas não consegue e nem quer. Seus enfraquecidos sentidos notam a aproximação de um humano, o que alegra seu coração, o humano pode ajudá-lo. Se fosse capaz de entender as palavras de seu bípede primo mamífero ele teria ouvido que sua sorte estava selada antes mesmo de ver as plantas.

- Não tenha medo – diz o homem lhe acariciando o flanco enquanto espera o animal desfalecer – vai passar, vai ficar tudo bem.

- Não sei porque não deixou que eu o matasse.

- Da última vez que fez isso, Shura, nós passamos mais tempo procurando os pedaços do bicho do que comendo!

- Era um lagarto de pouco mais de trinta centímetros!Você queria que eu acertasse de primeira?

- Teria sido uma boa idéia. – fala Aldebaran se aproximando com alguns cantis manufaturados com couro de cobras e lagartos feitos por ele e Mu – Agora pare de reclamar e faça um furo PEQUENO E DELICADO na corcova do coitado. Não podemos desperdiçar, ainda temos duas armaduras pra pegar nesse raio de deserto.

Um pouco mais afastados Saga, Aioros e Mu sondam as intermináveis areias na esperança de ver algum sinal das armaduras. Eles poderiam invocá-las, mas sem saber onde elas estão correm risco de atrair atenção indesejada.

- Sagitário estava na areia movediça, Capricórnio em uma toca de mambas negras, Áries e Gêmeos debaixo de quinze metros de areia... – Saga fala sorrindo

- Eu também nem quero imaginar onde estarão as armaduras de Touro e Peixes. – Aioros se junta ao riso de Saga – E, além disso...

- Ouçam! Cavalos! – Mu se vira para os amigos que “ordenhavam” o dromedário – Rápido vem vindo alguém!

- São dois cavaleiros de ouro! Achamos as armaduras!

Saga se joga duna abaixo com Aioros e Mu. Não gostavam da idéia, mas teriam de bancar os ladrões do deserto afinal não há muito que se possa oferecer em troca de armaduras de ouro cujo valor tranqüilamente compraria meia África, principalmente se você passou seis meses à base de cobras, lagartos, sangue frio, suor humano e salada de cactus.

- Parece que os líderes da caravana acharam nossas armaduras. Ninguém deve se ferir. Pegaremos as armaduras e sairemos daqui.

- Saga – um Afrodite vermelho como um camarão flambado em lava se pronuncia – por que não tentamos conversar com eles? Talvez possamos pegar as armaduras sem confusão E conseguir alguma coisa útil, como direções para sair daqui.

- A idéia de Afro tem o seu apelo. – Aioros apóia o amigo

- Algum de vocês tem a mínima idéia de como se pronuncia “por favor, poderia nos devolver nossa armadura” em árabe?

- Não é necessário. Nós falamos grego. – uma voz carregada de sotaque encerra a discussão.

- Hã?

Os seis se viram para a duna e se vêem cercados por seis homens a cavalo, dois deles estão vestindo as armaduras douradas de Touro e Peixes. Suas feições não lembram em nada os naturais da região. São nitidamente estrangeiros.

- Este animal é meu. – o homem vestido com a armadura de Touro aponta para o dromedário. – Exijo ressarcimento.

- Não pode provar que era seu. Ao contrário, nós podemos provar que as armaduras nos pertencem – Afrodite se levanta irritado com a postura do homem.

- Quieta mulher! – o homem empina o cavalo fazendo com que o animal acerte o rosto de Peixes deixando uma feia marca em suas bochechas já castigadas pelo vento e pela areia.

- Afro! – os outros correm para ele, mas são detidos pelos beduínos.

- Uma mulher decente não falar antes de seu marido e uma prostituta que se entrega a cinco não deve jamais se dirigir a um homem de bem.

- Prostituta? Ora, seu...ahh...Meu siso...- Afrodite está tonto devido ao coice.

- Hombre, você não sabe com quem está mexendo.

- Com vermes ladrões que merecem ter as mãos cortadas. E é o que farei.

Os homens erguem suas cimitarras e avançam contra os cavaleiros, mas antes que possam fazer qualquer coisa caem fulminados por centenas de flechas douradas.

- Aioros? – Mu o olha espantado

- Não olhem para mim não fui eu!

- Não precisam agradecer homens de pouca fé. O castigo divino se abateu sobre estes hereges que se atreviam a maltratar inocentes – fala um homem trajando uma armadura negra.

- TREMI? TREMI DE FLECHA? – Saga e Shura se assustam.

- Hã? Ca-ca-cavaleiros de Ouro?

O Cavaleiro Negro se assusta e recua alguns passos. Eles morreram. O Nêmesis de Sagitário, Áries e Zéfiro se encarregaram disso. Como poderiam estar ali, vivos?

- N-não importa. Estão fracos e exaustos pela travessia no deserto — ele fala tentando convencer a si próprio — V-vou eliminar as últimas lembranças do Santuário de Athena...

Ao ouvir isso a expressão dos seis dourados se fecha, finalmente descobriram o que houve. O Santuário caíra. Seus inimigos agora levavam a justiça divina ao redor da Terra. Talvez Athena estivesse morta. Mas, se ela realmente morrera, nada impede que ela venha a ressuscitar dentro de mais duzentos anos. Sobre os ombros dos seis, os últimos defensores da Justiça vivos sobre a Terra, repousa a missão de garantir a paz até que ela volte.

Sem falar, em meio a lágrimas eles dão vazão à fúria, à tristeza e aos medos que se recusaram a expor uns aos outros para que nenhum deles fraquejasse.

- GRANDE CHIFRE!

- INFINITY BREAK!

- EXPLOSÃO GALÁCTICA!

- REVOLUÇÃO ESTELAR!

- ROSA PIRANHA!

- EXCALIBUR!

O assustado Cavaleiro Negro não tem tempo de sentir dor. Num momento está de frente de seis inimigos que julgava derrotados e mortos há meses. Menos de um instante depois seu corpo é rasgado, perfurado, cortado, dilacerado, esmagado e pulverizado. Penso, logo não existo filosofaria ele caso tivesse chance.

- E agora? – Aldebaran retira a armadura do beduíno morto.

- Santuário? – Saga sugere

- Não estamos em condições. – Aioros ajuda Afrodite a levantar

Mu encarava a mancha negra na areia que um dia foi o Cavaleiro Negro de Flecha. Os outros cavaleiros não poderiam ter sido derrotados tão fácil. Alguém TEM de ter sobrevivido. Os de bronze pelo menos.

- Vamos para Jamiel. Viajaremos em sigilo. Consertaremos nossas armaduras... E destruiremos as deusas da vingança.

- Acha que conseguiremos? – pergunta Shura meio preocupado.

- Tenha certeza de que tentaremos. – Afrodite sorri com a boca cheia de sangue, sorriso esse respondido por Aldebaran, Mu e Saga com o elevar de seus cosmos

----

Tókio, Japão.

Isamu Kamia sabe que não pode ser considerado um santo. A menos é claro que santos roubem monges, contrabandeiem arte sacra e incentivem prostituição infantil; nesse caso ele não é um santo, mas um deus.

Com todas essas qualidades ele desconfiava que não teria uma morte tranqüila, mas no fundo de sua alma esperava algo melhor do que ter cada osso do corpo esmagado por um homem caolho dentro de uma armadura medieval recitando uma interminável ladainha a respeito do respeito para com os deuses.

Na verdade a exortação de seu algoz não o incomoda muito, depois do terceiro golpe seus ouvidos se encheram de sangue abafando sua audição. Infelizmente seu tato funciona que é uma beleza.

- Não tema. – diz o auto intitulado “arauto dos deuses” enquanto parte a bacia de Isamu – Sua morte não chegou ainda. Por enquanto estou apenas lhe educando. Quando for a hora de se assustar eu lhe aviso.

Os monges do templo budista que acabara de ser roubados por Isamu e onde ele fora interceptado por seu assassino não sabem se rezam pelo ladrão ou se fogem caso o guerreiro de armadura também resolva considerá-los pecadores.

Eles estavam nessa angústia quando uma imensa paz se apossou de seus corações. Um homem de cabelos longos e dourados como sua própria armadura adentra nos jardins do templo e se dirige calmamente ao guerreiro de negro. Apesar de estar de olhos fechados ele não hesita e caminha confiante por entre as lanternas e plantas.

- Basta. – diz o recém-chegado – Isso não é aula, muito menos punição. É sadismo.

- Virgem? O que está fazendo aqui? Pensei que as deusas tivessem ordenado aos Nêmesis que ficassem no Santuário.

- Sim. Os Nêmesis ficaram no Santuário.E lá continuarão até que os reais guardiões daquele solo sagrado reclamem os postos.

- Reais guardiões? – O guerreiro solta Isamu que a essa altura do campeonato não tem mais ossos que uma lesma. – Impossível!

O loiro sorri.

- Agora é hora de se assustar.

- Você devia estar... – o homem começa a recuar.

- Por favor, não conclua essa frase. Poderia ao menos ser mais original em sua surpresa.

- Pfff...- ele sacode a cabeça — Não há motivo para pânico. As Erínias já se provaram superiores à Athena.

- Isso ainda não quer dizer que eu seja inferior a você – o cosmo do dourado se eleva.

- Ah...ah...NÃO! NÃO VOU SER DERROTADO PELO CAPACHO DE UMA DEUSA MORIBUNDA!

Em um súbito arroubo de coragem o homem se lança contra o Cavaleiro Dourado.

- Darkkaitos Spauding Bomber!

- Como suspeitava. Você é o Cavaleiro Negro da Baleia Branca…- retruca o outro esquivando do ataque – Isso o torna... O Cavaleiro da Baleia Negra?

- Não precisará saber meu nome no inferno! Darkkaitos Spauding Bomber!

- Inferno? Alguns considerariam essa uma péssima escolha. – o homem junta as mãos sobre o peito e repele o ataque sem esforço– Eu conhecia Mozes de Baleia Branca e o respeitava, é por esse respeito a ele que acatarei seu pedido.

- Mas...O quê?

O Cavaleiro Negro recua apavorado com o rápido elevar do cosmo de seu adversário.

- Ouça. Quero que avise aos demônios do Inferno que Shaka de Virgem lhes enviará muitos pecadores nos próximos dias e ordena que nenhum deles deverá retornar a qualquer dos outros cinco mundos antes que se passem vinte vidas dos homens.

- Eu não fui derrotado – berra o homem fugindo – Voltarei com reforços e você vai pagar por essa afronta!

- Passarei minhas próximas vinte encarnações esperando ansioso esse encontro. RIKUDO RINE!

Um lampejo de luz dourada e o Cavaleiro da Baleia Negra deixa de existir.

- Que em sua nova vida você siga o caminho da Luz. – diz Shaka pondo a mão sobre a cabeça ensangüentada de Isamu – Rikudo Rine.

---

Santuário, Casa de Gêmeos

Ares e Thallas estão perplexos, a Amazona de Quimera que em poder só estava abaixo de Thallas foi derrotada, mesmo tendo o poder aumentado pela Ilusão Diabólica. E o pior é queseus inimigos estavam sem armadura.

- Eu avisei a vocês. Quimera é forte, mas não o suficiente para enfrentar os Selene, Andréas, Máscara da Morte e o Cavaleiro de Fênix.

Se ódio fosse calor e pudesse ser transmitido pelo olhar Nicomedes teria sido grelhado até a alma tamanha era a fúria que Leviatã e Gêmeos irradiavam ao se virar para ele.

- Não adianta olharem para mim desse jeito! Vocês podem assustar os outros a mim não! Em vez de ficarem rosnando seria bom pensarmos em outro...- Nicomedes fica mudo.

- Sentiram isso?

- Depende do que você define como isso. – Thallas engole em seco tentando se controlar– Se “isso” forem as deusas de vingança furiosas com a resistência de Athena eu senti. Mas, se “isso” significar esses cosmos que tem oscilado nos últimos meses e agora ascendem com freqüência e velocidade assustadoras eu não senti, e muito menos vocês. ENTENDERAM BEM?

Leviatã encara Ares e Nicomedes, que acenam com a cabeça concordando. A última coisa que precisam é de alertar os outros guerreiros ou as deusas da vingança sobre o assunto. Mas ficar parado esperando o céu desabar seria assinar um atestado de estupidez e essa é a última coisa que qualquer um dos três homens ali reunidos faria.

- Notus. Seria de bom tom que Zéfiro não fosse investigar...

Continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.