Até você voltar
28 Volta para a Rotina
Voltar para casa não teve nada de leve.
Não teve aquela sensação de alívio que as pessoas costumam descrever depois de um hospital. Para mim, foi só… diferente. O mesmo mundo, mas visto por uma lente levemente deslocada.
A cidade continuava a mesma.
Os carros, o barulho, as pessoas apressadas.
Mas eu não.
Ou pelo menos era assim que eu me sentia.
Ane insistiu em me acompanhar no dia da alta.
— Você não vai sozinha, Beca.
E eu não tive energia para discutir.
Bernardo não apareceu no quarto naquele momento.
Mas eu senti a ausência dele como se fosse presença.
Estranho pensar nisso, considerando que eu mal conseguia lembrar quem ele era de verdade.
Só sabia o que me disseram.
Chefe.
Presente na festa.
Importante de algum jeito que meu cérebro se recusava a acessar.
E ainda assim… havia um incômodo.
Uma espécie de sombra de significado.
O apartamento estava exatamente como eu tinha deixado.
Limpo.
Organizado.
Quieto demais.
Ane ajudou a colocar minhas coisas sobre a mesa.
— Você vai precisar de ajuda nos primeiros dias, tá?
— Eu tô bem. — respondi automaticamente.
Ela me olhou com aquela expressão de quem não acreditava nem um pouco.
— Você levou um acidente, Beca.
— Eu sei.
Mas saber não era o mesmo que sentir.
Ela suspirou.
— Tá. Mas não vai agir como se nada tivesse acontecido.
Fiquei em silêncio.
Porque eu não sabia como agir.
Os primeiros dias foram uma tentativa constante de retorno.
Rotina é uma palavra bonita quando você não está quebrado por dentro.
Eu acordei no horário de sempre.
Tomei banho.
Tentei trabalhar um pouco remotamente.
Respondi e-mails.
Mas tudo parecia… automático.
Como se eu estivesse assistindo minha própria vida de fora.
Na empresa, me deram alguns dias de home office.
A justificativa oficial era recuperação.
Mas eu sentia que havia algo mais ali.
Algo que ninguém estava dizendo diretamente.
Bernardo não me ligou.
Não mandou mensagem.
Pelo menos não que eu conseguisse lembrar de ter visto.
E isso deveria ser normal.
Chefe.
Funcionária.
Acidente.
Distância profissional.
Mas não era só isso que eu sentia.
Era um espaço estranho entre as coisas.
Como se tivesse algo que deveria existir ali… e não existia mais.
No terceiro dia, decidi voltar ao trabalho presencial.
Ane disse que era cedo.
Eu disse que precisava tentar.
E, no fundo, era verdade.
Eu precisava tentar entender como voltar a ser alguém que não estivesse só existindo entre lembranças de um término com o Derick.
Quando entrei na empresa, tudo parecia igual.
Mas não era.
Os olhares vieram.
Discretos.
Rápidos.
Alguns de preocupação.
Outros de curiosidade.
— Beca! — Ane veio até mim imediatamente. — Você não devia ter vindo ainda.
— Eu tô bem.
— Você tá teimosa.
Sorri fraco.
— Isso eu sempre fui.
Ela me observou por alguns segundos.
— Ele tá aqui.
Eu entendi na hora.
Bernardo.
Meu corpo reagiu antes da minha mente.
Não de forma clara.
Não como lembrança.
Mas como uma tensão leve no estômago.
— Tá. — respondi apenas.
Ane me acompanhou até a mesa.
— Se você não quiser falar com ele hoje, tudo bem.
Assenti.
Mas a verdade era que eu não sabia se queria ou não.
Porque eu ainda não sabia o que sentia.
Ele apareceu no meio da manhã.
Como se já soubesse exatamente onde me encontrar.
Eu estava organizando algumas coisas no computador quando percebi a presença.
Olhei para cima.
Bernardo estava ali.
De terno.
Postura firme.
Mas o olhar… não acompanhava a mesma firmeza.
Ele parecia mais cansado.
Mais quieto.
Por um segundo, nenhum de nós falou nada.
Então ele disse:
— Você voltou.
Não era uma pergunta.
— Voltei. — respondi.
Silêncio.
Ele parecia estar escolhendo palavras.
Como se qualquer uma delas pudesse quebrar alguma coisa.
— Como você está? — perguntou.
A pergunta era simples.
Mas me fez hesitar.
— Melhor.
Ele assentiu lentamente.
Mas não parecia convencido.
— Você lembra de alguma coisa agora?
Neguei.
— Não muita coisa.
Ele desviou o olhar por um instante.
Como se já esperasse isso.
— Tá.
Outro silêncio.
Era estranho conversar com alguém que, segundo me disseram, fazia parte de uma parte importante da minha vida… e eu não sentia nada claro sobre isso.
Só confusão.
— Ane disse que você ficou no hospital comigo. — falei.
Ele confirmou com a cabeça.
— Fiquei.
— Obrigada.
Ele soltou o ar, como se aquela palavra não resolvesse nada.
— Você não precisa me agradecer.
Ficamos em silêncio de novo.
Até que ele falou, mais baixo:
— A gente vai precisar conversar em algum momento.
Meu corpo reagiu sem explicação.
— Sobre o quê?
Ele me encarou.
Longo.
Direto.
E respondeu:
— Sobre tudo o que você não lembra.
Aquilo ficou pesado no ar.
Eu não sabia se era medo.
Ou curiosidade.
Ou só a sensação de que havia um pedaço da minha vida esperando para ser encontrado… mesmo que eu não tivesse certeza se queria encontrar.
Eu fiquei alguns segundos sem responder.
“Sobre tudo o que você não lembra.”
A frase ficou girando na minha cabeça como algo que não encaixava em lugar nenhum.
Não parecia uma conversa simples.
Nem uma explicação rápida.
Parecia… maior do que eu conseguia lidar naquele momento.
— Eu preciso mesmo saber tudo? — perguntei, baixo.
Bernardo não respondeu de imediato.
Ele desviou o olhar, como se a pergunta fosse mais difícil do que deveria ser.
— Não sei se “precisa” é a palavra certa. — ele disse, por fim.
Aquilo me deixou ainda mais confusa.
— Então qual é?
Ele passou a mão pela nuca, um gesto cansado.
— Talvez seja sobre você entender por que algumas coisas estão… faltando.
Faltando.
A palavra me atingiu de um jeito estranho.
Porque era exatamente assim que eu me sentia.
Como se minha vida tivesse buracos que eu não conseguia preencher.
— Eu só lembro do Derick. — falei, mais firme do que antes. — E do acidente. E da festa. O resto… não vem.
Bernardo assentiu devagar.
Mas a expressão dele mudou.
Não era surpresa.
Era algo mais pesado.
Quase como dor contida.
— Entendi. — ele respondeu.
E ficou em silêncio.
O tipo de silêncio que não encerra conversa. Só empurra tudo para dentro.
Eu observei ele por alguns segundos.
Havia algo nele que parecia sempre à beira de dizer mais.
Mas nunca dizia.
E isso me incomodava de um jeito que eu não sabia explicar.
— Você não vai me contar agora? — perguntei.
Ele me olhou de novo.
Direto.
— Não aqui.
— Por quê?
Ele respirou fundo.
— Porque isso não é conversa de corredor, Beca.
Aquilo fez sentido.
Mas não ajudou.
Porque agora eu sabia que havia algo.
Algo grande o suficiente para precisar de “um momento certo”.
E eu não sabia se queria esse momento.
Ou se tinha medo dele.
— Tá. — respondi por fim.
Ele assentiu, como se tivesse aceitado alguma decisão interna.
— Quando você estiver pronta… a gente conversa.
“Pronta.”
Essa palavra ficou pior do que as outras.
Porque implicava escolha.
E eu nem sabia o que estava escolhendo.
O resto do dia passou devagar.
Ou talvez rápido demais.
Eu não sabia mais diferenciar.
Ane me observava o tempo todo de canto de olho.
Como se esperasse que eu desmoronasse a qualquer momento.
Mas eu não desmoronei.
Só fiquei… funcionando.
Respondendo e-mails.
Organizando tarefas simples.
Tentando fingir normalidade.
Mas não havia normalidade.
Havia lacunas.
Sempre lacunas.
Em algum momento da tarde, vi Bernardo atravessar o corredor.
Ele não me olhou diretamente.
Mas senti mesmo assim.
Como se minha presença ainda tivesse algum tipo de peso para ele.
E isso me deixou desconfortável.
Porque eu não sabia por quê.
No fim do expediente, Ane apareceu na minha mesa.
— Você vai pra casa direto?
— Vou.
Ela hesitou.
— Quer companhia?
— Não precisa.
Ela me estudou por alguns segundos.
— Você tá tentando ser forte demais.
Sorri de leve.
— Eu tô tentando ser normal.
Ela suspirou.
— Você não precisa voltar ao normal agora.
Não respondi.
Porque eu não sabia mais o que era normal.
Quando saí da empresa, o céu já estava escuro.
O ar da noite parecia mais frio do que o habitual.
Fui até o estacionamento devagar.
E foi aí que vi o carro dele.
Bernardo.
Ele estava encostado na lateral, mexendo no celular.
Como se estivesse esperando.
Quando me viu, guardou o aparelho.
— Você tá indo embora agora? — ele perguntou.
— Tô.
Ele assentiu.
— Quer que eu te acompanhe até o carro?
A pergunta me pegou de surpresa.
— Não precisa.
Ele não insistiu.
Mas também não se moveu.
Ficamos alguns segundos ali, em silêncio.
E então ele disse:
— Beca…
Eu olhei para ele.
Ele hesitou.
Como se estivesse lutando contra alguma coisa interna.
— Você confia em mim?
A pergunta me travou.
Porque eu não tinha resposta.
Não verdadeira.
Não completa.
— Eu não sei. — falei, honesta.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Como se aquilo doesse mais do que deveria.
— Tá. — ele respondeu baixo.
E ficou quieto.
Eu entrei no carro.
Mas antes de fechar a porta, olhei para ele de novo.
Ele ainda estava ali.
Parado.
Me observando como se estivesse tentando decidir se me deixava ir… ou se me puxava de volta para algo que eu ainda não conseguia lembrar.
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