Atlantis
1 Aqui
Notas iniciais
Havia silêncio e sonhos, o conforto do lar e da família e uma serenidade abençoada.
Então houve o caos.
Estrondos, gritos, choros e súplicas. Tudo se misturando em minha mente em um caleidoscópio de dor.
Eu me lembro de correr. Correr até minhas pernas não aguentarem dar mais nenhum passo e então desabar no meio do deserto. Não importava para onde eu olhasse, tudo era uma grande e escaldante imensidão cheia de nada. Tentei encontrar minha voz, mas ela se perdeu nas paredes ressecadas da minha garganta. Não que alguém estivesse perto o suficiente para me ouvir gritar, de qualquer jeito...
Deixei meus olhos se fecharem na vã tentativa de amenizar o desconforto causado pelo sol, enquanto a exaustão tomava conta do meu corpo e meus sentidos me abandonavam rapidamente.
◊
Acordei vagarosamente, tomando consciência das coisas como quem monta um quebra-cabeça. Eu senti a maciez que tocava meu rosto e abraçava meu corpo e pensei que minha cama devia ser feita de nuvens, uma particularmente fofa e leve que dançava suavemente no céu. Então ouvi o som de passos abafados, diferente do som seco e desesperado de meus passos pelo deserto. Subitamente percebi que estava em movimento e abri meus olhos, finalmente acordado.
Deparei-me com a cabeça de um animal de pelo branco e fofo que escondia seus olhos negros, e longos chifres retorcidos. Sua boca era grande, mas de lábios finos, e pareciam sorrir de maneira tranquila e relaxada. Pensei que, talvez, eu estivesse mesmo nos braços de uma nuvem.
— Desculpe, eu não quis acordá-lo. – sua voz era suave como uma brisa de verão, não parecia combinar com uma criatura tão grande como aquela. – Achei que você gostaria daqui.
Ele me colocou no chão com muito cuidado e uma graciosidade que também destoava de suas grandes garras. Quando olhei para ele, fiquei surpreso ao ver o quão grande ele era em relação a mim e como, surpreendentemente, ele não inspirava medo.
— Onde estou? – perguntei, com uma voz que parecia não ser utilizada há muito tempo.
— Você está aqui. – ele deu de ombros, como se não entendesse a pergunta.
— E onde é aqui, exatamente? – ele olhou ao redor, procurando algum ponto de referência, então abriu os braços, tentando abarcar toda a grandeza da paisagem.
— Aqui.
“Aqui” era um lugar diferente do que eu esperava ver quando abri meus olhos. O chão era coberto por uma vegetação rasteira de um verde muito vivo, e eu entendi porque o som de seus passos foi abafado. Não havia um único grão de areia à vista. Árvores permeavam os arredores, com folhas que se agitavam ao vento. Próximo a mim havia um riacho e eu me lancei a ele quase que imediatamente. Bebi a água fresca que escapava por meus dedos até estar saciado, lavei a areia de meu rosto, sentindo uma sensação tão revigorante que decidi mergulhar completamente.
Quando saí do riacho, percebi que ele me observava, sentado à sombra de uma árvore. Havia maçãs no chão, e eu me juntei a ele sem hesitar.
— Qual é o seu nome? – perguntei a ele, depois da primeira mordida na maçã.
— Meu nome? – ele olhava para o riacho como se visse algo mais além da água. – Eu já tive muitos nomes, muitos deles eu nem me lembro mais. Você pode me chamar do que quiser.
— Qual foi o seu último nome?
— Qual é o primeiro nome que vem à sua cabeça?
— Nádia. – respondi, sem pensar.
— Nádia. – ele testou o nome, avaliando o som que ele produzia. – Eu gostei. Meu nome é Nádia. De onde vem esse nome?
— Minha mãe... – joguei os restos da maçã no chão e olhei para minhas mãos, avaliando os pequenos cortes nela. – Ela está aqui?
— Não sei. Você quer que ela esteja?
— Não sei. Não sei onde estou ou como vim parar aqui, não sei onde ela está ou onde todos estão. – expressei minha preocupação, tentando obter respostas.
Ele, agora Nádia, levantou-se e estendeu as longas garras para me ajudar a levantar também, sem proferir uma única palavra. Começou a caminhar ao longo do riacho e eu o acompanhei, olhando para o céu azul e pacífico.
— Procurando alguma coisa no céu? – ele perguntou, sem realmente olhar para mim.
Não respondi. Olhar para o céu enquanto andávamos por aí já se tornara um hábito em minha cidade. E mesmo “aqui” me vi preso a este costume tão aterrador. Ouvi um grande estrondo vindo de nossa direita e me assustei, correndo para detrás de Nádia, tentando me esconder.
— Tudo bem, ele só está derrubando algumas pedras, limpando o caminho. – ele disse, apontando para uma criatura grande, de pelo preto e longo, como um pedaço felpudo do céu noturno, com chifres menores que Nádia, retos e pontudos.
— Limpando o caminho para onde?
— Para lá. Caminhos não devem ter pedras. Isso dificulta a passagem.
— Quem é ele?
— Ele é... ele. – Nádia coçou a cabeça, confuso. – Ele chegou a pouco, é um pouco diferente do resto de nós por aqui.
— E o que vocês vão fazer com ele? – eu já ouvira aquela palavra diversas vezes. “Diferente”. Sabia que isso era muito perigoso.
— Por que deveríamos fazer algo com ele? – Nádia pareceu genuinamente confuso.
— De onde eu venho, coisas ruins acontecem com quem é diferente.
— É por isso que você estava fugindo? – ele simplesmente deixou que as palavras flutuassem no ar e recaíssem sobre meus ombros, subitamente pesadas como chumbo.
Eu estava fugindo e foi assim que cheguei aqui, em uma corrida desesperada para a terra prometida. Ainda assim, minha mente continuava confusa sobre tudo o que pode ter acontecido.
— Tudo bem se estiver confuso, é normal quando se chega aqui. Principalmente com as crianças como você. – a voz dele estava carregada de tristeza e fez meu coração se apertar.
— Quantas crianças vieram para cá? – perguntei, baixinho.
— Mais do que deveriam. Tantas que nem consigo contar. – alcançamos uma estrada discreta que serpenteava as árvores e seguimos por ali. – Deveríamos fazer uma fogueira.
Parei imediatamente. Deixei que ele seguisse pelo caminho, sem conseguir dar um único passo, até ele perceber que eu não mais o acompanhava.
— Tudo bem?
— Por que você precisa de uma fogueira? – perguntei com uma voz tão pequena e baixa que cheguei a duvidar que ele ouvira.
— Porque o sol está se pondo e vai ficar frio, e você está com fome, então podemos preparar alguma coisa. – ele se virou para mim, tentando me acalmar, dizer que estava tudo bem. Forcei meus pés a se moverem até estar ao seu lado novamente e ele envolveu meus ombros com seu braço fofo e eu me senti mais seguro. – Aqui não usamos fogo para destruir.
Eu já havia me acostumado com o fogo. Era comum encontrá-lo em cada esquina, depois de alguns passos despreocupados. Contudo, ainda me era estranho compreender que o mesmo fogo que nos aquecia agora era também a chama destruidora que devorava casas, roupas, pessoas e memórias. Depois de algum tempo, qualquer fagulha começa a lhe parecer ameaçadora.
— Você vai me dizer onde estou? – perguntei, enquanto observava o fogo crescer, atento à linha imaginária que tracei no chão, o limite que, se cruzado, me faria recuar imediatamente.
— Você sabe onde está. Pode não ter entendido ainda, mas no fundo já sabe. – ele me ofereceu comida, e mesmo que eu não tenha ideia de onde ela surgiu, eu aceitei, percebendo o quão faminto estava.
— Posso chamá-lo de Samir?
— É claro. – ele sorriu abertamente. – Mas porque Samir?
— Samir é meu irmão.
— Eu conheci seu irmão. – ele falou, me surpreendendo. Fiquei atento a cada palavra dita, mas ele se calou.
— Ele está aqui?
— Todos estão aqui. Todos já estiveram aqui. Todos estarão aqui. Só eu fico aqui. – Samir deitou-se no chão e fez um sinal para que eu me aproximasse. Aconcheguei-me em seus braços fofos e me afastei do fogo. – O céu está lindo hoje.
Eu olhei para as estrelas como se as visse pela primeira vez. Brilhantes como diamantes polvilhando o céu escuro, tão calmas e pacíficas que me faziam querer tocá-las. Entristeceu-me perceber a quanto tempo o céu sobre minha cabeça havia substituído as estrelas por luzes de aviões e as estrelas cadentes por bombas.
— No que está pensando? – Samir perguntou. Avaliei meus pensamentos com cuidado.
— Estou cansado. – respondi finalmente, sentindo lágrimas se acumulando em meus olhos. – Por que nunca vi você antes? Você também se esconde?
— De certo modo, sim. – ele não pareceu se preocupar com isso. – Se as pessoas que você conhece me vissem, o que acha que aconteceria?
— Eles machucariam você. – respondi, mesmo me parecendo óbvio.
— Eles me chamariam de monstro, não entenderiam. Só porque sou diferente deles... Acho que são os chifres, eles assustam as pessoas. – ele riu para si mesmo.
— Acho que eles o machucariam por ser gentil. – sussurrei.
— Por que machucariam alguém gentil? – ele olhou para mim, intrigado, mas fugi de seu olhar e continuei observando o universo.
— Eu quero dormir. – falei, sentindo meus olhos pesados.
— Durma, está tudo bem.
— Tenho medo de dormir. – falei, mesmo não sendo verdade. Eu tinha medo do que encontraria quando acordasse. Se acordasse.
— Eu estaria aqui, eu prometo. – Samir disse, como meu irmão costumava dizer.
Uma promessa vazia, eu sabia. Às vezes, as pessoas estão aqui e então não estão mais. Algumas promessas não podem ser mantidas, não de onde eu venho. Tudo muda a cada instante e isso pode ser assustador. Fechar os olhos significa não mais ver, não estar consciente do perigo e isso o torna vulnerável. E pessoas desaparecem quando estão vulneráveis.
Mas eu estava cansado, exausto até os ossos, desejando por um segundo de inércia e total serenidade. Um momento em que fechar os olhos significava viajar para uma terra de sonhos e maravilhas impossíveis. Enquanto meus olhos se fechavam, me perguntei se este mundo de sonhos não havia sido destruído também.
◊
Os gritos me acordaram subitamente e eu me levantei em um segundo. Samir pareceu confuso, então a realização caiu sobre ele e seu sorriso constante morreu.
— Está na hora de você ir. – ele disse, baixinho.
— O que está acontecendo? – perguntei, tentando encontrar a origem dos gritos.
— Está tudo bem, eu prometo. – ele segurou meus ombros e olhou em meus olhos. Eu mal conseguia ver seus olhos escondido atrás de seu pelo de nuvem. – Alguns chegam aqui assim, aturdidos e com dor. Por isso gritam. Mas não se preocupe, eles vão ficar bem.
— E para onde eu vou?
— Para onde você estava indo. Você sabe que tem que continuar até atravessar a fronteira, como sua mãe disse para fazer. – Não questionei como ele sabia desta informação, apenas olhei na direção para a qual ele apontava. – Você precisa ir agora. Corra.
Percebi que a areia havia voltado a tomar conta de tudo e o sol ainda queimava minha pele impiedosamente. Afastei-me alguns passos, olhando para Samir e tentando gravar em minha memória a sensação de viajar numa nuvem fofa pelo céu azul, um céu que não tem nada além de estrelas. Mas a cada minuto eu me sentia mais consciente do calor e da dor em meus pés, dos olhos cansados e da visão prejudicada que não conseguia alcançar tão longe.
— O que eu vou encontrar lá? – eu perguntei, olhando para a fronteira.
— Tudo. Nada. Seja o que for, faça o seu melhor. – ele acenou com suas longas garras, parado, esperando que eu me afastasse.
Então eu parei. A compreensão me atingiu como um raio e eu me virei para Samir com lágrimas nos olhos, tremendo e incapaz de prosseguir.
— Samir? – sussurrei entre os gritos que se aproximavam, alguns clamando por Deus, outros por piedade. – Eu morri?
As palavras levaram alguns segundos para atingi-lo, viajando pelo ar de maneira lenta, como se não quisessem ser proferidas.
— Não.
Sorri com um misto de alívio e confusão e disparei em direção à fronteira, ouvindo o característico som de meus passos na areia. E enquanto o vento cortava meu rosto e meus braços tentavam me impulsionar, pensei ter ouvido Samir como se ele ainda estivesse ao meu lado, com seu sorriso tranquilo em contraste à profunda tristeza que permeava a voz, dizendo:
— Ainda não...
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