Notas iniciais
Bom, eu demorei um tanto considerável com esse capítulo, entretanto, só tem a visão da Bianchi permeada pela Kyoko. Porque eu me alonguei no dia dela, então o capítulo que vem, teremos a Haru e mais alguma coisa sobre a Chrome e os meninos que já estão fazendo falta. Stay tuned.

Kyoko acordou sobressaltada e nem tomou café. Saiu correndo para o trabalho, completamente transtornada. O sono dela não pode ser descrito como tranquilo. Depois do abraço em Tsuna e o caminho mórbido pra casa, não era de se admirar que tivesse pesadelos. Entretanto os pesadelos se tornavam sonhos sensuais e Kyoko não sabia se gostava ou não.

Por mais que as pessoas dissessem que ela era o ídolo da escola de Nanimori, ninguém nunca se aproximou. Era como se a popularidade que ela tinha, sabe-se Deus por qual motivo, criasse uma redoma intransponível. Ninguém entrava e ninguém saía. Entretanto, Kyoko fez uma fissura nessa redoma quando se permitiu gostar de Tsuna e em sua ingenuidade, esperou que ele percebesse isso e forçasse sua entrada, mas aparentemente ela não valia a pena e por isso ele não se aproximou. Tudo bem, ela podia não ter dado nenhum sinal de permissão, mas naquela época considerava seriamente que era função única e exclusiva masculina a iniciativa na arte da conquista, então a atitude teria mesmo que provir dele.

Claro que hoje, ela sabe que não é bem assim. E sempre viveu pensando nas possibilidades, o que era triste demais, só que era menos triste do que sair com as pessoas que via por aí. Kyoko não era muito de conversar no trabalho e tinha uma dificuldade hercúlea em fazer amizades e era tão silenciosa que as pessoas mal percebiam que ela estava no recinto.

O horário de almoço era revezado em vários grupos e vários setores. Kyoko não conversava, mas ouvia e ouvia muito. Desde práticas sensuais até conflitos sérios de relacionamento. Por mais que não tivesse vivido muito, de acordo com os padrões sociais, a sabedoria que adquiriu desse exercício era inquestionável. Ficou devaneando até chegar à empresa e ver que ela estava com os portões fechados, com um aviso de auditoria. Somente os funcionários de alto escalão estavam trabalhando, o que de acordo com a lógica corporativa, lhes garantiriam bônus polpudos e férias até quase o ano que vem, levando em consideração que estavam em junho.

Porém, em vez de dar meia-volta, Kyoko entrou no complexo, nem despertando a atenção dos seguranças, que sabiam que a conheciam de algum lugar, então pelo sim, pelo não, acharam melhor não retê-la na entrada.

A ruiva entrou no hall e ele estava completamente apagado, haviam pacotes e pastas com documentos de caráter confidencial, que em dia de auditoria ficavam mais negligenciados do que panfletos publicitários. A mulher conhecia com excelência o esquema e aproveitou-se. Fotocopiou os documentos e juntou com as cópias anteriores e finalmente decidiu ir pra casa. Realmente não era interessante que alguém descobrisse essas cópias, como não seria interessante que soubessem que ela estava lá, nada quem uma alteração primária nas câmeras não desse jeito. Ela sabia alguns procedimentos que ouviu no refeitório quando os seguranças estavam almoçando e comentando sobre algumas mulheres que trouxeram em um dia aleatório e como era necessário esconder esse fato da chefia. Pelo que eles disseram toda a coisa era extremamente fácil.

Depois de ter tomado as providências e percebendo a facilidade extrema de burlar a segurança, ela foi pra casa, mesmo não querendo, já que sentia que teria uma conversa essencial com suas amigas, que não estavam muito afim de conversar.

Chegando em casa, Kyoko deparou-se com uma muralha de silêncio e sentou-se singela no sofá, não sem antes pegar uma xícara de café e um pedaço de bolo de chocolate. Sentou-se e esperou.

Depois de 10 minutos, ela sente um aroma tóxico e ao mesmo tempo e soube que Bianchi tinha acordado. A Poison Scorpion vem caminhando displicentemente e para na sala onde a doce garota ainda se deliciava com o café, recarregando para o que viria logo depois.

“Kyoko, você não tinha que trabalhar hoje?”

A ruiva responde que só tinha que pegar uns documentos porque a empresa está passado por mais um processo de auditoria que leva no mínimo uns dois dias.

“Eu preciso desabafar” E com isso, a ruiva percebe todo o desespero contido naquelas três palavras. Nunca sentiu tanto pavor e tanta hesitação em uma frase tão curta e claramente, a moça permitiu que a amiga começasse seu relato.

“Bom, eu acho que você deve estar se perguntando o motivo pelo qual eu vim morar aqui na casa de vocês, em vez de ficar com Tsuna e com os outros. E antes que você pense que foi só pra irritar o meu irmão, não, não foi por isso. Vim pra cá porque aconteceu uma coisa horrorosa. Eu me apaixonei.” E nesse momento, Bianchi vomita no tapete.

A amiga alarmada, vai até a cozinha com toda a calma, pega um pano de chão, um guardanapo e um copo de água e se dirige à sala, onde estende o guardanapo e o copo para Bianchi e começa a limpar o chão. A garota é detida por Bianchi, mas incentiva a amiga a continuar falando, somente pedindo para que a alertasse caso outro enjoo acontecesse.

“Se você acha que assim está bem, tudo bem. Não se preocupe, eu não me apaixonei pelo Tsuna. Acho que só você mesma pra ver algo de bom naquele indivíduo e olha, eu não entendendo pessoas que tem o amor correspondido não ficarem juntas. Kyoko, tá tudo bem? Senta aqui. Deixa eu ir pegar um copo de água pra você.”

A ruiva não sabia o que dizer. Nunca esperava que Bianchi soubesse de Tsuna, de seu amor ou melhor de seus sentimentos por ele, jamais. Ninguém a não ser Haru sabia disso, ok, Yamamoto, mas eles tinham jurado que não falariam pra ninguém. Yamamoto era um homem de palavra, claramente não iria traí-la assim. E será que Tsuna sabia? Será que não tinha jeito? Porque aquela possibilidade era tudo que Kyoko tinha. Nada mais além disso. Ela não podia perder a única esperança. Por mais que a mesma parecesse com uma maldição, mantendo-a afastada de todos os outros pretendentes.

“Você deve estar se perguntando quem foi que me contou, não? Ninguém. É fácil perceber quando você pergunta sobre ele no telefone e também o abraço. E como você disse no aeroporto. Algum sentimento você tem por ele. Isso é inegável e bonito. E me pergunto como você nunca percebeu que a coisa toda é recíproca, Kyoko. Era só falar seu nome na mansão que o clima ficava infinitamente mais agradável. Tsuna ficava mais leve e pela cara de idiota dele ontem, é bem fácil perceber que ele tá mais do que ligado em você, usando uma gíria super antiga.”

Kyoko não acreditava em nenhum momento nisso, tanto que fez o que pode pra mudar de assunto, o que arrancou um sorriso triste de Bianchi.

“Ok, eu realmente não queria ter que fazer algo tão comum que é desabafar, eu nem gosto muito de falar. Sou mais silenciosa, mas algo dentro de mim mudou, Kyoko e me assusta profundamente. Eu não consigo comer nem dormir. Nem o saquê que eu gostava tanto me desce. E sabe o pior? Eu sinto falta. Eu detesto sentir essa maldita vulnerabilidade. É como se o meu coração e a minha alma estivessem ao alcance da mão, disponíveis pra toda e qualquer atividade. Eu detesto sentir. É por isso que eu enveneno. É pelo veneno que eu sinto, que eu vivo e nem isso eu consigo mais.”

Kyoko sorriu tristemente e incentivou a amiga a continuar, mas aparentemente ela tinha que dar algo em troca. Se para Bianchi, o desabafo era algo tão problemático, ela teria que tomar medidas drásticas, então admitiu em alto e bom som que gostava muito de Tsuna, que nunca se sentiu à vontade para nem sequer tentar atraí-lo, que sempre se achou apenas um ornamento e que nunca foi capaz de impressionar ninguém a não ser pela suposta beleza que as pessoas falavam que ela tinha. Ela nunca viu o que viam nela e nunca valorizavam o que ela achava bom em si. O fato dela entender as coisas depois de uma maior meditação era algo que achava bem legal, mas com todos falando como isso era coisa de gente burra, ela deixou de meditar mais. Os bolos que ela tanto amava, parou de comer por um tempo por causa de um suposto corpo perfeito. Ela não sabia como tirava aquelas notas, levando em consideração que tinha se esquecido de tudo e Tsuna não merecia aquele ensaio de mulher. Ela não se sentia mulher o suficiente, ainda não se sente, mas a dor parece menor.

“Nossa, Kyoko. Eu não sabia. Me desculpe. Eu também posso ter sido conduzida pelas aparências e achei que você simplesmente não gostava do Tsuna. E eu entendo o fato de não se sentir mulher. Por exemplo, nisso de ser mulher apaixonada. Eu acho que é o maior assassino da feminilidade porque impede a mulher de ser como é. Eu por exemplo, me vejo pensando coisas que eu jamais pensaria, como colocar alguém dentro do meu mundo. Eu me pego pensando em partilhar, entende? E me consumir nele. E não só no sexo, mas em todos os âmbitos. Kyoko, você ficou pálida de repente. Vou pegar mais café.”

Enquanto a irmã de Gokudera vai correndo para a cozinha, Kyoko sente as bochechas completamente rubras e quentes, sexo! Eu já ouvi falar e claramente sei o que é, mas fazer...eu nunca beijei nos lábios de ninguém. Como seria o gosto dos lábios do Tsuna-san? Como que seria? Mel? Chocolate? E será que eu teria vontade de fazer sexo com ele? Será? E como seria? Será que ele me acharia uma idiota? Claro que me acharia uma idiota, já que todos acham isso. Definitivamente eu preciso perguntar algo pra Haru-chan. Ela sempre falou das coisas que ela e Gokudera-san faziam e parecia interessante porque eu nunca perguntaria isso pra Hana porque eu não quero conhecer o meu irmão dessa maneira.

“Kyoko, aqui está o café e a água. Pela sua reação ou você é virgem ou inexperiente. O que é completamente normal. Não se preocupe. Aparentemente, a paixão tira a sua experiência. Porque eu me sinto um peixe fora d'agua quando estou com Yamamoto. Não faça essa cara. Sim. Yamamoto. Aquele idiota. Eu sei que pode parecer coisa mandada pra provocar o meu irmão e que deveria mesmo ser com o Reborn, mas Reborn tem seu amor residido em uma senhora morta e eu não podia morrer também para que ele me amasse. E eu não amo Yamamoto, longe de mim. É algo completamente diferente. Porque ficar com Reborn, ou apenas a ideia de ficar com Reborn era algo sublime, inalcançável, o que o amor deve ser. “

Kyoko suspirou resignada e triste, afirmando que era completamente ao contrário. Porque o amor não deveria ser o objetivo final, deveria ser a busca, a descobertas. Claro, que ela destacou a ironia da situação, levando em consideração que não buscava nada relacionado a isso, mas não deixou de ressaltar a importância do descobrir.

“A jornada? Você acha que a jornada é mais importante que o resultado? Se bem que é durante o caminho que aprendemos, mas eu realmente não consigo ver. A minha objetividade foi completamente prejudicada por esse meu relacionamento com o Yamamoto. Eu não consigo não me importar. Eu não consigo não esperar, não ficar ansiosa, sabe? Com aquelas borboletas no estômago. Essa realidade está acabando comigo.”

“Mas não é o objetivo? Da paixão? Que ela se concretize?” Kyoko perguntou.

“Na verdade, eu sempre fui muito platônica. Eu sempre quis ter possibilidades, muitos figos, mas nunca quis colher nenhum. Mas eles foram apodrecendo...Reborn é um deles. Yamamoto é um figo que caiu antes da hora e eu estou saboreando e com medo que acabe. Por isso que eu não gosto que ele goste de mim, apesar de eu achar que é físico. Tem esse gancho que me puxa em direção a ele e não sei como sair disso, entende?!”

Kyoko apenas assentiu, sem saber muito bem o que dizer. Por um lado, a inexperiência dela era notória, mas, por outro lado, ela tinha a serenidade dos derrotados. Se Bianchi acreditava que era uma derrota estar apaixonada, Kyoko tinha pleno conhecimento nesse departamento. Então ela disse que Bianchi podia estar assustada, entretanto, não tinha mais o que perder. Já que tinha perdido a essência da não realidade e tinha alcançado a paixão, ela não podia mais se considerar vencedora no âmbito das paixões não correspondidas ou não vividas e se ela já tinha perdido, qual seria o problema em tentar viver aquilo com plenitude?

“Plenitude é muito subjetivo e tem muitas variáveis a serem analisadas Kyoko. Foi uma vida me distanciando, uma vida inteira demonstrando sentimentos vazios e dissimulados na tentativa de construir um personagem. Ou você acha mesmo que eu não vejo o nojo que meu irmão tem de mim? Mas eu dissimulo, pra não ficar longe dele. O papo foi bom Sassagawa Kyoko. Eu tenho uma experiência pra fazer, mas eu vou refletir sobre o que disse. E não pense que você não deve ser feliz. Deve e muito.” E com isso, a venenosa se retirou, deixando uma ruiva imersa em pensamentos.