Atormentadores Olhos Azuis
1 Olhos Ferinos
Notas iniciais
Com a brisa do amanhecer e o sol nascente tocando meu rosto, me senti imensamente livre. E aquele calor tão familiar envolvendo minha mão, me trazia uma sensação tão boa quanto segurança, confiança.
Olhei para o lado, vendo uma garota delicada, usando um chapéu de praia bem grande, cobrindo-lhe os olhos e parte do nariz. Eu só conseguia prestar atenção em seu sorriso encantador que me hipnotizava, porém, revirando minha memória, lembro-me bem de seu pescoço alvo e fino. Toda aquela aura feminina me deixou fascinada, mas eu só sabia sorrir. Sorria pelo sol, que nunca gostei, tocando-me a pele. Sorria pelo fato de ver o amanhecer, pela primeira vez na vida. Sorria pelo fato de que o dia estava tão lindo e principalmente, pelo fato de ter aquela boneca do meu lado.
Sua voz chegava a meus ouvidos, trazendo pra mim a sensação de ouvir minha música predileta no meu dia de sorte. Me sentia como num dia de sorte, apesar de não me recordar das palavras que ela usou pra me fazer gargalhar. Puxando delicadamente minha mão, ela me guiou até o último degrau da escadaria que dava para aquela linda praia. Tão linda que parecia até uma ilha…
Ainda ouvindo aquela voz suave e melodiosa, percebi que a brisa gostosa que tocava levemente meu pescoço, agora se transformava em um vento forte, que bagunçava meus cachos. Ouvi um típico grito feminino, quando levado um susto e vi, passando bem em frente meus olhos, o chapéu. Olhei para o rosto da garota ao lado, percebendo o quão linda ficava com os cabelos bagunçados pelo vendo e soltei uma leve risada, levantando e correndo em seguida, atrás do chapéu.
– Aonde você vai?! – Mais uma vez, ouvi a voz doce e suave dela, parecendo risonha, gritando.
– O vento tá forte, você não vai conseguir alcançar meu chapéu! Volta aqui, louca! – Dando uma gargalhada gostosa, desafiou-me. Sim, aquilo era um desafio, que estava prestes a ganhar, pois quase alcançava seu chapéu.
– Duvida, é?! – Perguntei-lhe, virando o rosto e sorrindo, ainda correndo.
– Duvido mesmo, giant! Você não vai conseguir, olha… — era só o que consegui me lembrar, antes de um barulho ensurdecedor se fazer presente, junto com uma dor quase insuportável nos meus ouvidos.
Apenas fiz uma careta, fechando os olhos e, em seguida, tapando minhas orelhas. Deixei meu corpo cair de joelhos, sentindo uma pontada em cada perna. Em vez de areia, senti cerâmica. Cerâmica molhada. O barulho insuportável parou, dando continuidade ao rosnado. Um rosnado bravo e abafado.Abri meus olhos no mesmo instante que deixei minhas mãos passarem pelos fios bagunçados dos meus cabelos, melhorando minha visão. Ainda de joelhos, olhei rapidamente ao redor, tentando achar minha pequena, encontrando em seu lugar, escuridão. Apertei meus olhos, tentando enxergar no escuro, mas não adiantou muito coisa, pois só conseguia ver o contorno de uma cama. Tentei me levantar, porém, ao tatear o chão, senti ao viscoso. Levei minhas mãos perto do meu rosto, sentindo o cheiro inconfundível de sangue.
Mais uma vez, fiz uma careta e fechei os olhos, pois uma claridade dolorosa se fez presente. Assim que acostumei minha visão à claridade que vinha a cima de minha cabeça, vi que estava certa, deixando a emoção tomar conta do meu ser. Havia um rastro enorme de sangue na cerâmica, que ia desde debaixo das minhas pernas, até um emaranhado de músculos à minha frente. Eu juro que poderia vomitar… nunca pensei em ver um coração daquele jeito.
Chorando, ouvi novamente o rosnado, vindo de um lobo que saiu das sombras, ainda presentes no local. Aquele rosnado me deu medo, porém aquele olhar me fez congelar. Mesmo querendo pegar o coração e sair correndo, não conseguia, me sentia imóvel.
Comecei a tremer quando ele se aproximou. Fechei os olhos, e num ato de tentar me proteger, levei minhas mãos ao meu corpo, curvando levemente. Senti-me tão vazia quando não captei meu coração batendo. Senti minha cabeça rodar, enquanto apertava meu peito e chorava, não contendo os soluços.
Ergui minha cabeça, vendo o lobo próximo ao coração. Meu coração, ainda batendo. De uma forma que chegava a doer de tão lenta, mas batendo. Minha asma veio à tona, pelo meu medo e ansiedade, fazendo meu estômago embrulhar. Novamente, ele rosnou. Mais baixo e rouco, olhando diretamente pra mim, enquanto abaixava a cabeça e lambia meu coração. Outra vez, senti ânsia de vômito. Espalmei uma mão no chão sujo de sangue, e arfei, espalmando no chão.
O lobo rosnou alto, e me senti impotente.
Suspirei e sentei em cima das minhas próprias pernas, fechando os olhos em seguida. Balancei a cabeça, e chorando implorei.
– Por favor… por favor… não, por favor… — Eu queria gritar pra ele sair de perto do meu coração, mas minha voz saía apenas em sussurros.
O lobo acinzentado, me encarou por alguns segundo assim que eu abri meus olhos, bufou e sem piedade, abaixou a cabeça mordendo meu coração. Deixei escapar alguns gemidos vendo aquela cena, que apenas se alastrava e me deixava mais em pânico. Chorava e, por mais que quisesse fechar meus olhos, não conseguia sequer piscar.
Ele parecia ler minha mente, que implorava para que deixasse os restos do meu coração no chão, esmagados. Eu implorava que parasse, sussurrando, gemendo e chorando, mas ele apenas mastigava com mais fome, encarando-me com seus olhos azuis profundos e atormentadores.
– Oh, não… — Foi só o que consegui dizer quando o vi engolindo o pedaço vital de mim restante. Suspirei, derrotada. Lambendo os meus restos da boca ferina, caminhou lentamente até mim. Vendo-me recuar, rastejando, rosnou. Um arrepio percorreu meu pescoço, quando percebi o que viria em seguida. Eu estava mesmo sem saída, ainda imóvel. Abaixei a cabeça, derramando minhas últimas lágrimas.
Levantei a cabeça assustada, quando o ouvi uivar para o céu, acima de nós. A luz forte que iluminava o local, tornou-se mera penumbra, enquanto ele ainda me encarava, em sua posição alfa.
“É o fim…”, pensei enquanto o via se aproximar mais, ganhar impulso e saltar pra cima. Fechei meus olhos, suspirei e tremi… sem nenhuma outra sensação, relaxei meu corpo esperando a dor chegar, tremendo. Naquela hora, de olhos fechados, apenas tremi, esperando meu fim.
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