Atormentado
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Estava exausto. Enquanto entrava em minha casa, as imagens que vivenciei hoje caminhavam por meus pensamentos. Fora só mais um dia normal, exceto por uma coisa: a voz.
Durante todo o dia, fui atormentado por uma voz em minha mente, que falava sempre as mesmas terríveis palavras. “Durma, meu bebê. Mamãe vai te levar”. Eu perguntava para as pessoas se tinham ouvido algo, mas elas diziam que a voz era apenas na minha cabeça. Eu as olhava de volta, e a voz insistia.
“Durma, meu bebê. Mamãe vai te levar”.
No entanto, eu me lembrava daquela voz. No canto mais distante e ínfimo da minha memória, nas profundezas do meu ser, eu lembrava. Uma voz doce e suave, que todas as noites falava o que agora eu ouvia. “Durma, meu bebê. Mamãe vai te levar”. Era a minha mãe. Eu me lembrava de sua voz, sempre falando a mesma coisa. Era apenas uma lembrança de infância, talvez não houvesse problema naquela voz ecoando em minha mente. Exceto por um fato: minha mãe está morta.
Aconteceu há vinte anos, quando eu tinha apenas cinco anos de vida. Ela morreu ao cair de um abismo. E, apesar da pouca idade, lembro-me da noite anterior à sua morte. Minha mãe estava me pondo para dormir. Então ela falou: “Durma, meu bebê. Mamãe vai te levar”. Eu já tinha ouvido aquilo milhares de vezes, mas nunca havia entendido o real significado daquelas palavras. Perguntei:
– Mamãe, para onde vai me levar?
Ela me encarou e sorriu, porém algo estava errado. Não era aquele habitual sorriso materno e protetor que ela sempre exibia. Era louco e psicótico, mortal e perigoso. Ela respondeu:
– Para um lugar que você está destinado a ir. Mas não se preocupe com isso por agora, querido. Você é só uma criança. Porque não pensa nisso daqui a vinte anos?
Ela tinha razão, eu era apenas uma criança, e talvez por isso não havia compreendido o significado daquelas palavras. Mas hoje, após exatos vinte anos daquela noite, eu me preocupava. Ela falara que eu deveria me lembrar daquele momento. E aqui estou eu, recordando aquela passagem de minha infância. E, coincidentemente, neste mesmo dia a voz de minha mãe morta aparece em minha cabeça.
“Durma, meu bebê. Mamãe vai te levar”.
Agora a voz estava mais forte. Era como se ela estivesse ao meu lado, sussurrando em meus ouvidos.
“Durma, meu bebê. Mamãe vai te levar”.
Fui dormir.
“Durma, meu bebê. Mamãe vai te levar”.
Para onde ela me levaria?
“Durma, meu bebê. Mamãe vai te levar”.
Sem que eu percebesse, como um assassino silencioso que vai matar sua vítima, algo se aproximou de mim. Mãos frias e sujas cobriram minha boca, sufocando o grito medonho em minha garganta. Um hálito podre infestou minha respiração acelerada, e eu soube que a coisa estava debruçada sobre mim.
Então uma voz falou, mórbida e cadavérica, e aquelas foram as últimas palavras que ouvi nesta vida.
– Durma, meu bebê. Mamãe vai te levar. Para o Inferno.
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