Atlântida: O Motim

2 Poseidon, o Deus dos Mares


Calliste acordou com o sol brilhando em seu rosto, ela abriu os olhos e viu que estava deitada em sua cama, ainda com o iPod touch em sua mão. A princesa o havia deixado ligado a noite toda, e agora estava tocando uma música suave.

Calliste sorriu. Ela havia dormido bem pela primeira vez em muitos dias. A música a havia ajudado a relaxar e esquecer de seus problemas.

Ela se levantou da cama e foi até a janela. Ela olhou para fora e viu o oceano azul-esverdeado e a cidade logo abaixo. Ela suspirou. Ela ainda estava triste com o noivado forçado com o general Ragendra, mas ela estava determinada a encontrar uma maneira de escapar dele.

Ela se virou ao ouvir um som de batidas vindo da porta e viu Serena entrando em seu quarto.

"Bom dia, princesa", disse Serena. "Seu avô a chamou na sala do trono." A serva completou a frase com tom de medo em sua voz. Vinda de uma família que trabalhava no palácio a gerações, Serena não costumava ter coragem de olhar nos olhos do rei. No passado, ela pouco se atrevia a responder as perguntas da princesa, somente com o tempo ela entendeu que Calliste realmente queria sua amizade.

Calliste assentiu. Ela sabia que esse dia chegaria. Ela tinha que enfrentar seu avô e falar com ele sobre o noivado.

"Eu já estou pronta para essa conversa", disse Calliste para si mesma.

Serena ajudou Calliste a vestir-se. Ela escolheu um traje de seda azul-marinho, que combinava com os olhos de Calliste.

Quando Calliste estava pronta, ela e Serena saíram do quarto. Elas passaram pelo setor submerso do castelo, até chegar à sala do trono.

A sala do trono era um grande salão, com paredes de mármore branco e um teto de mosaico. No centro da sala, havia um trono de ouro, onde Poseidon estava sentado.

O trono foi uma das poucas coisas do palácio que vieram na ilha original de Atlântida, sendo transportado para representar o poder e a nobreza do reino, que já sobreviveu a milhares de anos, da mesma forma que o trono.

Calliste e Serena se ajoelharam diante do trono. Enquanto a princesa continuou ali, Serena se levantou e deu alguns passos para trás, esperando a conversa entre o avô e sua neta terminar.

"Bom dia, meu avô", disse Calliste.

"Bom dia, Calliste", disse Poseidon. "Eu gostaria de falar com você sobre o seu noivado."

Calliste assentiu. Ela sabia que esse momento chegaria.

"Eu sei que você está chateada com o noivado", disse Poseidon. "Mas eu acredito que é o melhor para Atlântida."

"Mas eu não amo o general Ragendra", disse Calliste. "Eu não quero me casar com ele."

"Eu entendo", disse Poseidon. "Mas você é a princesa de Atlântida. Você tem que se casar com alguém que possa liderar o reino ao seu lado, caso seja necessário."

"Eu não quero liderar o reino", disse Calliste. "Eu só quero ser livre."

"Eu sei que você quer ser livre", disse Poseidon. "Mas você não pode ser livre se Atlântida estiver em perigo."

Calliste e Poseidon ficaram em silêncio por alguns instantes, enquanto o rei refletia sobre as palavras da princesa.

"Eu entendo seu medo", disse Poseidon finalmente. "Eu também tive medo quando meu filho, seu pai, se apaixonou por uma mortal. Mas eu queria que ele fosse feliz, e eu sabia que ele amava Libya de verdade. Então, eu concedi a eles a minha bênção."

Calliste olhou para o avô com curiosidade.

"E como foi?", perguntou ela.

"Foi lindo, pelo menos por um tempo.", disse Poseidon com um sorriso no rosto. "Eles eram muito felizes juntos. Mas, infelizmente, o amor deles não durou para sempre.”

“Libya nunca pode viver em Atlântida…” O Deus fez uma breve pausa, em que pegou fôlego por um segundo para continuar. “Os dois se encontravam na praia, seu pai nadava por horas para poder encontrá-la. Mas, no fim, Libya era uma pessoa normal, ela não conseguiria viver aqui, no fundo do mar… Depois de dar a luz a você.” Poseidon fez mais uma pausa antes de continuar. “Bom, as coisas ficaram difíceis, ela tentou fazer o melhor para cuidar de você na superfície, mas uma atlante precisa do mar. Alguns anos depois, seu pai conseguiu convencê-la de que o seu lugar era aqui. Você deve lembrar dela, um pouco talvez? Você tinha uns 15 ou 16 anos quando ela morreu. Tritão nunca voltou a ser o mesmo, depois que soube da morte dela…”

Calliste sentiu um nó no coração ao ouvir a história de seus pais. Ela sabia que seu pai nunca havia se relacionado novamente, e que sempre havia sido um homem solitário.

"Eu não quero que isso aconteça comigo", disse ela. "Eu não quero desperdiçar a minha vida."

"Eu sei", disse Poseidon. "Mas você tem que entender que nós somos diferentes dos humanos. Nós precisamos ficar em Atlântida, além de que… nós vemos o mundo de forma diferente, somos deuses, nosso tempo de vida é muito maior do que para os humanos mortais. Para nós, o tempo é um conceito relativo. Mas, para os humanos, o tempo é linear. Eles nascem, crescem, envelhecem e morrem. E nós não podemos mudar isso."

Calliste suspirou. Ela sabia que o avô estava certo. Ela era uma semideusa, e ela não podia esperar que uma pessoa normal entendesse o que ela sentia.

"Eu vou me casar com ele", disse ela finalmente. "Mas eu não vou desistir da minha liberdade."

"Eu prometo que você terá sua liberdade", disse Poseidon. "Mas você tem que me prometer que vai fazer o seu melhor para ser uma boa rainha, quando chegar a hora."

Calliste assentiu. Ela sabia que isso seria difícil, mas ela estava determinada a cumprir seu dever.

"Eu prometo", disse ela.

Poseidon sorriu.

"Eu estou orgulhoso de você, Calliste", disse ele. "Eu sei que você vai ser uma grande rainha."

Calliste sorriu de volta. Ela sabia que seria difícil, mas ela estava determinada a cumprir seu dever.

Calliste levantou-se da frente do trono de Poseidon. A princesa estava abatida, mas ela sabia que tinha que ser forte. Conforme ela caminhava até a porta do salão, sua serva postou-se ao seu lado e acompanhou os seus passos.

"Eu estou bem, Serena", disse ela, enquanto ambas caminhavam em direção a grande porta. "Eu vou me casar com o general Ragendra, e eu vou ser uma boa rainha."

Serena olhou para a princesa com preocupação.

"Eu sei que você está dizendo isso para me tranquilizar", disse ela. "Mas eu estou preocupada com você. O general Ragendra é um homem perigoso… Eu não quero estar próxima a ele, não posso imaginar como você vai aguentar aquele homem."

Calliste suspirou. Ela sabia que Serena estava certa. O general Ragendra foi um homem cruel durante a sua pequena interação, e com toda certeza, estava agindo por ambição pessoal.

"Eu sei", disse ela. "Mas eu não posso mudar o que vai acontecer."

As duas mulheres nadaram em silêncio por alguns instantes. Serena ainda estava preocupada com a princesa, mas ela sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la.

Quando chegaram ao quarto de Calliste, as duas se enxugaram e se sentaram na cama. Calliste pegou o iPod touch e o mostrou para Serena.

"Olhe", disse ela. "O guarda me deu isso."

Serena olhou para o dispositivo com admiração.

"É incrível", disse ela. "Onde você conseguiu?"

"Um dos batedores encontrou na praia", disse Calliste. "Eles disseram que nunca viram nada parecido."

Serena pegou o iPod touch e começou a navegar pelas músicas. Ela ficou maravilhada com a variedade de músicas disponíveis.

"Isso é incrível", disse ela. "Eu nunca ouvi nada parecido."

As duas mulheres passaram o resto da tarde ouvindo música. Elas se divertiram muito, e Calliste esqueceu por um tempo de seus problemas.

Quando anoiteceu, Serena deixou Calliste sozinha em seu quarto. A princesa estava cansada, mas ela não conseguia dormir. Ela estava pensando no que o futuro reservava para ela.

Ela se levantou da cama e caminhou até a janela. Ela olhou para o oceano, e então pensou no mundo da superfície. Ela queria estar lá, livre para viver sua vida como ela queria.

Mas sabia que isso não era possível. Ela era a princesa de Atlântida, e tinha um dever para com seu povo.

Ela suspirou e se virou para ir para a cama. Ela sabia que seria uma longa noite.

A noite prosseguia quando o general Ragendra foi até a sala do trono, encontrar-se com Poseidon. O general estava vestido com sua pesada armadura negra, que brilhava com tons de azul na luz das tochas.

Poseidon estava sentado em seu trono, com um olhar sério no rosto. Ele sabia que o general Ragendra era um homem ambicioso, e que ele queria usar o casamento com Calliste para seu próprio benefício, mas os rumores de que o povo da superfície estava preparando um ataque lhe tiravam o sono, ele precisava estar pronto para lutar e também precisa ter certeza de que haveria algum líder caso ele não retornasse de um confronto.

"O que deseja, general?", perguntou Poseidon.

"Eu vim falar sobre o casamento", disse Ragendra. "Eu acredito que deveríamos nos casar o mais rápido possível."

Poseidon assentiu. Ele sabia que o general estava certo. Se a guerra com os povos da superfície era iminente, ele precisava que Calliste estivesse casada com um homem forte e capaz de substituí-lo na proteção do reino.

"Eu concordo", disse Poseidon. "O casamento deve ocorrer o quanto antes, já instruí meus servos para organizarem uma grande festa no palácio, dei a eles o prazo de um mês."

Ragendra sorriu. Ele sabia que tinha conseguido o que queria.

"Eu também acho que será necessário que o senhor intervenha com Eros", disse Ragendra. "Eu quero que ele venha até Atlântida para abençoar o nosso casamento."

Poseidon ficou surpreso com o pedido do general. Ele sabia que Eros era um Deus caprichoso, e que ele não era fácil de agradar.

"Se o Deus da paixão e do amor agraciar este casamento, tenho certeza de que não haverá nenhuma conspiração de nobres descontentes com sua decisão. Nossos esforços estarão unidos para enfrentar um inimigo externo comum, e não em conspirações para conseguir mais prestígio com a família real." Comentou o general.

"Eu vou tentar", disse Poseidon. "Mas não posso garantir nada."

Ragendra assentiu. Ele sabia que Poseidon estava fazendo o máximo que podia.

"Obrigado", disse Ragendra. "Eu sei que posso contar com o senhor, majestade."

Ragendra se curvou e saiu da sala do trono. Poseidon ficou sozinho, pensando no que tinha acabado de acontecer. Ele sabia que o casamento de Calliste com Ragendra seria um desastre na relação com sua neta, mas o temor de um conflito próximo, no estado em que ele se encontrava, o atormentava mais.

Minutos após Ragendra sair da sala do trono, o líder da Guarda Real, Theltor, entrou na sala e se aproximou de Poseidon. Normalmente, ninguém entraria na sala do trono sem ser esperado ou anunciado com antecedência, mas Theltor era um caso especial, o homem já estava na Guarda Real a mais de quarenta anos, era um amigo para Poseidon.

Theltor era um homem forte já passando da meia-idade, começava a ter mais fios de cabelo brancos do que em sua cor original, castanho claro. Ele estava vestido com uma armadura leve azul-marinho e a tradicional capa da Guarda Real, que brilhava na luz das tochas.

"O que deseja, Theltor?", perguntou Poseidon.

"Eu vim falar sobre os relatórios dos batedores", disse Theltor. "Eu não acredito que navios da superfície estejam se amontoando nos arredores do território de Atlântida."

Poseidon assentiu. Ele sabia que Theltor era um homem inteligente e experiente, e que ele não acreditava facilmente em rumores.

"Eu sei que você não acredita", disse Poseidon. "Mas eu preciso me preparar para a possibilidade de uma guerra."

"Mas por que você precisa casar Calliste com Ragendra?", perguntou Theltor. "Ele é um homem ambicioso e perigoso."

Poseidon suspirou. Ele sabia que Theltor estava certo, todos na corte conheciam os meios que Ragendra utilizava para acabar com as batalhas que participou, além disto, o fato de nunca ter levado prisioneiros para a cidade contribuiu muito para a sua fama. Mas ele não tinha escolha.

"Eu preciso garantir a união do exército com a casa real", disse Poseidon. "Ragendra é um homem popular entre os soldados, e seu casamento com Calliste fortalecerá a nossa posição."

Theltor ficou em silêncio por um momento, pensando no que Poseidon tinha dito.

"Majestade, o senhor já conversou com o seu filho?" O homem comentou, olhando a negativa do rei, ele tornou a falar. "Tritão já está aqui há muitos anos, eu era uma criança na última vez que o príncipe visitou o palácio. Ele tem o direito de saber sobre o casamento da própria filha… mesmo que seja um casamento arranjado."

O rei pensou por alguns segundos e acabou dando um tímido sorriso para o amigo.

"Eu entendo", disse Theltor finalmente. "Mas eu vou continuar investigando esses relatórios. Eu não vou descansar até que eu saiba a verdade."

Poseidon assentiu. Ele sabia que Theltor faria o que fosse preciso para proteger Atlântida.

"Eu sei que você vai", disse Poseidon. "E eu estou contando com você."

Theltor se curvou e saiu da sala do trono. Poseidon ficou sozinho, pensando no que tinha acabado de acontecer. Ele sabia que o casamento de Calliste com Ragendra seria um desastre, mas ele não podia fazer nada para impedir.

Sozinho na sala do trono, Poseidon começou a pensar em tudo que aconteceu no dia. Ele estava sentado em seu trono dourado, com os olhos fechados, tentando relaxar e refletir.

Ele pensou nos relatórios dos batedores. Ele não acreditava que fossem falsos, mas ele também não acreditava que os humanos da superfície fossem tão corajosos ou tolos para declarar guerra a Atlântida.

Ele pensou no casamento de Calliste. Ele sabia que era a melhor coisa a fazer para proteger o reino, mas ele também sabia que este não era o desejo da princesa.

Ele pensou em Theltor. Ele era um amigo leal e confiável, e Poseidon sabia que ele faria o que fosse preciso para proteger Atlântida e a própria princesa, caso alguma coisa acontecesse.

Poseidon abriu os olhos e se levantou do trono. Ele caminhou até a porta da grande sala e abriu-a.

"Eu preciso me apressar", disse ele a si mesmo. "Eu preciso ir até o Olimpo e informar os outros Deuses sobre o casamento."

Ele caminhou até o seu quarto e começou a se preparar para a viagem. Ele precisava de ao menos um dia de preparativos, então ele deveria começar com urgência.

Ele ordenou que seus servos trouxessem roupas adequadas para a viagem. Ele também pediu que eles preparassem uma carruagem puxada pelos golfinhos mais velozes do reino.

Enquanto os servos trabalhavam, Poseidon pensou no que ele diria aos outros Deuses. Ele sabia que eles não ficariam felizes com o casamento de Calliste com Ragendra. Se não planejasse com cuidado as suas palavras, poderia ressuscitar alguma das disputas que o Olimpo deixou no passado

Ele também pensou em como ele poderia proteger Calliste do general. Ele sabia que Ragendra era um homem com um ego maior do que o próprio corpo, e ele não queria que ele machucasse sua neta.

Poseidon terminou de se preparar e saiu do quarto. Ele caminhou até a sala do trono e convocou seus servos.

"Eu vou partir para o Olimpo", disse ele. "Vocês devem cuidar de Atlântida em minha ausência."

Os servos se curvaram e responderam que fariam o melhor para proteger o reino.

Antes de poder realizar a viagem, o monarca chamou os seus conselheiros mais próximos, planejava deixar instruções bem diretas a cada um, mesmo que não estivesse no reino, seus desejos seriam atendidos neste tempo. Mas, para que todos pudessem chegar até o palácio, seriam necessárias algumas horas, este seria o tempo de Poseidon teria para pensar em como aliviar o fardo que colocara sobre os ombros de Calliste.