At 7 a.m

2 Capítulo 1


Passou o dia pensando naquele olhar. Tinha sido descuidado. Deveria prestar mais atenção na próxima vez.

Terminou a aula distraído. Nem percebera que o tempo havia passado. Fechou seu livro e o guardou, checando o horário no celular em seu bolso. Como a aula terminara mais cedo, decidiu ir para a estação e aguardar para o trem que vinha antes do qual costumava pegar. Não sabia se queria ver ê garote mais uma vez no mesmo dia. Temia que algo pudesse dar errado.

“Como poderia dar errado? Você nunca nem falou com elu.” – pensou consigo e levando a mão a testa, como se isso o ajudasse a dispersar tais pensamentos bobos.

O sol começava a se pôr, mergulhando a cidade em cores quentes como laranja e amarelo escuro. Quando seu estômago lhe deu sinal de vida, percebera que não comera nada senão um sanduíche natural da loja de conveniência mais próxima de sua faculdade na hora do almoço.

Parou na primeira cafeteria que achou e esperou por seu pedido em uma das cadeiras altas de frente para a janela. Apoiou seus braços na estreita mesa a sua frente e observou as pessoas do lado de fora. Quais seriam suas histórias?

Seu nome foi chamado e pegou a embalagem com seu café e uma porção pequena de cookies. Sabia que não era a melhor alimentação, mas desde que começara a morar sozinho, se acostumara com seu novo hábito alimentar.

Se dirigiu para a estação tranquilamente, sabia que tinha mais alguns minutos antes do próximo metrô chegar. Sentou em um dos bancos que havia por ali e tomou um gole de sua dose de cafeína diária, quando notou uma presença no banco ao seu lado que antes não estava ali. Baixou a cabeça e o copo para olhar e ver que era ê garote, olhando para a frente com um semblante tranquilo, como se não tivesse percebido que se sentara perto do garoto que observava elu sempre quando possível.

Jesse levou mais um susto e se afogara com o gole de café que não percebera que não tinha engolido ainda. Ê garote olhou para ele assustade, enquanto ele tossia.

— Você tá bem? – perguntou e ele assentiu enquanto terminava de tossir. – Por Deus, sou tão assustadora assim?

— Não! Por que diria isso? – Jesse perguntou quando se recompôs.

— Bom, hoje quando olhei pra você — que estranhamente já estava olhando para mim — levou um susto e saiu correndo, e agora você leva mais um e quase morre afogade?

— Ah. – murmurou e tomou mais um gole de café, como se isso o ajudasse a continuar interagindo. – Aliás, meu nome é Jesse, pronomes ele/-o.

— Lake. Pronomes ela/a e elu/e.

Ele assentiu, processando as novas informações. Iria dizer algo quando o barulho do metrô o interrompeu e até que o veículo parasse, esperou.

— Então... – começou, não sabia como perguntar se Lake já o havia visto olhando para ela antes. Tinha medo que ela achasse que tivesse uns parafusos a menos.

— Quer dar uma volta? – elu interrompeu.

Ele ficou surpreso com a pergunta, tentando responder enquanto pensava rapidamente que resposta daria. Sim? Mas para onde iriam? Não? Ela ficaria triste se negasse?

— Pode...

— Ótimo. Vamos. – ela se levantou e foi na frente.

Jesse se agilizou para acompanhá-la, guardando o pacote de cookies na mochila e terminando o café e jogando no lixo mais próximo. Apressou o passo para ficar lado a lado, e só então percebera que elu levava uma mochila bege e transversal. Talvez fosse uma estudante também.

— Em qual faculdade você estuda? – ele questionou.

— Faculdade é para perdedores. – respondeu normalmente.

O rapaz não soube o que dizer por alguns segundos.

— Para onde estamos indo? – continuou.

— Você vai ver.

— Você sabia que eu te observava? – disparou. Talvez estivesse ficando nervoso demais.

— O quê? – ela parou e o olhou.

Ele engoliu em seco. – Nada. Vamos continuar. – Ele retomou o passo.

— Como assim me observava? – estava surpresa com a notícia. Não deveria tê-lo trazido consigo.

— É que... – ele suspirou – Você me chamava a atenção e eu não sabia como começar uma conversa com você então... Eu só te olhava.

— Isso não é nem um pouco estranho. – Lake comentou com ironia.

— Bem você acabou de chamar um completo estranho para passear com você então acho que não sou o único estranho aqui. – Ele defendeu.

Ê garote olhou para ele com uma pontada de raiva. Ele tinha razão.

Andaram juntes por mais um tempo, em silêncio.

— Aqui. – Ela avisou e pararam. Estavam em um parque. Com árvores com as folhas alaranjadas e amareladas devido ao outono. Algumas pessoas passeavam por ali, sejam sozinhas, acompanhadas por outras pessoas ou por seus pets. A posição do sol fazia uma bela iluminação nas árvores dali.

Ela retirou uma câmera de sua bolsa e a ligou e ajustou. Jesse observou e parecia ser de profissional, mas ficou quieto. Apenas a aguardou. Quando elu começou a caminhar pela praça, a acompanhou pela grama até que ela parasse em uma área mais aberta e com menos árvores. A luz do sol formava alguns feixes por ali, devido aos prédios altos que impediam que toda sua luz projetasse na grama dali.

Ela tirou algumas fotos em silêncio. Por vezes virando a câmera na vertical e ajustando conforme as fotos eram tiradas. De repente, ela voltou seu olhar para ele.

— Fica aqui. – Elu apontou para um dos feixes e ele obedeceu. Ele levantou o olhar para ela quando se posicionou corretamente, mas o sol ainda estava relativamente forte, o que o fez baixar o olhar de imediato. Escutou um clique.

— Legal. A primeira foto ficou boa. Continue sendo natural.

Queria contra-argumentar que não sabia ser natural, porém nada disse. Só tentou, como ela disse, ser natural. Colocava as mãos nos bolsos, tirava, olhava para o lado. Quando se sentiu confortável o suficiente e a luz do sol já estava diminuindo, até fez um sinal de rock em uma das mãos e mostrou a língua.

Ouviu um som estranho, e só ao olhá-la é que percebeu que ela estava rindo.

— Perfeito. Você é um bom modelo. Qual seu celular? Vou te encaminhar essas fotos depois. – elu pediu e ele pareceu meio desnorteado por um segundo. Primeiro pelo elogio e em seguida pelo pedido de telefone.

Informou a ela seu telefone e logo ela mandou um oi, o que fez o celular dele emitir um toque. Enquanto ele salvava seu contato, ela desligava e guardava sua câmera na bolsa.

— Não imaginava que você fotografava.

— Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim. – Elu afirmou e levantou uma sobrancelha.

— A sua pele...

— Não comece.

— Ok. – O garoto aceitou e continuou caminhando. Só então percebera que não estavam voltando para a estação. Não se importou. Não tinha outra coisa para fazer de qualquer maneira.

— Eu sou tipo aquelas pessoas que pintam a pele de prateado para parecerem estátuas, sabe? Só que de verdade. – Explicou.

— Sério? – Ela confirmou com a cabeça e estendeu a mão para ele. Ele deu um peteleco em sua mão e logo se arrependeu, gemendo um “Ai” e protegendo o dedo machucado com a outra mão. – Prometo não perguntar mais nada. – É tudo que diz.

— Ótimo. – Ela sorriu.

Passearam por mais algumas quadras, até Lake parar e entrar em um antiquário. Jesse faz uma careta de surpresa, não imaginava que a garota gostasse de coisas antigas. Lake não percebera e apenas começou a explorar a loja.

O atendente lhe deu as boas-vindas e disse que qualquer ajuda que precisassem era só chamar. Jesse agradeceu.

O garoto já a perdera de vista, então começou a explorar a loja por si só. Encontrou um sapo de porcelana que cabia em sua mão. O achou adorável e decidiu que o compraria. Vasculhou pelo ambiente em busca de mais algo interessante, mas nada encontrara. Encontrou ê garote já pagando por algo. Foi até ela.

— O que encontrou? – perguntou. Ela lhe estendeu um chaveiro multifuncional vermelho com o estilete apontado para ele, o que o fez recuar e ela sorrir.

Ele pagou pela decoração e decidiu colocá-lo em uma sacola separada, com medo que ele quebrasse em sua mochila.

Ao saírem da loja, Lake se pronunciou.

— É adorável.

— O quê?

— O sapo. – Elu apontou com a cabeça para a sacola que ele segurava enquanto guardava o chaveiro no bolso da calça.

— Ah. É.

Mantiveram-se em silêncio até chegarem na estação mais próxima.

— Nos falamos? – Lake pergunta.

— Claro. – Confirma o garoto, e elu assente e dispara para o metrô do outro lado.

Jesse não imaginava que seu dia tomasse esse rumo, mas não estava reclamando também.

Notas finais
Quem notou as referências?? Se preparam porque terão mais!!