Até você voltar
23 Vermelho
O dia da festa chegou.
Eu escolhi um vestido vermelho. Não era nada extravagante, mas era muito mais do que as pessoas estavam acostumadas a ver em mim. O tecido acompanhava meu corpo sem exageros, tinha um decote discreto e uma fenda delicada na perna. Elegante. Feminino. Diferente da Beca que sempre aparecia de calça jeans, camiseta e um coque malfeito no cabelo.
Na noite anterior, tinha ido ao salão. Cortei a franja novamente e pedi um corte que desse mais movimento ao cabelo. Quando a cabeleireira terminou de secá-lo, fiquei alguns segundos me olhando no espelho.
Havia algo diferente.
Não era o cabelo.
Nem a maquiagem leve que ela fez para testar.
Era o jeito que eu estava me olhando.
Pela primeira vez em muito tempo, gostei do reflexo.
Meu celular vibrou.
Bernardo.
— É sério que não vai me deixar te ver? — escreveu.
Sorri sozinha.
— É surpresa.
A resposta veio quase imediatamente.
— Uma fotinha?
Olhei para o espelho, levantei o celular... e, no último segundo, virei a câmera para a televisão, onde passava uma série aleatória.
Enviei.
Alguns segundos depois.
— Isso não vale. Você não me deixou ver nem o vestido, nem o cabelo.
Ri alto.
— Eu espero que você goste.
Ele demorou alguns instantes para responder.
— Tenho certeza de que vou gostar.
Sorri.
— Boa noite. Preciso dormir.
— Boa noite, minha teimosa.
Apaguei a tela do celular ainda sorrindo.
O grande dia chegou.
Naquela sexta-feira, iríamos direto da empresa para a festa.
Passei a manhã tentando trabalhar normalmente, mas era impossível não perceber a movimentação. Todo mundo comentava sobre o evento.
Uns falavam da comida.
Outros, da banda.
Alguns estavam curiosos para conhecer o lugar escolhido pela empresa.
No horário do almoço, fui até o apartamento de uma amiga, que havia se oferecido para fazer minha maquiagem.
— Você vai me agradecer por confiar em mim. — ela disse enquanto separava os pincéis.
— Se eu sair parecendo uma blogueira, a culpa é sua.
Ela riu.
— Você fala como se isso fosse ruim.
Quando terminou, entregou um espelho nas minhas mãos.
Demorei alguns segundos para me reconhecer.
A maquiagem era delicada. Destacava meus olhos sem pesar. A pele parecia natural, e um batom em tom avermelhado combinava perfeitamente com o vestido.
— Gostou? — ela perguntou.
Balancei a cabeça devagar.
— Acho que nunca me vi assim.
Ela sorriu.
— Você sempre foi bonita. Só resolveu acreditar um pouquinho nisso hoje.
A frase ficou comigo.
Coloquei as lentes de contato para evitar os óculos, ajeitei a franja pela última vez e vesti o vestido vermelho.
Respirei fundo.
Era só uma festa.
Mas, por algum motivo, parecia muito mais.
Peguei a bolsa, conferi se estava com o convite, celular, documentos e a chave do carro.
Naquela semana, eu havia alugado um carro para ter mais autonomia. Não depender de aplicativos naquela noite me parecia uma boa ideia, principalmente porque imaginava que a festa terminaria tarde.
Quando cheguei ao local, entendi por que Ane estava tão empolgada.
A casa era enorme.
Um casarão cercado por jardins iluminados, árvores decoradas com pequenas luzes douradas e um caminho de pedras que levava até a entrada principal. Da parte de dentro vinha uma música suave, misturada ao som das conversas e das risadas.
Entreguei o convite na recepção e entrei.
Por alguns segundos, fiquei apenas observando.
Colegas de diferentes setores conversavam em pequenos grupos. Alguns estavam acompanhados dos maridos, esposas ou namorados. Outros já ocupavam a pista de dança, mesmo antes da banda começar.
— Beca!
Virei na direção da voz.
Era Ane.
Ela caminhou até mim com um sorriso enorme no rosto.
— Meu Deus...
Ela me olhou da cabeça aos pés.
— Você está maravilhosa!
Ri, envergonhada.
— Não exagera.
— Eu não estou exagerando!
Ela segurou meus braços.
— Você nunca vem assim.
— Assim como?
— Assim... confiante.
Olhei para ela sem saber o que responder.
Talvez ela tivesse razão.
Não era o vestido.
Nem a maquiagem.
Era a forma como eu estava ocupando aquele espaço.
Como se, pela primeira vez, eu não estivesse tentando passar despercebida.
Enquanto conversávamos, senti um olhar sobre mim.
Não precisei procurar muito.
Bernardo acabava de entrar no salão.
Vestia um terno azul-marinho impecavelmente alinhado, sem gravata, apenas com os primeiros botões da camisa abertos. Cumprimentava diretores e gerentes pelo caminho, mantendo a postura profissional de sempre.
Então seus olhos encontraram os meus.
Ele parou por um breve segundo.
Foi um instante.
Quase imperceptível para qualquer outra pessoa.
Mas eu vi.
Vi quando seu sorriso desapareceu por um momento, substituído por uma expressão de surpresa genuína.
Vi seus olhos percorrerem meu rosto, meu cabelo, o vestido vermelho.
Depois ele sorriu.
Não aquele sorriso educado que distribuía para todos.
Era diferente.
Mais discreto.
Mais verdadeiro.
Como se tivesse acabado de confirmar que a espera realmente tinha valido a pena.
Meu coração acelerou.
Ane percebeu para onde eu olhava e soltou uma risadinha.
— Eu conheço essa cara.
Olhei para ela.
— Que cara?
Ela aproximou o rosto do meu e cochichou:
— A cara de um homem completamente apaixonado.
Antes que eu pudesse responder, Bernardo voltou à postura de diretor da empresa. Continuou caminhando, cumprimentando todos ao redor, até parar diante do nosso grupo.
— Boa noite, meninas.
— Boa noite, Bernardo. — respondeu Ane, naturalmente.
Ele me olhou apenas pelo tempo suficiente para não levantar suspeitas.
Mas, ao estender a mão para me cumprimentar como fazia com todos os colaboradores, seus dedos tocaram os meus por um segundo a mais.
Um gesto tão pequeno que ninguém percebeu.
Apenas nós dois.
E, com um sorriso discreto, ele disse em um tom profissional, mas carregado de significado:
— Você estava certa.
Franzi a testa.
— Sobre o quê?
Ele sustentou meu olhar por um instante.
— Eu gostei da surpresa. Muito mais do que imaginei.
Meu rosto aqueceu imediatamente.
E, pela primeira vez desde que aquela noite começou, tive certeza de que escolher o vestido vermelho tinha sido a decisão certa.
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