Atlanta
1 Thorns
Notas iniciais
Ele mora em um bangalô,
Ele me mata com os espinhos do jardim de rosas.
Ele espera por mim.
Meu amor é incomum,
É pintado com rosas e espinhos.
Com ele sou completo.
Era assim, tudo muito simples, apesar de belo. Na primeira vez que o vi, comia uma maçã à entrada da casa, nu da cintura para cima. Cortava a fruta, concentrado, ignorando minha presença. Também pudera, já que aquele maldito jardim era perfeito demais para que qualquer coisa o perturbasse. Dediquei meu tempo a observá-lo. Do mesmo modo com que alimentou-se, sem importar-se comigo, também retirou-se.
Já que parecia gostar de maçãs, adiantei-me, colhendo alguns frutos antes de visitá-lo novamente. Precisavam ser perfeitas, assim como as flores dele. Vermelhas, arredondadas, carnudas. Não tinha o jeito de quem gostava de algo muito doce, porém, deveriam, certamente, ter o perfume agradável.
Com um sorriso frouxo e uma cesta de maçãs, foi como me aproximei. Logo a ousadia virou um costume. Devorávamos nossas frutas observando o pôr-do-sol. Ele não era um homem de muitas palavras e eu falava demais, mas não queria assustá-lo com mais esse defeito. Gostaria que antes de afugentá-lo, o pudesse fazer conhecer muitas das minhas outras más qualidades.
Aprendi que ele não era um homem que teria medo de coisas tão fúteis quanto a personalidade estapafúrdia de um desconhecido. Era solitário por natureza e, apesar de não ser alguém a afugentar, ele poderia decidir por sua privacidade. Ele era, sobretudo, um espírito livre, que por algum motivo me permitia ficar a seu lado. Aceitava meus devaneios, vez ou outra esboçando algum sorriso ou balançando a cabeça em dissonância.
Nenhum desses dias era certo, todavia. Sempre tive a certeza de que algum dia ele não estaria lá, andando pela varanda com os pés descalços, os cabelos soltos a balançar com o vento. Comecei com uma investida inconsequente e, em pouco tempo, era escravo daquela necessidade.
As rosas plantadas naquele jardim coloriam meus dias, antes que pudesse ver sua figura atravessando a porta, apoiando-se à parede quando me recebia. Mas a angústia pelo aguardo do mover da maçaneta, indicando sua presença, tornava-se cada vez mais dolorosa. Ali, no meio das flores, podia sentir seus espinhos, um por vez, atravessando minha carne, antes que sua boca levemente curvada para cima trouxesse a tranquilidade que perdi quando me apaixonei.
As memórias, todas completas, graças aos sentidos aguçados pelo sentimento incontrolável. A época das maçãs foi embora, mas tampouco precisava dos frutos como subterfúgio para partilhar daqueles momentos. E era em um ambiente de tal rusticidade onde as palavras mais ternas eram ditas. O cheiro da madeira queimando na lareira, o gosto salgado do suor, o relaxar dos músculos que há pouco contraíam-se.
Poderia imaginar o resto de nossas vidas àquela maneira. Descobri que nada precisava de sentido e, talvez, esse fosse o maior significado de todas as coisas. Pertencer a ele era tudo o que interessava para mim. Não importava se o cheiro fosse de madeira, velas, incenso ou maçãs frescas. Tampouco precisava estar ali, mesmo que a visão das rosas fosse belíssima, mas não tão bela quanto ele.
Mas a utopia assumia sua forma verdadeira. De uma idealização, tornara-se “o lugar que não existe”, quando ele partiu. As flores? Não demoraram a murchar. As maçãs apodreceram, o fogo da lareira extinguiu-se. Era ele quem seria o meu suporte, quem cuidaria de tudo aquilo, mas assim como a estação das maçãs ou a época do desabrochar das rosas, ele se foi, deixando apenas o longo inverno para trás. Por mais doces que as memórias fossem, eram apenas memórias e meus lábios não tornaram a sentir o gosto do riso.
Ele foi embora da minha vida.
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